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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

50 русских текстов. Книга для чтения на русском языке для иностранцев/ 50 Textos russos. Livro para leitura na língua russa para estrangeiros




Autor: Gubieva I.G. e Yatselenko V.A
Editora: Russki Yazik Kurssy
Ano: 2008
Formato: PDF
Tamanho: 6,33 Mb
Idioma: Russo

Neste livro estão reunidos autores de textos de diferentes gêneros:: artísticos, biográficos, históricos, ciências populares, contos, generalidades. É um livro acessível, interessante e informativo e é destinado a todos que estudam russo. Ele pode ser usado tanto por estudantes na Rússia ou no exterior, por auto didatas ou como material adicional utilizado por professores em sala de aula.

Para baixar o livro, copie e cole o link a seguir na barra de seu navegador. Qualquer problema com o mesmo, favor entrar em contato.

https://drive.google.com/file/d/0B8krslgEdCrNdnk1Y3RraTdjMzg/view?usp=sharing

 

Fonte: http://eknigi.org/ na seção de Ciências Humanas (Gumanitarni Nauki/Гуманитарные Науки)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Uma Relíquia: Cartilha adotada na URSS em 1962



A presente cartilha, adotada na União soviética em 1962,  trás novas gravuras, em relação à utilizada anteriormente, e os retratos de Nikita Khrushchov e de Yuri Gagarin. Como antes, predomina a temática rural. Nesta cartilha virtual que ora disponibilizamos faltam as páginas 81 e 82. 

sábado, 5 de setembro de 2015

UMA CARTA DE GORKI A TCHEKHOV


acima: Gorki e Tchekhov em 1900, nos jardins
da dacha de Tchekhov, em Yalta

 
A carta aqui transcrita foi extraída do livro "Carta e Literatura - Correspondência entre Tchékhov e Górki". Lançado pela Edusp, vale a pena ser lido do começo ao fim.
Estes dois titãs da literatura russa se conheceram pouco antes de morte de Tchékhov, aos 40 anos. Entre eles nasceu uma amizade e uma relação 'mestre/discípulo': Gorki, apesar de mais velho, estava no início de sua carreira. Passaram a se corresponder com freqüência , passando a existir entre ambos verdadeira troca intelectual. E é um pouco desta troca que deixo para vocês hoje. Trata-se de uma carta de Gorki a Tchekhov, na qual ele expõe suas impressões sobre Lev Tolstoi, após te-lo ido conhecer nos arredores de Moscou. Apaixonada que sou pelo velho conde, amei esta carta, em especial e da definição que o escritor do "realismo soviético" dá a gênio: Lev Tolstoi!


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Caderno de Literatura e Cultura Russa: PDF

'O Curso de Russo do Departamento de Letras Orientais da FFLCH-USP inicia a publicação de seu 'Caderno de Literatura e Cultura Russa', revista bienal destinada a estudiosos, pesquisadores e ao público interessados em assuntos russos. Trata-se de páginas de apresentação, análise e discussão de temáticas referentes às áreas de literatura, artes, filosofia e ciências humanas em geral, cujos autores são especialistas, alguns já consagrados, que vêm-se dedicando incansavelmente à divulgação e à pesquisa desses assuntos entre nós'." (Editorial do livro)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O LIVRO DO DIA: NOVA ANTOLOGIA DO CONTO RUSSO (1792/1998


Maravilha de lançamento do final de 2011 da Editora 34: Nova Antologia do Conto Russo. O livro engloba a produção feita no período de 1792 a 1998. São 40 autores, muitos deles pouco ou nada conhecidos no Brasil. O organizador da obra é Bruno Barreto Gomide, professor da USP. Todos os contos foram traduzidos diretamente do russo, como já é prática desta excelente editora. O "time" de tradutores é de primeira: só para citar alguns, tem-se a Arlete Cavalieri, Aurora Bernardini e Boris Schnaiderman. Os amantes da literatura russa sabem o peso destes nomes.
São 40 obras, em sua maior parte inéditas por aqui, apresentando o rico panorama da literatura russa ao longo da história, que provam que 
"na arte do conto, tanto em número como em qualidade - e abarcando uma diversidade de tons e temas -, os russos são igualmente magistrais".
São os seguintes autores desta antologia:


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A MÚSICA DE UMA VIDA - ANDREI MAKINE

Este livro é considerado "romance francês" de autor russo apenas pelo fato de ter sido, originalmente, escrito em francês. Mas nele o leitor não reconhecerá nada da França, nem influências, nem ambiente, enfim, o romance exala a Rússia por todos os poros, sob a visão de alguém que preteriu seu país...
O livro é um lamento profundo sobre a situação da União Soviética de Stalin, em todos os seus aspectos. Adorei a narrativa, as imagens literárias utilizadas pelo autor, mas discordo do que ele chama, pejorativamente, de "homo sovieticus", expressão que, segundo Makine,

"abarca aquela estagnação humana, até o seu mais ínfimo suspiro". 
Concordo com as críticas que ele possa fazer a nível de regime, de stalinismo, em termos de desrespeito de direitos humanos, do terror implantado na década de 30, mas jamais de estagnação do povo soviético. Conheço muitos soviéticos que, com orgulho para mim, fazem parte do meu rol de grandes amigos: todos me encantam com sua cultura, seu conhecimento, seu discernimento e sua bondade. Se houve uma coisa que o regime ofereceu ao povo soviético foi educação da melhor qualidade. Assim sendo, senti que a expressão "homo sovieticus" soou preconceituosa e inverdadeira.Claro que tem pessoas, como em todos os lugares, que são estagnadas e possuem defeitos mil, mas se não cabe, da minha parte, generalizar que "todo o povo soviético era bom", tão pouco cabe a todos a citada expressão...
Desabafo feito, passamos à sinopse do livro: trata-se da 
"história de Aleksei Berg, um jovem e promissor pianista na União Soviética de Stalin, que se torna um inimigo da pátria simplesmente porque amigos da sua família caíram em desgraça. Incapaz de driblar a polícia política, Berg foge às vésperas de seu primeiro concerto e assume a identidade de um soldado morto em batalha, para combater, ao lado do exército russo, a invasão alemã durante a segunda guerra mundial.Narradas pelo próprio personagem, ex- perseguido, ex-pianista, ex-soldado, ex-herói, por fim, ex-preso, as vidas de Berg irrompem em etapas, como melodias que primeiro se apresentam e depois reaparecem, em variações cada vez mais complexas(...). Ao voltar a Moscou, entretanto, não consegue voltar à sua juventude promissora, e na verdade não retorna à nada: conforma-se em chegar à cidade da vida que poderia ter sido sua, mas que não foi.É nessa cidade que reaparece o amor pela música, que o ajudou a atravessar tantas vidas".
Makine saiu da Rússia aos 29 anos,se radicando em Paris. Passou a ser um "émigré" já no final do regime, em 1987, adotando a França e sendo por ela adotado (em russo, seu nome é Makin e não Makine), deixando seu idioma, sua pátria e sua cidade natal, a linda  Krasnoyarsk, para trás...Não descende de franceses, conforme, muitas vezes, publicam. Em entrevista, ele mesmo afirmou ter aprendido francês com um amigo.Também publica sob o nome de Gabriel Osmonde. Jogada de marketing? A solução do mistério "quem é Osmonde" durou 10 anos, só tendo sido descoberto que era Makin em 2011.

