Mostrando postagens com marcador ESCRITORES. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ESCRITORES. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de março de 2017

Carta de Dostoievski ao seu irmão Mikhail

Fonte da foto: http://www.fedordostoevsky.ru/works/letters/1845-1849/22-12-1849/

No envelope se lê: Para Mikhail Mikhailovitch Dostoievski, na Avenida Nevski, em frente à Rua Gryaznaya (1), na casa de Neslinda (2).

Através desta carta, a gente pode acompanhar um pouco das agruras passadas pelo titã russo durante o período em que foi preso, sob alegação de participar das reuniões do  círculo Petrachevski, apesar de ele já não participar mais de tais reuniões há meses.


 Mikhail Dostoievski
(fonte: wikipedia.ru) 

Mikhail Mikhailovitch Dostoievski  era o irmão mais velho de Fiodor Dostoievski. Era, ele também, um escritor, tradutor, dramaturgo e editor de jornais. Esteve preso na Fortaleza de Pedro Paulo no ano de 1849, sob acusação de envolvimento com o círculo de Petrachevski, assim como seu irmão Fiódor, mas foi solto antes, tendo ficado pouco mais de um mês, ao passo que Fiódor, além de ter ficado na mesma prisão por 8 (oito) meses (incluindo solitária), foi, ainda, mandado para um presídio e trabalhos forçados na Sibéria, na cidade de Omsk. Isto posto, vamos à carta.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Tchernichevski e o livro que influenciou Lenin: "O que fazer?"





 Muitíssimo conhecido na Rússia, Nicolai Thernichevski é pouco ou nada conhecido no Brasil, o que me faz iniciar este post por uma rápida biografia dele, extraída do livro "Literatura e Revolução", de Liev Trotski:
" (1828/89). Jornalista, revolucionário, crítico e romancista radical. Sua oposição jornalística ao regime czarista tornou-o famoso. Influenciado filosoficamente por Hegel e Feuerbach, desenvolveu suas ideias radicalistas independentemente de  Marx. Seu ensaio de 1855, "As relações estéticas da arte com a realidade", afirmava que os verdadeiros árbitros da beleza eram os indivíduos comuns. Crítico em relação às limitações existentes na emancipação dos servos por Alexandre II em 1861, seu periódico "Sovremennik" (O Contemporâneo) foi fechado várias vezes. O romance "O que deve ser feito" (1) (1862) se propõe a ser um rival radical de "Pais e filhos", de Turguêniev. Foi mandado para o campo de trabalhos forçados em 1864. A isso se seguiram 12 anos de exílio no vilarejo ártico de Irkutsk. Foi uma grande inspiração para muitos socialistas do século XX".

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Um pouco de Pushkin: A Perfídia




A Perfídia

Se teu amigo, ao ouvir-te as razões,
Retira-se em silêncio causticante;
Se a mão afasta da que lhe propões,
Como de cobra, a estremecer no instante;
Se ele, cravando em ti o agudo olhar,
Move a cabeça desdenhosamente,
Não digas: "Está louco de pesar:
É, de fato, um garoto, está doente";
Não digas: "Ele é todo ingratidão;
Irado e fraco não merece estima;
A vida, sonho mau, faz-lhe aflição..."
Estarás certo? É a calma que te anima?
Se é assim, dispõe-se ele a morrer
Afim de reconciliar-se cm o amigo.
Porém se da amizade o almo poder
Usavas para afronta iníqua, digo,
Porém se espicaçavas com ardis
Sua imaginação desconfiada,
E eram teus recreios senhoris
Ver-lhe, triste e a gemer, a alma ultrajada;
Porém se foste da calúnia vil
Para o enodoar eco despercebido,
Se grilhões lhe lançaste, e a quem hostil
Lhe era, a rir, o entregaste adormecido,
E ele leu de tua alma na mudez
O oculto, com o olhar cheio de ânsia,
Basta! de frases fúteis não é vez:
Estás julgado em derradeira instância.

(1824)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Um conto da Nova Cartilha de Tolstoi: A tia conta como aprendeu a costurar



(crédito: https://yandex.ru/images/

Em outro post, já tive a oportunidade de falar sobre os "Contos da Nova Cartilha" e o projeto pedagógico de Liév Tolstói. Quem tiver curiosidade a respeito, clique aqui. Hoje, deixo apenas um dos contos que compõem o Primeiro livro de leitura deste fabuloso trabalho do mestre russo, intitulado "A tia conta como aprendeu a costurar", extraído do meu exemplar da obra, editado pelo Ateliê Editorial.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Um pouco de poesia: Ievguêni Ievtushênko


Com base no site http://www.evtushenko.net/, o poeta nasceu no dia 18 de Julho de1833 como Ievguêni Alksándrovitch Ievtushênko, na parada Zimá, região de Irkutsk, Sibéria, filho de Aleksandr  Rudol'fovitch Gangnus e de Zinaída Ermolaevna Ievtushênko. O pai, que viveu de 1910 a 1976, era geólogo, e a mãe, tammbém geóloga, era atriz e personalidade veterana da cultura soviética, também nascida em 1910, mas que sobreviveu ao marido até o ano de 2002.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Os Descendentes de Pushkin- Parte 1: filhos e netos


Um dos meus passatempos favoritos é a genealogia.Com isto, me interesso, também, pela descendência de alguns personagens históricos  bem como dos escritores que mais gosto. Todos no âmbito da Rússia, nem preciso frisar.
  Através destas "pesquisas", a gente acaba descobrindo coisas interessantes como, por exemplo, a existência de descendentes comuns a Pushkin e a Gógol, ou a realização de encontros internacionais dos descendentes de Pushkin. São coisas deste tipo que disponibilizamos nesta postagem e na próxima, que trará o vídeo de um encontro da família, produzido pelo "Pervy Kanal", Rússia, TV1.

domingo, 13 de setembro de 2015

OS DESCENDENTES DE DOSTOIEVSKI

O genial escritor russo, Fiodor Dostoievski, permanece vivo tanto na sua obra -imortal- quanto na figura de seus descendentes, habitantes da cidade de São Petersburgo. Estes descendentes, dão continuidade a um sobrenome que dá ao seu portador, além de um orgulho único - uma incrível responsabilidade.

sábado, 5 de setembro de 2015

UMA CARTA DE GORKI A TCHEKHOV


acima: Gorki e Tchekhov em 1900, nos jardins
da dacha de Tchekhov, em Yalta

 
A carta aqui transcrita foi extraída do livro "Carta e Literatura - Correspondência entre Tchékhov e Górki". Lançado pela Edusp, vale a pena ser lido do começo ao fim.
Estes dois titãs da literatura russa se conheceram pouco antes de morte de Tchékhov, aos 40 anos. Entre eles nasceu uma amizade e uma relação 'mestre/discípulo': Gorki, apesar de mais velho, estava no início de sua carreira. Passaram a se corresponder com freqüência , passando a existir entre ambos verdadeira troca intelectual. E é um pouco desta troca que deixo para vocês hoje. Trata-se de uma carta de Gorki a Tchekhov, na qual ele expõe suas impressões sobre Lev Tolstoi, após te-lo ido conhecer nos arredores de Moscou. Apaixonada que sou pelo velho conde, amei esta carta, em especial e da definição que o escritor do "realismo soviético" dá a gênio: Lev Tolstoi!


