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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Conto "A Conversão do Diabo"- Leonid Andrêiev

Quadro de Andreiev feito pelo pintor russo Ilyá Repin

 Hoje postamos o conto "A Conversão do Diabo", de Leonid Andrêiev, no qual o autor, de forma irônica, faz uma reflexão sobre o bem e o mal. Foi publicado no Brasil numa coletânea já esgotada, intitulada A Maravilha do Conto Russo. Está, também, inserido no livro "Contos Russos Eternos", disponível em algumas livrarias, entre elas, a Travessa, por R$ 55,00. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

LIVRO DO DIA: O MESTRE E A MARGARIDA(MIKHAIL BULGÁKOV)

Livro excelente de autoria do notável Mikhail Bulgákov, tão notável como seus conterrâneos clássicos do império russo e da URSS . Digo isto porque Bulgákov não era russo, mas sua obra é considerada russa por ter sido escrita neste idioma. Além disto, sendo natural de Kiev, capital da Ucrânia, viveu sob o mesmo império russo que tantos gênios deu para a literatura universal e sob a mesma URSS, que produziu mais uma série de incríveis escritores e que forneceu material psicológico para a elaboração de "O Mestre e a Margarida", obra que levou Bulgákov a um medo imenso das conseqüências de sua publicação durante a era Stalin, fazendo com que a escrevesse em segredo. O pavor era tanto que ele chegou a queimar uma primeira versão. Este clima de pavor é levado para a nova versão desta obra revolucionária, vindo, talvez, daí, sua extraordinária força. Ao todo, levou cerca de dez anos para terminar este livro. Sua mulher fez a revisão. Apenas seu círculo mais íntimo de amizades sabia da existência deste romance, oúltimo e mais definitivotrabalho do autor, escrito entre os anos de 1928 e 1940, quando morreu. Era o auge do Stalinismo, auge do grande terror (de 1936 a 1940).

Trata-se de uma obra autobiográfica e nela figuram sua terceira mulher, Elena Bulgákova,que serviu de modelo para Margarida. O mestre é um alterego do autor: trata-se de um escritor impiedosamente maltratado pela censura. E assim como seu alterego, Bulgákov também foi impiedosamente maltratado por uma censura que massacrava tudo que não se enquadrasse no realismo socialista. E este livro não de enquadrava, definitivamente. O mestre, que estava a escrever um livro sobre Pôncio Pilatos, também queima boa parte de seus manuscritos.

Por meio do livro do 'Mestre", Bulgákov sugere um paralelo entre a Jerusalém que cruxificava cristãos, com a Moscou dos expurgos, que em 1929 é visitada pelo diabo, que usa o nome de Woland, historiador, especialista em magia negra.

Satanás não vem sozinho, mas em comitiva, da qual participam uma feiticeira nua, um homem de roupas apertadas e monóculo rachado e um gato espantosamente desproporcional, que anda s obre duas patas e adora vodka, entre outros "assessores".

Numa tarde de primavera, Satanás e sua comitiva decidem visitar a cidade e encontram poetas, editores, burocratas, gente de toda espécie tentando levar a vida no comunismo. Mas depois de tal diabólica visita, nada será mais como antes: um rastro de destruição e loucura mudará o destino de todos que o cruzarem.
"O que aconteceu em Moscou, depois daquela noite de sábado, quando Woland e o seu séquito deixaram a capital ao por-do-sol, desaparecendo dos Montes Vorobiov?
Nem é preciso dizer que durante muito tempo toda a capital permaneceu cheia do zumbido pesado dos boatos mais inverossímeis, que logo se alastraram também para os locais mais remotos e obscuros do interior. Seria repugnante repetir esses boatos".(trecho extraído do livro)
As aventuras do diabo e seu grupo estão narradas na primeira parte do romance. A segunda parte é dedicada aos personagens título, ou seja, o mestre e a margarida. Margarida é a amante do mestre, o escritor, que lhe dá a maior força para publicar um romance que desagrada ao regime, por mostrar figuras religiosas como figuras históricas. Há, então, o entrelace do diabo com as personagens principais: Margarida a ele se alia. Nesta parte,epassagens inesquecíveis e da maior criatividade; entre elas, uma em que Margarida sobrevoa Moscou mais ou menos como "Baba Yaga"(ver a respeito neste blog).

