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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Conto "A Conversão do Diabo"- Leonid Andrêiev

Quadro de Andreiev feito pelo pintor russo Ilyá Repin

 Hoje postamos o conto "A Conversão do Diabo", de Leonid Andrêiev, no qual o autor, de forma irônica, faz uma reflexão sobre o bem e o mal. Foi publicado no Brasil numa coletânea já esgotada, intitulada A Maravilha do Conto Russo. Está, também, inserido no livro "Contos Russos Eternos", disponível em algumas livrarias, entre elas, a Travessa, por R$ 55,00. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

CONTO: UMA HISTÓRIA DIVERTIDA (MIKHAIL ZOSCHENKO)

O conto de hoje é de autoria de Mikhail Zoschenko, um escritor satírico, nascido em Poltava, Ucrânia e viveu no Império Russo entre os anos de 1895 e 1958. Apesar de ucraniano, esteve sempre ligado à cultura peterburguense, já que passou grande parte de sua vida em São Petersburgo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

CONTOS POPULARES RUSSOS: A PANQUECA DOCE


 Este é um dos meus contos prediletos, na categoria de contos populares russos. Usando um dos mais tradicionais  pratos da culinária russa - a panqueca (blin), este conto é uma alegoria sobre a vaidade  e a esperteza.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O LIVRO DO DIA: NOVA ANTOLOGIA DO CONTO RUSSO (1792/1998


Maravilha de lançamento do final de 2011 da Editora 34: Nova Antologia do Conto Russo. O livro engloba a produção feita no período de 1792 a 1998. São 40 autores, muitos deles pouco ou nada conhecidos no Brasil. O organizador da obra é Bruno Barreto Gomide, professor da USP. Todos os contos foram traduzidos diretamente do russo, como já é prática desta excelente editora. O "time" de tradutores é de primeira: só para citar alguns, tem-se a Arlete Cavalieri, Aurora Bernardini e Boris Schnaiderman. Os amantes da literatura russa sabem o peso destes nomes.
São 40 obras, em sua maior parte inéditas por aqui, apresentando o rico panorama da literatura russa ao longo da história, que provam que 
"na arte do conto, tanto em número como em qualidade - e abarcando uma diversidade de tons e temas -, os russos são igualmente magistrais".
São os seguintes autores desta antologia:


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O POBREZINHO NA CASA DE CRISTO NO DIA DE NATAL (DOSTOIEVSKI)


 Esta época do ano sempre me trouxe um misto de tristeza e de alegria. Alegria óbvia, gerada pelas festividades, pela confraternização com família e amigos, pelo consumismo exacerbado, representado na troca de presentes... Tristeza -  sentimento que nasce do meu lado mais humano, ao ver a injustiça que esta época representa ou  evidência aos píncaros da falta de humanidade,principalmente para os  pequeninos desvalidos, muitas vezes sem um teto e uma família, que devem se perguntar "porque Papai Noel" não se lembra de mim?". Na cabecinha destas crianças não deve passar que a culpa é de um sistema injusto e cruel, que os exclui, os ignora, enquanto beneficia, até em excesso, os que nasceram em "berço esplêndido" (e, as vezes, nem tão esplêndido, mas que têm pais que se enforcam na armadilha dos cartões de crédito)...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

UM CONTO DA MITOLOGIA RUSSA: IVAN FILHO-DE-BOI


Numa bela edição da Cosac & Naify, este livro nos apresenta algo que acho muito raro ser encontrado no Brasil: mitologia russa. O texto é de Marina Tenório, ilustrações de Fernando Vilela e apresentação de Tatiana Belinky. Qualidade editorial pra ninguém botar defeito.
A apresentação de Tatiana Belinky introduz o leitor às peculiaridades desta mitologia, começando pela explicação do que vem a ser bylinas e bogatyres, que transcrevo aqui, agora:

"No vasto e rico fabulário russo destacam-se as bylinas, narrativas épicas na forma de longos poemas, que há cerca de mil anos cantam e contam as proezas e os feitos dos prodigiosos heróis populares - os bogatyres.
Os bogatyres eram uma estirpe de super homens à maneira russa: seres humanos portadores de dons e qualidades formidáveis, tanto físicas como morais, que sempre usavam em defesa da terra e do povo russos, vítima de inúmeras incursões e invasões, sobretudo dos bárbaros e de outros povos asiáticos. Mas as agruras não vinham só de fora: a população também sofria sob seus próprios governantes: os tzares - isto é, os imperadores, os príncipes e os nobres (ou boiardos), que oprimiam camponeses, artesãos e toda a sorte de gente simples e trabalhadora.
Os bogatyres eram, eles próprios, filhos do povo, provenientes de diversas regiões e ofícios. Eram bastante diferentes entre si, cada qual com personalidade e atributos marcantes. Mas todos tinham a mesma força descomunal, a mesma honradez e a mesma coragem sem tamanho. Entretanto, os bogatyeres não eram seres perfeitos: uns mais, outros menos, tinham lá seus defeitos, seus momentos de fraqueza bem humana, pelos quais tinham que pagar caro face a seus inimigos. Mas isto, justamente, tornava suas histórias mais empolgantes e imprevisíveis.
Os bogatyres são muitos, muistas são suas andanças e aventuras, seus embates e combates mirabolantes.
Nas bylinas que contam suas aventuras entrelaçam-se a história e a lenda, o fato e a fantasia - isto para não falar de figuras do antiqüíssimo folclore russo, ainda anterior aos bogatyres, como por exemplo a bruxa Baba-Iagá, os duendes e os feiticeiros.. Aliás, ao menos um dos bogatyres tinha poderes mágicos, como a faculdade de se transformar em fera, em ave ou em peixe...".

O fantástico nestas histórias é o leitor identificar o bom senso típico do povo russo, bem "pé no chão", sem - no entanto, perder a capacidade de sonhar. Elas têm muito da psicologia deste povo, que o leitor poderá ver - claro que de forma muito mais bem elaborada - nos grandes escritores russos.

O livro é fácil de ser encontrado, com preço em torno dos R$ 40,00.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

LIVRO DO DIA: CONTOS DE KOLIMÁ (VARLAM CHALAMOV)

É raro o leitor encontrar um livro com testemunho ou biografia do período de maior repressão do stalinismo. A gente encontra, sim, muitos livros escritos por jornalistas estrangeiros, que não viveram no regime e que não passaram, sequer, perto do gulag...Mas encontrar livros escritos por cidadãos soviéticos, que conheceram a dureza da repressão na pele, isto é, realmente, muito difícil. "Contos de Kolimá", escrito por Varlan Chalamov, vem suprir esta lacuna.Composto por dez contos curtos, foi escrito de 1954 a 1973, só podendo ser publicado nos anos da perestroika.Estes contos descrevem a rotina dos campos de concentração de Kolimá, na Sibéria Oriental, o "coração" do Gulag, onde esteve confinado por mais de 20 anos Varlan Chalamov.
A pena de Varlam descreve angústias, sofrimentos, frio, fome, humilhação, dores, trabalhos forçados, medo do engôdo, enfim, é uma memória viva de um período que não deve ser repetido, de um local onde o indivíduo
"nada retira de útil, de necessário, nem os prisioneiros, nem seus chefes, nem os guardas, nem as testemunhas ocasionais (engenheiros, geólogos, médicos, nem os chefes, nem os subordinados".
Lendo estes contos, destituídos de sentimentalismo barato ou de propaganda anti-comunista, feitos na forma de um relato lúcido de quem viveu tais sofrimentos, a gente sente um soco no estômago em determinadas passagens.
"Cada minuto da vida no campo é um minuto envenenado. Aí há muita coisa que o homem não deve saber, mas se o viu, será melhor morrer".
Mas Varlam não morreu: ele viveu para dar seu testemunho, testemunho este que deveria servir de exemplo para que esta experiência nunca mais se repetisse. Assim que seu livro foi publicado, Varlam morreu!

Maiores detalhes sobre o autor e a obra o leitor poderá encontrar no site do tradutor do livro para a língua portuguesa: o José Milhazes, que mantém um site super legal: www.darussia.blogspot.com

Contos que compõem o livro:
-Leite condensado
- A conspiração dos juristas
- O encantador de serpentes
-Berdi Onje
- Epitáfio
- O primeiro tchekista
- Marcel Proust
-O último combate do major Pugatchov
- O cembro
- A sentença

Fotos do autor:

Fotos de Kolimá:

segunda-feira, 3 de maio de 2010

UM CONTO DE ANTON TCHEKHOV: NO MAR DA CRIMÉIA

As trevas tornam-se cada vez mais densas. A noite desce. Gusief, antigo soldado, agora em baixa definitiva, incorpora-se na sua rede e diz baixinho:

— Escuta, Pavel Ivanytch: um soldado me contou que o barco dele chocou-se, no Mar da China, com um peixe que era do tamanho de uma montanha. Será verdade?