Editora: Cia das Letras
Nº de páginas: 90
Preço: em torno de R$ 35,00

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

RELENDO A MORTE DE IVAN ILITCH

 A morte de Ivan Ilitch, ilustração de Ilyá Repin

A Morte de Ivan Ilitch foi uma das novelas mais fantásticas escritas por Lev Nikolaevitch Tolstoi. Digo mesmo - magistral - sem medo de estar exagerando. Já li e reli este livro várias vezes e a cada releitura me encanto com a minúcia de Tolstoi  aao relatar a psicologia e o sofrimento de um moribundo face a indiferença e o egoísmo dos que o cercam. Nesta hora, as pessoas próximas ao doente, muitas vezes, se  mostram como realmente são, em toda a sua mesquinhez.Assim foi no caso de  Ivan Ilitch, doente de um câncer progressivo e avassalador, ao que tudo indica,que se  sente um estorvo para os seus, que têm que cuidar dele e fazem isto apenas por obrigação. A novela apresenta cenas de "hipocrisia explícita'.Deixam Ivan sozinho a maior parte do tempo.  A gente chega quase a 'enxergar' tal solidão, de tão bem descrita que é. E, outra tirada genial do velho conde, são as reflexões que o moribundo faz, questionando-se o porque, logo ele, magistrado de sucesso, teria que morrer.Pergunta que, quase sempre, quem está a beira da morte e sabe disto se faz...Ele acredita que sua vida fora sempre exemplar, já que sempre fizera tudo o que a sociedade esperava dele: se casara, tivera filhos, agia exemplarmente tanto na vida familiar, quanto na profissional. No seu sofrimento moral diante da morte lhe ocorre, finalmente, que talvez toda a sua vida, à exceção de sua infância, tenha sido uma mentira. Ele se via nas outras pessoas, que revelavam uma piedade  hipócrita em relação à sua doença: sua mulher, sua filha, seus amigos.
Tolstoi retrata, em Ivan Ilitch, com detalhes espantosos, as fantasias da mente de um moribundo, no mais preciso retrato psicológico de pacientes terminais que já li. 
Nesta obra, Lev Nikolaevitch calçou o personagem central com suas idéias morais, ou seja, o mal é o egoísmo,a ganância, a ambição, mas sem preocupações moralizadoras.
O francês Guy de Maupassant afirmou que 
"comparada à esta novela de Tolstoi, sua obra de dez volumes não vale nada".(introdução de "El prisionero del Caucaso",Ed.Alfredo Ortels, Espanha).

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O MENINO MENDIGO - DOSTOIEVSKI: NOVO CONVITE À REFLEXÃO

 Quanto mais leio Dostoievski, mais me surpreendo com sua gritante atualidade. Os problemas da São Petersburgo de sua época, são muitas vezes semelhantes aos problemas do Brasil atual e de muitos outros países emergentes. Isto só me convence, mais e mais, que a humanidade desenvolve novas tecnologias, apresenta notáveis avanços,mas tudo sempre para ser usufruído, principalmente, pelas classes dominantes. No essencial, no que concerne aos pobres e desvalidos apresenta pequenos ganhos, vez ou outra, aqui ou ali, mas, no geral,   não muda muita coisa, continuamos  estagnados e vai continuar assim enquanto não houver uma mudança sistêmica de porte, rumo ao Socialismo. E ninguém vai me convencer de que o socialismo é inviável, usando o discurso equivocado de que "não deu certo na URSS, nos países do Leste" ou coisas do tipo, por que o Socialismo, até hoje, ainda não existiu, de fato. Lendo o texto abaixo, você tem a impressão de que se trata do Brasil, onde existem crianças sendo exploradas não só pelos pais, mas pelos já famosos "pais de aluguel". Esta situação sempre preocupou muito Dostoievski que, em seu Diário de Um escritor, de onde foi extraído este texto, deixou outros com o mesmo teor de preocupação. Agora, leia você mesmo e me diga: não parece a própria história de nossos menores de rua?
 "Este ano, quando o Natal estava próximo, passava muitas vezes na rua diante de um menino talvez de uns sete anos de idade, que eu via sempre acocorado no mesmo canto. Ainda o encontrei mais uma vez na véspera da festa. Debaixo de um frio terrível estava vestido como se fosse verão,trazendo, à guiza de xale, um pedaço de pano velho enrolado  em roda do colo. Pedia esmolas, apresentava a mão, conforme costumam fazer os pequenos mendigos de São Petersburgo. São muitos os pobres meninos enviados dessa maneira a implorar a caridade dos transeuntes, a gemer  algum estribilho que aprendem de cor. Aquele, porém, não gemia: falava ingenuamente, como qualquer novato na profissão. O olhar dele tinha um quê de franco, o que me confirmou  na convicção de tratar-se de principiante. Às perguntas que lhe fiz respondeu que tinha uma irmã doente, que não podia trabalhar; pareceu-me verdadeiro o que dizia. Além disso, somente mais tarde fiquei sabendo do número enorme de crianças que mandam mendigar daquela maneira, quando o frio é mais rigoroso. Se nada arranjarem poderão ter a certeza de serem espancados ao voltar para casa. Quando conseguir juntar alguns copeques, o pirralho dirige-se, com as mão roxas e intumescidas, para o buraco em que um bando de vendedores de roupas usadas e de operários folgados, que deixaram a fábrica no sábado para aparecer somente na terça feira seguinte, fartam-se a comer e beber conscientemente. Nesses buracos  as mulheres magras e surradas bebem álcool em companhia dos maridos, enquanto choramingam á porfia, as criaturinhas ainda de peito. Aguardente, miséria, sujeira, corrupção e, antes de tudo e sobretudo, aguardente!
Apenas chegado, manda-se o menino à venda com o dinheiro mendigado, e quando chega com oálcool, divertem-se com ele fazendo-o beber uma dose que lhe corta a respiração e, subindo-lhe à cabeça, o faz rolar pelo chão, para grande gáudio de todos os presentes.
Quando o menino atinge catorze ou quinze anos, colocam-no logo em uma fábrica, com a obrigação de entregar à família  tudo quanto ganha, gastando-o os pais em aguardente. Antes, porém, de atingirem a idade em que possam trabalhar. esses meninos se transformam em estranhos vagabundos. Andam à solta pela cidade, acabando por descobrir onde possam meter-se para passar a noite sem terem que voltar para casa. Um desses rapazolas dormiu durante algum tempo em casa de um empregado subalterno da Corte: tinha feito a cama em uma cesta , sem que o dono da casa percebesse. É claro que não demoram muito para começar a roubar. E, muitas vezes, o roubo chega a converter-se em paixão, em pequenos de oito anos que dificilmente se julgam culpados por terem os dedos demasiadamente ágeis.
Cansados dos maus-tratos dos que os exploram, fogem e não voltam mais aos buracos em que os maltratavam; preferem sofrer fome e frio e ter a liberdade de vagabundar por conta própria.
Freqüentemente esses pequenos selvagens não sabem nada de nada; ignoram a que nação pertencem, não sabem onde vivem e jamais ouviram falar de Deus ou do Imperador. Muitas vezes sabe-se a respeito deles o que há de mais inverossímil, mas que, entretanto, é verdade.
Fonte: Diário de Um Escritor

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

SINOPSE DO DIA: ASSIM FOI TEMPERADO O AÇO(NIKOLAI OSTROVSKI)

Ostrovski foi um romancista russo nascido em 1904 e falecido em 1936. Ficou conhecido por "A construção de um herói", lançado no ano de sua morte.Este foi considerado o primeiro volume(inacabado) de "Nascido da Tempestade"(1936). Teve seus trabalhos publicados no período stalinista e é considerado um dos maiores representantes da prosa do chamado "realismo socialista".


 "Assim foi temperado o aço" é um romance autobiográfico que começou a ser publicado, na Rússia, em abril de 32 na revista "Jovem Guarda".
Em novembro do mesmo ano saiu em forma de livro, em duas partes. Em pouco tempo o romance conseguiu grande popularidade, com uma tiragem de mais de 36,4 milhões de cópias.
Em linhas gerais pode-se resumi-lo dizendo que ele é a narrativa do de um jovem revolucionário -Pável (Pavliuk), persistente na defesa das conquistas do governo soviético durante a Guerra Civil. As dificuldades e tensões de sua vida  simbolizam a história da classe operária russa, servindo de propaganda da máxima de que "os comunistas possuem uma vontade inquebrantável".
O cenário da obra é a Rússia de 1917, as mobilizações, a greve geral e a vitória bolchevique.
Posterior à vitória, vem a Rússia do "comunismo de guerra" : uma verdadeira luta pela sobrevivência do novo regime, o que faz surgir a NEP. Em seguida, vêm os longos debates dos comunistas a respeito dos caminhos para a construção do socialismo.Dez anos depois, o país se transforma numa grande potência industrial, capaz de derrotar os nazistas na II Grande Guerra. Neste contexto social, o trabalho de educação política ganha novas dimensões, lançando-se mão de todos os recursos disponíveis para a formação dos 'novos homens'. soviéticos. Artes gráficas, TV, rádio, cinema, escola, literatura, tudo a serviço desta missão de incutir os novos valores da nova ordem: surge o realismo socialista, do qual já falamos em mais de um post neste blog.Este livro é uma das manifestações mais conhecidas desse processo, tanto dentro da URSS, como no exterior.