O livro tem aspectos cômicos, tem muito de fantástico, mas vai muito além disto:através do romance do Mestre, Bulgákov faz uma reflexão sobre o bem e o mal e sobre a bondade; tudo através dos personagens do Mestre, ou seja: Jesus e o diabo, que teve como protótipo do Mefístoles, de Fausto:
"-...mas, quem é você, afinal? - Sou a parte da força que quer sempre o mal, mas sempre faz o bem"
Não vou escrever aqui, os dados biográficos do autor, já que se encontram disponíveis por toda a rede. Ao invés disto, julgo preferível deixar registrada duas das muitas cartas que Bulgákov dirigiu a Stalin, por julgá-la de maior interesse.
"Após uma análise de meus recortes de jornais, achei na imprensa da União Soviética, nos dez anos de meu trabalho literário, 301 citações a meu respeito.
Delas, 3 são elogiosas; 298 são hostis e ofensivas."
"... Com esses documentos na mão, eu gostaria de demonstrar que a imprensa soviética, com seus diversos órgãos públicos que se encarregam do controle das publicações, nesses anos do meu trabalho literário tentam, unânime e ferozmente,comprovar que a obra de Mikhail Bulgákov não pode existir neste país.
Eu declaro que a imprensa da União Soviética tem toda a razão".
(28/03/1930)
Editora: Arts Poética
Nº. Páginas: 437
R$ 35,91

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O LIVRO DO DIA: "NÓS" , DE ZAMIATIN - O PRECURSOR DE "1984"E DO "ADMIRÁVEL MUNDO NOVO"

"Nós", do russo Zamiatin, é daquelas obras que você começa a ler e não sente vontade de largar. Só existe no Brasil na publicação da editora "Antígona", de Portugal, a partir da versão em ingllês - "We". Este é mais um descaso do mercado editorial brasileiro para com a literatura russa... A publicação a partir do inglês não é ruim, está mesmo boa, mas deixa um pouco a desejar se compararmos com uma edição direta do russo. Eu li o original -My - e, sem dúvida, supera a versão portuguesa.
Faço, antes de mais nada, uma ressalva: estou traduzindo o nome do autor para Zamiatin e não Zamiatine, como acontece na edição de Portugal. Normalmente, os portugueses traduzem nomes terminados em n com um e no final (tipo, por exemplo, Lenine e não Lenin). Isto posto, vamos ao romance de Zamiatin e conhecer um pouco este autor.

Antigo membro do partido Bolchevique e fiel autor aos ideais da revlução russa, respeitado por sua independência e integridade. Como diz Solomon Volkov, em seu 'S.Petersburgo, uma viagem cultural',

"Zamiatin era "rabugento contido, jamais teve um gesto sequer semelhante a servilismo(...) Dizia-se que ele polia seu texto como se fosse marfin, esmerando-se em cada palavra".
Em 1921, o jornal de Petrogrado(S.Petersburgo) "Dom Iskusstv" (Casa das Artes) imprimiu um artigo deste autor, intitulado "Tenho Medo", que causou grande celeuma por denunciar abertamente o regime soviético por estar sufocando a literatura russa ao encorajar o servilismo e forçando escritores honestos ao silêncio:
"A verdadeira literatura não pode fluir da pena de obedientes e rotineiros burocratas, mas terá que ser produzida por loucos, eremitas, heréticos, sonhadores, rebeldes e céticos".
Imaginem só o 'rebu' que ele não causou com tais palavras! E, dentro do 'espírito' deste seu protesto, escreveu sua obra mais famosa, Nós, concluída em Petrogrado no mesmo ano de 1921.

