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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Um pouco de Pushkin: A Perfídia




A Perfídia

Se teu amigo, ao ouvir-te as razões,
Retira-se em silêncio causticante;
Se a mão afasta da que lhe propões,
Como de cobra, a estremecer no instante;
Se ele, cravando em ti o agudo olhar,
Move a cabeça desdenhosamente,
Não digas: "Está louco de pesar:
É, de fato, um garoto, está doente";
Não digas: "Ele é todo ingratidão;
Irado e fraco não merece estima;
A vida, sonho mau, faz-lhe aflição..."
Estarás certo? É a calma que te anima?
Se é assim, dispõe-se ele a morrer
Afim de reconciliar-se cm o amigo.
Porém se da amizade o almo poder
Usavas para afronta iníqua, digo,
Porém se espicaçavas com ardis
Sua imaginação desconfiada,
E eram teus recreios senhoris
Ver-lhe, triste e a gemer, a alma ultrajada;
Porém se foste da calúnia vil
Para o enodoar eco despercebido,
Se grilhões lhe lançaste, e a quem hostil
Lhe era, a rir, o entregaste adormecido,
E ele leu de tua alma na mudez
O oculto, com o olhar cheio de ânsia,
Basta! de frases fúteis não é vez:
Estás julgado em derradeira instância.

(1824)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Um conto da Nova Cartilha de Tolstoi: A tia conta como aprendeu a costurar



(crédito: https://yandex.ru/images/

Em outro post, já tive a oportunidade de falar sobre os "Contos da Nova Cartilha" e o projeto pedagógico de Liév Tolstói. Quem tiver curiosidade a respeito, clique aqui. Hoje, deixo apenas um dos contos que compõem o Primeiro livro de leitura deste fabuloso trabalho do mestre russo, intitulado "A tia conta como aprendeu a costurar", extraído do meu exemplar da obra, editado pelo Ateliê Editorial.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Um pouco de poesia: Ievguêni Ievtushênko


Com base no site http://www.evtushenko.net/, o poeta nasceu no dia 18 de Julho de1833 como Ievguêni Alksándrovitch Ievtushênko, na parada Zimá, região de Irkutsk, Sibéria, filho de Aleksandr  Rudol'fovitch Gangnus e de Zinaída Ermolaevna Ievtushênko. O pai, que viveu de 1910 a 1976, era geólogo, e a mãe, tammbém geóloga, era atriz e personalidade veterana da cultura soviética, também nascida em 1910, mas que sobreviveu ao marido até o ano de 2002.

sábado, 10 de outubro de 2015

Discurso Sobre Pushkin, o marco zero da carreira de Dostoievski


O post de hoje  fui buscar no número 1 da  Rus -Revista de Literatura e Cultura Russa, uma publicação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas da USP. O artigo que selecionamos para esta postagem se refere ao  início da aclamação pública de Dostoievski, que se deu no Festival Pushkin, onde o autor de Crime e Castigo fez um discurso sobre o grande poeta russo.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Um conto de Aleksandr Afanas'ev: Volga e Vazuza



Hoje deixo aqui mais um conto popular russo, compilado por Aleksandr Afanas'ev(1): "Volga(2) e Vazuza(3)",respectivamente dois rios russos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Contos populares russos: A velha que fugiu de casa

Um velho e sua velha estavam sentados diante do fogo. A velha olhou para o campo, pela janela, e disse:
_ Se tívessemos um filhinho chamado Ivanushka e uma filhinha chamada Alionushka, nosso filho teria arado o campo e semeado cereais, os cereais teriam crescido e nossa filha o teria ceifado; eu teria cultivado o malte, feito cerveja e convidado toda a minha família, mas não teria convidado a sua!
_ Nada disso, teríamos convidado a minha família e não a sua! _disse o velho.
_ De jeito nenhum, eu convidaria os meus parentes, e não os seus!
O velho levantou-se de um salto e começou a arrastar sua mulher pelas tranças. Arrastou-a até conseguir tira-la de perto do fogo.