Assim como seu personagem principal, Ostrovski também lutou pela causa: escreveu seu livro - uma obra colocada a serviço da causa soviética -apesar de uma séria doença que lhe impedia os movimentos e causava cegueira. 
Em seu país foi cercado de grande devoção e popularidade.
 Trotski que em seu livro "Literatura e Revolução" faz uma crítica feroz contra muitos escritores russos, não perdoando, as vezes, nem os soviéticos (chegou a chamar Gorki de "cantor de salmos") faz uma defesa apaixonada de Ostrovski, em resposta a um certo crítico literário da época que disse que o  tema de rapto, através da comédia grega, chegou a Ostrovski. Trotski rebate:
"Sim, os temas emigram de povo para povo, de classe para classe, de autor para autor. Isso significa, simplesmente, que a imaginação humana é parcimoniosa. Uma nova classe não recomeça a criar toda a cultura desde o início, mas se apossa do passado, escolhe-o, retoca-o, o recompõe  e continua a construir daí. Sem o uso do guarda - roupa de segunda mão do passado não haveria progresso no processo histórico. Se o tema do drama de Ostrovski veio do Egito através da Grécia, também o papel no qual ele escreve veio do papiro egípcio, passando pelo pergaminho grego".
E por aí vai, passando à criticar os próprios métodos  do referido crítico. Não significa, no entanto, que só porque Trotski gostava do autor(ou do livro) que você vá gostar. Para saber, leia o livro, publicado pela Ed.Expressão Popular. Com 473 páginas. Seu preço é módico: apenas R$ 18,00.
Espero que gostem do aço, temperado com a luta contra a espoliação! Ou pelo menos este era o ideal dos que lutaram...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

LITERATURA E REVOLUÇÃO: TROTSKI

Muitos hão de estranhar o fato de um dos maiores revolucionários do século passado ter escrito um livro sobre literatura, apesar de estar  abordando o assunto sob a ótica revolucionária. Mas Trotski entendia profundamente do tema e escreveu o livro logo após a Guerra Civil russa (1918/21), entre os anos de 1922 e 1923, em um momento de 'férias'...Além de entender, ele valorizava a arte a tal ponto, que deixou registrado no livro o seguinte trecho:
"..a solução dos problemas elementares - alimentação, vestuário, habitação e educação básica - de forma alguma significaria a vitória total do novo princípio histórico, isto é, do socialismo. Só o progresso  do pensamento científico em escala nacional e o desenvolvimento de uma nova arte mostrariam que a semente histórica não só germinou, mas também floresceu. Nesse sentido, o desenvolvimento  da arte é a maior prova da vitalidade e importância de cada época".
Editado no Brasil pela Zahar Editores, com tradução de Moniz Bandeira, o livro tem  250 páginas, nas quais Trotski revela seus conhecimentos literários, analisando a produção artística de sua época  e, neste aspecto revela, também, suas divergências com os rumos tomados pela Revolução sob a direção de Stalin: um dos pontos básicos é ir contra a idéia de que o Partido-Estado deveria orientar formas e conteúdos da produção artística. Ele refuta a noção de uma "cultura proletária(prolekult), tão defendida por Stalin.Acreditava que o movimento "prolekult" se baseava  em mal-entendidos e ilusões, mas defendia seu direito de existir.Esta oposição é coerente com sua idéia de "fim das classes": a ditadura do proletariado seria algo necessário apenas enquanto o proletariado precisasse se defender e isto deveria ser por um período breve: 
"Contrariamente ao regime dos possuidores de escravos, de senhores feudais e de burgueses, o proletariado considera sua ditadura como um breve período de transição... Mas o proletariado irá se dissolver na sociedade socialista, se libertar de suas características de classe, isto é, deixará de ser proletariado...O proletariado tomou o poder  precisamente para acabar  com a cultura de classe e abrir caminho para uma cultura da humanidade. Ao que parece, esquecemos isto frequentemente".
Utópico ou não, certo é que isto deixa clara sua posição a respeito do assunto "arte proletária".

O livro mostra, em páginas subseqüentes, a contradição deste pensamento de Trotski, expressado num momento em que o Estado socialista ainda era incipiente, mas foi a partir desta opinião que  ele construiu sua tese em defesa da maior liberdade possível para a produção e recepção literárias.
"O proletariado,durante o período de sua ditadura,  deve marcar a cultura com o seu selo(...)Isto não significa o desejo de dominar a arte por meio de decretos e prescrições. É falso que só consideramos nova e revolucionária a arte que fala do operário. Não passa de absurdo dizer que exigimos dos poetas apenas obras sobre chaminés ou sobre uma insurreição contra o capital. O lirismo tem incontestavelmente o direito de existir na nova arte, por menor que seja sua esfera de ação. Ninguém imporá, nem se atreverá a impor aos poetas uma temática. Escrevam, então, tudo o que lhes vier a cabeça!".
Ele argumentava, ainda, que o Prollekult reduzia todo o valor estético ao mais rudimentar conteúdo político e social. e que esta postura era condescendente com os novos escritores de classe operária, privando-os do conhecimento cultural e da prática de que precisam para desenvolver uma nova arte.
Ele sabia do atraso cultural dos operários e camponeses, por séculos de dominação tzarista e da defasagem entre eles e a intelectualidade literária então existente, por isso desejava que aqueles que pregavam com muita ênfase uma 'arte proletária' não fingissem que tudo o que eles escreviam era obra de arte. Eles deviam ser capacitados através do estudo e cultivar seus próprios padrões de julgamento. Deviam estudar tudo o que a boa literatura russa havia produzido, bem como tudo o que foi produzido pela literatura internacional:
"Seria pueril pensar que as belas artes burguesas  possam abrir brechas na solidariedade de classes. O que Shakespeare, Goethe, Puchkin e Dostoievski  darão ao operário será, antes de tudo, a imagem mais complexa da personalidade, de suas paixões e sentimentos. O operário, afinal, se enriquecerá".
 Mais adiante, ele afirma que
"não existe, ainda, arte revolucionária. Há elementos dessa arte, sinais, tentativas de realiza-la."
Quanto  à arte socialista, aí então é que não existia mesmo: ainda lhe faltavam, segundo Trotski, as bases necessárias(isto entre 1922 e 1923).
Pouco mais de um ano após a publicação deste livro, Trotski foi forçado por Stalin e seus seguidores a se demitir  do cargo de chefe do Exército Vermelho. Três anos depois, foi expulso do Partido Comunista, partindo para o exílio, onde foi assassinado.

O leitor vai encontrar no livro, ainda, comentários e, por vezes, análises pormenorizadas sobre vários escritores russos. Critica outros tantos, como Andrei Biely, que particularmente adoro: acusa Biely, o autor do fantástico "Petersburgo"por seu simbolismo, misticismo e, principalmente, por ser um anti-revolucionário, dando como prova disto o pseudônimo por ele escolhido - Biely(em russo significa branco) e diz que a Rússia pós revolução está muito afastada da Rússia de Biely, de Iasnaia Poliana(terras de Tolstoi), dos latifundiários e dos burocratas.
No final do livro, você encontra uma cronologia da vida do autor e um glossário, no qual existem pequenos resumos biográficos de muitos autores, políticos, filósofos, pensadores, etc. Trás, finalmente, sugestões de leitura, além de três brilhantes ensaios de Trostsky sobre Mayakovski, Iessênin e Lunatchárski.

Excelente, valendo ela em si por um livro, é a apresentação feita por William Keach.O preço do livro também não é dos mais caros:R$ 42,00.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

LIVRO DO DIA: O MESTRE E A MARGARIDA(MIKHAIL BULGÁKOV)

Livro excelente de autoria do notável Mikhail Bulgákov, tão notável como seus conterrâneos clássicos do império russo e da URSS . Digo isto porque Bulgákov não era russo, mas sua obra é considerada russa por ter sido escrita neste idioma. Além disto, sendo natural de Kiev, capital da Ucrânia, viveu sob o mesmo império russo que tantos gênios deu para a literatura universal e sob a mesma URSS, que produziu mais uma série de incríveis escritores e que forneceu material psicológico para a elaboração de "O Mestre e a Margarida", obra que levou Bulgákov a um medo imenso das conseqüências de sua publicação durante a era Stalin, fazendo com que a escrevesse em segredo. O pavor era tanto que ele chegou a queimar uma primeira versão. Este clima de pavor é levado para a nova versão desta obra revolucionária, vindo, talvez, daí, sua extraordinária força. Ao todo, levou cerca de dez anos para terminar este livro. Sua mulher fez a revisão. Apenas seu círculo mais íntimo de amizades sabia da existência deste romance, oúltimo e mais definitivotrabalho do autor, escrito entre os anos de 1928 e 1940, quando morreu. Era o auge do Stalinismo, auge do grande terror (de 1936 a 1940).