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Conto "A Conversão do Diabo"- Leonid Andrêiev

Quadro de Andreiev feito pelo pintor russo Ilyá Repin

 Hoje postamos o conto "A Conversão do Diabo", de Leonid Andrêiev, no qual o autor, de forma irônica, faz uma reflexão sobre o bem e o mal. Foi publicado no Brasil numa coletânea já esgotada, intitulada A Maravilha do Conto Russo. Está, também, inserido no livro "Contos Russos Eternos", disponível em algumas livrarias, entre elas, a Travessa, por R$ 55,00. 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Cadernos de Anotações de Dostoievski : a preparação da obra





 Dostoievski, o grande gênio da literatura russa, possuía um hábito,que não o do jogo: o de manter cadernos de anotações. Antes de começar a redigir qualquer uma de suas obras, Dostoievski desenvolvia a ideia que tinha em mente em cadernos de anotações. Neles, o autor 'dava a luz' seus personagens, fazia o esboçava a trama, lançava ideias soltas, sem conectá-las entre si. E desenhava. Desenhava cenas, personagens, etc.Destas anotações constavam vários lembretes e reflexões sobre determinado assunto.Muitas das anotações tinham o lixo como destino. Eram reescritas. Depois de preencher diversas folhas, ia nascendo a obra, o nexo entre situações e personagens.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O QUE O PRÍNCIPE MÍCHKIN REPRESENTA NA CRIAÇÃO DE DOSTOIEVSKI


O texto deste post foi extraído do livro do filósofo italiano Luigi Pareyson, intitulado "Dostoievski: filosofia, romance e experiência religiosa", editado pela Edusp. O autor nos apresenta uma abordagem bastante interessante e diferente do escritor russo e de sua obra, mergulhando fundo em seu pensamento filosófico.

Escolhi o tópico que analisa as figuras do bem na obra deste titã da literatura, e mais especificamente o príncipe Michkin, de O Idiota. A escolha se deu, em primeiro lugar, pelo encantamento que tenho por este personagem, por sua incrível profundidade filosófica e psicológica  e, também, pelo fato do bem não ser o aspecto predominante nos romances do escritor (e, consequentemente, nas obras que analisam sua criação),que, através de seus personagens, apresenta, maior parte das vezes, uma constatação da realidade do mal, realidade esta  intrínseca ao ser humano. Dostoievski chega a ter uma obsessão pela presença do mal no mundo, o que fez com que uma abordagem do bem, através da análise de seus personagens que encarnam este aspecto, me interessasse  muito.


domingo, 9 de setembro de 2012

PARABÉNS A VOCÊ, LEV TOLSTOI

Hoje, dia 9 de setembro, é aniversário do grande escritor russo Lev Tolstoi, que nasceu há 184 anos atrás em Yasnaya Polyana, região de Tula, no famoso Anel de Ouro da Rússia. Fica aqui a homenagem do blog a este imortal da literatura, com música feita em sua  homenagem. Ela me foi apresentada pelo responsável por sua postagem no Youtube.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A MÚSICA DE UMA VIDA - ANDREI MAKINE

Este livro é considerado "romance francês" de autor russo apenas pelo fato de ter sido, originalmente, escrito em francês. Mas nele o leitor não reconhecerá nada da França, nem influências, nem ambiente, enfim, o romance exala a Rússia por todos os poros, sob a visão de alguém que preteriu seu país...
O livro é um lamento profundo sobre a situação da União Soviética de Stalin, em todos os seus aspectos. Adorei a narrativa, as imagens literárias utilizadas pelo autor, mas discordo do que ele chama, pejorativamente, de "homo sovieticus", expressão que, segundo Makine,

"abarca aquela estagnação humana, até o seu mais ínfimo suspiro". 
Concordo com as críticas que ele possa fazer a nível de regime, de stalinismo, em termos de desrespeito de direitos humanos, do terror implantado na década de 30, mas jamais de estagnação do povo soviético. Conheço muitos soviéticos que, com orgulho para mim, fazem parte do meu rol de grandes amigos: todos me encantam com sua cultura, seu conhecimento, seu discernimento e sua bondade. Se houve uma coisa que o regime ofereceu ao povo soviético foi educação da melhor qualidade. Assim sendo, senti que a expressão "homo sovieticus" soou preconceituosa e inverdadeira.Claro que tem pessoas, como em todos os lugares, que são estagnadas e possuem defeitos mil, mas se não cabe, da minha parte, generalizar que "todo o povo soviético era bom", tão pouco cabe a todos a citada expressão...
Desabafo feito, passamos à sinopse do livro: trata-se da 
"história de Aleksei Berg, um jovem e promissor pianista na União Soviética de Stalin, que se torna um inimigo da pátria simplesmente porque amigos da sua família caíram em desgraça. Incapaz de driblar a polícia política, Berg foge às vésperas de seu primeiro concerto e assume a identidade de um soldado morto em batalha, para combater, ao lado do exército russo, a invasão alemã durante a segunda guerra mundial.Narradas pelo próprio personagem, ex- perseguido, ex-pianista, ex-soldado, ex-herói, por fim, ex-preso, as vidas de Berg irrompem em etapas, como melodias que primeiro se apresentam e depois reaparecem, em variações cada vez mais complexas(...). Ao voltar a Moscou, entretanto, não consegue voltar à sua juventude promissora, e na verdade não retorna à nada: conforma-se em chegar à cidade da vida que poderia ter sido sua, mas que não foi.É nessa cidade que reaparece o amor pela música, que o ajudou a atravessar tantas vidas".
Makine saiu da Rússia aos 29 anos,se radicando em Paris. Passou a ser um "émigré" já no final do regime, em 1987, adotando a França e sendo por ela adotado (em russo, seu nome é Makin e não Makine), deixando seu idioma, sua pátria e sua cidade natal, a linda  Krasnoyarsk, para trás...Não descende de franceses, conforme, muitas vezes, publicam. Em entrevista, ele mesmo afirmou ter aprendido francês com um amigo.Também publica sob o nome de Gabriel Osmonde. Jogada de marketing? A solução do mistério "quem é Osmonde" durou 10 anos, só tendo sido descoberto que era Makin em 2011.

