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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Um pouco de história: A URSS e a questão japonesa, por Nikita Kruchtchev


Nosso post de hoje foi extraído das memórias de Nikita Khruchtchev, do capítulo em que fala sobre a diplomacia soviética subsequente ao término da II Guerra, principalmente das questões com o Japão. Suas memórias estão repletas de revelações deste período, mas escolhi justamente o trecho em que fala sobre a questão japonesa; sobre as ilhas Sakhalin;sobre as relações soviéticas com os EUA de Truman e muitos outros temas importantes. 
 

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Plekhanov, o fundador do marxismo russo

 
George Valentinovitch Plekhanov, considerado o fundador do marxismo russo e, ainda, tido por muitos como seu líder exponencial, nasceu em 11 de dezembro de 1856 (acima, selo comemorativo do centenário de seu nascimento, comemorado na URSS pelo governo de Nikita Kruschev).

Sua cidade natal é Gudalovka (província de Tambov), posteriormente rebatizada de Plekhanov, situada no sudeste russo.
Ainda estudante, Plekhanov foi atraído pelo populismo e passou a integrar uma organização clandestina "Terra e Liberdade", da qual se tornou, em 1879, dissidente, fundando seu próprio grupo - o "Redistribuição Negra".

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Discursos de Lênin: 1ª parte



O canal Pan-Eslavo Brasil está lançando com este vídeo uma série de discursos legendados de Vladímir Ilitch Uliánov, o Lênin, gravados em disco no final de março de 1919, sobre diversos temas políticos e sociais da recém-instaurada Rússia soviética. O presente vídeo se intitula "Em memória do camarada Iákov Mikháilovitch Sverdlov, Presidente do Comitê Executivo Central Pan-Russo".



  As gravações são raras, e seu áudio, texto em russo e tradução em inglês podem ser obtidos nesta página:

Todos os discursos também estão transcritos na 5.ª edição das "Obras completas" originais, editadas em Moscou em 1969 e que podem ser baixadas aqui:

domingo, 15 de janeiro de 2012

MIKHAIL GORBATCHÓV: PARTE 1 -UMA ENTREVISTA A GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ

Hoje inicio uma série de posts sobre Mikhail Gorbatchov, o homem que é adorado por alguns destas bandas, ao passo que muitos russos o olham com certo repúdio, e tudo pelo mesmo motivo: o fim da URSS. Mar teria sido ele o culpado? Ele traiu o povo soviético ou apenas foi mais um idealista e reformador? 


terça-feira, 29 de novembro de 2011

MORRE A FILHA DE STALIN SVETLANA ALLILUYEVA


Morre a filha de Stalin, Svetlana Yossifovna Alliluyeva, nascida de seu segundo casamento. Svetlana é  uma "velha amiga" deste blog, uma vez que venho publicando, por diversos posts, suas famosas cartas, que compõem o livro "Vinte Cartas a Um Amigo", no qual ela nos passa uma imagem de Stalin surgida de suas lembranças e de tudo o que ela ouviu  no seio da família e entre amigos, no decorrer de sua vida. De suas páginas sai  um Stalin mais desmistificado, mais vivo. O interessado pode ler os referidos posts Aqui.
Veja um pouco de Svetlana no vídeo a seguir, com legendas em inglês:

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

LITERATURA E REVOLUÇÃO: TROTSKI

Muitos hão de estranhar o fato de um dos maiores revolucionários do século passado ter escrito um livro sobre literatura, apesar de estar  abordando o assunto sob a ótica revolucionária. Mas Trotski entendia profundamente do tema e escreveu o livro logo após a Guerra Civil russa (1918/21), entre os anos de 1922 e 1923, em um momento de 'férias'...Além de entender, ele valorizava a arte a tal ponto, que deixou registrado no livro o seguinte trecho:
"..a solução dos problemas elementares - alimentação, vestuário, habitação e educação básica - de forma alguma significaria a vitória total do novo princípio histórico, isto é, do socialismo. Só o progresso  do pensamento científico em escala nacional e o desenvolvimento de uma nova arte mostrariam que a semente histórica não só germinou, mas também floresceu. Nesse sentido, o desenvolvimento  da arte é a maior prova da vitalidade e importância de cada época".
Editado no Brasil pela Zahar Editores, com tradução de Moniz Bandeira, o livro tem  250 páginas, nas quais Trotski revela seus conhecimentos literários, analisando a produção artística de sua época  e, neste aspecto revela, também, suas divergências com os rumos tomados pela Revolução sob a direção de Stalin: um dos pontos básicos é ir contra a idéia de que o Partido-Estado deveria orientar formas e conteúdos da produção artística. Ele refuta a noção de uma "cultura proletária(prolekult), tão defendida por Stalin.Acreditava que o movimento "prolekult" se baseava  em mal-entendidos e ilusões, mas defendia seu direito de existir.Esta oposição é coerente com sua idéia de "fim das classes": a ditadura do proletariado seria algo necessário apenas enquanto o proletariado precisasse se defender e isto deveria ser por um período breve: 
"Contrariamente ao regime dos possuidores de escravos, de senhores feudais e de burgueses, o proletariado considera sua ditadura como um breve período de transição... Mas o proletariado irá se dissolver na sociedade socialista, se libertar de suas características de classe, isto é, deixará de ser proletariado...O proletariado tomou o poder  precisamente para acabar  com a cultura de classe e abrir caminho para uma cultura da humanidade. Ao que parece, esquecemos isto frequentemente".
Utópico ou não, certo é que isto deixa clara sua posição a respeito do assunto "arte proletária".

O livro mostra, em páginas subseqüentes, a contradição deste pensamento de Trotski, expressado num momento em que o Estado socialista ainda era incipiente, mas foi a partir desta opinião que  ele construiu sua tese em defesa da maior liberdade possível para a produção e recepção literárias.
"O proletariado,durante o período de sua ditadura,  deve marcar a cultura com o seu selo(...)Isto não significa o desejo de dominar a arte por meio de decretos e prescrições. É falso que só consideramos nova e revolucionária a arte que fala do operário. Não passa de absurdo dizer que exigimos dos poetas apenas obras sobre chaminés ou sobre uma insurreição contra o capital. O lirismo tem incontestavelmente o direito de existir na nova arte, por menor que seja sua esfera de ação. Ninguém imporá, nem se atreverá a impor aos poetas uma temática. Escrevam, então, tudo o que lhes vier a cabeça!".
Ele argumentava, ainda, que o Prollekult reduzia todo o valor estético ao mais rudimentar conteúdo político e social. e que esta postura era condescendente com os novos escritores de classe operária, privando-os do conhecimento cultural e da prática de que precisam para desenvolver uma nova arte.
Ele sabia do atraso cultural dos operários e camponeses, por séculos de dominação tzarista e da defasagem entre eles e a intelectualidade literária então existente, por isso desejava que aqueles que pregavam com muita ênfase uma 'arte proletária' não fingissem que tudo o que eles escreviam era obra de arte. Eles deviam ser capacitados através do estudo e cultivar seus próprios padrões de julgamento. Deviam estudar tudo o que a boa literatura russa havia produzido, bem como tudo o que foi produzido pela literatura internacional:
"Seria pueril pensar que as belas artes burguesas  possam abrir brechas na solidariedade de classes. O que Shakespeare, Goethe, Puchkin e Dostoievski  darão ao operário será, antes de tudo, a imagem mais complexa da personalidade, de suas paixões e sentimentos. O operário, afinal, se enriquecerá".
 Mais adiante, ele afirma que
"não existe, ainda, arte revolucionária. Há elementos dessa arte, sinais, tentativas de realiza-la."
Quanto  à arte socialista, aí então é que não existia mesmo: ainda lhe faltavam, segundo Trotski, as bases necessárias(isto entre 1922 e 1923).
Pouco mais de um ano após a publicação deste livro, Trotski foi forçado por Stalin e seus seguidores a se demitir  do cargo de chefe do Exército Vermelho. Três anos depois, foi expulso do Partido Comunista, partindo para o exílio, onde foi assassinado.