Trata-se de uma obra autobiográfica e nela figuram sua terceira mulher, Elena Bulgákova,que serviu de modelo para Margarida. O mestre é um alterego do autor: trata-se de um escritor impiedosamente maltratado pela censura. E assim como seu alterego, Bulgákov também foi impiedosamente maltratado por uma censura que massacrava tudo que não se enquadrasse no realismo socialista. E este livro não de enquadrava, definitivamente. O mestre, que estava a escrever um livro sobre Pôncio Pilatos, também queima boa parte de seus manuscritos.

Por meio do livro do 'Mestre", Bulgákov sugere um paralelo entre a Jerusalém que cruxificava cristãos, com a Moscou dos expurgos, que em 1929 é visitada pelo diabo, que usa o nome de Woland, historiador, especialista em magia negra.

Satanás não vem sozinho, mas em comitiva, da qual participam uma feiticeira nua, um homem de roupas apertadas e monóculo rachado e um gato espantosamente desproporcional, que anda s obre duas patas e adora vodka, entre outros "assessores".

Numa tarde de primavera, Satanás e sua comitiva decidem visitar a cidade e encontram poetas, editores, burocratas, gente de toda espécie tentando levar a vida no comunismo. Mas depois de tal diabólica visita, nada será mais como antes: um rastro de destruição e loucura mudará o destino de todos que o cruzarem.
"O que aconteceu em Moscou, depois daquela noite de sábado, quando Woland e o seu séquito deixaram a capital ao por-do-sol, desaparecendo dos Montes Vorobiov?
Nem é preciso dizer que durante muito tempo toda a capital permaneceu cheia do zumbido pesado dos boatos mais inverossímeis, que logo se alastraram também para os locais mais remotos e obscuros do interior. Seria repugnante repetir esses boatos".(trecho extraído do livro)
As aventuras do diabo e seu grupo estão narradas na primeira parte do romance. A segunda parte é dedicada aos personagens título, ou seja, o mestre e a margarida. Margarida é a amante do mestre, o escritor, que lhe dá a maior força para publicar um romance que desagrada ao regime, por mostrar figuras religiosas como figuras históricas. Há, então, o entrelace do diabo com as personagens principais: Margarida a ele se alia. Nesta parte,epassagens inesquecíveis e da maior criatividade; entre elas, uma em que Margarida sobrevoa Moscou mais ou menos como "Baba Yaga"(ver a respeito neste blog).

O livro tem aspectos cômicos, tem muito de fantástico, mas vai muito além disto:através do romance do Mestre, Bulgákov faz uma reflexão sobre o bem e o mal e sobre a bondade; tudo através dos personagens do Mestre, ou seja: Jesus e o diabo, que teve como protótipo do Mefístoles, de Fausto:
"-...mas, quem é você, afinal? - Sou a parte da força que quer sempre o mal, mas sempre faz o bem"
Não vou escrever aqui, os dados biográficos do autor, já que se encontram disponíveis por toda a rede. Ao invés disto, julgo preferível deixar registrada duas das muitas cartas que Bulgákov dirigiu a Stalin, por julgá-la de maior interesse.
"Após uma análise de meus recortes de jornais, achei na imprensa da União Soviética, nos dez anos de meu trabalho literário, 301 citações a meu respeito.
Delas, 3 são elogiosas; 298 são hostis e ofensivas."
"... Com esses documentos na mão, eu gostaria de demonstrar que a imprensa soviética, com seus diversos órgãos públicos que se encarregam do controle das publicações, nesses anos do meu trabalho literário tentam, unânime e ferozmente,comprovar que a obra de Mikhail Bulgákov não pode existir neste país.
Eu declaro que a imprensa da União Soviética tem toda a razão".
(28/03/1930)
Editora: Arts Poética
Nº. Páginas: 437
R$ 35,91

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O LIVRO DO DIA: "NÓS" , DE ZAMIATIN - O PRECURSOR DE "1984"E DO "ADMIRÁVEL MUNDO NOVO"

"Nós", do russo Zamiatin, é daquelas obras que você começa a ler e não sente vontade de largar. Só existe no Brasil na publicação da editora "Antígona", de Portugal, a partir da versão em ingllês - "We". Este é mais um descaso do mercado editorial brasileiro para com a literatura russa... A publicação a partir do inglês não é ruim, está mesmo boa, mas deixa um pouco a desejar se compararmos com uma edição direta do russo. Eu li o original -My - e, sem dúvida, supera a versão portuguesa.
Faço, antes de mais nada, uma ressalva: estou traduzindo o nome do autor para Zamiatin e não Zamiatine, como acontece na edição de Portugal. Normalmente, os portugueses traduzem nomes terminados em n com um e no final (tipo, por exemplo, Lenine e não Lenin). Isto posto, vamos ao romance de Zamiatin e conhecer um pouco este autor.

Antigo membro do partido Bolchevique e fiel autor aos ideais da revlução russa, respeitado por sua independência e integridade. Como diz Solomon Volkov, em seu 'S.Petersburgo, uma viagem cultural',

"Zamiatin era "rabugento contido, jamais teve um gesto sequer semelhante a servilismo(...) Dizia-se que ele polia seu texto como se fosse marfin, esmerando-se em cada palavra".
Em 1921, o jornal de Petrogrado(S.Petersburgo) "Dom Iskusstv" (Casa das Artes) imprimiu um artigo deste autor, intitulado "Tenho Medo", que causou grande celeuma por denunciar abertamente o regime soviético por estar sufocando a literatura russa ao encorajar o servilismo e forçando escritores honestos ao silêncio:
"A verdadeira literatura não pode fluir da pena de obedientes e rotineiros burocratas, mas terá que ser produzida por loucos, eremitas, heréticos, sonhadores, rebeldes e céticos".
Imaginem só o 'rebu' que ele não causou com tais palavras! E, dentro do 'espírito' deste seu protesto, escreveu sua obra mais famosa, Nós, concluída em Petrogrado no mesmo ano de 1921.

Trata-se de uma precursora de "Admirável Mundo Novo" (1930), de A.Huxley e, principalmente, de "1984", de Orwell (1948). O leitor do blog já pode imaginar que esta obra foi proibida na URSS, tendo que ser publicada a partir dos EUA, em 1924. A primeira edição em russo também saiu nos EUA, em 1952. A crítica soviética caiu em cima dele, sendo-lhe completamente hostil. Por causa desta hostilidade, Zamiatin escreve, em 1929, uma carta às autoridades:
"Desde 1921 tenho sido o alvo principal da crítica soviética. Meu livro converteu-se num repositório de impropérios, a começar de inimigo de classe, kulak, burguês, duas vezes reacionário, até bisonho e espião".
Foi preso em 1922 e confinado em solitária, na mesma ala onde estivera preso antes da revolução por sua filiação aos bolcheviques...Foi posto em liberdade, mas só saiu do país anos depois, em 1931. Morreu em Paris em 1937.
Por todo este problema com a censura soviética, permaneceu quase desconhecido para os leitores da URSS até os anos 80, quando "Nós" foi publicado na Rússia. onde passou a ser considerado, com toda a justiça, um dos grandes mestres da literatura.

Em sendo uma precursora de 1984 e Admirável Mundo Novo, nem preciso dizer que se trata de uma fantástica distopia, baseada no controle do pensamento de na repressão a toda e qualquer dissidência para garantir a supremacia do totalitarismo, na obra representado pelo "Estado Único". A igualdade entre as pessoas é levada ao extremo, uniformizando-as a tal ponto de se eliminar a individualidade, abolindo-se o indivíduo. O que permite este feito é a matematização do real. As tábuas dos mandamentos horários sincronizam atividades produtivas, as relações sexuais na transparência absoluta das casas, todas de vidro. O que seria "o Grande Irmão" de Orwell, para Zamiatin era "O Benfeitor". A criação literária também foi reformada, abolindo-se a barbárie dos tempos em que cada um escrevia tudo o que lhe passava pela cabeça, passando a ser posta a serviço do Benfeitor, que diz:
"Os nossos poetas já não vivem no empíreo. A lira deles é a fricção matutina da escova de dentes elétrica".
Aqueles a quem os sonhos afligem, como acontece com o narrador da história, D-503, serão submetidos à uma fantasioctomia, que há de lhes devolver a felicidade vítrea da primeira pessoa do plural. Extirpam-se, assim, as doenças da alma para aumentar a plenitude artificial e automática do simulacro.