Trata-se de uma precursora de "Admirável Mundo Novo" (1930), de A.Huxley e, principalmente, de "1984", de Orwell (1948). O leitor do blog já pode imaginar que esta obra foi proibida na URSS, tendo que ser publicada a partir dos EUA, em 1924. A primeira edição em russo também saiu nos EUA, em 1952. A crítica soviética caiu em cima dele, sendo-lhe completamente hostil. Por causa desta hostilidade, Zamiatin escreve, em 1929, uma carta às autoridades:
"Desde 1921 tenho sido o alvo principal da crítica soviética. Meu livro converteu-se num repositório de impropérios, a começar de inimigo de classe, kulak, burguês, duas vezes reacionário, até bisonho e espião".
Foi preso em 1922 e confinado em solitária, na mesma ala onde estivera preso antes da revolução por sua filiação aos bolcheviques...Foi posto em liberdade, mas só saiu do país anos depois, em 1931. Morreu em Paris em 1937.
Por todo este problema com a censura soviética, permaneceu quase desconhecido para os leitores da URSS até os anos 80, quando "Nós" foi publicado na Rússia. onde passou a ser considerado, com toda a justiça, um dos grandes mestres da literatura.

Em sendo uma precursora de 1984 e Admirável Mundo Novo, nem preciso dizer que se trata de uma fantástica distopia, baseada no controle do pensamento de na repressão a toda e qualquer dissidência para garantir a supremacia do totalitarismo, na obra representado pelo "Estado Único". A igualdade entre as pessoas é levada ao extremo, uniformizando-as a tal ponto de se eliminar a individualidade, abolindo-se o indivíduo. O que permite este feito é a matematização do real. As tábuas dos mandamentos horários sincronizam atividades produtivas, as relações sexuais na transparência absoluta das casas, todas de vidro. O que seria "o Grande Irmão" de Orwell, para Zamiatin era "O Benfeitor". A criação literária também foi reformada, abolindo-se a barbárie dos tempos em que cada um escrevia tudo o que lhe passava pela cabeça, passando a ser posta a serviço do Benfeitor, que diz:
"Os nossos poetas já não vivem no empíreo. A lira deles é a fricção matutina da escova de dentes elétrica".
Aqueles a quem os sonhos afligem, como acontece com o narrador da história, D-503, serão submetidos à uma fantasioctomia, que há de lhes devolver a felicidade vítrea da primeira pessoa do plural. Extirpam-se, assim, as doenças da alma para aumentar a plenitude artificial e automática do simulacro.

D-503? O que é isso?, há de perguntar algum leitor. É que no Estado matematicamente perfeito as pessoas já não possuem nomes, possuem números...Você não computa os habitantes locais pela quantidade de pessoas, mas de números. E D-503 não é um número qualquer. Ele é um engenheiro, responsável pela construção do "Integra", nave que levará o Estado Único a colonizar seres de outros planetas ainda sujeitos à "selvagem condição de liberdade". O romance é ambientado no terceiro milênio.

Seu estilo é pleno de originalidade, assim como super original é a linguagem matemática adotada por Zamiatin.

Seu tema central se desenvolve em torno do debate entre felicidade-liberdade, mas note: nada tem a ver com o stalinismo, que ainda não existia quando o livro foi escrito.

Posso encerrar este post afirmando que se o totalitarismo que por alguns anos dirigiu a Rússia surge como o fato mais importante do século XX, o livro de Zamiatin é a mais importante obra sobre estes tempos, mesmo que tenha sido escrita antes que o autor o vivesse.

Meu conselho: comprem depressa o livro, antes que vire artigo de sebos! Você, certamente, não irá se arrepender, já que é bem melhor e mais original do que as distopias nele baseadas.






































Evguenyi Zamiatin nasceu em Lebedian, distrito de Tambov, no dia 01 de fevereiro de 1884. Foi amigo de Gorki e de Nbakov. Link

quinta-feira, 10 de março de 2011

UM POUCO DE VLADIMIR NABOKOV


Vladimir Nabokov nasceu em Petersburgo, no ano de 1899. Na época, esta cidade ainda era a capital do Império. Filho de um membro do partido Cadete - principal representante da classe dominante russa na época do governo provisório de Kerensky (pré-1917.Estreou como poeta em sua terra natal, mas sua carreira só tomou impulso depois que deixou a Rússia, em 1919. Se com seus versos não conseguiu lugar de destaque, sua prosa o colocou em posição similar à de Ivan Bunin,considerado um mestre da literatura emigré(1).
Na Europa, Nabakov publicou importantes novelas experimentais, entre elas "Defesa de Lushin"(1930), "Desespero"(1936), "Convite a um Degolado"(1938), "A Dádiva" (1938), obras estas responsáveis pelo surgimento, no cenário internacional, de um ramo do modernismo literário típico de Petersburgo, apesar de alguns traços meio kafkanianos, meio proustianos, segundo alguns. Na realidade, o que houve foi uma influência de "Petersburgo", do russo Andrei Beli, chegado ao surrealismo, ao absurdo. Teve, também, grande influência de Puchkin e Gogol, à poesia de Block.