O leitor vai encontrar no livro, ainda, comentários e, por vezes, análises pormenorizadas sobre vários escritores russos. Critica outros tantos, como Andrei Biely, que particularmente adoro: acusa Biely, o autor do fantástico "Petersburgo"por seu simbolismo, misticismo e, principalmente, por ser um anti-revolucionário, dando como prova disto o pseudônimo por ele escolhido - Biely(em russo significa branco) e diz que a Rússia pós revolução está muito afastada da Rússia de Biely, de Iasnaia Poliana(terras de Tolstoi), dos latifundiários e dos burocratas.
No final do livro, você encontra uma cronologia da vida do autor e um glossário, no qual existem pequenos resumos biográficos de muitos autores, políticos, filósofos, pensadores, etc. Trás, finalmente, sugestões de leitura, além de três brilhantes ensaios de Trostsky sobre Mayakovski, Iessênin e Lunatchárski.

Excelente, valendo ela em si por um livro, é a apresentação feita por William Keach.O preço do livro também não é dos mais caros:R$ 42,00.

domingo, 16 de janeiro de 2011

MENSAGENS DE FIM DE ANO DOS LÍDERES RUSSOS E SOVIÉTICOS

Recebi de um amigo soviético (bielorrusso) estas mensagens de fim de ano dos presidentes da URSS e Rússia e as posto aqui, em especial, pensando na turma que estuda russo. Para os demais leitores do blog, talvez até seja de algum interesse, já que coloco, muito resumidamente, as linhas gerais dos discursos; você poderá ouvir, também,os hinos da Rússia e se sentir um pouco mais próximo deste país e sua cultura,uma vez que os pronunciamentos dos líderes na noite de ano novo são uma tradição desde o governo de Brejnev..(no vídeo de Putin, o Hino havia mudado, mas, graças a Deus, hoje em dia já é o anterior que prevalece novamente)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

MEMÓRIAS DE KRUCHTCHEV: AS FITAS DA GLASNOST- MAIS UM TRECHO

Há tempos atrás postei um trecho do livro de Nikita Khurchtchev(*), intitulado "Memórias de Khurchtchov - as fitas da Glasnost. Editado pela Siciliano em 1991, um livro difícil de ser encontrado, mas fundamental para quem quer conhecer um pouco mais da história da URSS.

Escrito no auge da desestalinização promovida por Khurchtchev, ele mostra algumas curiosidades no mínimo interessantes, apesar de eu não poder afirmar a autenticidade dos relatos. Digo e explico o porquê.


Não posso afirmar que acredito na veracidade de tudo o que está escrito nele, por uma razão muito simples: o material deixado pelo ex Primeiro Sercretário do Comitê Central do Partido Comunista, Nikita Khurchtchev, declarações gravadas em fitas cassete, veio a tona pelas mãos de Jerrold Schecter, antigo chefe dos escritórios da revista americana Times em Moscou , junto a um grupo comprometido com a publicação do material, formado por gente da Life, Time Inc, entre outros. Tendo em vista que o período era de guerra fria e muitos, tanto na Rússia, quanto no Ocidente, acharam o livro uma manipulação. A KGB chegou a dizer que ele foi escrito na "cozinha da CIA". Talbott, que preferiu manter a identidade as pessoas que lhe repassaram o material no anonimato, afirma que, durante décadas, pairou sobre a publicação das fitas muita desconfiança a respeito de sua veracidade, desconfiança esta que só foi resolvida pela confirmação do filho de Khurchtchev, Serguiey (que, curiosamente, era na época, um respeitado professor universitário nos EUA...), a respeito das fitas, em seu livro "Khruchtchev por Khruchtchev" .Foi o fim das polêmicas. As fitas, segundo Talbott, também possuem um certificado de autenticidade emitido por peritos que analisaram a voz delas constantes e concluíram ser do ex líder soviético.
No entento, eu - mera curiosa e amante da história daquelas bandas, continuo com minhas desconfianças. Ando procurando na rede se Talbott tinha alguma ligação com a CIA. Procurei muito pela internet e só encontrei uma referência a seu respeito, no endereço a seguir: ao que parece ele iniciou sua carreira na Cia, o que - para mim, tira bastante a credibilidade do livro. Mas gosto sempre de ler mais de uma versão da história. Assim, a leitura deste livro ainda me foi válida para o exercício da reflexão e do raciocínio, bem como para não ficar presa apenas às que li escritas por russos ou soviéticos.
http://www.stewwebb.comTalbott e a Cia


MD


lvro dde Serguiey Khruchtchev

O post inicial desta série foi sobre o suicídio da esposa de Stalin, mais precisamente sobre o que Khruchtchev soube a respeito (ele pertencia ao reduzido grupo de íntimos de Stalin). O post de hoje trata sobre as origens das fitas, de acordo com seu próprio autor, Nikita Khruchtchev.

"De há muito meus camaradas me aconselham e, até recomendam com insistência, que eu escreva aquilo de que me lembre. Minha geração viveu um período sumamente interessante: revolução, guerra civil, transição do capitalismo para o cosicalismo, Grande Guerra Patriótica, desenvolvimento e fortalecimento do sistema socialista - uma época inteira, completa. Foi meu destino tomar parte nesses anos que muitos não compreendem. É natural. Nem eu mesmo compreendo tudo.

Simpatizo com a preocupação dos camaradas que insistem assim comigo para que redija minhas memórias. Em algum momento, depois que muito tempo passar, toda palavra proferida por nós que vivemos no nosso período será um guia de valor inapreciável para os que nos sucederem. Sinto-me deveras afortunado por ter percorrido o caminho que percorri, e por ter participado da reconstrução (perestroika)
(**) social e política de nosso país.

Tive sorte. Tomei parte no processo, desde a mais pequena célula da nossa organização partidária até o mais alto nível- o Comitê Central e o Politiburo, os cargos de presidente do Conselho de Mnistros, de primeiro-secretário do Comitê Central e de membro do Presidium do Soviete Supremo da URSS.