D-503? O que é isso?, há de perguntar algum leitor. É que no Estado matematicamente perfeito as pessoas já não possuem nomes, possuem números...Você não computa os habitantes locais pela quantidade de pessoas, mas de números. E D-503 não é um número qualquer. Ele é um engenheiro, responsável pela construção do "Integra", nave que levará o Estado Único a colonizar seres de outros planetas ainda sujeitos à "selvagem condição de liberdade". O romance é ambientado no terceiro milênio.

Seu estilo é pleno de originalidade, assim como super original é a linguagem matemática adotada por Zamiatin.

Seu tema central se desenvolve em torno do debate entre felicidade-liberdade, mas note: nada tem a ver com o stalinismo, que ainda não existia quando o livro foi escrito.

Posso encerrar este post afirmando que se o totalitarismo que por alguns anos dirigiu a Rússia surge como o fato mais importante do século XX, o livro de Zamiatin é a mais importante obra sobre estes tempos, mesmo que tenha sido escrita antes que o autor o vivesse.

Meu conselho: comprem depressa o livro, antes que vire artigo de sebos! Você, certamente, não irá se arrepender, já que é bem melhor e mais original do que as distopias nele baseadas.






































Evguenyi Zamiatin nasceu em Lebedian, distrito de Tambov, no dia 01 de fevereiro de 1884. Foi amigo de Gorki e de Nbakov. Link

sábado, 13 de agosto de 2011

REFLETINDO COM DOSTOIEVSKI

No seu "Diário de um escritor" Dostoievski inseriu um texto digno de nota - aliás, como tudo o que escreve - que me chamou a atenção pela sua surpreendente atualidade. Trata-se do cuidado que se deve ter com a infância e a adolescência, coisa que se faz mais urgente nos dias de hoje e, principalmente, em nosso país,onde vemos tanto descaso e tantos absurdos acontecendo, envolvendo menores que são utilizados pelo tráfico de drogas, menores que pegam em armas e muito mais. Tudo isto porque tem criança fora da escola, jogada nas ruas: "A rua é escola em que se aprende muito depressa!", já dizia o mestre russo em 1876, alegando que as crianças daquele tempo necessitavam mais atenção do que as de sua infância "por estarem expostas a perigos maiores". Imaginem, então, as crianças do século XXI, bombardeadas por todos os tipos de influências - boas ou más - geradas pelas modernas tecnologias, pela televisão e, nos países onde a educação não é meta prioritária, pelas malignas influências da rua, que atingem os pequeninos lançados à própria sorte, fazendo malabarismos em sinais, se expondo ao perigo dos cruzamentos e dos bandidos que se aproveitam da impunidade infantil para inicia-los na vida criminosa.

O texto é um convite a pais e educadores a ponderarem quanto à necessidade de um efetivo acompanhamento das crianças e adolescentes, de uma maior vigilância quanto às suas companhias e aos conteúdos que lhe são repassados, coisa, infelizmente, difícil,mas necessária.

Leiam o texto e reflitam: se lembrem dele na hora de votar, não desperdiçando votos com candidatos não comprometidos com a educação, que negam o mísero piso salarial aos professores, como o caso do "desgoverno" de Minas, meu estado. Enquanto existir criança fora da escola, jogada nas ruas (crime dos crimes!) não podemos pensar em um país sem violência. Se lembrem deste texto, também, na educação de seus filhos. Verifiquem os sites pelos quais andam a navegar; sejam presentes sempre!

(o texto a seguir foi extraído do livro "Diário de Um Escritor", editado pela Ediouro)


Cracolândia:foto extraída do Estadão
"Quero contar o que segue para não esquecer:
Uma senhora vivia com a filha de doze anos de idade, em um arrebalde de S.Petersburgo, afastado do centro. A família não era rica, mas a senhora trabalha para viver e a filha freqüenta uma escola na cidade. Vai à escola e volta de ônibus de Gostinoi Dvor até perto de casa.

Já haviam passado dois meses quando o inverno chegou repentinamente e a mãe percebeu que a filha Sacha não estudava as lições. Advertiu-a.

-Mamãe, não se preocupe! respondeu a menina. Estou perfeitamente preparada: estou, pelo menos, adiantada uma semana.
-Se assim é, está bem.

No dia seguinte Sacha foi à escola; mas ao anoitecer, o chofer do ônibus trouxe uma cartinha nos seguintes termos:
'Minha querida mãezinha: comportei-me mal durante toda a semana. Tive três zeros nas lições; enganei-te até agora. Tenho vergonha de voltar para casa e não me verás mais. Perdoa-me, querida mãezinha, perdoa-me.Tua Sacha.'
Pode imaginar-se a horrível inquietação da mãe. Quis abandonar o trabalho para correr em busca da filha. Mas onde? Como? Uma pessoa amiga ofereceu-se para dar todos os passos necessários e foi tomar informações na escola, em casa de todos os conhecidos, andando de um lado para o outro a noite inteira. O receio de que Sacha, arrependida, voltasse para a casa e fosse de novo embora se não encontrasse a mãe, fez com que esta ficasse em casa, confiando no zelo do bondoso amigo. Se não aparecesse até o amanhecer, iriam dar parte à polícia. Sozinha dentro de casa, é fácil de imaginar que horas aflitas passou.

E a mãe conta que por volta das dez da noite ouviu uns passos miúdos sobre a neve do pátio, que lhe eram bem conhecidos: passou a ouvi-los subindo a escada. Abriu a porta e Sacha entrou.
- Mamãe! mamãe! Que felicidade voltar para casa!
Cobria o rosto com as mãos; sentou-se na cama, mas como estava cansada!
Depois das primeiras exclamações de alegria, a mãe não quis chamar-lhe a atenção pelo que tinha feito.

- Mamãe! quando ontem te menti a respeito das minhas lições, resolvi não ir mais à escla e não voltar mais aqui. Se não fosse à escola seria obrigada a enganar-te todos os dias quando dissesse que lá estivera...
- E o que querias fazer?
- Pensava em andar pelas ruas o dia inteiro.. Minha roupa é bastante quente, e se sentisse frio procuraria algum abrigo. Em lugar de comer todos os dias compraria um pãozinho. Não seria grande a dificuldade para beber água, visto como agora há neve. Um pãozinho por dia seria bastante. Tenho aqui quinze copeques, e o pãozinho custa três. Seriam cinco dias.
- E depois?
- Não sei. Não pensei no depois.
- E onde irias passar a noite?
- Já tinha pensado nisso. Quando caísse a noite, iria à estação da estrada de ferro; mas longe, na estrada, onde não passa ninguém. Encontram-se muitos vagões vazios que não vão viajar. Metia-me num deles e dormia até amanhecer.
Foi assim que ali estive de noite, longe, muito longe na estrada; ali, onde já não via ninguém vi vagões separados, diferentes dos de passageiros. Escolhi um deles; ia subir, mas apenas pus o pé no estribo apareceu um guarda que gritou: "Onde vai? Esses vagões são para transportar os mortos!" Quando o ouvi dizer isso, pulei no chão e fugi. O guarda me perseguiu, gritando: "Que é que estás fazendo aqui?" Corri! corri! Achei-me em uma rua onde havia uma casa em construção. Ainda não tinha portas: os vãos estavam fechados com umas tábuas. Encontrei um ponto em que pude passar entre duas tábuas; acompanhei tateando uma parede; encontrei um canto onde havia no chão uma porção de pedaços de madeira secos e lisos. Deitei-me em cima. Apenas me havia deitado, escutei vozes perto de mim, falando muito baixo. Levantei-me e ouvi outras vozes, parecendo-me que uns olhos me olhavam da sombra; tive um medo horrível e saí outra vez a correr. Quando me vi na rua, alguém me chamou da casa em construção que eu pensava estar vazia. Estava cansada, tão cansada; continuei a andar pelas ruas. Ouvi gente a falar de todos os lados, indo e vindo. Não sabia que horas seriam. De repente me achei na Avenida Nievsky, perto de Gostinoi, e pus-me a chorar. " Ah, dizia a mim mesma. Se encontrasse algum "bom senhor" que se compadecesse de uma menina que não sabe onde passar a noite! Havia de confessar-lhe tudo e talvez me recolhesse por uma noite". Enquanto assim pensava, continuava a andar, quando descubro o nosso ônibus, que partia para a última viagem. Acreditava que há muito tempo havia partido. Pensei: quero ir para a casa de minha mãe! Subi no ônibus e como me sinto feliz por voltar à tua casa! Nunca mais te enganarei e estudarei bem as minhas lições. Mamãe, Mamãe!"