Segundo Solomon Volkov, no seu livro "Petersburgo, uma história cultural",
"o mundo que triunfa em suas novelas é aquele da exagerada teatralidade de Petersburgo; seu estilo refinado, espirituosa inventividade e significado existencial comprovam o nascimento de um grande talento.Contudo, o establisment de Londres e Paris não demonstravam qualquer pressa em reconhecê-lo. Recusava-se traduzi-lo e publica-lo, simplesmente por ser um refugiado dos bolcheviques, o que aos olhos da intelligentsia ocidental de esquerda era sinônimo de reacionário".
Quando na Europa começaram a publica-lo, alguns críticos foram super hostis. O próprio lançou, sobre ele, toda sua hostilidade: segundo Solomon Volkov,
"A resenha que Sartre produziu sobre Desespero é um bom exemplo (da hostilidade da esquerda ocidental para com Nabokov). Antecipando os argumentos das críticas stalinistas do fim dos anos 40, ele disse que o novelista russo carecia de raízes nacionais, contrapondo-o a escritores soviéticos, "membros úteis da sociedade socialista".
Face a tais hostilidades, fica fácil imaginar as dificuldades que Nabokov entrentou em Paris, onde vivia exilado, após ter vivido em Berlim, quando iniciou atividades literárias no exterior, com o romance "Maria". De Berlin, fugiu do Nazismo. Da França, fugiu das dificuldades causadas por sua situação de emigré. Foi para os EUA em 1940. Lá vivia do ensino da língua e literatura russa em universidades. Continuava, então, a escrever em russo, começando, ao mesmo tempo, a escrever em inglês.Lança seu primeiro livro neste idioma: A vida verdadeira se Sebastian Knght., em 1941. Catorze anos depois, lança Lolita, também em inglês.

Nabokov, nos EUA, influenciou bastante colegas norte americanos. O adjetivo "nabokoviano" passou a fazer parte das análises literárias.Seu período americano durou quase 20 anos e passou a assumir uma nova cidadania. Parou de escrever em russo , se tornando, então, um escritor americano, transformando o ramo do modernismo de Petersburgo no exterior em uma versão especificamente americana. Em contrapartida, plantou o mito de Petersburgo nos EUA, através de obras que tinham por alvo um público que tinha condições de viajar pelo mundo.

Ensinando literatura russa, divulgou sem tréguas a arte de Gógol, enfatizando sua perfeição formal e sua visão existencial. Escreveu, inclusive, uma biografia sobre o autor de "O Inspetor Geral" (infelizmente, inexistente em nosso país, como tantas outras obras de valor; traduziu, genialmente, Eugene Onegin, de Puchkin, desencadeando uma onda de interesse pelo poeta maior no mundo de língua inglesa.

Em 1951 publica sua autobiografia: "Fala memória", que tem como verdadeiro motivo sua terra natal, com ênfase para a cultura liberal e cosmopolita na Petersburgo pré-revolucionária, da qual Nabokov se considerava legítimo herdeiro.

Faleceu na Suíça, em 1977.
Museu Nabokov,em São Petersburgo
na casa que pertenceu à família Nabokov


com a esposa Vera

Túmulo do escritor, em
Cimetière de Clarens, Suíça
ENTRVISTA DE NABOKOV À TV FRANCESA-1975
____________________________________________________________
(1)Considerado emigré o artista russo que buscava liberdade criativa no ocidente. Os primeiros emigrés ou exílios culturais antecederam a Revolução Bolchevique, podendo-se localiza-los já no ano de 1907.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

SINOPSE DO DIA: O PRIMEIRO CÍRCULO (ALEKSANDR SOLJENITSYN) / FILME

Considerada a principal obra de Soljenitsyn, O Primeiro Círculo- publicado originalmente em 1990 - traça o retrato físico, moral e psicológico das prisões especiais criadas por Stalin e Béria, onde os condenados (intelectuais, antigos revolucionários, amigos de Lenin, entre outros) passavam por enormes sofrimentos, cumprindo pena pelo "crime" de não terem acatado alguma vontade de Stalin, mostrado como um ditador sanguinário, sombrio, um Tzar dos novos tempos.