Minha carreira foi de grande dificuldade e de grande responsabilidade também. Tive a oportunidade de participar da busca de soluções para muitos problemas e, depois, na implementação dessas soluções. É por isso que sinto ser meu dever dar minha opinião e a minha interpretação do que aconteceu. Sei, logo de inicio, que nenhuma opinião pode agradar a todos. Nem é esse meu objetivo. Quero que meu ponto de vista sobreviva e seja conhecido, ao lado do ponto de vista dos demais, para que sejam registrados e constituam como que o legado de nossa geração. Somos gente de um mesmo corpo - o Partido, o Politiburo, o Presidium do Soviete Supremo, o Comitê Central, o Conselho de Ministros. Embora nossas opiniões coincidam em algumas questões, em outras seguramente irão diferir. O que é apenas normal. É assim que sempre foi e que sempre será. A verdade nasce da divergência. Memso no interior do mesmo partido, entre pessoas que têm a mesma posição e o mesmo princípio - o do marxismo-leninismo - há maneiras diferentes de ver as coisas, diferentes interpretações e nuanças na solução de um problema. Os tempos, muitas vezes, exigem uma abordagem flexível. Sei que temos diferenças de opinião, até mesmo opiniões opostas. Como um político aposentado, vejo isso claramente, hoje que tenho tempo para ficar sentado observando o mundo. Isso não me preocupa. Confio naqueles que irão me julgar. Porque serei julgado pelo povo, que vai ler e ponderar este material e tirar dele suas próprias conclusões. Não sugiro e não creio que o que tenho a dizer seja a verdade definitiva. Absolutamente. Que cada um forme a sua opinião, comparando e sopesando as diferentes maneiras de ver determinada questão. Isso é tudo o que desejo. Só um louco acredita que todos são feitos no mesmo molde e que tudo o que não se conforme a esse molde deve ser considerado herético ou,pior, criminoso. Não. Que a história funcione como juíz. Que o povo decida.(...) (...)Vou ditar minhas memórias sem acesso a material de arquivo. Seria difícil para mim faze-lo. Na minha situação, esse material não está disponível. (...) Os fatos podem ser encontrados nas minutas e protocolos das reuniões(...). Agora os arquivos estão fechados.(...) Depois da morte de Stalin, quando já tínhamos alguma distância do período de sua liderança, descobrimos aqueles arquivos do partido até então desconhecidos por nós. Foi então que perdemos a fé que tínhamos em Stalin. Quando estava no poder, tudo o que era feito por ele ou por ordem dele nos parecia inabalavelmente e singularmente correto. só depois que ele morreu começamos a pensar criticamente no passado e, tanto quanto possível, a conferir aquilo que nos lembrávamos com o que estava registrado nos arquivos.



Após estes parágrafos, Nikita tece linhas autobiográficas, a respeito de seus avós, seus pai - Serguiey e Aksinia, sua infância, até seu contato com o marxismo e sua entrada para o rol dos blocheviques, sua entrada para o Exército Vermelho até o XX Congresso do Partido Comunista, já o segundo capítulo do livro. Mas isto fica para uma próxima vez.
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Crédito da foto acima:www.savok.org


(*) lê-se (*)KhruchtchOv
(**) Aqui ele não se refere ao famoso processo iniciado por Gorbatchev, mas à abertura tentada por ele.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

LIVRO OS COMISSÁRIOS DESAPARECIDOS: UMA HISTÓRIA FOTOGRÁFICA DO PERÍODO STALINISTA

http://www.indexart.ru/images/img/Prop_komissary_b.jpg



Este livro eu conheci através do Alyocha, grande amigo bielorrusso, e resolvi posta-lo, pois - com toda certeza, constitui material super interessante para todos os que gostam de história e, quem sabe, até para os que não gostam desta disciplina, mas sentem curiosidade em relação a este assunto.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

MEMORIAS DE KHRUCHTCHEV: AS FITAS SECRETAS DA GLASNOST

a venda em sebos e no Mercado Livre

http://ru.laser.ru/gallery/mesta/nikita_hruschev.jpg
KHRUCHTCHEV:
Pouco divulgado entre a gente, até por já ser um livro fora de catálogo, encontrado, apenas, em sebos, "As Fitas Secretas da Glasnost" é um coletânea de fitas ditadas por Nikita Khruchetchev durante seu governo (período de "desestalinização" soviética) e que, depois dele aposentado, apareceram pela primeira vez no ocidente. Inicialmente, por instruções do próprio Khruchtchev, havia uma espécie de lacunas em pontos cruciais da narrativa, ou seja, uma censura. Duas décadas depois, o material foi totalmente liberado, trazendo novidades interessantes do período de Stalin. Procurei o livro em formato e-book, não o encontrando. Daí, resolvi - a partir de hoje, ir divulgando seus trechos, a exemplo do que venho fazendo com o livro da filha do ditador soviético. Contém informações fascinantes, com material de grande interesse histórico. Espero que sirva para os que gostam desta disciplina.

Cap. 2 - O Grande Terror e o XX Congresso do Partido Comunista

(trecho da narração da morte da mulher de Stalin)

"Eu vi a mulher de Stalin, Nadezhda Sergeivna Alliluieva pouco antes de sua morte. Creio que foi nas festas de aniversário da Revolução de Outubro.
Havia uma parada e eu estava de pé junto ao mausoléu de Lenin com um grupo de ativistas do partido da cidade de Moscou. Alliluieva também estava lá. Estávamos juntos, um ao lado do outro, e conversavamos. Era um dia frio e ventava.
Como de hábito, Stalin envergava seu capote militar. Deixava aberto o primeiro botão, junto da gola. Lembro-me de que ela disse:
- Meu marido não trouxe o seu cachecol. Vai apanhar um resfriado.
Pude ver, pela maneira como disse aquilo, que ela não estava de bom humor. No fim da parada, fui para casa.
No dia seguinte, Kaganovitch convocou os secretários do partido para uma reunião e anunciou que Nadezhda Sergeievna havia morrido de repente. Como podia ser? - perguntei a mim mesmo. Acabei de falar com ela. Era uma bela mulher. Mas, afinal, as pessoas morrem.
Então, três dias depois, Kaganovitch reuniu o mesmo grupo e disse:
- Falo em nome de Stalin. Ele me pediu que os chamasse e lhes contasse o que aconteceu. Ela não morreu naturalmente. Suicidou-se.
Naturalmente, diante do grupo, ele não entrou em pormenores, e nenhum de nós perguntou nada. Nós a enterramos. Stalin parecia compungido junto da sepultura. Eu não sabia o que se passava no seu íntimo, mas - aparentemente, ele sofria.
Só muito mais tarde, depois da morte de Stalin, tomei conhecimento da causa da morte de Nadezhda Sergeievna. Naturalmente, o fato não está documentado. Apenas perguntamos a Vlasik, chefe dos guarda-costas de Stalin, o que motivara a morte dela. Vlasik disse que, depois do desfile, foram todos jantar no grande apartamento de Voroshilov. Sempre iam comer com Voroshilov depois das paradas.
Era um grupo reduzido: o marechal da parada, membros do Politburo e uns poucos mais. Foram para lá diretamente da Praça Vermelha. Naquele tempo, os desfiles e demonstrações levavam muito tempo. Todo mundo bebeu em excesso durante o jantar, como era costume nessas ocasiões. Stalin tinha ido sozinho. Finalmente, todos saíram. Stalin também. Mas não foi para casa. Era tarde. Quem poderia dizer que horas seriam? Nadezhda Sergeievna ficou preocupada. Onde estaria Stalin? Começou a procurar por ele, telefonando para a dacha em Zubalovo (nos arredores de Moscou) - não onde fica hoje a dacha de Kaganovitch, não onde Mikoyan morou até recentemente, mas meio quilômetro adiante, do outro lado da ravina.
Ela telefonou, então, e perguntou ao oficial de serviço:
- Stalin está aí?
-Está, respondeu ele. O camarada Stalin está aqui.
-Quem está com ele?
O oficial disse o nome da mulher.
Pela manhã, não sei exatamente quando, Stalin foi para casa, Nadezhda Sergeievna já não vivia.
Ela não deixou uma carta. Ou se deixou, nunca nos foi mostrada.
A outra mulher era esposa de Gusev, que também estivera presente no jantar. Quando Stalin saiu, levou a mulher de Gusev. Gusev era um militar, mas eu não o conheci, nem me lembro de ter jamais encontrado sua mulher. Mikoyan me contou que era muito bonita.
Então Stalin estava dormindo com ela na dacha e Alliluieva ficou sabendo de tudo pelo oficial de serviço. Vlasik disse:
- O oficial era um tolo, sem experiência. Ela fez a pergunta e ele respondeu, contando tudo.
Bem, houve rumores mais tarde de que Stalin a teria matado. Eu ouvi tais rumores e Stalin mesmo tinha conhecimento deles pelos seus agentes. Em suma, esse lado da história não está todo esclarecido, mas o outro lado é mais certo. Vlasik podia estar mal informado, mas era, afinal de contas, um guarda-costas.
Como viviam os dois, Stalin e Nadezhda Alliluieva? Posso apenas julgar na base de coisas que ouvi.
Às vezes, quando um tanto bêbado, Stalin nos contava um incidente ou outro.
- Eu me tranco no quarto e ela fica esmurrando a porta e gritando: -"você é um homem impossível! É impossível viver com você!". Mas eu mantenho a porta fechada e ela continua a esbravejar: -"Grosso, insensível, desumano!"
Stalin também nos contou que uma vez, quando a pequena Svetlana ficou zangada com ele, repetiu uma coisa que tinha ouvido a mãe dizer: - "Ainda apresento queixa de você!"
- E a quem vai queixar-se? perguntou Stalin.
- À cozinheira Svetlanka.
Também me lembro de ter visto Stalin, certa vez, depois da morte de Nadezhda, com uma bela jovem de pele morena. Era do Cáucaso.Quando entrei, a mulher se escondeu feito um ratinho. Disseram-me, depois, que era a preceptora de seus filhos. Mas não ficou lá muito tempo: desapareceu sem deixar traço."