Então o velho saiu para buscar lenha e a velha preparou-se para fugir de casa;

assou tortas,assou pão, colocou tudo num grande saco e foi se despedir de sua vizinha. Mas, de uma forma qualquer, o velho ficou sabendo do plano; voltou para casa, tirou de dentro do saco tudo o que sua mulher preparara para a viagem, colocou o pão e as tortas na dispensa e entrou no saco.
A velha chegou em casa, colocou o saco nas costas e pôs-se a caminho.
Depois de caminha por 5 ou 6 verstas, ela parou e disse:
-Como seria bom me sentar em um toco de árvore, agora, e comer um pedaço do bolo.
- O velho gritou de dentro do saco:
=Vejo tudo, ouço tudo.
- Ah, o demônio amaldiçoado, ele pode me pegar, pensou a velha e continuou andando.
Caminhou mais umas 6 versas e disse:
- Ah, como seria bom me sentar em um toco de árvore, agora, e comer um pedaço do bolo.
=Vejo tudo, ouço tudo - gritou o velho.
Ela apertou o saco mais uma vez; andou muitas verstas e não tendo comido nem bebido nada, ficou tão cansada, que suas forças lhe fugiram.
= Aconteça o que acontecer, vou parar aqui - pensou a velha. Vou descansar um pouco e comer alguma coisa.

Foi então que descobriu o marido dentro do saco.
Implorou-lhe:
-Paizinho, perdôe-me, nunca mais vou tentar fugir de casa!
O velho perdoou-a e voltaram para casa juntos.

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Atenção: para a turma que estuda russo, aqui vai o texto na sua língua original:
Сидели старик со старухою на печи. Старуха смотрит в окошечко на поле и говорит: «Что, старик, кабы
был у нас сынок Иванушка, да была дочка Аленушка, вот бы сынок вспахал тут да посеял хлеба, хлеб-то бы
вырос, а дочка сжала; нарастила бы я солоду, наварила бы пива, всю родню свою созвала бы, а твоих не
позвала б!» — «Нет, моих позови, а своих не надо!» — говорит старик. «Нет, своих позову, а твоих не надо!»
Старик вскочил и ну таскать старуху за косу; таскал-таскал и с печи столкнул.
Старик поехал в лес за дровами, а старуха бежать собралась; напекла пирогов да хлебов, уложила в
большой мешок и пошла к соседке прощаться. Узнал как-то про это старик, воротился домой, повынул из
мешка все, что баба на дорогу заготовила, отнес пироги да хлебы в клеть, а сам сел в мешок. Старуха пришла
домой, подняла мешок на спину и ударилась в беги. Сделала верст пять или шесть, остановилась и говорит:
«Сесть было на пенек, съесть было пирожок!» А старик из мешка кричит: «Вижу-вижу, слышу-слышу!» —
«Ах, проклятый, он, пожалуй, догонит!» — думает старуха и пустилась дальше. Опять верст шесть отошла и
говорит: «Сесть было на пенек, съесть было пирожок!» — «Вижу-вижу, слышу-слышу!» — кричит старик.
Она опять бежать; много верст отсчитала и так-то приустала, не пивши, не евши, что и сил больше не
хватает. «Что́будет — не будет, остановлюся здесь, — думает старуха, — отдохну маленько да закушу». Глядь
— а в мешке-то муж. Взмолилась старуха старику: «Батюшка, помилуй! Николи вперед не стану бегать».
Старик ее простил, и пошли вместе домой.



sábado, 5 de setembro de 2015

UMA CARTA DE GORKI A TCHEKHOV


acima: Gorki e Tchekhov em 1900, nos jardins
da dacha de Tchekhov, em Yalta

 
A carta aqui transcrita foi extraída do livro "Carta e Literatura - Correspondência entre Tchékhov e Górki". Lançado pela Edusp, vale a pena ser lido do começo ao fim.
Estes dois titãs da literatura russa se conheceram pouco antes de morte de Tchékhov, aos 40 anos. Entre eles nasceu uma amizade e uma relação 'mestre/discípulo': Gorki, apesar de mais velho, estava no início de sua carreira. Passaram a se corresponder com freqüência , passando a existir entre ambos verdadeira troca intelectual. E é um pouco desta troca que deixo para vocês hoje. Trata-se de uma carta de Gorki a Tchekhov, na qual ele expõe suas impressões sobre Lev Tolstoi, após te-lo ido conhecer nos arredores de Moscou. Apaixonada que sou pelo velho conde, amei esta carta, em especial e da definição que o escritor do "realismo soviético" dá a gênio: Lev Tolstoi!