Nestas prisões, centenas de pessoas, cumprindo suas penas intermináveis, passaram seus últimos dias (e aí Soljenitzyn faz uma alegoria ao Inferno de Dante) ardendo em angústia, esperando não a liberdade, mas a remoção para outros lugares ainda mais cruéis: os campos da Sibéria, cujos nomes desfilam pelas páginas deste livro e se fixam em nossa memória.

A obra trás um pouco da experiência do autor, preso em 1945, por coisas que chegou a escrever sobre Stalin, em correspondência com um amigo. Passou por várias prisões e campos de concentração. Depois de oito anos de prisão, foi enviado para exílio no Casaquitão.
Soljenitsyn, que já foi comparado pela crítica internacional a Dostoievski e Tolstoi e que sofreu a hostilidade do regime soviético, perdendo sua cidadania, sendo deportado ,tendo seus livros por longo tempo proibido na URSS.

Em 1992, o cineasta inglês Sheldon Larry transformou a obra de Soljenitsyn em filme: "The first Circle".



APROVEITE, BAIXE O FILME:

http://uprius.com/view1.php?id=198726

OU COPIANDO E COLANDO OS LINKS A SEGUIR NA BARRA DE SEU NAVEGADOR (do link acima):


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Idiomas: francês e inglês


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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

LIVRO DA VEZ: PAVILHÃO DOS CANCEROSOS (ALEXANDR SOLJENITSYN)

Editado no Brasil pela Ed.Expressão e Cultura, 1969, em tradução do inglês. O livro é esgotado, raríssimo, mas talvez possa ser encontrado em sebos (os interessados devem procurar na Estante Vitual ou no Gojaba, dois excelentes sites especializados na venda de livros raros (fica a minha esperança de que a Cosac Naify, editora que se esmera nas traduções e edições dos autores russos, publique este livro).

A obra é uma análise da sociedade soviética e podemos interpretar seu título como se referindo não apenas ao local onde se passa a ação - ambientada em um hospital do Uzbequistão, nos anos 50- mas- também, á sociedade soviética.

O autor escreveu esta obra entre os anos de 1963 e 1966, retratando as memórias de seu tratamento no setor de oncologia do hospital de Tashkent, em 1954.

Sua narrativa, feita em 669 páginas magistrais, gira em torno da rotina de um grupo de cancerosos internados naquilo que, mais do que um hospital, - sujo e lotado, - é um verdadeiro inferno para todos que ali estão, inclusive para os médicos. A impressão que fica é ade que todos stão em processo de expiação de pecados. Existe aí uma alegoria ao Calvário de Cristo.

No decorrer da história vão surgindo os antagonismos,entre os sentimentos humanos e os pensamentos de uma regra coercitiva social puramente materialista, com brilhantes manifestações (algumas concretas, outras simbólicas) do conflito entre liberais e conservadores, existentes na Rússia, até os nossos dias, com discussões que abordam os princípios básicos do socialismo soviético, sempre através da visão humanista de Soljenitsyn.

Aos personagens reais, Soljenitzine acrescentou personagens fictícios, tais como Chaly, um personagem de muita vulgaridade contrabalançada por muito bom humor, dando um sopro de vida ao pavilhão e Shulubin - um velho bolchevique, que substitui seus ideais de toda uma vida por um conceito de socialismo mais humano, nascido de seu próprio sofrimento. . O personagem Oleg seria um reflexo do próprio autor.