(entre Tito e Gagárin)














Com Stalin

quarta-feira, 7 de abril de 2010

ANARQUISTAS GRAÇAS A DEUS OU... NÃO SUSTENTE PARASITAS!

http://sefronia.net/ars-teopatica/images/bakunin.jpg


Não, este post não é para publicar nenhum e-book da Zelia Gattai, mas quem pensou isto, pensou com razão, pois este é o título do maior sucesso da dona Zélia. Entretanto, o post é dedicado às idéias do Bakunin, anarquista russo. O momento é mais do que oportuno, face o ano eleitoral no Brasil. Sou pelo voto nulo. Porquê? Deixo a resposta pro Raulzito(acima de tudo, grande pensador brasileiro do séc.XX)...:





Bakunin foi um grande pensador russo do século XIX. Oriundo de família muito rica, estudou filosofia em Berlim, viajou muito, conheceu Proudhon e Marx e participou, em 1848, da Revolução Proletária em Paris.Seu curriculum tem de tudo: prisão, pena de morte, insurreições, exílio na Sibéria, fugas, etc, etc, etc. Mas, mais interessante do que sua biografia, farta pela internet e nas melhores livrarias, são seus pensamentos, que o levaram a abominar toda espécie de estado e a ser o mais brilhante entre todos os anarquistas. Numa época quando a gente vê tanta violência, não só a nível individual, mas - principalmente, a violeência institucionalizada do Estado (EUA, Israel, guerras por petróleo, por poder econômico), a corrupção, da qual nosso país é, não só agora com o Lula mas desde há muitos anos (basta ver as privatizações fraudulentas do FHC, entre outras coisas), escândalos envolvendo o Estado do Vaticano, a miséria, a gente passa a se questionar pra que o Estado? Se ele não consegue melhorar a condição humana, fecha os olhos à violência interna e fomenta guerras e destruição, não tem mesmo sentido sua existência. Isto me faz rever o estudo de alguns brilhantes filósofos e meu recomeço é exatamente com Bakunin.

Coloco, neste post, suas principais idéias resumidas nas frases que ficaram mais famosas:

- É preciso que compreenda que não existe liberdade sem igualdade e que a realização da maior liberdade na mais perfeita igualdade de direito e de fato, política, econômica e social ao mesmo tempo, é a justiça.

- As pessoas vão à igreja pelos mesmos motivos que vão à taverna: para estupefazerem-se, para esquecerem-se de sua miséria, para imaginarem-se, de algum modo, livres e felizes."

"Não há nada tão estúpido como a inteligência orgulhosa de si mesma.

- Estamos convencidos de que o pior mal, tanto para a humanidade, quanto para a verdade e o progresso, é a Igreja. Poderia ser de outra forma? Pois não cabe à Igreja a tarefa de perverter as gerações mais novas e especialmente as mulheres? Não é ela que, através de seus dogmas, suas mentiras, sua estupidez e sua ignomínia tenta destruir o pensamento lógico e a ciência? Não é ela que ameaça a dignidade do homem, pervertendo suas idéias sobre o que é bom e o que é justo? Não é ela que transforma os vivos em cadáveres, despreza a liberdade e prega a eterna escravidão das massas em benefício dos tiranos e dos exploradores? Não é essa mesma Igreja implacável que procura perpetuar o reino das sombras, da ignorância, da pobreza e do crime? Se não quisermos que o progresso seja, em nosso século, um sonho mentiroso, devemos acabar com a Igreja.
- Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo.Quem duvida disso não conhece a natureza humana.
Para quem quiser ler mais a seu respeito, recomendo ler seus próprios livros, relacionados a seguir:
-O Império Knuto-Germânico e a Revolução Social
-A Comuna de Paris e a Noção de Estado
-Federalismo, Socialismo e Antiteologia
-Estado e Anarquia
-Deus e o Estado
-Textos Anarquistas
-Eslavismo e Anarquia
-Os enganadores: a política da Internacional
-A ciência e a questão vital da Revolução
-Escritos contra Marx
-Estatismo e anarquia
-Escritos de filosofia política
-A instrução integral
Sugiro, também, a leitura do livro "Os Demônios", de Dostoievski, baseado na tentativa revolucionária anarquista fracassada, liderada por um seu representate - Nietchayev, que - entre outros abusos, assassinou I.Ivanov, cunhado de Dostoievski, irmão de sua segunda mulher, Anna Grigorievna. Foi com base em Nietchayv que o autor de Os Demônios criou seu personagem Piotr Vierkhovienski. Além deste livro ser maravilhoso, apesar de reconhecidamente panfletário, ele dá uma noção de como as idéias de Bakunin, mal utilizadas, podem levar aos mesmos extremismos cometidos por Estados ditadoriais.
Файл:Older Nechayev.jpg
Netchayev

domingo, 4 de abril de 2010

STALIN POR SUA FILHA: SVETLANA ALLILYEVA: VINTE CARTAS A UM AMIGO


No meu outro blog (www.culturalivrenaweb.blogspot.com) eu vinha postando regularmente as cartas extraídas do livro " VINTE CARTAS A UM AMIGO", de autoria de Svetlana Allilyeva, a única filha de Stalin. Agora, começo a transferir tais potagens para este novo blog e futuramente a dar continuidade à estas cartas.
Hoje a carta postada é a de número 4. Estas cartas são, a meu ver, importantes para se contextualizar as atitudes de Stalin. Para conhecer um pouco mais do que a história convencional nos mostra. As cartas apresentam não só o Stalin, ator principal de uma época totalmente nova para as repúblicas integrantes da URSS, bem como para o mundo, mas mostra, também, o Stalin homem, pai, marido, genro. Além disto, mostram os atores coadjuvantes desta história. Sem dúvida, um livro que deve ser lido por todos os que curtem história e política, mas que, infelizmente, se encontra esgotado, só podendo ser encontrado em raríssimos sebos.
Na oportunidade, aproveito para colocar, sempre que possível, foto das pessoas e lugares citados, a fim de dar um atrativo extra ao post.
Milu Duarte

"Você não poderá compreender o caráter de minha mãe e toda sua curta vida, sem que eu lhe fale de seus pais. A vida deles também é muito interessante e em muitos detalhes traz a marca da época. Antes de mais nada, devo dizer que as qualidades herdadas e toda a formação, infância e educação de mamãe maracaram-lhe muito a personalidade. Nosso avô Serguei Yakovlevitch Allilyev descreveu, de modo interessante, sua própria vida em um livro de memórias publicado em 1946. Mas apareceu, então, incompleto, com muitos cortes.(1) O livro foi depois, em 1954, republicado, porém, ainda mais resumido. esta edição é, de todo, sem interesse. Vovê era um camponês da província de Voronej.