Editora: Cia das Letras
Nº de páginas: 90
Preço: em torno de R$ 35,00

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

EM MEMÓRIA A SERGUÊI IESSÊNIN (POR LEV TROTSKI)


Perdemos Iessênin, esse admirável poeta tão vigoroso, tão verdadeiro. E que fim trágico! Ele partiu de si mesmo, dizendo adeus com seu sangue a um amigo desconhecido, talvez a todos nós. Suas últimas linhas contém extraordinária ternura e placidez. Iessênin deixou a vida sem ofensas, protestos, sem bater a porta. Fechou-a docemente. com a mão sangrando. A imagem poética e humada de Iessênin, com esse gesto, brotou numa inesquecível luz de adeus. 
Iessênin compôs os mordazes "Cantos de Um Hooligan", e aos insolentes refrãos das espeluncas de Moscou deu inimitável melodia. Gabava-se amiúde de um gesto vulgar, de uma palavra crua e trivial. Mas no fundo palpitava a ternura toda particular de uma alma indefesa e sem proteção. Iessênin, com essa grosseria semidisfarçada, tentava se proteger contra a dureza da época em que nasceu. Mas não conseguiu.
"Não posso mais", declarou a 27 de dezembro o poeta(*).Vencera-o a vida. E ele o diz sem provocação ou recriminação. Convém insistir nessa grosseria semidisfarçada porque Iessênin simplesmente não escolhera sua forma de expressão: as condições de nossa época tão pouco terna, tão pouco doce, impregnaram-no. Cobrindo-o com a máscara da insolência  e por essa máscara pagou um tributo considerável e, por conseguinte, de modo algum ocasional -parece que Iessênin nunca se sentiu deste mundo. Não dissemos isso para louvá-lo. Perdemo-nos justamente por causa dessa incompatibilidade. Nem para censurá-lo: quem pensaria em estigmatizar o grande poeta lírico que não soubemos conservar conosco?
Áspero tempo o nosso, talvez um dos mais ásperos na história desta humanidade dita civilizada. O revolucionário, nascido no curso dessas poucas dezenas de anos, deixou que o dominasse um patriotismo furioso por esta época - a sua pátria no tempo. Iessênin não era um revolucionário. O autor de "Pugachev" e das "Baladas dos vinte e seis" era um lírico interior. E nossa época nada tem de lirismo. Eis a razão essencial por que Sierguêi Iessênin, por si mesmo e tão cedo, se foi para longe de nós e de seu tempo.
As raízes de Iessênin são profundamente populares, e, como tudo nele, seu fundo povo não é artificial. A prova não está em seus poemas sobre a rebelião popular,mas novamente no lirismo: "Tranqüilo na moita de zimbro, junto do barranco,/ O outono, cavalo alazão, sacode sua crina".
Esta imagem do outono e tantas outras surpreendem antes de tudo pela audácia gratuita. O poeta força-nos a sentir raízes camponesas de suas imagens e a deixar que, profundamente, nos penetrem.(...)O fundo camponês - ainda que transformado e apurado por seu talento criador - estava solidamente preso a ele. E foi a própria força desse fundo camponês que provocou a fraqueza de Iesênin: ele arrancou suas raízes do passado e não tinha onde as deitar nos tempos atuais.
A cidade não o fortaleceu. Pelo contrário, quebrou-o e feriu-o. Suas viagens ao exterior, à Europa e ao outro lado do oceano, não puderam reorientá-lo. Ele assimilou muito mais Teerã que Nova York, e o lirismo interior da criança de Riazan afinava-o mais com a Pérsia que com as cultas capitais da Europa e dos EUA. iessênin não era hostil nem mesmo estranho à Revolução, para a qual constantemente Tendia, escrevendo desde 1918: "Ó mãe, minha pátria, sou bolchevique"!; e, ainda nos últimos anos: "E agora, na terra soviética, / Sou o mais ardente companheiro de viagem"(**)
A Revolução penetrou com violência a estrutura de seus versos e suas imagens, que, confusas de início, se aprimoraram. Iessênin, no desmoronamento do passado(***), nada perdeu nem deplorou. Estranho à Revolução? Certamente não. Mas uma e outro possuíam a mesma natureza. Iessênin era um ser reservado, terno, lírico. A Revolução é pública, épica, cheia de desastres. E foi um desastre que cortou a curta vida do poeta. 
Diz-se que cada ser leva em si a força de seu destino, que a vida desenvolve até o fim. Aí realmente só está uma parte da verdade. A força criadora de Iessênin, desenvolvendo-se, chocou-se contra as arestas da época - e se partiu. Encontraram-se em Iessênin valiosas estrofes, impregnadas de seu tempo. Toda a sua obra está assim  marcada. E Iessênin "não era deste mundo". Não é o poeta da Revolução.
Tomo tudo _ tudo como eu aceito,
Estou pronto a seguir os caminhos já percorridos, 
Darei toda minha alma a Outubro e a Maio,
Só a minha lira bem-amada não cederei!
Sua  força lírica só poderia desenvolver-se até o fim nas condições de uma vida harmoniosa, feliz, cheia de cantos, numa época em que não imperasse o combate, mas a amizade, o amor, a ternura. Ela virá. por enquanto ainda haverá muitas lutas implacáveis e salutares, de homens contra homens, preparando a chegada de outros tempos. Depois a personalidade poderá desabrochar, como a poesia. "A Revolução, antes de tudo, conquistará para cada indivíduo, em duras lutas, o direito à poesia, e não somente o pão".
Para quem Iessênin escreveu a carta de sangue no último momento? Talvez chamasse de longe um amigo que ainda não nasceu, o homem de um futuro que alguns preparam com suas lutas _ e Iessênin com seus cantos. O poeta morreu porque não possuía a mesma têmpera da Revolução. Mas, em nome do futuro, a Revolução o acolherá para sempre. 
Iessênin, desde os primeiros anos da obra poética, compreendeu sua incapacidade de defender-se de si mesmo e se inclinava para a morte. Num dos seus últimos cantos, disse adeus às flores:
"Pois bem, minhas amadas, pois bem! Eu vos vi, eu vi a terra
E vosso fúnebre calafrio 
Tomei como nova carícia".
Somente agora, após 27 de dezembro, todos nós _ aqueles que o conheceram superficialmente e os que não o conheceram _ podemos compreender a sinceridade de sua poesia - da qual cada verso era quase escrito com sangue. Sangue de uma veia cortada. A nossa amargura por isso é tanto mais áspera. Sem sair de seu domínio interior, Iessênin encontrava, no pressentimento do seu fim próximo, melancólica e emocionante consolação:
Escutando a canção no silêncio, 
Minha amada, com outro amado,
Talvez se lembre de mim,
Como de uma única flor.
Dentro de nossa consciência, um pensamento adoça a dor aguda ainda recente: esse grande e autêntico poeta refletiu, à sua maneira, a nossa época, e a enriqueceu com seus cantos, evocando em novas formas o amor, o céu azul tombando no rio, a lua que, como um carneiro, pasta no céu, e a flor única _ ele mesmo.
Que, na lembrança ao poeta, nada exista que nos esmoreça ou nos tire a coragem. A força de nossa época é bem maior que a existente em cada um de nós. A espiral da história irá se desenrolar até o fim. Não nos oponhamos a ela. Ajudemo-la com os esforços conscientes do pensamento e da vontade. Preparemos o futuro. Conquistemos, por todos e para cada um, o direito ao pão e o direito ao canto.
O poeta está morto. Viva a poesia! Mas viva a vida criadora na qual até o último momento, Sierguêi Iessênin entrelaçou os deilicados fios de sua poesia!
 Lev Trotski
Pravda, 19/01/1926
_______________________________________________
Notas:
(*)27/12/25, data de sua morte
(**)Termo usado para escritores e poetas que não haviam aderido à Revolução, mas que a aceitavam, sem participar ativamente dela. O termo foi criado por Trotski.
(***) Trotski se refere, aqui, ao desmoronamento do passado ligado à burguesia, que afetou muitos dos escritores, que se viram perdidos na nova realidade de um Estado Proletário.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