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Conto "A Conversão do Diabo"- Leonid Andrêiev

Quadro de Andreiev feito pelo pintor russo Ilyá Repin

 Hoje postamos o conto "A Conversão do Diabo", de Leonid Andrêiev, no qual o autor, de forma irônica, faz uma reflexão sobre o bem e o mal. Foi publicado no Brasil numa coletânea já esgotada, intitulada A Maravilha do Conto Russo. Está, também, inserido no livro "Contos Russos Eternos", disponível em algumas livrarias, entre elas, a Travessa, por R$ 55,00. 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Caderno de Literatura e Cultura Russa: PDF

'O Curso de Russo do Departamento de Letras Orientais da FFLCH-USP inicia a publicação de seu 'Caderno de Literatura e Cultura Russa', revista bienal destinada a estudiosos, pesquisadores e ao público interessados em assuntos russos. Trata-se de páginas de apresentação, análise e discussão de temáticas referentes às áreas de literatura, artes, filosofia e ciências humanas em geral, cujos autores são especialistas, alguns já consagrados, que vêm-se dedicando incansavelmente à divulgação e à pesquisa desses assuntos entre nós'." (Editorial do livro)

domingo, 22 de dezembro de 2013

Um conto popular russo: "Shemiaka, o juiz



 Este conto é um antigo conto popular russo, do gênero satírico, baseado num personagem real: Shmliaka representa o príncipe Dmitri Shemliaka, grande príncipe de Moscou, morto em 1453) e famoso, na história russa, por sua crueldade, perfídia e  por suas velhacarias e injustiças cometidas. (representação abaixo).
Alegoricamente, este conto representa a injustiça dos julgamentos da época: é a paródia de um julgamento injusto.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

A tradição russa dos contos de fadas



A paixão dos russos pelos contos de fadas é muito antiga. Começou bem antes das pessoas saberem ler ou escrever. Naquela época, todos - ricos e pobres, crianças, adultos e velhos - se deliciavam contando histórias em grupos.
Os camponeses costumavam ouvir as histórias ao redor de fogueiras e, assim, de história em história, iam levando  suas vidas, trabalhando muito, plantando, colhendo e torcendo para uma vida melhor. Conversavam, bebiam vodca, faziam brincadeiras e criavam histórias. Mas o amor pelos contos de fadas entre os russos vai além dos camponeses, é geral e não está só nas histórias contadas ou escritas nos livros: está, também, no balé.



sábado, 23 de fevereiro de 2013

Cadernos de Anotações de Dostoievski : a preparação da obra





 Dostoievski, o grande gênio da literatura russa, possuía um hábito,que não o do jogo: o de manter cadernos de anotações. Antes de começar a redigir qualquer uma de suas obras, Dostoievski desenvolvia a ideia que tinha em mente em cadernos de anotações. Neles, o autor 'dava a luz' seus personagens, fazia o esboçava a trama, lançava ideias soltas, sem conectá-las entre si. E desenhava. Desenhava cenas, personagens, etc.Destas anotações constavam vários lembretes e reflexões sobre determinado assunto.Muitas das anotações tinham o lixo como destino. Eram reescritas. Depois de preencher diversas folhas, ia nascendo a obra, o nexo entre situações e personagens.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

CONTO: UMA HISTÓRIA DIVERTIDA (MIKHAIL ZOSCHENKO)

O conto de hoje é de autoria de Mikhail Zoschenko, um escritor satírico, nascido em Poltava, Ucrânia e viveu no Império Russo entre os anos de 1895 e 1958. Apesar de ucraniano, esteve sempre ligado à cultura peterburguense, já que passou grande parte de sua vida em São Petersburgo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O LIVRO DO DIA: NOVA ANTOLOGIA DO CONTO RUSSO (1792/1998