Serguei Alliluyev, avô de Svetlana


Não era um russo puro, tinha uma miscigenação cigana muito acentuada - sua avó era cigana. Provavelmente vêm dos ciganos o aspecto algo exótico, sulista - os olhos negros, os dentes deslumbrantes, a tez tostada, a magreza - de todos os Allilyevs. Estes traços se imprimiram principalmente no irmão de mamãe - Pavlucha (um verdadeiro hindu, parecido com Nehru, quando moço) e na própria mamãe. Talvez seja dos ciganos aquela sede inesgotável de liberdade, que vovô possuia, e sua paixão de viver como nômade, indo sempre de um lugar para outro. Camponês de Voronej, ele logo se ocupou com toda espécie de artesanato possível e era sempre muito habilidoso em todas as coisas técnicas - tinha realmente mãos de ouro. Fez-se logo serralheiro e trabalhou nas oficinas da ferrovia da Transcaucásia. A Geórgia, com sua natureza, com muito sol, foi o apego de vovô, durante toda a sua vida.


Voronezh - Rússia
Voronezh - Rússia
mais fotos da cidade: http://vrnfot.ru/photo
mapa interativo da cidade








Ele gostava daquele esplendor exótico do Sul, conhecia e compreendia o caráter dos georgianos, dos armênios, dos azerbaidjanos. Morou em Tibilisse, Baku e Batum.




Tbilisse - Capital da Geórgia
mais fotos de Tbilisse: http://www.tbilisifoto.narod.ru/


Baku, capital do Azerbaijão
mais fotos de Baku vem em :
http://www.baku.ru/glr-list.php?upd=1133622039&new=0&sr=1





Batum - Geórgia
(fonte: www.wikipedia.ru)

Ali, nos círculos operários, encontrou-se com os social-democratas M.I. Kalínin e I. Fioletov e tornou-se membro do RSDRP(2), já no ano de 1898. Tudo isto está descrito, de maneira muito interessante, em suas memórias: a Geórgia daqueles tempos, a influência da intelectualidade russa de vanguarda no movimento de libertação nacional georgiano e aquele admirável internacionalismo que já então caracterizava o movimento revolucionário transcaucasiano (e que, infelizmente, logo depois, se extinguiu). Vovô nunca foi nem um teórico, nem um membro preeminente do Partido. Era seu soldado, seu trabalhador braçal, um daqueles sem os quais não se poderiam estabelecer as ligações com os trabalhadores e realizar o trabalho quotidiano para empreender a própria revolução. Mais tarde, nos primeiros anos deste século, viveu com a família em Petersburgo(3), onde trabalhou então, já como contramestre, na Empresa de Energia Elétrica. Trabalhava sempre com entusiasmo e todos o tinham como um excelente técnico e conhecedor de seu ofício. Em Petersburgo, vovô e seus familiares tinham um apartamento de 4 quartos, um desses apartamentos que hoje, aos nossos catedráticos, pareceriam um sonho irrealizável... Seus filhos estudaram no ginásio de Petersburgo e cresceram como autênticos intelectuais russos. Foi assim que a Revolução de 1917 o encontrou. Sobre tudo isso eu ainda volto a falar. Depois da Revolução, vovô trabalhou no setor de eletrificação, na construção da Hidrelétrica de Chatursk, onde viveu e trabalhou por muitos anos, tendo sido, ali mesmo, certa feita nomeado presidente da Empresa Lenenegro.




Chatursk, Rússia

Como velho bolchevista, esteve intimamente ligado à velha guarda revolucionária, a todos conhecia e todos o conheciam e estimavam. Era de uma admirável delicadeza, afável, terno, dava-se bem com todos e, não obstante estas qualidades - que nele constituíam um todo único - era intimamente firme, incorruptível e assim, desta maneira tão orgulhosa, conduziu até o fim da vida (morreu aos 79 anos de idade, em 1945) seu "eu", sua pureza, excepcional honestidade e decência. Conservando essas qualidades, ele, homem afável, podeia tornar-se duro com aqueles que não comprendiam e não podiamalcançar esses traços de seu caráter. Com avantajada estatura, ficou emagrecido na velhice, com as mãos e as pernas compridas e secas, sempre muito asseado e cuidadoso e mesmo elegantemente trajado - hábitos adquiridos em Petersburgo - com seu cavanhaque pontiagudo e bigodes brancos, vovô, de certo modo, fazia lembrar M.I.Kalínin(4). Na rua a garotada, muitas vezes, gritava: "Vovô Kalínin!". Mesmo na velhice, conservou ele o brilho vivo daqueles olhos ardentes e negros como carvão e a capacidade de se alegrar de repente e dar contagiantes gargalhadas. Vovô morou conosco em Zubalovo, onde o adoravam todos os seus numerosos netos. Em seu quarto, havia um banco de carpinteiro, toda sorte de instrumentos, grande quantidade de maravilhosas ferramentas, arames, todas aquelas coisas que nos faziam pasmar, a nós crianças, e ele sempre nos permitia mexer naqueles trastes velhos e tirar dali o que quisessemos. Vovô estava eternamente trabalhando, soldando, afiando, aplainando, fazia todos os consertos necessários na casa, reparava a rede elétrica...


Datcha de Stalin, em Zubalovo (a primeira foto do post também é nesta datcha)

Todos recorriam a ele para uma ajuda ou um conserto. Gostava de caminhar, em longos passeios. A nós vinham juntar-se ainda os filhos de meu tio Pavlucha, que moravam na Zubálovo 2(onde também viveu A.I.Mikoyan) ou o filho de Anna Sergueievna, irmã de mamãe. Vovô gostava de distrair seus netos e de ir ao bosque à cata de nozes ou cogumelos. Lembro-me de como vovô me punha nos ombros, quando eu me cansava, e assim eu navegava lá no alto, acima da vereda, por onde passeavam os outros - e eu alcançava com as mãos até as nozes nos ramos.
A Morte de mamãe o abateu. Ele se transformou, tornou-se reservado e completamente taciturno.


Nadezhda Allilyeva, mãe de Svetlana

Josef Stalin and his wife, Nadezhda Alliluyeva, on a picnic

Quem diria, Stalin e Nadezhda num pic-nic!!!
(anos 20)





Túmulo de Nadezhda

Vovô sempre foi modesto e pouco notado, não gostava de chamar a atenção sobre si- sua calma, delicadeza e afabilidade eram atributos de sua própria natureza ou talvez os tenha assimilado na convivência daquela admirável intelectualidade russa à qual a revolução o ligou por toda a vida.
Depois de 1932, ele se recolheu inteiramente, por muito tempo ficava sem sair do quarto, onde estava sempre a desbastar um pedaço de madeira ou a confeccionar alguma coisa. Tornou-se ainda mais afetivo com os netos. Passou a morar, ora conosco, ora com sua filha Anna, irmã de mamãe, porém sobretudo conosco em Zubálovo. Depois começou a adoecer. Sua alma devia estar mais enfêrma que tudo e, daí, vinha todo o restante - pois em geral possuía uma saúde de ferro.
Em 1938 morreu Pavlucha, irmão de mamãe. Foi mais um golpe. Em 1937, Stanislav Redens, marido de Anna Sergueievna, foi preso e, em 1948, depois da guerra, ela própria, Anna Sergueievna, foi levada à prisão. Vovô, graças a Deus, não viveu até esse dia. Morreu em junho de 1945, com câncer no estômago, diagnosticado muito tarde. Sim, seus males não eram males de senilidade, do corpo: sofria intimamente, porém nunca aborrecia ninguém com seus sofrimentos, nem com pedidos, nem com exigências.