Perguntei-lhe, continuou a mãe: "Sacha, a idéia de não ir mais à escola e viver na rua ocorreu só a ti?"
- Olhe, mamãe: há muito tempo conheci uma menina da minha idade, que freqüentava outra escola. Acreditas se te disser que quase nunca comparecia às aulas? Disse-me que a escola é muito aborrecida e a rua muito alegre. Contou-me que, enquanto estava na rua, andava, andava, andava. Fazia quinze dias não tinha posto os pés na escola. Olha as vitrinas; anda pelos passeios até altas horas da noite, até que afinal tem de voltar para casa. Quando o soube, pensei: "gostaria de fazer o mesmo!" e me aborreci na escola muito mais que antes. Mas não tive qualquer intenção precisa até ontem à noite, depois de ter-te mentido. Foi então que me resolvi a fazer como fiz.

Esta história é autêntica. Naturalmente, a mãe tomou suas medidas. Quando me contaram, pensei que não seria de todo inútil fazê-la figurar em meu diário. Dirão que é um caso único, tratando-se, sem dúvida, de uma pequena muito estúpida. Mas sei que longe está de ser estúpida. Sei também que nessas almas jovens, depois da primeira infância, quando ainda não adquiriram experiência de qualquer espécie, pode nascer uma porção de sonhos mais ou menos perigosos. Essa idade (doze a treze anos) é extremamente interessante, mais na menina do que no menino. Tratando-se, porém, de meninos, vejam esta notícia que apareceu em um jornal há quatro anos: Três meninos haviam fugido do ginásio pretendendo ir para a América. Não os apanharam senão quando já estavam um pouco longe da cidade. Um deles levava uma pistola. Há vinte ou trinta anos sonhos e fantasias estranhas também passavam pelo cérebro de meninos e meninas; mas os de hoje são mais decididos. As reflexões e as dúvidas duram menos. Antigamente os meninos dessa idade pensavam em fugir para fazerem, por exemplo, uma viagem a Veneza; que lhes enchia a cabeça graças a certas novelas de Hoffmann e George Sand. (Tive um colega desse tipo). Mas não punham em execução o projeto, contentando-se em contá-lo a um companheiro, depois de tê-lo feito jurar que seria discreto. Os de hoje realizam o que os outros se limitavam a sonhar. Antigamente, certos sentimentos de dever, de obrigações para com a família, exerciam grande influência. Hoje, tudo isso perdeu muito a força que tinha.

O essencial é que não se trata de casos isolados; e não são criaturas estúpidas as que se entregam a estas fuga. Repito que essa idade é muito interessante e mereceria que os educadores lhe dispensassem mais atenção. A que perigos enormes estão expostos os nossos filhos! Preste-se atenção somente àquele ponto da narração anterior, em que a menina cansada de tanto andar, estava disposta a contar tudo a um transeunte: um bom senhor que se compadecesse da pobre criança que não sabia onde se refugiar para passar a noite. Pensem como seria fácil por em execução esse plano, que lhe revela toda a inocência. Nesta terra, os "bons senhores" enxameiam por todas as ruas. Mas, depois, no dia seguinte, que teria acontecido à menina?... Admitindo que o tal senhor fosse de certa espécie muito comum hoje em dia, era... o riso ou a vergonha de confessar... Suponhamos tivesse preferido a última. Pouco a pouco a menina ter-se -ia acostumado à lembrança daquela vergonha e quem sabe se, depois de ter pensado bastante no que se havia passado, não teria o capricho de procurar nova aventura do mesmo gênero... Aos doze anos! Adivinha-se tudo quanto viria em seguida... E essa outra menina que, em lugar de ir à escola, passa o tempo a ver as vitrinas e a andar pelos passeios das ruas, dando à primeira que encontra a idéia de novo emprego do tempo? Já ouvi antes falar de meninos que achavam a escola aborrecida e a vagabundagem cheia de encantos e alegrias. (...)A vagabundagem é uma inclinação que mais tarde se transforma em paixão doentia, cujo primeiro germe se contraiu na infância. Agora vejo que há também meninas vagabundas, evidentemente cheias de inocência a princípio. Mas ainda que fossem tão puras como os pequenos seres primitivos evoluindo em algum paraíso terrestre, não poderão fugir ao conhecimento do "bem e do mal", embora somente pequem pela imaginação. A rua é escola em que se aprende muito depressa! O essencial, repito, está em pensar até que ponto é interessante essa idade em que a inocência infantil se mistura à incrível aptidão para receber impressões, à extraordinária faculdade de assimilar toda espécie de experiência, boas ou más. É o que torna tão perigoso e tão crítico esse período da vida dos adolescentes."

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

NIKOLAI LESKOV: MUITO ALÉM DE LADY MACBETH DO DISTRITO DE MTZENSK

Uma pena que as editoras brasileiras não editem outros livros de Nikolai Leskov, além de"Lady Macbetch do Distrito Mtzensk", lançado pela Editora 34.


Graças a tal descaso editorial, Lescov é muito pouco conhecido entre a gente. Todos (ou quase todos, espero) sabem quem é Tolstoi, Dostoievski, Tchekhov, Gógol e, atualmente, Goncharov. Mas quem sabe quem foi Leskov? Considerado por alguns especialistas em literatura russa como um dos maiores expoentes entre os russos do século XIX, mas ofuscado por seus contemporâneos acima citados. Entretanto nem só de Dostoievski e Tolstoi vive a rica literatura russa, por mais fabulosos que sejam (já devo ter repetido isto inúmeras vezes, em outros posts)...

Leskov oferece ao leitor quadros mais ou menos inéditos da vida russa, em seus aspectos mais duros e ásperos, a partir da vivência obtida em seu trabalho, que o levava a viajar pelo país, retratando um mundo russo muito diverso daquele que os grandes titãs de sua época o fizeram.

Natural de Oriol, cidade que nos legou grandes nomes da literatura russa, como Leonid Andreev (ver neste blog), Boris Zaitsev, além deIvan Turguêniev, entre outros tantos, bem como cineastas, cientistas e filósofos(como Bakhtin) (ver fotos da cidade no final desta postagem).

Viveu de 1831 a 1895. Foi um romancista polêmico, já que polêmica era sua personalidade. Sua obra de estréia, intitulada "Em lugar algum", foi um romance mal recebido pela crítica, que considerou seu autor 'retrógrado': ele era um anti-niilista,e o niilismo era a temática de então. Muitos dos grandes escritores seus contemporâneos abordavam temas niilistas, em especial Ivan Turguêniev, em seu romance Pais e Filhos.

De 1864 a 1890, escreveu oito romances,14 novelas, inúmeros contos e uma peça teatral. Entre seus romances, podemos citar " Gente da Catedral" (sobre o clero provinciano russo); anjo selado (sobre o fanatismo dos velhos crentes); " O peregrino encantado (aventuras de um servo que entra para um monastério); "Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk" (história da danação e do pecado, da sedução e da fraqueza humana), entre outros.

Suas histórias são narradas em estilo rico e envolvente, sempre tendo a Rússia e Oriol como foco principal. Escreveu com ardor sobre as miseráveis condições da vida no campo.

Apesar de, inicialmente, ter se manifestado contra o movimento revolucionário clandestino, foi Maksim Gorki, um escritor comunista, quem mais se empenhou em valorizar Leskov que, a partir de então, passou a ser divulgado em edições bem produzidas, como a maioria das edições do período soviético.