Maravilha de lançamento do final de 2011 da Editora 34: Nova Antologia do Conto Russo. O livro engloba a produção feita no período de 1792 a 1998. São 40 autores, muitos deles pouco ou nada conhecidos no Brasil. O organizador da obra é Bruno Barreto Gomide, professor da USP. Todos os contos foram traduzidos diretamente do russo, como já é prática desta excelente editora. O "time" de tradutores é de primeira: só para citar alguns, tem-se a Arlete Cavalieri, Aurora Bernardini e Boris Schnaiderman. Os amantes da literatura russa sabem o peso destes nomes.
São 40 obras, em sua maior parte inéditas por aqui, apresentando o rico panorama da literatura russa ao longo da história, que provam que 
"na arte do conto, tanto em número como em qualidade - e abarcando uma diversidade de tons e temas -, os russos são igualmente magistrais".
São os seguintes autores desta antologia:


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O POBREZINHO NA CASA DE CRISTO NO DIA DE NATAL (DOSTOIEVSKI)


 Esta época do ano sempre me trouxe um misto de tristeza e de alegria. Alegria óbvia, gerada pelas festividades, pela confraternização com família e amigos, pelo consumismo exacerbado, representado na troca de presentes... Tristeza -  sentimento que nasce do meu lado mais humano, ao ver a injustiça que esta época representa ou  evidência aos píncaros da falta de humanidade,principalmente para os  pequeninos desvalidos, muitas vezes sem um teto e uma família, que devem se perguntar "porque Papai Noel" não se lembra de mim?". Na cabecinha destas crianças não deve passar que a culpa é de um sistema injusto e cruel, que os exclui, os ignora, enquanto beneficia, até em excesso, os que nasceram em "berço esplêndido" (e, as vezes, nem tão esplêndido, mas que têm pais que se enforcam na armadilha dos cartões de crédito)...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Literatura soviética com Veniamin Kaverin: Os Dois Capitães



O mercado editorial brasileiro tem lançado boas obras da literatura russa, mas existe, ainda, uma enorme lacuna, principalmente no que concerne à literatura soviética, que legou grandes obras, obras geniais e que são completamente desconhecidas  - ou quase - por aqui. Podemos citar "O Don Silencioso", fantástico romance de Mikhail Cholokhov. Desconheço edição desta obra em português do Brasil, só sendo encontradф (e quando o é) em edição portuguesa, mesmo assim, maior parte das vezes, em sebos. Tem, ainda, a obra de Ilf e Petrov, com seu clássico "As doze Cadeiras", seguido de "O bezerro de ouro", isto para não citar outros, como Zamiatin (Nós), "Casamento Por Interesse", de Mikhail Zoschenko, além de um dos maiores clássicos desta literatura: "Os Dois Capitães, de Veniamin Kaverin. Estes dois últimos só são encontrados em espanhol e, o de Kaverin, apenas nos sebos. Realmente, não dá mesmo para compreender, tendo em vista a qualidade das obras citadas.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

NIKOLAI BERDIÁEV : UM PEQUENO TRECHO - PARTE 1


 Nikolai Berdiáev foi um  filósofo russo-ucraniano,  nascido em Kiev, no seio do Império Russo. Veio ao mundo  numa família militar aristocrata, tendo lido, na infância, toda a biblioteca de seu pai. Leu Hegel, Schopenhauer e Kant com apenas 14 anos de idade.Em  1984 ingressou na Universidade de Kiev, passando a viver num ambiente revolucionário e intelectual, tornando-se Maxista. Em 1898 foi preso em uma manifestação estudantil e expulso da universidade. Mais tarde, o seu envolvimento em atividades ilegais  o levou a três anos de exílio na região central da Rússia, uma sentença leve se comparada com o que foi infligido a muitos outros revolucionários. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

TRÊS DIAS NA VIDA DE TOLSTOI


Os "Diários Íntimos de Lev Tolstoi e Sofia Tolstaia  foram editados, no Brasil, em 1943 pela Editora Vecchi. Esta é a edição que tenho e desconheço outra. Não compreendo  o desinteresse de nosso mercado editorial por esta obra, essencial para os amantes da literatura russa . Enquanto não surge alguém que a queira reeditar, vou compartilhando pequenos trechos com o amigo do blog. 