Ainda antes da guerra começou a escrever suas memórias. Em geral, gostava de escrever. Eu recebia, naqueles tempos, longas cartas dele, enviadas do Sul, com descrições minuciosas das belezas da região, que ele tanto amava e compreendia. Tinha o estilo suntuoso de Gorky - ele em geral gostava muito de Gorky, como escritor - e com ele concordava inteiramente em que cada pessoa deve descrever sua vida.

Vovô escreveu muito e com entusiasmo. Infelizmente, não chegou a ver seu livro publicado, apesar de seu velho amigo M.I. Kalínin ter recomendado muito para serem editados aqueles originais de "um velho bolchevista e um rebelde nato".



M.I.Kalínin

A enfermidade, no último ano de sua vida, progrediu impetuosamente. Ele emagreceu de modo assustador: eu o vi no hospital, pouco antes de sua morte, e me assustei. Parecia um esqueleto vivo: já não podia falar, apenas cobria os olhos com a mão e se punha a chorar em silêncio; compreendia que todos vinham ve-lo para o derradeiro adeus... No caixão, ele jazia como um santo hindu - tão bonito com seu rosto sêco e emaciado, o nariz afilado e ligeiramente adunco, os bigodes e a barba cor de neve. O caixão foi velado no salão do Museu da Revolução, onde foi visitado por muita gente - os velhos bolchevistas. No cemitério, o velho revolucionário Litvin -Sedói disse umas palavras que, na época, não entendi direito, mas que guardei para toda a vida e hoje compreendo tão bem o seu sentido: "Nós, a velha geração dos marxistas-idealistas..."
O casamento de vovô com vovó foi totalmente romântico. Com ele, jovem operário de uma oficina de Tifilis(5), vovó saiu de casa, retirando pela janela uma trouxa com suas coisas, quando não tinha, ainda, 14 anos. Na Geórgia, onde ela nasceu e cresceu, a adolescência e o amor chegam cedo, daí nada haver de extraordinário nisso. O extraodinário é que ela tenha deixado sua casa, de relativo conforto, seus queridos pais, uma família imensa de irmãos e irmãs, por um pobre serralheiro de vinte anos. Como lembrança de sua casa, vovó conservou durante toda a vida uma fotografia onde se via toda a família numa carrruagem junto da casa - seu cavalo de estimação, o cão deitado e o cocheiro com as rédeas nas mãos, todas as pessoas da casa, na carruagem, com os peitos estofados, os olhos fixos na máquina fotográfica...
Nossa avó, cujo nome de solteira era Olga Evguenievna Fiodorenka, havia nascido e se criado na Geórgia e amou este país e seu povo durante toda a vida, como sua própria pátria. Ela representava uma estranha mistura de nacionalidades. Seu pai, Evgueny Fiodorenko, apesar do sobrenome ucraniano, cresceu e viveu na Geórgia; sua mãe era georgiana e ele mesmo falava o georgiano. Casou-se com uma alemã, Magdalina Eichgolds, de uma família de colonos alemães. Na Geórgia, desde os tempos de Catarina II, havia colonos alemães que habitavam suas aldeias. Magdalina Eichgolds possuía - como era de se esperar, uma cervejaria, preparava maravilhosamente todos os pratos, teve dez filhos (o último, nossa avó Olga) e costumava levá-los todos à igreja protestante.












Avó de Svetlana

Em família, Fiodorenko falava tanto o alemão como o georgiano. Só mais tarde foi que vovó aprendeu a língua russa e toda a sua vida falou com sotaque tipicamente caucasiano, com vários "vai-me", "chvilo", "guenatzvale", "tchirime"!(6), e aí mesmo incluia "Jesus-Maria" ou seu invariável "Mein Gott!" Muito religiosa sempre, sua vida de "revolucionária", com vovô, só serviu paa depurar-lhe a religiosidade dos antolhos e do dogmatismo. Não reconhecia diferença entre o protestantismo, a igreja gregoriana (dos armênios) e a ortodoxa, e considerava todas estas diferenças um despropósito. E, quando nós, crianças, começavamos a brincar com ela e perguntávamos: "Onde está Deus?"- "Onde está a alma fo homem?, ela se zangava e nos dizia: "Cresçam e amadureçam que vocês saberão onde. Me deixem em paz! Vocês não vão me reeducar!" Ela mostrou que estava certa. Quando eu fiz 35 anos me convenci de que vovó era mais inteligente que todos nós. Educada no amor alemão pelo trabalho, vovó era uma pessoa extremamente laboriosa. Tinha, como vovô, as mãos de ouro - só que femininas. Cozinhava bem, sabia costurar, era ótima dona de casa, com toda a escassez de meios de sua vida com os bolchevistas: prisão de vez em quando e a vida errante de uma cidade para a outra. E era de ver como afligia seu coração a economia doméstica "estatal" que elemtos do govêrno introduziram em nossa casa nos últimos anos - como ela se irritava vendo o desperdício do dinheiro do Estado! Eles não a compreendiam (ou talvez a compreendessem em demasia!) e por isto não gostavam muito dela. Ao contrário do temperamento de vovô, sempre delicado e meditativo, vovó podia, subitamente, exasperar-se, insultando os "donos de casa relaxados", todos os nossos empregados estatais - cozinheiros, mordomos e copeiros, que a consideravam uma "velha déspota", extravagante e caprichosa. Desta reputação que tinha vovó, também ouvimos falar - nós, crianças, que vivíamos com ela em Zubálovo - depois da morte de nossa mãe. E não compreendíamos então, é claro, que vovó tivesse um temperamento tão ardente que não podia calar-se diante desse infame sistema "estatal" de nossa economia doméstica. Não era a toa que ela gostava da Geórgia e ali se criara. Tinha um temperamento típicamente do Sul, quente, com lágrimas de alegria e pesar, com lamúrias e efusivas manifestações de amor, de carinho e de descontentamento. Mamãe, controlada, porém mais severa que vovô, se cansava com as explosões dela, com suas críticas permanentes à educação das crianças, à disciplina da casa - ou, às vezes, a mamãe mesma. E não gostava quando vovó vinha a nossa casa amiúde e interferia nos problemas domésticos. Talvez porque todos os receios e aborrecimentos de vovó fossem, no fundo, inteiramente justos e sensatos, mamãe simplesmente os temia e procurava afastar-se deles.
Mas deixe-me voltar atrás. Seja como for, meus avós formavam um bom casal. Vovó tinha estudado os quatro primeiros anos, provavelmente os mesmos que vovô. Moraram em Tíflis, Batum, Baku e vovó foi sempre ótima esposa, paciente e leal. Ela se dedicava à mesma atividade dele e, embora tenha, ela própria,ingressado no Partido antes da Revolução, constantemente se lamentava, dizendo que "Serguei arruinou a vida dela!" e que com ele só conheceu os "sofrimentos". Quatro de seus filhos - Anna, Fiodor, Pável e Nadezhda - nasceram todos no Cáucaso e eram também sulistas em tudo - na aparência, nas impressões que guardavam da infância, em tudo aquilo que marca a pessoa, insensível e inconscientemente, nos primeiros anos de vida.