AS ALTURAS LITERÁRIAS DA RÚSSIA...



Conforme prometido na postagem anterior, aqui vão as alturas de alguns dos escritores russos.
Vladimir  Mayakovski: 1,89
  Vladimir Nabókov: 1,88
Anton Tchekhov: 1,86

 Fiódor Dostoevski: 1,68
 Aleksandr Puchkin: 1,66

Nikolai Gógol: 1,60


Bukharin: 1,55

 Olhando a foto de Bukharin ao lado de Stalin nota-se a diferença de altura, lembrando que  Stalin tinha  só 1,65:

Com esta altura, Bukharin é um sério candidato ao mais baixinho dos escritores russos, o que não o torna menor, é claro!  Quanto à altura de Tolstoi, não encontrei, mas não faz mal:a literatura russa garante a todos os seus expoentes a devida estatura de gigante...
Fontes:
http://www.yarasty.ru/
http://vahrost.ucoz.ru/
http://www.fresh.by/

sábado, 13 de agosto de 2011

REFLETINDO COM DOSTOIEVSKI

No seu "Diário de um escritor" Dostoievski inseriu um texto digno de nota - aliás, como tudo o que escreve - que me chamou a atenção pela sua surpreendente atualidade. Trata-se do cuidado que se deve ter com a infância e a adolescência, coisa que se faz mais urgente nos dias de hoje e, principalmente, em nosso país,onde vemos tanto descaso e tantos absurdos acontecendo, envolvendo menores que são utilizados pelo tráfico de drogas, menores que pegam em armas e muito mais. Tudo isto porque tem criança fora da escola, jogada nas ruas: "A rua é escola em que se aprende muito depressa!", já dizia o mestre russo em 1876, alegando que as crianças daquele tempo necessitavam mais atenção do que as de sua infância "por estarem expostas a perigos maiores". Imaginem, então, as crianças do século XXI, bombardeadas por todos os tipos de influências - boas ou más - geradas pelas modernas tecnologias, pela televisão e, nos países onde a educação não é meta prioritária, pelas malignas influências da rua, que atingem os pequeninos lançados à própria sorte, fazendo malabarismos em sinais, se expondo ao perigo dos cruzamentos e dos bandidos que se aproveitam da impunidade infantil para inicia-los na vida criminosa.

O texto é um convite a pais e educadores a ponderarem quanto à necessidade de um efetivo acompanhamento das crianças e adolescentes, de uma maior vigilância quanto às suas companhias e aos conteúdos que lhe são repassados, coisa, infelizmente, difícil,mas necessária.

Leiam o texto e reflitam: se lembrem dele na hora de votar, não desperdiçando votos com candidatos não comprometidos com a educação, que negam o mísero piso salarial aos professores, como o caso do "desgoverno" de Minas, meu estado. Enquanto existir criança fora da escola, jogada nas ruas (crime dos crimes!) não podemos pensar em um país sem violência. Se lembrem deste texto, também, na educação de seus filhos. Verifiquem os sites pelos quais andam a navegar; sejam presentes sempre!

(o texto a seguir foi extraído do livro "Diário de Um Escritor", editado pela Ediouro)


Cracolândia:foto extraída do Estadão
"Quero contar o que segue para não esquecer:
Uma senhora vivia com a filha de doze anos de idade, em um arrebalde de S.Petersburgo, afastado do centro. A família não era rica, mas a senhora trabalha para viver e a filha freqüenta uma escola na cidade. Vai à escola e volta de ônibus de Gostinoi Dvor até perto de casa.

Já haviam passado dois meses quando o inverno chegou repentinamente e a mãe percebeu que a filha Sacha não estudava as lições. Advertiu-a.

-Mamãe, não se preocupe! respondeu a menina. Estou perfeitamente preparada: estou, pelo menos, adiantada uma semana.
-Se assim é, está bem.

No dia seguinte Sacha foi à escola; mas ao anoitecer, o chofer do ônibus trouxe uma cartinha nos seguintes termos:
'Minha querida mãezinha: comportei-me mal durante toda a semana. Tive três zeros nas lições; enganei-te até agora. Tenho vergonha de voltar para casa e não me verás mais. Perdoa-me, querida mãezinha, perdoa-me.Tua Sacha.'
Pode imaginar-se a horrível inquietação da mãe. Quis abandonar o trabalho para correr em busca da filha. Mas onde? Como? Uma pessoa amiga ofereceu-se para dar todos os passos necessários e foi tomar informações na escola, em casa de todos os conhecidos, andando de um lado para o outro a noite inteira. O receio de que Sacha, arrependida, voltasse para a casa e fosse de novo embora se não encontrasse a mãe, fez com que esta ficasse em casa, confiando no zelo do bondoso amigo. Se não aparecesse até o amanhecer, iriam dar parte à polícia. Sozinha dentro de casa, é fácil de imaginar que horas aflitas passou.

E a mãe conta que por volta das dez da noite ouviu uns passos miúdos sobre a neve do pátio, que lhe eram bem conhecidos: passou a ouvi-los subindo a escada. Abriu a porta e Sacha entrou.
- Mamãe! mamãe! Que felicidade voltar para casa!
Cobria o rosto com as mãos; sentou-se na cama, mas como estava cansada!
Depois das primeiras exclamações de alegria, a mãe não quis chamar-lhe a atenção pelo que tinha feito.