O trecho escolhido para hoje foi o do dia. 3/10/1910, pouco menos de um mês da morte deste titã e foi extraído do diário de Sofia (veja outros trechos aqui).
 Sofia Andreievna
Os dois, Lev e Sofia, viviam, então, a pior crise na história de seu casamento e, neste trecho Sofia, mulher possessiva e de gênio forte, sentiu arrependimento de suas ações ao ver o estado do marido.
 "Pela manhã Liev Nikoláievitch  passeou, depois andou a cavalo durante alguns instantes; de volta a casa, queixou-se de suas pernas entorpecidas de frio e deitou-se sem tirar as botas. Entrei no quarto dele durante nosso almoço e reparei aterrorizada que ele estava divagando e mergulhando no sono. Depois começou qualquer coisa de horrível. Contorções de rosto, caimbras pavorosas nas pernas. Dominou-me o terror, o desespero e o arrependimento. À noite as caimbras cessaram. Passei a noite toda numa cadeira junto a Lev Nikoláievitch. Ele dormia, embora gemesse muito. Durante a noite, minha filha Tania chegou".
Sierguiei Tolstoi (1) escreve, em sua biografia, que neste mesmo dia,
"depois que despimos e deitamos meu pai, minha irmã Sacha(2) retirou seu pequeno Diário do bolso da sua blusa e mo entregou...A 4 de outubro, pela manhã, meu pai despertou inteiramente lúcido, após ter dormido um sono profundo, mas estava muito fraco: perguntou a Sacha onde estava seu pequeno Diário. Sacha disse_lhe que estava comigo e chamou-me. Entreguei o Diário a ele, dizendo:"Não o li".
Tive a alegria de ouvi-lo dizer: "Oh, tu, tu terias podido lê-lo".
A situação, tanto física quanto emocional, do escritor, foi se deteriorando mais e mais e no dia 26 de outubro, Tolstoi escrevia em seu Diário:
"Esta vida me pesa cada vez mais.Maria Aleksandrovna(3) me proíbe de partir e minha consciência também não mo permite. Suportá-la, sem que alguma coisa exterior se transforme, mas trabalhar, ao mesmo tempo, na transformação dos meus sentimentos interiores. Meu Deus, ajuda-me!"
Maria Aleksandrovna havia lhe dito as seguintes palavras, ao ouvir dele suas intenções de se afastar de Iasnaia Poliana:
"Lev Nikolaevitch, meu querido, isto há de passar, é uma fraqueza momentânea."E o conde assentiu:
"Sim, sim, sei que é uma fraqueza, isto há de passar, espero que passe".
Em 31 de Outubro, já em Astapovo, sua última estação, Tolstoi fez a sua última anotação no Diário, à 1 hora e trinta minutos da tarde:
"Se quisermos esclarecer pela noção de Deus os fenômenos da vida, não se encontrará nesta noção de Deus e da vida coisa alguma fundamentada e sólida. São raciocínios vãos que a nada conduzem. Só conhecemos Deus adquirindo consciência de sua manifestação em nós mesmos.Todas as decisões de nossa consciência e a direção da vida que nela se baseia dão sempre plena satisfação ao homem, tanto para conhecimento do próprio Deus, quanto para a direção da vida fundada sobre esta consciência".
_____________________________________________________
(1)Serguey Tolstoi, filho do casal, responsável pelo
prefácio aos Jornais de Sofia Andreevna. Foi músico.

(2)Aleksandra Tolstaia, filha caçula do escritor, falecida em 1979, aos 95 anos. Era ela quem redigia os manustritos do pai.Fotos dela a seguir:
Sacha é a pequenina perto do pai
No fim da vida
(3)Filha mais velha do poeta Aleksandr Puchkin e grande amiga de Tolstoi, retratada, a seguir, na juventude. Na época em que Tolstoi escreveu seus diários, Maria já era uma senhora idosa.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O PÁSSARO DE FOGO: MAIS UM CONTO DA TRADIÇÃO RUSSA

 Há tempos atrás postamos um conto intitulado "Vassilissa, a Bela", um dos mais conhecidos da tradição russa. No conto popular de hoje a personagem é a Vassilissa, só que em outra situação: sem Baba Yaga, sem madrasta, enfim, esta é uma das muitas histórias que usam esta personagem.Aproveite e a conte a seu filho. Com certeza ele irá gostar e você o estará acostumando a gostar de ler...