Eram todos criaturas excepcionalmente belas, com exceção de Fiodor, que era, em compensação, o mais inteligente e talentoso, a tal ponto que, apesar de sua baixa origem "pequeno-burguesa", foi admitido como guarda-marinha em Petersburgo. Todos da família eram afáveis, cordiais e bondosos. Esses eram realmente traços comuns a todos eles. É possível que a mais inflexível, obstinada e firme tenha sido mamãe, que possuía uma espécie de fôrça e teimosia interiores. Os outros eram mais dóceis. Pavlucha e Anna eram excepcionalmente generosos; e mamãe sempre se queixava deles, dizendo que, juntamente com vovó, só faziam "estragar as crianças". eles acusavam mamãe de "secura", de parcialidade em relação às governantas que "oprimiam" as crianças e não deixavam que elas crescessem "à vontade". Tudo isto, no entanto, eram discussões amistosas, porque, de modo geral, todos eram muito amigos e muito chegados uns aos outros.

Vovô e vovó consideravam que a educação das crianças devia ser, sempre que possível, a melhor e, por isto, quando arrumaram sua vida em Petersburgo, os filhos foram matriculados no ginásio.




Petersburgo, atual cidade maravilhosa de
São Petersburgo(olha eu lá, em 2006)

Vendo as fotografias da época fica-se assombrado com a fisionomia de vovó: ela era muito encantadora! Não apenas por seus grandes olhos cinzentos, os traços corretos do rosto, a boca pequena e graciosa, o porte altaneiro, soberbo, franco, "de rainha", mas também por seus sentimentos de extraordinária dignidade. Por isso, seus grandes olhos pareciam mais abertos e sua figura pequena parecia maior. Vovó era de estatura pequena, bem feita, asseada, elegante, ágil, de cabelos claros e, como se diz, tão sedutora que seus admiradores não a deixavam em paz... É preciso dizer que era próprio dela apaixonar-se e de vez em quando se entregar a aventuras amorosas, às vezes com um polonês, às vezes com um húngaro, com um búlgaro e até com um turco.Ela amava a gente do sul e muitas vezes afirmava, calorosamente, que os "homens russos eram uns cafagestes". Seus filhos, jé em idade de ginásio, viam tudo isto com uma certa paciência, pois, em geral, tudo terminava com sua volta normal à vida do lar. Alguns anos mais tarde, vovê e vovó, embora tenham sofrido demais, e cada um à sua maneira, a morte de mamãe, se separaram e foram morar em apartamentos diferentes. Quando se encontravam, à mesa, em nossa casa de Zubálovo, no verão, tinham picuinhas por coisas insignificantes, e vovô se irritava, principalmente, com as mesquinhas implicâncias de vovó em todas as questões domésticas. Ele se colocava, de certo modo, acima disso tudo; ocupava-se mais com a elaboração de suas memórias. Aqueles resmungos aborrecidos, aqueles "ach!" e "och!", essas lamúrias caucasianas em face das desordens, tiravam-lhe o equilíbrio e a calma. Por isso, cada um deles enfrentou a velhice, a doença e a morte, na solidão, cada qual por si. Cada um acreditava em si mesmo e conhecia seu caráter e interesses, tinha seu orgulho, seu modo de vida, não se agarravam um ao outro, como velhos desamparados. Cada qual amava a liberdade e, apesar de ambos sofrerem a solidão, nenhum deles queria renunciar à liberdade nos últimos anos de suas vidas. "Liberdade, liberdade, eu amo a liberdade!" - gostava de exclamar vovó e, com isto, dava a entender, com toda a clareza, que foi precisamente vovô quem a privou dessa mesma liberdade e, de modo geral, "arruinou sua vida".

Estou o tempo todo a avançar sobre o futuro, quando falo do passado. Assim devo fazer porque não é possível respeitar uma sequência cronológica. Os pensamentos surgem inesperadamente.

Nos anos anteriores à Revolução, vovó, além de dirigir a casa e a educação dos quatro filhos, para os quais costurava, ainda frequentava um curso de parteira e como tal trabalhou excelentemente. Gostava de crianças, amava a vida e esse trabalho lhe parecia notável e dava a ela uma satisfação espiritual grandiosa. Quando começou a Primeira Guerra Mundial, vovó passou a cuidar dos soldados feridos em um hospital e, durante toda a sua vida, guardou as cartas daqueles soldados que se restabeleciam e regressavam a ausas casas. Ela me mostrava essas cartas e as guardava com amor e enternecimento. Costurava em casa, naquele tempo, roupa de baixo para soldados e o fazia com habilidade e rapidez, como tudo de que se ocupava.

É preciso dizer que, apesar de seu amor ao trabalho e de suas "mãos de ouro", não tinha - nem ela nem vovô - absolutamente senso prático em sua vida particular. Já nos últimos anos, às vezes em Zubalovo, as vezes em casa de anna Sergueievna, gozando os pequenos privilégios (sobretudo simbólicos) de velhos bolchevistas, recebendo uma mísera "pensão", ambos revelavam o máximo desdém pelos bens terrenos. Usavam ainda, ambos, suas roupas de antes da Revolução. O sobretudo tinha já vinte anos e vovó reformava seus pobres vestidos, fazendo de três molambos um novo e decente. Isso não era um ascetismo hipócrita, mas simples ausência de necessidades supérfluas e também a completa incompreensão e, por assim dizer, falta de consciência de sua nova e "alta" posição em nossa nova sociedade: a mesma graças à qual outros parentes, "augustíssimas" personalidades, criavam uma vida luxuosa para si e para todos os seus parentes - próximos e distantes. E eles nem sequer pensavam em tal coisa.

Mamãe mesma era extremamente sóbria em suas necessidades vitais; somente nos últimos anos de sua vida, é que Pavlucha, então servindo em nossa representação diplomática em Berlim, lhe mandou alguns vestidos bonitos, com os quais ela se tornava inteiramente irresistível... mas, normalmente, andava com as roupas mais modestas, feitas em casa, e só de vez em quando tinha algum vestido "melhor" confeccionado por costureira. Mas, de qualquer maneira, mamãe estava sempre encantadora.


Svetlana pequena e seu pai
Svetlana e a mãe

Esta completa ausência de avidez do pequeno-burguês era tida por muitos até como ofensiva: achavam e diziam ser inconcebível que o genro "não pudesse" vestir melhor os velhos "indigentes"...Mas o próprio genro trajava no verão uma roupa de linha, semelhante a um uniforme militar, e no inverno, um capote de lã,com uns 15 anos de uso, além de uma peliça curta e extravagente, revestida de pele de veado, com forro de petit gris, que deve ter sido "arranjada" logo depois da Revolução, juntamente com a uchanka(7),usada no inverno até seus últimos dias de vida...




Uchanka
Os "velhos indigentes", "marxistas-idealistas", eram fortes de espírito, cheios de vida, inesgotáveis e eternos.

Meu pai já de há muito conhecia bem a família dos Allilyevs. Desde o fim do século passado. Ele amava e respeitava muito a ambos e isto era recíproco. Sobre seus primeiros encontros, ligados ao trabalho dos grupos clandestinos, há muita coisa escrita nas memórias de vovô - e não vou repeti-la. A propósito, a estória da família refere que papai, ainda jovem, salvou mamãe. Foi em Baku, quando ela tinha dois anos. Brincando no cais, caiu no mar e ele a retirou das águas. Para mamãe, pessoa romântica e impressionável, semelhante início de idílio provavelmente teve imensa significação quando ela, ginasianda de dezesseis anos, o encontrou depois. ele voltava da Sibéria, um revolucionário exilado de 38 anos e velho amigo da família.




