Uma pena que as editoras brasileiras não editem outros livros de Nikolai Leskov, além de"Lady Macbetch do Distrito Mtzensk", lançado pela Editora 34. Graças a tal descaso editorial, Lescov é muito pouco conhecido entre a gente. Todos (ou quase todos, espero) sabem quem é Tolstoi, Dostoievski, Tchekhov, Gógol e, atualmente, Goncharov. Mas quem sabe quem foi Leskov? Considerado por alguns especialistas em literatura russa como um dos maiores expoentes entre os russos do século XIX, mas ofuscado por seus contemporâneos acima citados. Entretanto nem só de Dostoievski e Tolstoi vive a rica literatura russa, por mais fabulosos que sejam (já devo ter repetido isto inúmeras vezes, em outros posts)...
Leskov oferece ao leitor quadros mais ou menos inéditos da vida russa, em seus aspectos mais duros e ásperos, a partir da vivência obtida em seu trabalho, que o levava a viajar pelo país, retratando um mundo russo muito diverso daquele que os grandes titãs de sua época o fizeram.
Leskov oferece ao leitor quadros mais ou menos inéditos da vida russa, em seus aspectos mais duros e ásperos, a partir da vivência obtida em seu trabalho, que o levava a viajar pelo país, retratando um mundo russo muito diverso daquele que os grandes titãs de sua época o fizeram.
Natural de Oriol, cidade que nos legou grandes nomes da literatura russa, como Leonid Andreev (ver neste blog), Boris Zaitsev, além deIvan Turguêniev, entre outros tantos, bem como cineastas, cientistas e filósofos(como Bakhtin) (ver fotos da cidade no final desta postagem).
Viveu de 1831 a 1895. Foi um romancista polêmico, já que polêmica era sua personalidade. Sua obra de estréia, intitulada "Em lugar algum", foi um romance mal recebido pela crítica, que considerou seu autor 'retrógrado': ele era um anti-niilista,e o niilismo era a temática de então. Muitos dos grandes escritores seus contemporâneos abordavam temas niilistas, em especial Ivan Turguêniev, em seu romance Pais e Filhos.
De 1864 a 1890, escreveu oito romances,14 novelas, inúmeros contos e uma peça teatral. Entre seus romances, podemos citar " Gente da Catedral" (sobre o clero provinciano russo); anjo selado (sobre o fanatismo dos velhos crentes); " O peregrino encantado (aventuras de um servo que entra para um monastério); "Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk" (história da danação e do pecado, da sedução e da fraqueza humana), entre outros.
Suas histórias são narradas em estilo rico e envolvente, sempre tendo a Rússia e Oriol como foco principal. Escreveu com ardor sobre as miseráveis condições da vida no campo.
Apesar de, inicialmente, ter se manifestado contra o movimento revolucionário clandestino, foi Maksim Gorki, um escritor comunista, quem mais se empenhou em valorizar Leskov que, a partir de então, passou a ser divulgado em edições bem produzidas, como a maioria das edições do período soviético.
A respeito de sua personalidade, transcrevo um trecho do livro "Pelo Prisma Russo", de Joseph Frank:
"Leskov era uma personalidade orgulhosa, apaixonada e frequentemente irascível; no decorrer de sua vida ele conseguiu indispor-se com quase todo mundo que conhecia, como também com todas as tendências e movimentos correntes na literatura russa. Isso também nos diz algo sobre sua impetuosa independência, sua recusa a reverenciar os lemas ideológicos do momento. Sua briga mais conhecida, causa do virtual ostracismo que os radicais lhe impuseram durante a maior parte de sua vida, envolvia os famosos incêndios de São Petersburgo, de 1862, que coincidiram aproximadamente com a circulação das proclamações sanguinárias do Rússia Jovem, que proclamavam pelo extermínio da família real e de todos os seus partidários. A maioria acreditava que os radicais tinham começado o incêndio, e o populacho suspeitava de que a população estudantil em geral fosse simpática aos supostos incendiários. Leskov, com a intenção de proteger os estudantes, publicou um artigo onde pedia à polícia que, se houvesse qualquer prova de incêndio culposo, nomeasse os culpados para que a suspeita pudesse ser retirada das costas dos inocentes. À primeira vista, nada pareceria mais inofensivo do que tal pedido, mas o fato de Leskov ter dado algum crédito à hipótese de incêndio culposo e ter, aparentemente, apelado à polícia contra os radicais, foi o suficiente para torná-lo um homem marcado".Pelo trecho acima pode-se ter uma ideia de que, assim como sua obra, sua biografia, também, merece ser traduzida para o português e esta biografia existe, em inglês, tendo sido escrita por Hugh Mac Lean, da Universidade de Cambridge. Espero que nossas editoras resolvam dar a Leskov o espaço que ele merece e que nós, leitores, merecemos também.
Fotos do autor (mais ou menos em ordem cronológica):
Fotos da cidade onde o escritor nasceu:




E, por fim, o Museu Leskov, em Oriel:
Fontes das fotos: www.yandex.ru