A respeito de sua personalidade, transcrevo um trecho do livro "Pelo Prisma Russo", de Joseph Frank:
"Leskov era uma personalidade orgulhosa, apaixonada e frequentemente irascível; no decorrer de sua vida ele conseguiu indispor-se com quase todo mundo que conhecia, como também com todas as tendências e movimentos correntes na literatura russa. Isso também nos diz algo sobre sua impetuosa independência, sua recusa a reverenciar os lemas ideológicos do momento. Sua briga mais conhecida, causa do virtual ostracismo que os radicais lhe impuseram durante a maior parte de sua vida, envolvia os famosos incêndios de São Petersburgo, de 1862, que coincidiram aproximadamente com a circulação das proclamações sanguinárias do Rússia Jovem, que proclamavam pelo extermínio da família real e de todos os seus partidários. A maioria acreditava que os radicais tinham começado o incêndio, e o populacho suspeitava de que a população estudantil em geral fosse simpática aos supostos incendiários. Leskov, com a intenção de proteger os estudantes, publicou um artigo onde pedia à polícia que, se houvesse qualquer prova de incêndio culposo, nomeasse os culpados para que a suspeita pudesse ser retirada das costas dos inocentes. À primeira vista, nada pareceria mais inofensivo do que tal pedido, mas o fato de Leskov ter dado algum crédito à hipótese de incêndio culposo e ter, aparentemente, apelado à polícia contra os radicais, foi o suficiente para torná-lo um homem marcado".
Pelo trecho acima pode-se ter uma ideia de que, assim como sua obra, sua biografia, também, merece ser traduzida para o português e esta biografia existe, em inglês, tendo sido escrita por Hugh Mac Lean, da Universidade de Cambridge. Espero que nossas editoras resolvam dar a Leskov o espaço que ele merece e que nós, leitores, merecemos também.

Fotos do autor (mais ou menos em ordem cronológica):

Fotos da cidade onde o escritor nasceu:
E, por fim, o Museu Leskov, em Oriel:

Fontes das fotos: www.yandex.ru

sábado, 2 de julho de 2011

NIKOLAI BUKHARIN: DA REVOLUÇÃO AO ROMANCE NO CÁRCERE

Nikolai Ivanovitch Bukhárin foi um moscovita intelectual e revolucionário, político soviético dos que fizeram a Revolução ao lado de Lenin e Trotsky e caíram em desgraça no período de Stalin.
Formado em Economia pela Universidade de Moscou, foi ativista estudantil na revolução de 1905 e foi nesta época que passou a integrar o bolchevismo, sendo um de seus principais teóricos marxistas.
Muito próximo a Lenin, se tornou um dos principais dirigentes do partido, sempre em oposição à sua linha dura. Foi o responsável pelo levante de Moscou em 1917. Em 1920 ele formulou os princípios da economia soviética. Foi membro do Comitê Central, redator chefe do Pravda, um dos 5 membros do Poltburo, presidente do Kominterm, idealizador da NEP (Nova Política Econômica.
Lenin, Bukharin e Zinoviev

Zinoviev,Stalin e Bukharin junto à esfinge de Lenin

Após a morte de Lenin, apoiou Stalin contra Trotsky, o que não impediu Stalin de, a partir de 1928, ver nele um possível rival, sendo afastado, por isso, do poder. Depois disto, passaram por uma breve reconciliação, quando ele foi atuar como redator chefe do Izvestia. Esta reconciliação durou pouco e em 1937 foi condenado num possível falso processo, sendo morto em 1938.

Sentença condenatória de Bukharin, assinada pelo
Colegiado da Corte Superior de Justiça Militar da URSS
Na era Gorbachov foi reabilitado, tanto política como moralmente.

Durante o final de seu período no cárcere, Bakhurin escreveu sua autobiografia em forma de romance. O títuo: Romance no Cárcere, editado no Brasil pela Ed.Record em 2003. São 427 páginas que, nas palavras do próprio autor, em carta enviada a Stalin, "foram literalmente arrancadas do coração". Nesta carta,pede a Stalin que poupe seu trabalho:
"Tenha pena, não de mim, mas de meu trabalho"!
Este livro foi considerado seu "testamento político". Ele foi executado antes da conclusão do trabalho, que tem no personagem Kolya Petrov seu alter ego. Através de Kolya vai tecendo a história russa desde 1905, ainda no período czarista, passa pela revolução bolchevique, chegando à era stalinista, com a instauração do terror.
Bukharin usou a forma romanesca de autobiografia, numa tentativa de evitar que a obra fosse queimada. Com este mesmo intuito, o livro é permeado por metáforas que, contudo, não conseguiram evitar que ele fosse parar nos arquivos secretos de Stalin, ali permanecendo por 54 anos.

A tradução foi feita direta do russo, o que conta pontos para esta edição da Record. Ainda não posso dar minha opinião sobre a obra, por ainda não a ter lido, já que a recebi somente ante-ontem.

Agora, um alerta: ao comprar este livro, não deixem de pesquisar os preços, que apresentam variações consideráveis - dos R$ 36,00 aos R$ 57,00. A diferença não é desprezível. Vamos fazer uma campanha pelo barateamento dos livros. Afinal, conforme já dizia Monteiro Lobato há muitos anos atrás, bem antes de ser acusado de racismo,

"um país que se faz com homens e livros",
e, a continuar com o preço dos livros nas alturas, nosso país ainda vai levar muito tempo para ser realmente feito...


fontes:

terça-feira, 7 de junho de 2011

SUGESTÃO DE LIVROS POR AMIGOS DO BLOG


Deixo aqui a indicação de alguns livros que têm por temática a História da Rússia. A indicação foi feita pelo amigo do blog Alan Vignoli. Da minha parte, já comprei os dois primeiros da lista: o primeiro já chegou pelo correio hoje e, o segundo (Ascensão e Queda de um Império, acabo de finalizar a compra. Fica, aqui, o meu agradecimento ao Alan pela colaboração.

"Seguem algumas sugestões de livros para apresentar no seu blog:
1) Título: Os Últimos Dias dos Romanov
Autora: Helen Rappaport
Editora: Record
2) Título: Rússia, Ascensão e Queda de Um Império
Autor: João Fábio Bertonha
Editora: Juruá
3) Título: O Fantasma de Stálin
Autor: Martin Cruz Smith (o mesmo de "Parque Gorky")
Editora: Record
4) Título: Stalingrado
Autor: Antony Beevor
Editora: Record
5) Título: Berlim 1945
Autor: Antony Beevor
Editora: Record
Adianto que já li todos e são realmente muito bons. O primeiro pelos detalhes históricos e a dramaticidade dos acontecimentos. O segundo pelo panorama histórico conciso da Rússia desde a antiga Rus até os dias de hoje, com análises inteligentes sobre a política e a história do país. O terceiro é um romance policial do mesmo autor do best-seller "Parque Gorky", só que com elementos modernos (terrorismo, ultranacionalismo, Chechênia, corrupção, etc.). Os 2 últimos também são muito bons pelos detalhes históricos, mas possuem muitos detalhes técnicos militares, e talvez só agradem mais a um público mais restrito".
(Transcrição do e-mail enviado por Alan Vignoli)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

ALGUMAS CURIOSIDADES DE "GUERRA E PAZ", POR TATIANA TOLSTAYA

Tatyana e o pai
A meu ver, Guerra e Paz foi o melhor livro do conde Lev Tolstoi. e umd os melhores que já li .Malgrado seu volume, o li de um sopro, tão grande o interesse que me despertou, isto há anos atrás. E, pelas memórias da filha do escritor, foi o lvro que mais lhe consumiu as forças, o que justifica que eu transcreva, neste post, algumas passagens de "Tolstoi, meu pai",de Tatyana Tolstaya, filha mais velha do velho conde, a respeito do período em que ele escreveu Guerra e Paz. Por elas a gente percebe a dimensão que esta obra ocupou na vida do escritor, bem como toma conhecimento de alguns outros fatos ligados ao livro: seu primeiro título, a enormidade do trabalho, sua planificação, a preocupação de Tolstoi em não se perder em minúcias, bem como suas preocupações com a opinião de quem ele gostava e de quem ele "cada vez gostava menos", como no caso- Turguênev...O texto de sua filha demonstra, com clareza, o trabalho titânico de construir uma obra de tal magnitude, que o levou a pesquisas históricas e processos semelhantes ao do historiador, interessado em manter a verdade dos fatos.