De que mais posso me lembrar?... Lembro-me apenas que vovô e vovó moravam conosco em Zubalovo, embora seus quartos ficassem situados em lados opostos da casa. Eles se sentavam à mesa com papai, a quem vovô se dirigia, dizendo " tu, Ióssif", enquanto vovó o tratava de "senhor Ióssif" e papai sempre se dirigia a eles muito respeitosamente, chamando-os pelo nome e patronímico(8). Assim também era, lembro-me, depois da morte de mamãe. Meus avós sofreram terrivelmente com a morte de minha mãe, mas compreendiam muito bem comoo fato era também penoso para papai e por isso - como me pareceu e parece - em suas relações com ele nada se alterou. Esse sofrimento comum nunca era comentado em voz alta, mas invisivelmente estava presente entre eles. Talvez por esta razão, quando toda a nossa casa de desfez, papai frequentemente esquivava-se ao contato com meus avós. Antes da guerra, ele ainda se encontrava com eles, nas esporádicas aparições de meus avós no nosso antigo ninho de Zubalovo; e isto acontecia geralmente no verão e todos se reuniam em volta da mesa, ao ar livre, e aí faziam sua refeição. Mas pelo visto, estas visitas constituiam, para meu pai, uma recordação demasiado penosa do passado. Geralmente ele saía com ar sombrio, insatisfeito e, às vezes, brigado com alguma das crianças.Vovô e vovó sempre iam visitá-lo.
Vovô vinha ao nosso apartamento no Kremlin e ficava sentado no meu quarto esperando muito tempo pela vinda de papai para jantar. Jantávamos habitualmente por volta de 7 ou 8 horas da noite, quando papai chegava, ao fim do dia de trabalho, de seu gabinete no Comitê Central ou no Conselho de Ministros (naquele tempo, denominado Sovnarkome)(9). Ele jantava sempre com alguém e vovô só conseguia, no melhor dos casos, sentar-se à mesa com ele, em silêncio. Vez por outra papai caçoava de suas memórias, porém, devido ao respeito que tinha ao velho, nunca se permitiu fazer, a esse propósito, pilhérias grosseiras. As vezes, quando vinha muita gente com papai, meu avô suspirava e dizia: - "Bem, vou andando, virei outra vez." E esta outra vez era dentro de seis meses ou um ano. Antes não lhe era possível, pois pelo visto, isto constituía para ele uma experiência penosa. Por sua delicadeza e excepcional escrúpulo, vovô nunca indagou a meu pai sobre o destino de seu genro Redens, muito embora o destino da própria filha, Anna, a vida desfeita, dela e de seus filhos, muito o preocupasse. Sofria tudo calado e tranquilamente, assobiando alguma coisa, displicentemente, como era seu hábito. Ainda havia nele muito orgulho para ficar implorando ou insistindo em algum pedido. As pessoas sem amor-próprio, sem a consciência de sua dignidade, talvez não entendam isto. Como é possível estar ao lado de tal homem sem nada lhe pedir? Sim, nada...
Já vovó era, neste sentido, mais natural e mais primitiva. Sempre deixava acumular algumas reclamações e necessidades em relação aos problemas domésticos, para, no momento oportuno, recorrer inclusive a Vladímir Ilitch (11) (que tanto conhecia e estimava nossa família) e depois a papai.


E, muito embora a época do colapso econômico e do comunismo de guerra já houvesse acabado havia muito tempo, vovó, pela sua inadaptabilidade à "nova vida", muitas vezes se via em sérias dificuldades com relação às coisas mais essenciais. Mamãe se sentia constrangida de "surrupiar tudo de casa" para ajudar os parentes, inclusive por causa dos princípios morais que se impunha. Então frequentemente vovó, completamente desorientada, se dirigia a papai com um pedido como este, por exemplo: "Ah, Ióssif, imagine que eu não consigo encontrar vinagre em parte alguma!" Papai soltava uma gargalhada, mamãe se enfurecia e tudo afinal se acertava.
Depois da morte de mamãe, vovó se sentia constrangida em nossa casa. Morava com a gente ora em Zubálovo, ora no Kremlin, nos seus pequenos aposentos muito asseados, sozinha, no meio de seus velhos retratos e de suas velhas coisas, que a acompanhavam, de uma cidade a outra, durante toda a sua vida:velhos tapetes do Cáucaso, já puídos de uso, o mesmo estrado caucasiano, coberto com um tapete, tapetes também nas paredes, travesseiros e rolos, alguns baús seculares, bibelôs baratos de Petersburgo; tudo, no entanto, no maior asseio, ordem e arrumação. Eu adorava visita-la, sentia-se ali uma atmosfera tranquila, cálida e acolhedora, mas infinitamente triste. Que coisas alegres teria ela então para contar?
Mas a saúde e o amor à vida eram, nela, inesgotáveis. Já com seus 70 anos, tinha ainda uma aparência magnífica. De estatura pequena, andava sempre com a cabeça erguida e um ar altaneiro, o que talvez lhe desse a aparência de maior altura. Sempre com um vestido limpo, asseado, feito por ela própria de alguns outros trapos, infalivelmente com um rosário de âmbar enrolado no pulso da mão esquerda(12). Toda arrumada, penteada, ela era uma beleza; sem uma ruga, nenhum sinal de velhice. Por último, vinha sofrendo do coração, resultado das desgraças e sofrimentos morais. Ela, sofridamente, dava tratos à bola e não podia atinar com o motivo da prisão de sua filha Anna. Escrevia cartas a papai, entregava-as a mim e depois pedia-as de volta... Sabia que isso não ia adiantar coisa alguma. Ante as desgraças que atingiam nossa família, uma após outra, ela assumia uma atitude por assim dizer fatalista, como se as coisas não pudessem ser mesmo de outro jeito...
Morreu vovó no princípio da primavera de 1951, em consequência de um de seus espasmos, de modo inesperado: estava com 76 anos. Dois anciães solitários - vovô e vovó - não incomodavam ninguém com seus sofrimentos. E destes poucas pessoas tinham conhecimento: eles eram, com aqueles que os cercavam, amáveis e discretos. Penso que o provérbio espanhol se aplica bem a eles dois: "As árvores morrem de pé"!...
Eu sinto tanto agora - quando já tenho um filho adulto e tavez dentro de dois ou três anos terei também netos - que não os compreendesse antes. Enfim, será que os netos entendem seus avós, e os filhos, seus pais? Nós gostávamos mais de vovô: achavamos a vovó barulhenta, uma velha irriquieta. Ambos, no entanto, eram senhores da verdade e da pureza, cada qual a seu modo. E poderíamos nós, seus netos, lhes contrapor alguma qualidade nossa melhor que essas?...
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(1) publicação do Instituto Marx-Engels-Lenin, de Moscou, onde se conservam os originais.
(2) Partido Operário Social-Democrata Russo(Russkaia Sotsial-Demokratitcheskaia Rabotchaia Pártia) (3)Na época, nome São Petersburgo, fundada por Pedro, o Grande, capital do império russo, depois se chamou Petrogrado, Leningrado e atualmente S.Petersburgo. (4)Procer soviético. Chegou a ser presidente do Presidium do Soviete Supremo da URSS, cargo equivalente ao de Presidente da República em regime parlamentar. (5) Nome empregado em russo para designar a capital da Geórgia. Parágrafos anteriores a autora empregou, para a mesma designação, a palavra Tibilisse, que corresponde à fonética georgiana. (6)expressões da língua georgiana (7)Gorro forrado de pele, , com abas prolongadas para proteger as orelhas. (8)Sinal de respeito e falta de intimidade, entre os russos. (9)Sigla extraída de soviet Naródnikh Komissárov (conselho de Comissários do Povo). (10)Lenin (11)tipo de rosário usado no oriente por muculmanos e pessoas de outras religiões.

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