Em certo reino, situado nos confins da terra, vivia um czar forte e poderoso que tinha ao seu serviço um jovem archeiro, possuidor de um belo cavalo. Uma vez, o o jovem foi caçar no bosque com seu galhardo cavalo. Enquanto trotava pelo caminho ele encontrou uma pena de ouro do pássaro de fogo.
Era uma pena que brilhava feito uma chama! O cavalo avisou-o:
- Não apanhes a pena de ouro, senão terás problemas!
E o valente rapaz pensava: "Apanho-a ou não? Se a apanhasse e a oferecesse de presente ao czar, ele recompensar-me-ia generosamente". E o archeiro não deu ouvidos ao cavalo. Apanhou a pena do pássaro de fogo e ofereceu-a de presente ao czar.
- Obrigado - agradeceu o rei. -Mas, já que foste capaz de encontrar uma pena do pássaro de fogo, traz-me também o pássaro! Se não o encontrares, aqui está minha espada. A tua cabeça cairá.
O archeiro começou a chorar amargamente e foi ter com seu belo cavalo.
Porque choras, meu amo?
- O czar mandou-me trazer-lhe o pássaro de fogo.
- Eu bem te avisei que não apanhasses a pena, pois te meterias em apuros! Deixa estar, não tenhas medo, nem fiques triste.Isto não é ainda nenhuma desgraça; a desgraça virá depois! Vai ter com o czar e pede-lhe que mande espalhar, amamhã, pelos campos cem sacos de grão.
O czar cedeu ao pedido e assim se fez.
No dia seguinte, de madrugada, o jovem dirigiu-se para os campos.
Deixou o cavalo passear livremente e escondeu-se por detrás de uma árvore. De repente a folhagem mexeu-se e as águas agitaram-se. Era o pássaro de fogo que voava muito alto, no céu. Chegou, pousou no chão e pôs-se  a bicar os grãos. O galhardo cavalo aproximou-se dele, pousou um casco em cima de uma de suas asas. segurando-a com força contra a terra.
 Nesse momento, o valente archeiro saiu de trás da árvore, atou com uma corda o pássaro de fogo, montou o cavalo e galopou em direção ao palácio, levando-o ao czar. Ao vê-lo, o soberano mostrou-se satisfeito, agradeceu ao archeiro o bom serviço que lhe prestara, recompensou-o fazendo-o subir de categoria e deu-lhe de imediato uma nova tarefa:
- Se foste capaz de segurar o pássaro de fogo, agora procura também minha noiva. No último dos reinos, nos confins da terra, onde o sol nasce em fogo, encontra-se a princesa Vassilissa: é ela que eu quero. Se a encontrares, recompensar-te-ei com ouro e prata. Caso a contrário, eis a minha espada: a tua cabeça cairá.
O archeiro foi ter com seu belo cavalo.
-Porque choras, meu amo?
- O czar ordenou-me que encontrasse a princesa Vassilissa e lha trouxesse para o palácio.
- Não chores, nem te aflijas. Isto ainda não é nenhuma desgraça. A desgraça virá depois! Vai ter com o czar e pede-lhe uma tenda com uma cúpula de ouro, comida e bebida para a viagem.
O czar deu-lhe comida, bebida e a tenda com cúpula de ouro.
O valente archeiro montou o seu galhardo cavalo e iniciou a viagem ao último dos reinos. Depois de muito andar, chegou aos confins do mundo, onde o sol nasce, em fogo, do mar azul. Olhou com atenção e notou que no mar navegava a princesa Vassillissa numa barquinha de prata, remando com remos de ouro. O valente arqueiro pôs o cavalo a pastar no verde prado, onde havia erva fresca. Entretando, montou a tenda da cúpula de ouro, arrumou a comida e a bebida, sentou-se e começou a comer, enquanto esperava pela rapariga.
Vassilissa viu a cúpula de ouro e dirigiu-se para a margem; desceu da barquinha a fim de ver melhor a tenda. 
- Olá, princesa Vassilissa! Entrai e provai os vinhos de além mar - convidou o arqueiro.
 A princesa entrou na tenda. Começaram a beber, a comer e a divertir-se. Ela bebeu um copo de vinho de além-mar, embriagou-se e mergulhou num sono profundo. O valente archeiro  com um grito chamou o cavalo, que apareceu imediatamente. O jovem desarmou a tenda da cúpula de ouro, saltou para o cavalo, levando consigo a princesa Vasilissa, que dormia, e pôs-se a caminho, veloz como uma flecha saída de um arco.
Chegou à presença do czar que ficou muito contente ao ver Vassilissa e agradeceu ao archeiro o bom serviço prestado. Recompensou-o com uma grande quantia de dinheiro e conferiu-lhe uma categoria muito elevada. Entretando, a princesa Vassilissa acordou e apercebeu-se de que se encontrava muito longe do mar azul. Suas feições alteraram-se e ela desatou a chorar, com saudades. Por mais que o czar a consolasse, tudo foi em vão. O czar a pediu em casamento, mas ela respondeu:
- Manda ao mar azul aquele que me trouxe aqui. No meio do mar há uma grande pedra, debaixo da qual está escondido o meu vestido de noiva. Não me casarei enquanto não tiver aquele vestido.
O czar chamou logo o valente archeiro:
- Rápido, vai aos confins do mundo, onde nasce o sol em fogo. Aí, no mar azul, há uma grande pedra, debaixo da qual está escondido o vestido de noiva de Vassilissa. Encontra-o e traga-o aqui.Chegou o o período do casamento.Se o conseguires, recompensar-te-ei ainda melhor do que antes. Caso contrário, eis a minha espada. A tua cabeça cairá.
O archeiro, chorando lágrimas amargas, foi ter com o seu belo cavalo: "Desta vez, não escapo".
- Porque choras, meu amo? - perguntou o cavalo.
- O czar ordenou-me  que procurasse no fundo do mar o vestido de noiva da princesa Vassilissa.
- Pois é, eu bem te disse que não apanhasse a pena de ouro, porque só te iria trazer problemas! Não tenhas medo. Isto ainda não é uma desgraça. A desgraça só virá depois! Sobe para a minha garupa e vamos ao mar azul.
Depois de muito cavalgar, o valente archeiro chegou, então, aos confins do mundo e parou à beira do mar. O cavalo viu um enorme caranguejo que se arrastava pela areia e pôs-lhe o seu pesado casco em cima da carapaça.
O caranguejo implorou:
- Não me mates! Deixa-me viver! Farei tudo o que me ordenares!
O cavalo respondeu-lhe:
- No meio do mar azul encontra-se uma grande pedra, debaixo da qual está escondido o vestido de noiva da princesa Vassilissa. Vai busca-lo!