- Mamãe! quando ontem te menti a respeito das minhas lições, resolvi não ir mais à escla e não voltar mais aqui. Se não fosse à escola seria obrigada a enganar-te todos os dias quando dissesse que lá estivera...
- E o que querias fazer?
- Pensava em andar pelas ruas o dia inteiro.. Minha roupa é bastante quente, e se sentisse frio procuraria algum abrigo. Em lugar de comer todos os dias compraria um pãozinho. Não seria grande a dificuldade para beber água, visto como agora há neve. Um pãozinho por dia seria bastante. Tenho aqui quinze copeques, e o pãozinho custa três. Seriam cinco dias.
- E depois?
- Não sei. Não pensei no depois.
- E onde irias passar a noite?
- Já tinha pensado nisso. Quando caísse a noite, iria à estação da estrada de ferro; mas longe, na estrada, onde não passa ninguém. Encontram-se muitos vagões vazios que não vão viajar. Metia-me num deles e dormia até amanhecer.
Foi assim que ali estive de noite, longe, muito longe na estrada; ali, onde já não via ninguém vi vagões separados, diferentes dos de passageiros. Escolhi um deles; ia subir, mas apenas pus o pé no estribo apareceu um guarda que gritou: "Onde vai? Esses vagões são para transportar os mortos!" Quando o ouvi dizer isso, pulei no chão e fugi. O guarda me perseguiu, gritando: "Que é que estás fazendo aqui?" Corri! corri! Achei-me em uma rua onde havia uma casa em construção. Ainda não tinha portas: os vãos estavam fechados com umas tábuas. Encontrei um ponto em que pude passar entre duas tábuas; acompanhei tateando uma parede; encontrei um canto onde havia no chão uma porção de pedaços de madeira secos e lisos. Deitei-me em cima. Apenas me havia deitado, escutei vozes perto de mim, falando muito baixo. Levantei-me e ouvi outras vozes, parecendo-me que uns olhos me olhavam da sombra; tive um medo horrível e saí outra vez a correr. Quando me vi na rua, alguém me chamou da casa em construção que eu pensava estar vazia. Estava cansada, tão cansada; continuei a andar pelas ruas. Ouvi gente a falar de todos os lados, indo e vindo. Não sabia que horas seriam. De repente me achei na Avenida Nievsky, perto de Gostinoi, e pus-me a chorar. " Ah, dizia a mim mesma. Se encontrasse algum "bom senhor" que se compadecesse de uma menina que não sabe onde passar a noite! Havia de confessar-lhe tudo e talvez me recolhesse por uma noite". Enquanto assim pensava, continuava a andar, quando descubro o nosso ônibus, que partia para a última viagem. Acreditava que há muito tempo havia partido. Pensei: quero ir para a casa de minha mãe! Subi no ônibus e como me sinto feliz por voltar à tua casa! Nunca mais te enganarei e estudarei bem as minhas lições. Mamãe, Mamãe!"

Perguntei-lhe, continuou a mãe: "Sacha, a idéia de não ir mais à escola e viver na rua ocorreu só a ti?"
- Olhe, mamãe: há muito tempo conheci uma menina da minha idade, que freqüentava outra escola. Acreditas se te disser que quase nunca comparecia às aulas? Disse-me que a escola é muito aborrecida e a rua muito alegre. Contou-me que, enquanto estava na rua, andava, andava, andava. Fazia quinze dias não tinha posto os pés na escola. Olha as vitrinas; anda pelos passeios até altas horas da noite, até que afinal tem de voltar para casa. Quando o soube, pensei: "gostaria de fazer o mesmo!" e me aborreci na escola muito mais que antes. Mas não tive qualquer intenção precisa até ontem à noite, depois de ter-te mentido. Foi então que me resolvi a fazer como fiz.

Esta história é autêntica. Naturalmente, a mãe tomou suas medidas. Quando me contaram, pensei que não seria de todo inútil fazê-la figurar em meu diário. Dirão que é um caso único, tratando-se, sem dúvida, de uma pequena muito estúpida. Mas sei que longe está de ser estúpida. Sei também que nessas almas jovens, depois da primeira infância, quando ainda não adquiriram experiência de qualquer espécie, pode nascer uma porção de sonhos mais ou menos perigosos. Essa idade (doze a treze anos) é extremamente interessante, mais na menina do que no menino. Tratando-se, porém, de meninos, vejam esta notícia que apareceu em um jornal há quatro anos: Três meninos haviam fugido do ginásio pretendendo ir para a América. Não os apanharam senão quando já estavam um pouco longe da cidade. Um deles levava uma pistola. Há vinte ou trinta anos sonhos e fantasias estranhas também passavam pelo cérebro de meninos e meninas; mas os de hoje são mais decididos. As reflexões e as dúvidas duram menos. Antigamente os meninos dessa idade pensavam em fugir para fazerem, por exemplo, uma viagem a Veneza; que lhes enchia a cabeça graças a certas novelas de Hoffmann e George Sand. (Tive um colega desse tipo). Mas não punham em execução o projeto, contentando-se em contá-lo a um companheiro, depois de tê-lo feito jurar que seria discreto. Os de hoje realizam o que os outros se limitavam a sonhar. Antigamente, certos sentimentos de dever, de obrigações para com a família, exerciam grande influência. Hoje, tudo isso perdeu muito a força que tinha.

O essencial é que não se trata de casos isolados; e não são criaturas estúpidas as que se entregam a estas fuga. Repito que essa idade é muito interessante e mereceria que os educadores lhe dispensassem mais atenção. A que perigos enormes estão expostos os nossos filhos! Preste-se atenção somente àquele ponto da narração anterior, em que a menina cansada de tanto andar, estava disposta a contar tudo a um transeunte: um bom senhor que se compadecesse da pobre criança que não sabia onde se refugiar para passar a noite. Pensem como seria fácil por em execução esse plano, que lhe revela toda a inocência. Nesta terra, os "bons senhores" enxameiam por todas as ruas. Mas, depois, no dia seguinte, que teria acontecido à menina?... Admitindo que o tal senhor fosse de certa espécie muito comum hoje em dia, era... o riso ou a vergonha de confessar... Suponhamos tivesse preferido a última. Pouco a pouco a menina ter-se -ia acostumado à lembrança daquela vergonha e quem sabe se, depois de ter pensado bastante no que se havia passado, não teria o capricho de procurar nova aventura do mesmo gênero... Aos doze anos! Adivinha-se tudo quanto viria em seguida... E essa outra menina que, em lugar de ir à escola, passa o tempo a ver as vitrinas e a andar pelos passeios das ruas, dando à primeira que encontra a idéia de novo emprego do tempo? Já ouvi antes falar de meninos que achavam a escola aborrecida e a vagabundagem cheia de encantos e alegrias. (...)A vagabundagem é uma inclinação que mais tarde se transforma em paixão doentia, cujo primeiro germe se contraiu na infância. Agora vejo que há também meninas vagabundas, evidentemente cheias de inocência a princípio. Mas ainda que fossem tão puras como os pequenos seres primitivos evoluindo em algum paraíso terrestre, não poderão fugir ao conhecimento do "bem e do mal", embora somente pequem pela imaginação. A rua é escola em que se aprende muito depressa! O essencial, repito, está em pensar até que ponto é interessante essa idade em que a inocência infantil se mistura à incrível aptidão para receber impressões, à extraordinária faculdade de assimilar toda espécie de experiência, boas ou más. É o que torna tão perigoso e tão crítico esse período da vida dos adolescentes."