"Meu pai dizia que para escrever 'Guerra e Paz' levara cinco anos de labor contínuo e exclusvo. Naquela época tomou poucas notas, reservando toda a sua atenção para esse romance. Assim, há poucos documentos permitindo recontruir a história da criação de Guerra e Paz. Todavia, encontram-se, aqui e ali, em seu diário e em suas cartas, preciiosas indicações sobre a maneira como Tolstoi encarava então os problemas da escritura. Assim:
"É preferível eliminar tudo quanto possa provocar indignação' (Diário, 29 de março de 1869). Ou ainda: "O gênero épico é o único que parece natural" (Diário, 3 de janeiro de 1863.
Declara, numa carta, que "os problemas da literatura são incomensuráveis - como dizem os matemáticos-com os problemas sociais.
O objetivo do escritor não consiste em resolver as questões formuladas, mas em fazer amar a vida em todas as suas inúmeras e inesgotáveis manifestações. Se me dissessem que posso escrever um romance em que exporei sobre todas as questões sociais um ponto de vista que julgo certo, eu não lhe dedicaria nem duas horas de trabalho. Mas se me dissessem que o que estou escrevendo será lido dentro de vinte anos pelas crianças de hoje e que, lendo-o, essas crianças vão rir, chorar e aprender a amar a vida, eu lhe consagraria toda a minha existência e toda a minha força'.
Eis o que, em 1863, escrevia à prima Alexandra:

"Nunca senti minhas forças espirituais e mesmo morais tão livres e disponíveis para o trabalho. É um romance sobre os anos 1810-1820 que, desde o outono, me ocupa inteiramente. Sou agora um escritor com todas as forças de minha alma. Escrevo, reflito, como antes nunca escrevi nem refleti em minha vida".

Em 1864, durante uma caçada, sofreu uma queda de cavalo e quebrou o braço. Houve complicações e a cura se fez esperar por longos meses. Foi durante a ociosidade forçada de sua convalescença que concebeu a maior parte da obra.

Em 23 de janeiro de 1865, escreveu ao poeta Fet, seu amigo e fiel correspondente:"
"Fiquei sabendo de uma coisa surpreendente a meu respeito. Depois que meu cavalo me atirou ao chão, quebrando-me o braço, meu primeiro pensamento ao recobrar os sentidos, foi de que era um escritor. Sim, eu sou um escritor, mas um escritor solitário, um escritor que se cala. Em breve aparecerá a metade da primeira parte de O ano de 1805(primeiro título que deu à Guerra e Paz). Peço-lhe que me escreva sua impressão, mesmo quanto aos pormenores. Sua opinião, como também a de um homem de quem, à medida que envelhece, cada vez gosto menos - Turguêniev- me são preciosas. Considero tudo quanto publiquei até agora como simples exercícios de redação, como rascunhos. O que vou agora publicar me parece fraco - o que é inevitável no caso de uma introdução - mas, apesar disso, é impressionante! Escreva-me tudo quanto se diz nos meios que freqüenta."
A 7 de março do mesmo ano anotava no diário: "Escrevo, rasuro. Tudo está claro, mas apavora-me a enormidade do trabalho a realizar. É preciso traçar um plano de modo a não me deter em minúcias modificando-as constantemente, e a pensar nos trechos importantes que virão a seguir. E a 19 de março: "Li com interesse crescente a história de Napoleão e de Alexandre.Transbordo de alegria com a idéia de poder fazer uma grande obra, uma história psicológica: o romance de Alexandre e de Napoleão . Nele porei toda a covardia, toda a loucura, todas as contradições dos homens, do meio em que vivem e também deles próprios..."

No dia seguinte anotava, ainda: "Tempo admirável. Estou bem de saúde. Fui à Tula a cavalo. Idéias grandiosas. Meu plano da história de Alexandre e de Napoleão define-se." Finalmente, a 23 de março:
"Durante a tarde escrevi pouco, mas bem. Vou conseguir." Pelo fim do ano, escreveu a Fet: ars longa, vita brevis.Se eu pudesse, ao menos, realizar a centésima parte daquilo que se concebeu! Mas não se consegue nem a milésima! Em todo o caso esse sentimento de poder criar faz a felicidade de todos nós, os escritores. Esse sentimento, você o conhece. Sinto-o este ano com uma força particular."
Trabalhou em Guerra e Paz com um ardor, uma embriaguez e um amor únicos, descurando tudo quanto não fosse sua obra. Ele, que na velhice diria que
"a obra mais importante de um homem é a sua vida",

anota, na data de 27 de novembro de 1866: "

O poeta tira da vida o que ela tem de melhor e coloca-o em sua obra. É por isso que sua obra é bela e sua vida é má..."
E numa carta a Fet, de 28 de março de 1867:
" A força da poesia reside no amor. Sem amor, não há poesia."
Eis, aproximadamente, o que o escritor disse naquela época a respeito de sua obra e de suas idéias sobre a literatura.
É difícil descobrir todos os recursos que Tolstoi usou para esta epopéia. Encontra-se na Biblioteca de Yasnaia Poliana uma série de obras históricas: memórias, descrições, cartas, notas de autores russos e franceses da época. Além desses documentos, meu pai recorreu a todas as fontes possíveis. Assim é que muitas vezes foi a Moscou para consultar os arquivos dos museus nacionais.
Escreveu à sua mulher, após ter estudado manuscritos da maçonaria pertencentes ao acervo do Museu Rumiantsev (atual Biblioteca Lenin):
"Não posso te explicar porque essa leitura me mergulhou em abatimento que durou o dia inteiro.O que é triste é que esses maçons eram uns imbecis."
E no dia seguinte:
"Logo pela manhã fui ao Museu Rumiantsev. O que encontrei lá é de interesse pungente. Há dois dias que passo lá três ou quatro horas, sem sentir o tempo passar."
Visitou o campo de batalha de Borodino (já postado neste blog)em todos os seus recantos. Foi com desgosto que soube que o guarda do monumento, que fora testemunha da batalha, acabara de morrer. Meu pai fez duas vezes a volta aos locais em que se travaram os combates, tomando notas e fazendo croquis dos movimentos das tropas.
"Estou muito contente com minha excursão, escreveu ele. Se Deus me der saúde e o necessário, farei da batalha de Borodino uma descrição como nunca se fez ainda até agora".
Os jornais da época também lhe foram de uma ajuda preciosa. Consultou-os longamente nas bibliotecas.Mas, desejoso de ter uma coleção completa, anunciou no Jornal de Moscou, dando o endereço de um hotel moscovita:
"Deseja-se adquirir, por 2000 rublos de prata, uma coleção completa da Gazeta de Moscou de 1812".
Os arquivos e as tradições orais familiares lhe serviram para descrever as famílias Volkonski e Rostov. Assim é que a carta da princesa Maria à sua amiga Júlia reproduz quase inteiramente uma carta da mãe dele à uma amiga. Quanto aos personagens do livro são todos retratos compósitos de antepassados, de amigos e de pessoas do círculo de relações de seu pai.
"Quem é o príncipe Andrei? -escreveu ele numa carta. -Ninguém, como todo herói de romance, a menos que o romancista não passe de um memorialista ou de um biógrafo.Teria vergonha de ser editado, se meu trabalho consistisse apenas em fazer retratos copiando do original..."

É provável que o único retrato, cópia fiel do original, o que meu pai, aliás, não negava, seja o de Natacha, a irmã caçula de sua mulher, Tatiana Bers Na época em que Guerra e Paz foi escrito, ela não estava ainda casada e meu pai, que lhe servia de confidente, tinha-lhe muita afeição. Ele lhe previra o destino: ela casou-se com Alexandr Kusminski, um homem de bem, muito bom, sem ama-lo apaixonadamente e tornou-se, com o tempo, uma senhora ajuizada, que estava engordando, exatamente como aconteceu com Natacha, depois de casada com Pedro...

Se ele fantasiava com os personagens imaginários, não se permitia fantasiar, nem de leve os personagens históricos..

Finalizo o post passando a palavra ao próprio autor:
"Em todo meu romance, quando personagens históricos agem ou falam, eu nada inventei, mas me servi de documentos aos quais, à medida que meu trabalho progredia, acabaram por formar toda uma biblioteca. Creio ser inútil dar aqui todos os títulos a citar os textos dos quais me vali."
Retrato de Tatiana, pintado por Ilya Repin

fonte: Tolstoi,meu pai - Recordações
Tatiana Tolsaya
Eitora Nova Fronteira
Coleção Vidas Extraordinárias-1975
(livro esgotado)

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