A princípio, Soljenitsyn publicou o livro, em capítulos, no periódico "Novo Mundo", não sendo, no entanto, publicado em forma de livro na URSS. O editor Twardovski tentou,por diversas vezes, publica-lo, sem sucesso. Aos poucos, seus capítulos começaram a se espalhar, dispersando-se pela URSS como Samysdát (publicação clandestina, informal, que passava ao largo da censura). Logo a seguir, foi publicado no ocidente, junto com outro livro de Soljenitsin - O Primeiro Círculo, um evento literário internacional e uma dar razões da outorga do Nobel ao autor, em 1970.
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Soljenitsín viveu de setembro de 1918 agosto de 2008. Nascido em Kislodovsk, famosa estação de água na região de Stavropol.










































































































































































































































Casa onde o escritor passou a infância


Agora, imagens de Soljenitsin em vídeo:


Солженицын, как он есть

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

LIVRO DO DIA: A VIDA E AS EXTRADORDINÁRIAS AVENTURAS DO SOLDADO IVAN TCHONKIN(+ filme)

Voinovitch é um mestre da sátira e um dos mais populares escritores da safra soviética. Dos dissidentes, é o único ainda vivo, com 78 anos.
Neste romance satírico, o autor ridiculariza e denuncia, através do personagem Ivan Tchônkin, um guarda simplório e desajeitado do Exército Vermelho, todas as então "inquestionáveis" instituições soviéticas, questionando a reforma agrária e educacional do país, sendo duro em relação ao partido comunista, ao exército (instituição na qual ele serviu de 1951 a 1955) e ... pasmem, até em relação a Stalin.Tudo escrito com irreverência e comicidade.
A temática "do absurdo", no melhor estilo de Gógol ou de Andrei Biely, foi ambientada na segunda guerra mundial.O romance seria editado em 1970, mas - como era de se esperar, foi barrado pela dura censura da URSS. Mas, ao que se sabe, ele circulou secretamente pelo seu imenso país. Ficou famoso no ocidente e foi expulso da União dos Escritores de seu país, perdendo, também, a cidadania soviética, que foi restaurada por Mikhail Gorbachev.
Este livro foi transformado em filme e será matéria de futuro post.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

LIVRO DO DIA: NÃO MORRA ANTES DE MORRER: YEVGENY YEVTUSHENKO

Editora Record
492 páginas
Ano edição: 1995



Um romance histórico, onde o centro de tudo é a Rússia moderna, do pós perestroika, detalhando do golpe de agosto de 1991. A realidade dos fatos é exposta em meio à histórias de amor e suspense político; mistura de biografia e romance; do épico e do romântico. A parte biográfica retrata as lembranças pessoais do próprio autor, em relação a este fato histórico, tão marcante, como o foi a revolução bolchevique. O leitor tomará conhecimento, durante a leitura do livro, de coisas às quais o autor sempre se opôs, como a repressão soviética a KGB, a guerra afegã,as delações e a máfia. Tudo descrito sem rodeios ou máscaras, por um autor que sempre foi um ativista político.
São de Mikhail Gorbachov as palavras a seguir, impressas na contra-capa do livro:





"Recomendo o novo romance de Yevgeny Yevtushenko com imenso prazer. Durante muitos anos ele esteve na linha de frente dos intelectuais que enfrentaram os problemas de nosso país e do mundo inteiro. Neste romance, ele fala com franqueza, tanto como um homem quanto como um artista em busca de respostas para as principais questões da existência. é uma atribuição dos leitores e críticos julgar as qualidades e os defeitos deste trabalho. Mas uma coisa está muito clara para mim: ajudará as pessoas a entenderem profundamente não só o autor, mas também a vulnerabilidade da Rússia atual e, talvez, mais do que isso..."

Yevtushenko nasceu na Sibéria, em Irkutski (mesma cidade onde nasceu
">Nureyev), no ano de 1910 e faleceu em Moscou, em 1970. Foi ator, ´poeta, roteirista e publicitário, além de ativista político que, em 1994, se recusou, publicamente, a aceitar a maior condecoração russa - a Ordem da Amizade entre os Povos, em virtude do derramamento de sangue na Tchetchênia.