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

NIKOLAI LESKOV: MUITO ALÉM DE LADY MACBETH DO DISTRITO DE MTZENSK

Uma pena que as editoras brasileiras não editem outros livros de Nikolai Leskov, além de"Lady Macbetch do Distrito Mtzensk", lançado pela Editora 34.


Graças a tal descaso editorial, Lescov é muito pouco conhecido entre a gente. Todos (ou quase todos, espero) sabem quem é Tolstoi, Dostoievski, Tchekhov, Gógol e, atualmente, Goncharov. Mas quem sabe quem foi Leskov? Considerado por alguns especialistas em literatura russa como um dos maiores expoentes entre os russos do século XIX, mas ofuscado por seus contemporâneos acima citados. Entretanto nem só de Dostoievski e Tolstoi vive a rica literatura russa, por mais fabulosos que sejam (já devo ter repetido isto inúmeras vezes, em outros posts)...

Leskov oferece ao leitor quadros mais ou menos inéditos da vida russa, em seus aspectos mais duros e ásperos, a partir da vivência obtida em seu trabalho, que o levava a viajar pelo país, retratando um mundo russo muito diverso daquele que os grandes titãs de sua época o fizeram.

Natural de Oriol, cidade que nos legou grandes nomes da literatura russa, como Leonid Andreev (ver neste blog), Boris Zaitsev, além deIvan Turguêniev, entre outros tantos, bem como cineastas, cientistas e filósofos(como Bakhtin) (ver fotos da cidade no final desta postagem).

Viveu de 1831 a 1895. Foi um romancista polêmico, já que polêmica era sua personalidade. Sua obra de estréia, intitulada "Em lugar algum", foi um romance mal recebido pela crítica, que considerou seu autor 'retrógrado': ele era um anti-niilista,e o niilismo era a temática de então. Muitos dos grandes escritores seus contemporâneos abordavam temas niilistas, em especial Ivan Turguêniev, em seu romance Pais e Filhos.

De 1864 a 1890, escreveu oito romances,14 novelas, inúmeros contos e uma peça teatral. Entre seus romances, podemos citar " Gente da Catedral" (sobre o clero provinciano russo); anjo selado (sobre o fanatismo dos velhos crentes); " O peregrino encantado (aventuras de um servo que entra para um monastério); "Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk" (história da danação e do pecado, da sedução e da fraqueza humana), entre outros.

Suas histórias são narradas em estilo rico e envolvente, sempre tendo a Rússia e Oriol como foco principal. Escreveu com ardor sobre as miseráveis condições da vida no campo.

Apesar de, inicialmente, ter se manifestado contra o movimento revolucionário clandestino, foi Maksim Gorki, um escritor comunista, quem mais se empenhou em valorizar Leskov que, a partir de então, passou a ser divulgado em edições bem produzidas, como a maioria das edições do período soviético.

A respeito de sua personalidade, transcrevo um trecho do livro "Pelo Prisma Russo", de Joseph Frank:
"Leskov era uma personalidade orgulhosa, apaixonada e frequentemente irascível; no decorrer de sua vida ele conseguiu indispor-se com quase todo mundo que conhecia, como também com todas as tendências e movimentos correntes na literatura russa. Isso também nos diz algo sobre sua impetuosa independência, sua recusa a reverenciar os lemas ideológicos do momento. Sua briga mais conhecida, causa do virtual ostracismo que os radicais lhe impuseram durante a maior parte de sua vida, envolvia os famosos incêndios de São Petersburgo, de 1862, que coincidiram aproximadamente com a circulação das proclamações sanguinárias do Rússia Jovem, que proclamavam pelo extermínio da família real e de todos os seus partidários. A maioria acreditava que os radicais tinham começado o incêndio, e o populacho suspeitava de que a população estudantil em geral fosse simpática aos supostos incendiários. Leskov, com a intenção de proteger os estudantes, publicou um artigo onde pedia à polícia que, se houvesse qualquer prova de incêndio culposo, nomeasse os culpados para que a suspeita pudesse ser retirada das costas dos inocentes. À primeira vista, nada pareceria mais inofensivo do que tal pedido, mas o fato de Leskov ter dado algum crédito à hipótese de incêndio culposo e ter, aparentemente, apelado à polícia contra os radicais, foi o suficiente para torná-lo um homem marcado".
Pelo trecho acima pode-se ter uma ideia de que, assim como sua obra, sua biografia, também, merece ser traduzida para o português e esta biografia existe, em inglês, tendo sido escrita por Hugh Mac Lean, da Universidade de Cambridge. Espero que nossas editoras resolvam dar a Leskov o espaço que ele merece e que nós, leitores, merecemos também.

Fotos do autor (mais ou menos em ordem cronológica):

Fotos da cidade onde o escritor nasceu:
E, por fim, o Museu Leskov, em Oriel:

Fontes das fotos: www.yandex.ru

sábado, 9 de abril de 2011

AFIRMAÇÕES SEM PROVAS - DOSTOIEVSKI


Com a inusitada violência na escola de Realengo, Rio de Janeiro, muito se falou sobre a falta de valores de boa parte da nossa juventude, o que me fez relembrar um texto fantástico do genial Fiodor Dostoievski, extraído do "Diário de Um Escritor". No texto, ele fala especificamente a respeito do suicida, mas a mesma argumentação cabe, sem sombra de dúvida, ao assassino.Ainda mais, quando sucedido pelo suicídio...O artigo não poderia ser mais procedente e atual. Ele entendia bem da coisa: quem criou o imortal personagem Raskolnikov, tem autoridade suficiente para expor a questão... Deixo você com ele, para sua reflexão.
"Meu artigo é relativo à idéia mais elevada da vida humana, a necessidade indispensável da crença na imortalidade da alma. Quis dizer que sem esta crença a vida é insuportável. Parece-me ter enunciado claramente a fórmula do suicídio lógico.
O meu suicida não acredita na imortalidade da alma e assim fala desde o início do artigo. A pouco e pouco, pensando que a vida humana é absurda. A presenta-se-lhe tão claramente como a luz do dia que tão somente os homens semelhantes aos animais, e que satisfazem a necessidades puramente animais, podem consentir em viver. Tais indivíduos vivem "para comer, beber e dormir".como os brutos "para fazer o próprio leito e procriar". Engolir, roncar e sujar talvez seduza o homem por muito tempo, ligando-o à Terra; mas não a mim, homem superior, está claro. Não obstante, são os homens do tipo superior que sempre reinaram sobre a Terra, e nem por isso o que tinha de acontecer se deu de maneira diferente.
Mas há uma palavra suprema, ma idéia suprema, sem a qual a humanidade não pode viver. Muitas vezes pronuncia-o o pobre, sem influência, até mesmo perseguido. Mas a palavra pronunciada e a idéia que exprime não morrem e mais tarde, apesar da vitória aparente das forças materiais, a idéia vive e frutifica. Disse N.P. que semelhante confissão em meu Diário constitui um anacronismo ridículo, porque estamos atualmente no século das "idéias de ferro", das idéias positivas; no século da "vida sobretudo". Por isso, sem dúvida, aumentou tanto o número de suicidas entre as pessoas inteligentes e cultas. Asseguro ao digno N.P. e a todos os seus semelhantes que o ferro das idéias se transforma em algo muito mais brando quando chega a hora. Quanto a mim, uma das minhas maiores preocupações quando penso em nosso futuro é precisamente o progresso da falta de fé. A falta de crença na imortalidade da alma se arraiga cada vez mais ou, para dize-lo melhor, nota-se em nossos dias absoluta indiferença para essa suprema idéia da existência humana: a imortalidade. Tal indiferença converte-se em particularidade da alta sociedade russa. É mais evidente entre nós do que na maior parte dos países europeus. E sem esta idéia suprema da imortalidade da alma não podem existir nem homens nem nação. Todas as grandes idéias restantes derivam desta.
O meu suicida é um propagandista apaixonado da sua idéia: a necessidade do suicídio; mas não é nem indiferente, nem 'homem de ferro'. Sofre realmente; creio te-lo feito compreender. É para ele demasiado evidente que não pode viver; está convencido que tem razão e não se pode refutá-lo. Para que viver, se está convencido que é abominável viver vida animal? Dá-se conta da existência de harmonia geral; di-lo à consciência, mas ela não se associa. Não o compreende...Onde, então, está o mal? Em que se enganou?O mal está em ter perdido a fé na imortalidade da alma.
Não obstante, procurou com todas as suas forças o sossego e a conciliação com o que o rodeia. Quis falar no 'amor à humanidade. Mas isto também lhe escapa. A idéia de que a vida da humanidade nada mais é do que um instante; de que tudo, mais tarde, se reduz a zero, mata, dentro dele, até mesmo o amor à humanidade. Tem-se visto em famílias desgraçadas e desunidas de pobres, sentir horror aos filhos, por sofrerem demais com a fome; aos próprios filhos a quem queriam tanto! A consciência de em nada poder socorrer a humanidade sofredora é capaz de transformar o amor que por ela se sente em ódio. Os senhores das 'idéias de ferro' claro que não acreditarão em minhas palavras. Para eles o amor à humanidade e sua felicidade está tão bem organizado que não vale à pena pensar nisso. E desejo faze-los rir de qualquer maneira. Declara, portanto, que o amor à Humanidade é inteiramente possível sem a crença na imortalidade da alma Humana. Os que querem substituir esta crença pelo amor à Humanidade depositam na alma dos que perderam a fé o germe do ódio à Humanidade. Que dêem de ombros os sábios das 'idéias de ferro' ao ouvir-me exprimir tal idéia. Mas esta idéia é mais profunda que a sabedoria deles, e chegará o dia em que se transformará em axioma.
Chego mesmo a afirmar que o amor à Humanidade é em geral pouco compreensível(leia-se inacessível) para a alma humna. (E, além disso, sem provas).
Em resumo, está claro que sem crenças, o suicídio se torna lógico e até inevitável para o homem que apenas se elevou acima das sensações da besta. Ao contrário, a idéia da imortalidade da alma, prometendo a vida eterna, sujeita o homem mais fortemente à Terra. Nisto parece existir contradição. Se, distinta da vida terrestre, temos outra celeste, para que fazer muito caso desta aqui embaixo? Mas é somente pela fé na imortalidade que o homem se inicia no fim razoável da vida sobre a Terra. Sem a convicção na imortalidade da alma, o vínculo do homem em relação ao planeta diminui, e a perda do sentido supremo da vida conduz incontestavelmente ao suicídio. E se a crença na imortalidade da alma é tão necessária à vida humana é por ser o estado normal da Humanidade, provando que a imortalidade existe.Em uma palavra: esta crença é a própria vida e a primeira fonte de verdade e de consciência real para a Humanidade.
Eis aí o objetivo do meu artigo, a conclusão a que desejava que cada um chegasse quando o escrevi".
(1873)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

MAIS UM TRECHO DOS DIÁRIOS ÍNTIMOS DE TOLSTOI E SOFIA

Há meses atrás iniciei a postagem de trechos dos "Diários íntimos" de Tolstoi e Sofia, sua esposa. Mal iniciei, parei as postagens, por achar que não estavam tendo uma receptividade que justificasse o trabalho da digitação, bem como minha exposição aos fatídicos ácaros, que - apesar de todo o cuidado que tenho com meus livros, vez por outra atacam os que são bem mais velhos do que eu,,como é o caso deste volume de 1943, restaurado não faz muito tempo, pulverizado com certa freqüência por acaricida e que, ainda assim, mantém um certo odor de livro antigo.

Retomo este trabalho hoje, após receber uma mensagem que me incentivou a isto. Enquanto tiver um único leitor que seja, o trabalho nunca será em vão.Quem quiser ler o post anterior, basta clicar AQUI, onde estão explicados detalhes da elaboração dos diários.

Inicio, hoje, pelaintrodução aos diários, feita por Sergey, filho do casal, importante para compreender muito do relacionamento tumultuado entre Lev Nikolaevitch e Sofia Andreevna.Além disto, o leitor, por este trecho de depoimento do filho de Tolstoi, pode ter uma idéia da rotina de vida do escritor.
"Para bem compreender as relações de meus pais nas proximidades de 1910, é indispensável que nos reportemos ao passado. A causa real de sua desinteligência foi o conflito sobrevindo entre o antigo Lev Nikolaievitch Tolstoi e o novo, quando se concretizou a mudança de sua concepção do mundo. A antiga maneira de ver, que sua mulher adotara, entrou em choque com sua nova doutrina, que em muitos pontos com ela contrastava.Ele mesmo percebia isto e lamentava-se sem cessar em suas obras. Relativamente a sua família, Tolstoi adotou como regra que até o ano de 1881, mais ou menos, fora um outro homem e que esse homem - o proprietário e o literato - estava, por assim dizer, morto, e que naquela data outro homem nascera; um homem que não reconhecia a propriedade, não escrevia para ganhar dinheiro, mas sim pelo bem da sociedade. Por isso, passara à sua família a herança deixada pelo primeiro homem. Tinha dado à Sofia Andreevna pelnos poderes para a gestão de seus negócios, dos quais não mais se ocupava desde maio de 1883); deixou-lhe a incumbência de fazer editar suas obras antes de 1881 e um ato de separação redigido em 1892. Mas em 1891 declarara que todos os seus escritos públicos posteriores à 1881 e tudo o que de então em diante se destinasse à publicação, poderia ser editado por qualquer pessoa.