O caranguejo mergulhou e logo as águas fervilharam. Vindos de todos os lados chegavam em grande quantidade à praia pequenos e grandes caranguejos. O velho caranguejo deu-lhes uma ordem e imediatamente se lançaram à água. Uma hora depois traziam o vestido de noiva da princesa Vassilissa.
O valente archeiro regressou para o entregar ao czar, mas de novo Vassilissa se esquivou:
- Não casarei  contigo enquanto não ordenares ao jovem archeiro que tome um banho em água fervente.
O czar, então, ordenou que enchessem de água uma grande banheira de ferro e que a água fosse a mais quente possível. Quando a água estivesse fervendo, que lançassem o archeiro dentro dela.

Depois de tudo pronto, os guardas trouxeram o jovem à presença do czar.
"Que desgraça a minha! Porque não dei ouvidos ao cavalo?" - pensava o infeliz.
Naquele momento, lembrou-se do cavalo e disse ao soberano:
-"Czar soberano, permita-me que me despeça do cavalo antes de morrer!"
- Está bem, concedo-te este último desejo.
O arqueiro, então, se dirigiu chorando ao cavalo.
- Porque choras, meu amo?
- Ai de mim! O czar mandou-me tomar banho em água escaldante e eu, com certeza, morrerei.
- Não tenhas medo, não chores. Não morrerás - disse-lhe o cavalo, que rapidamente fez um feitiço ao archeiro, de modo que a água fervente não lhe estragasse o corpo branco.
O archeiro voltou, então, para junto do czar.Logo os guardas o amarraram e o lançaram dentro da banheira. O pobre foi ao fundo uma ou duas vezes e depois voltou para fora.
O espanto foi geral: o archeiro tinha ficado tão belo, que não haveria pena capaz de descreve-lo!
Quando o czar viu que o archeiro tinha ficado tão belo, desejou banhar-se também. Mergulhou na água e,num instante, morreu. Sepultaram-no e, em sua substituição, escolheram o valente cavaleiro. Este desposou a princesa Vassilissa e viveu com ela para sempre.
Fonte: Os mais belos contos de fadas russos