Agora, um video que dá vida a Yevtuchenko: ouça sua voz, veja como ele era:





quinta-feira, 9 de setembro de 2010

LIVRO DO DIA: CONTOS DE KOLIMÁ (VARLAM CHALAMOV)

É raro o leitor encontrar um livro com testemunho ou biografia do período de maior repressão do stalinismo. A gente encontra, sim, muitos livros escritos por jornalistas estrangeiros, que não viveram no regime e que não passaram, sequer, perto do gulag...Mas encontrar livros escritos por cidadãos soviéticos, que conheceram a dureza da repressão na pele, isto é, realmente, muito difícil. "Contos de Kolimá", escrito por Varlan Chalamov, vem suprir esta lacuna.Composto por dez contos curtos, foi escrito de 1954 a 1973, só podendo ser publicado nos anos da perestroika.Estes contos descrevem a rotina dos campos de concentração de Kolimá, na Sibéria Oriental, o "coração" do Gulag, onde esteve confinado por mais de 20 anos Varlan Chalamov.
A pena de Varlam descreve angústias, sofrimentos, frio, fome, humilhação, dores, trabalhos forçados, medo do engôdo, enfim, é uma memória viva de um período que não deve ser repetido, de um local onde o indivíduo
"nada retira de útil, de necessário, nem os prisioneiros, nem seus chefes, nem os guardas, nem as testemunhas ocasionais (engenheiros, geólogos, médicos, nem os chefes, nem os subordinados".
Lendo estes contos, destituídos de sentimentalismo barato ou de propaganda anti-comunista, feitos na forma de um relato lúcido de quem viveu tais sofrimentos, a gente sente um soco no estômago em determinadas passagens.
"Cada minuto da vida no campo é um minuto envenenado. Aí há muita coisa que o homem não deve saber, mas se o viu, será melhor morrer".
Mas Varlam não morreu: ele viveu para dar seu testemunho, testemunho este que deveria servir de exemplo para que esta experiência nunca mais se repetisse. Assim que seu livro foi publicado, Varlam morreu!

Maiores detalhes sobre o autor e a obra o leitor poderá encontrar no site do tradutor do livro para a língua portuguesa: o José Milhazes, que mantém um site super legal: www.darussia.blogspot.com

Contos que compõem o livro:
-Leite condensado
- A conspiração dos juristas
- O encantador de serpentes
-Berdi Onje
- Epitáfio
- O primeiro tchekista
- Marcel Proust
-O último combate do major Pugatchov
- O cembro
- A sentença

Fotos do autor:

Fotos de Kolimá:

domingo, 18 de julho de 2010

LITERATURA RUSSA CONTEMPORÂNEA: A VIDA DOS INSETOS (VICTOR PELEVIN)





Nem só de clássicos vive a literatura russa. Sua literatura contemporânea merece nossa atenção, com vários escritores pouco divulgados entre a gente. Posso citar Leonid Tsipkin, excelente, autor de Verão em Baden-Baden; Nikolai Leskov, autor de Lady Macbeth do Distrito Mtzensk; Aleksandr Kuprin, com o livro "O Bracelete de Granadas e Outros Contos" disponível em nossas livrarias; Andrei Platónov; Valentin Rasputin; Liudmila Ulitskaya, com alguns livros livros traduzidos para o português e Nina Gorlanova, entre outros; meu destaque vai para Victor Pelevin, o mais bem sucedido entre a atual safra de escritores da Rússia.

As opiniões sobre ele entre os russos são controversas. Seu principal público são os adolescentes; atribui-se a isto o fato de ele ter sido expulso da escola secundária por rebeldia. Eu, particularmente, acredito que tal controvérsia possa ocorrer devido ao fato de Pelevin desenvolver uma literatura mística (ele é budista), uma literatura do absurdo. Mas este estilo às vezes me reporta a Kafka e Gogol.

Faço aqui, no entanto, um parêntese: quando cito Gógol e Kafka, o faço apenas em relação à prosa do absurdo. A prosa de Pelevin, todavia, é bem diversa da prosa dos autores clássicos, sobretudo dos russos: bem mais simplista, com uso eventual de palavrões. Não existe mesmo termos de comparação. Sinceramente, prefiro um Tolstoi ou Dostoievski a ele. Creio, porém, importante conhecer esta safra de novos escritores para não ficar parado no tempo. A Rússia continuou a criar, depois que seus titãs se foram...