Metade de Iasnaia Poliana tocava a Sofia Andreevna; a outra metade - inclusive a casa - a seu jovem filho Ivan e, após a morte de Ivan(1895), sua parte, conforme as leis da época, coube a seus cinco irmãos. Minha mãe não compartilhava do ponto de vista negativo de meu pai, relativamente à propriedade; pelo contrário, não deixava de julgar que quanto mais ricos fossem seus filhos e netos, tanto melhor. Era ela quem se encarregava de Iasnaia Poliana, de gerir todos os negócios, não só a sua parte, mas também a de seus filhos. Procurava alcançar o máximo com as obras de Lev Tolstoi e de aproveitar, não só suas edições anteriores a 1881, mas também o que ele escrevera depois dessa data.
Meu pai não podia se resignar com isto. O ritmo de vida burguês de sua família e toda a administração de Iasnaia Poliana afligiam-no. Semelhante ordem de coisas realmente exigia medidas de proteção e, por conseguinte, violência, e no que se refere às suas obras, ele escrevera no seu diário (27/03/1895):
"O fato de minhas obras terem sido vendidas durante estes últimos dez anos, constituiu para mim a provação mais difícil de minha vida".
Mas pode-se acusar minha mãe por ter cuidado dos interesses materiais de sua posteridade? Poderão aqueles que a culpam apontar muitas mães que não desejem a felicidade material de seus filhos?
A partir de 1902, os Tolstoi não iam mais passar o inverno em Moscou e permaneciam em Iasnaia Poliana. Conseguira estabelecer-se um certo modus vivendi e, na aparência, mas somente na aparência, tudo parecia ir o melhor possível. Na primeira metade de 1910, a vida em Iasnaia Poliana continuou a decorrer como durante os anos anteriores. O dia de lev Nikolaevitch dividia-se com bastante regularidade. Levantando cerca de oito horas da manhã, fazia o quarto, saía para um pequeno passeio e punha-se a trabalhar. Almoçava às duas horas, após o que andava ou montava a cavalo; de volta do passeio fazia uma sesta e pelas seis horas jantava com a família. Durante o verão lia, participava da conversação ou escutava música,jogava xadrez ou "whist" e, aproximadamente, à meia noite se deitava."
Por hoje é só. Até o próximo post, em continuidade aos diários íntimos do autor de Guerra e Paz.
Tostoi em família, durante o aniversário de seu filho Lev, cuja esposa está em pé, servindo sopa

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

RESENHA: VERÃO EM BADENBADEN (LEONID TSÍPKIN)

Leonid Tsípkin não era russo: era natural de Minsk, Bielorrússia; no entanto, sua obra é considerada literatura russa, uma vez que ele a escreveu neste idioma, que é, ao lado do bielorurusso, o idioma oficial do país, que já integrou o Império Russo e a URSS (atualmente, a Bielorrússia integra a CEI - Comunidade dos Estados Independentes).

Voltemos ao livro, misto de autobiografia e ficção, que narra a história de um médico apaixonado por literatura e que escrevia apenas para si. Admirador devoto do grande mestre russo da literatura, ele procura reconstruir os caminhos percorridos por Dostoievski, tanto na sua vida, quanto na sua obra, num misto de ficção e realidade.

Em 1987, Dostoievski passou a primavera viajando pela Alemanha, acompanhado de sua segunda esposa ,Anna Grigorievna e é este o período que Leonid Tsípkin reconstrói, centrando-se na estadia do casal em Baden-Baden. Dostoievski dissipa nas roletas do cassino as últimas posses de Anna.

Ao relatar a vida de Dostoievski, com base no diário de Anna Grigorievna, Tsípkin vai evocando, também, lances de sua própria saga pessoal em busca dos locais "dostoievskanos" de São Petersburgo, enfatizando facetas já conhecidas do famoso escritor, tipo seu vício no jogo, sua eplepsia, sem perder de vista a perspectiva dos pontos de vista de Anna Grigorievna, apresentando seus sentimentos em relação a Dostoievski e algumas de suas lembranças, como por exemplo, a do dia em que ela viu seu futuro marido pela primeira vez e do dia de sua morte.São relatadas, inclusive, cenas de família, discussões do casal,surgindo diante de nós um Dostoievski quase vivo . Já li várias biografias deste grande escritor, inclusive a coleção de Joseph Frank, mas nada se compara à leitura desta obra, em particular, no tocante às impressões causadas.

A gente , principalmente quem, como eu, é fascinado por Dostoievski, sente cada emoção descrita. Emoção maior, ainda, senti, ao mergulhar, enquanto percorria suas páginas, na realidade da vida russa. É fascinante, leitura super recomendada. A edição é da Companhia das Letras, tradução direta do russo (por Fátima Bianchi), o que faz toda a diferença.Com 208 páginas.

Susan sontag, responsável pelo ensaio introdutório da edição da Cia.das Letras, diz que Verão em Baden-Baden está entre
"as realizações mais belas, arrebatadoras e originais de um século de ficção e paraficção"..."O leitor emerge deste livro purgado, comovido, fortalecido, respirando um pouco mais fundo, agradecido à literatura por aquilo que ela pode abrigar e exemplificar".
Tsípikin foi completando, ao longo dos anos, albuns com fotos dos lugares frequentados ou associados de alguma maneira a Dostoievski, o que lhe serviu, também, de fonte de pesquisa na elaboração deste livro.

Nota: o autor, nascido em 1926, faleceu em 1981, exatamente no dia em que completava 56 anos. Não chegou a ver este livro publicado.Nasceu em uma família judia, filho de médico.Toda a família paterna morreu em um gueto em Minsk; sua mãe era de família polonesa.No início da Segunda Grande Guerra, foi possível à toda a família partir para Ufa, na Rússia, onde Leonid ingressou no Instituto de Estudos de Medicina, se casou com a economista Natalia Iossifovne Mitchnikova e começou a trabalhar com Anatomia Patológica, mais tarde com Imunologia e Virologia, desenvolvendo, durante anos, trabalhos científicos, com vários trabalhos publicados.
Paralelo a este trabalho, escrevia versos e prosa, desde os anos 60.

GOSTOU DO BLOG? LINK ME

www.russiashow.blogspot.coms