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

SINOPSE DO DIA: ASSIM FOI TEMPERADO O AÇO(NIKOLAI OSTROVSKI)

Ostrovski foi um romancista russo nascido em 1904 e falecido em 1936. Ficou conhecido por "A construção de um herói", lançado no ano de sua morte.Este foi considerado o primeiro volume(inacabado) de "Nascido da Tempestade"(1936). Teve seus trabalhos publicados no período stalinista e é considerado um dos maiores representantes da prosa do chamado "realismo socialista".


 "Assim foi temperado o aço" é um romance autobiográfico que começou a ser publicado, na Rússia, em abril de 32 na revista "Jovem Guarda".
Em novembro do mesmo ano saiu em forma de livro, em duas partes. Em pouco tempo o romance conseguiu grande popularidade, com uma tiragem de mais de 36,4 milhões de cópias.
Em linhas gerais pode-se resumi-lo dizendo que ele é a narrativa do de um jovem revolucionário -Pável (Pavliuk), persistente na defesa das conquistas do governo soviético durante a Guerra Civil. As dificuldades e tensões de sua vida  simbolizam a história da classe operária russa, servindo de propaganda da máxima de que "os comunistas possuem uma vontade inquebrantável".
O cenário da obra é a Rússia de 1917, as mobilizações, a greve geral e a vitória bolchevique.
Posterior à vitória, vem a Rússia do "comunismo de guerra" : uma verdadeira luta pela sobrevivência do novo regime, o que faz surgir a NEP. Em seguida, vêm os longos debates dos comunistas a respeito dos caminhos para a construção do socialismo.Dez anos depois, o país se transforma numa grande potência industrial, capaz de derrotar os nazistas na II Grande Guerra. Neste contexto social, o trabalho de educação política ganha novas dimensões, lançando-se mão de todos os recursos disponíveis para a formação dos 'novos homens'. soviéticos. Artes gráficas, TV, rádio, cinema, escola, literatura, tudo a serviço desta missão de incutir os novos valores da nova ordem: surge o realismo socialista, do qual já falamos em mais de um post neste blog.Este livro é uma das manifestações mais conhecidas desse processo, tanto dentro da URSS, como no exterior.

Assim como seu personagem principal, Ostrovski também lutou pela causa: escreveu seu livro - uma obra colocada a serviço da causa soviética -apesar de uma séria doença que lhe impedia os movimentos e causava cegueira. 
Em seu país foi cercado de grande devoção e popularidade.
 Trotski que em seu livro "Literatura e Revolução" faz uma crítica feroz contra muitos escritores russos, não perdoando, as vezes, nem os soviéticos (chegou a chamar Gorki de "cantor de salmos") faz uma defesa apaixonada de Ostrovski, em resposta a um certo crítico literário da época que disse que o  tema de rapto, através da comédia grega, chegou a Ostrovski. Trotski rebate:
"Sim, os temas emigram de povo para povo, de classe para classe, de autor para autor. Isso significa, simplesmente, que a imaginação humana é parcimoniosa. Uma nova classe não recomeça a criar toda a cultura desde o início, mas se apossa do passado, escolhe-o, retoca-o, o recompõe  e continua a construir daí. Sem o uso do guarda - roupa de segunda mão do passado não haveria progresso no processo histórico. Se o tema do drama de Ostrovski veio do Egito através da Grécia, também o papel no qual ele escreve veio do papiro egípcio, passando pelo pergaminho grego".
E por aí vai, passando à criticar os próprios métodos  do referido crítico. Não significa, no entanto, que só porque Trotski gostava do autor(ou do livro) que você vá gostar. Para saber, leia o livro, publicado pela Ed.Expressão Popular. Com 473 páginas. Seu preço é módico: apenas R$ 18,00.
Espero que gostem do aço, temperado com a luta contra a espoliação! Ou pelo menos este era o ideal dos que lutaram...

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