Voltando a Pelevin, sua prosa se situa entre o explícito e o implícito, deixando - maior parte das vezes, para o leitor dar seu significado ao texto. Tanto assim é que da introdução de uma de suas
novelas consta a seguinte nota

"Qualquer pensamento que surja no processo de leitura este livro está sujeito ao copyright. Proíbe-se o pensamento não autorizado".
Pelevin é um autor que curte fazer mistério a respeito de si mesmo, mais ou menos 'a la Castaneda : quase não dá entrevistas e, quando o faz, pouco fala sobre o que escreve. Existem raríssimas fotos dele na rede e quase todas as existentes o apresentam com um inseparável óculos escuro e calça de couro preta. Não sei se este é seu estilo real ou coisa de marketing.

Diferente também é no que tange a direitos autorais: liberou tudo o que escreveu antes do ano 2000 para uso não comercial na internet, tanto em formato e-book como em aúdio livros(versão russa).

Outra característica deste escritor é não falar muito sobre o período soviético, preferindo escrever sobre os problemas de seu tempo, surrealisticamente, beirando a esquisitez...

Em "A vida dos insetos",sátira política, obra formada por 15 capítulos imperceptivelmente interligados, o autor satiriza a vida da Rússia nos anos 90, após a perestroika.Seus personagens, os insetos e humanos, vivem nos arredores de um decadente hotel de veraneio às margens do mar negro, freqüentam cinemas, restaurantes, trabalham, há os que filosofam, falam outros idiomas, têm crises existenciais e alguns, como os índios de Castaneda, usam haxixe; enfim, são insetos que agem como humanos.

Existem, também, os personagens humanos, que se comportam como insetos. E, desta forma, os personagens vão se metamorfoseando entre humanos e insetos, numa leitura instigante.

"A vida dos insetos é um divertido convite à análise de uma sociedade através de como pensam, sentem e agem os insetos-humanos russos Mitia, NIkolai e Marina, bem como o norte-americano Sam Sacker".

Para ser bem sincera, este não foi o livro de Pelevin que gostei mais: prefiro "Geração P", realmente muito bom. Alguns contos de A vida dos insetos me pareceram plenos de influência americana, o que foge totalmente de tudo o que eu gosto e admiro. Deixei de reconhecer a Rússia nesta obra. Mas não" desindico". Gostaria, inclusive, de conhecer opiniões de outros leitores, o que poderia me ajudar na avaliação deste livro.

sábado, 17 de abril de 2010

LIVRO DO DIA: EM RITMO DE CONCERTO (NIKOLAI DEJNIIÓV)

Delícia de livro: uma sátira social e política pra ninguém botar defeito, reafirmando que nem só de clássicos vive a literatura russa. Como está descrito na contracapa do livro, trata-se " de uma bem-humorada história de amor na Moscou dos dias atuais".

A história é, resumidamente, o seguinte:
Lucário é um anjo que volta à terra para expiar seus pecados. Vivendo como duende na casa de uma senhora, vê seu mundo transformar-se quando conhece Ana, sobrinha da mulher. Aí entra em cena o eterno conflito: a gente deve viver o lado espiritual ou o material? E este dilema envolve Lucário, que fica indeciso entre seguir rumo à purificação total de seu espírito ou tomar a forma humana e tentar o amor de Ana. E, a partir deste enredo, a trama segue seu curso um tanto fantástico, mas sem cair em pieguices a que estão vulneráveis tais temáticas.

A tradução é impecável, de Paulo Bezerra.

Um pouco sobre o autor:
Nikolai Borissovitch Dejnióv, cujo sobrenome verdadeiro é Popov, nasceu em Moscou, em 18 de maio de 1946.
Passo o período de 1964 a 1970 estudando no Instituto Moscovita de Física e Engenharia (MIFI).
Trabalhou na área até 1972 e continuou a estudar, se formando na Academia de Comércio Exterior da URSS em 1980, passando a trabalhar no Ministério de Ciência e Tecnologia da URSS. Entre 1983 e 1989, esteve servindo na ONU, em Viena, no âmbito da cooperação técnico-científica internacional.

A partir de 1988, parou com todas as suas atividades, passando a se dedicar apenas à literatura. Escreveu pouco menos de 20 livros, mas -infelizmente, só tenho notícias de ter sido traduzido para o português, no Brasil, o livro em questão.

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