Pavel Ivanytch permanece calado, como se não tivesse ouvido nada.

O silêncio volta a reinar. O vento zune por entre as enxárcias. As máquinas, as ondas e as redes produzem monótono ruído. Mas quem tem o ouvido habituado há já muito tempo, quase não percebe dir-se-ia, mesmo, que tudo ao redor está mergulhado em profundo sono.

O tédio gravita sobre os passageiros que se encontram na enfermaria. Dois soldados e um marinheiro voltam doentes da guerra. Passaram o dia inteiro jogando e agora, cansados, deitam-se e dormem.

O mar torna-se um tanto agitado. A rede na qual Gusief está deitado ora sobe, ora desce, lentamente, como um peito arquejante. Algo fez ruído ao cair ao solo; talvez uma caneca.

— O vento partiu as suas correntes e está a correr mar — diz Gusief prestando atenção aos rumores que vêm do convés.

Desta vez, Pavel Ivanytch tosse e exclama com voz irritada:

— Meu Deus! Que idiota que você é! Quando não se põe a dizer que um barco se despedaçou de encontro a um peixe, diz que o vento partiu as correntes, como se fosse uma de carne e osso...

— Não sou eu quem diz isso, são as pessoas de bem.

— São todos uns ignorantes como você. É preciso saber ter a cabeça no lugar e não acreditar em todas as bobagens que se contam pelo mundo. É preciso refletir bem, antes de aceitar uma idéia alheia.

Pavel Ivanytch é sensível ao enjôo. Quando o navio começa a jogar, fica de mau humor e pôr qualquer coisa se irrita. Gusief não compreende pôr que o vizinho de enfermaria se enerva tanto. Não há nada de extraordinário no fato de um barco se despedaçar de encontro a um peixe, havendo, como há, peixes maiores do que montanhas e de pele mais dura que o gelo. É muito natural, também, que o vento rompa as suas cadeias. Há muito tempo contaram a Gusief que lá longe, no fim do mundo, há enormes muralhas de pedra, às quais estão presos os ventos; às vezes eles partem as correntes e lançam-se através dos mares, uivando como cães loucos. Por outra parte, se não fosse verdade que estão acorrentados, onde se escondem quando o mar está calmo?

Gusief fica a pensar longamente nos peixes do tamanho de montanhas, e nas pesadas cadeias recobertas de ferrugem. Depois aborrece-se disso e passa a pensar na sua aldeia, para onde, agora, regressa, depois de cinco anos de serviço no Extremo Oriente. Sua imaginação evoca um vasto dique, recoberto de gelo e de neve. Numa das suas margens ergue-se uma fábrica de louças, construída com tijolos vermelhos, de cuja alta chaminé saem negros rolos de fumaça. Na margem oposta estão espalhadas as casas da aldeia.

Gusief imagina que está vendo sua casa. Seu irmão Alexey, que na sua ausência se tornou o chefe da família, sai do pátio num trenó, acompanhado de seus dois filhos, Vânia e Akulka, ambos com grossas botas; Alexey está um tanto bêbedo. Vânia ri, Akulka traz um xale que quase lhe oculta o rosto.

— Pobres crianças, que frio devem sentir! — pensa Gusief. — Virgem Santa, protegei os coitadinhos!

O marinheiro estendido ao lado de Gusief tem o sono muito agitado e começa a sonhar em voz alta.

— É preciso mandar pôr meia-sola nas botas — exclama. — Se não é melhor jogá-las fora.

A aldeia natal desaparece da mente de Gusief, seus pensamentos tornam-se desconexos. Vê a seguir uma enorme cabeça de boi, sem olhos; trenós, cavalos envoltos num espesso halo... Recorda, porém, embora vagamente, ter visto os seus, e isso lhe provoca uma alegria tão intensa que ele estremece da cabeça aos pés.

— Vi a minha gente! Vi a minha gente! — murmura sonhando, com os olhos bem fechados.

No mesmo instante incorpora-se bruscamente, abre os olhos e pede um copo de água. Depois de beber, torna-se a deitar e os sonhos retornam.

E assim até raiar o sol.
II

A escuridão vai diminuindo e a cabina ilumina-se. A princípio vê-se um círculo azul; é o postigo. Logo Gusief começa a distinguir o vizinho de maca, Pavel Ivanytch, o qual dorme sentado porque estendido sufocaria. Tem o semblante acinzentado, o nariz pontiagudo e os olhos muito aumentados pela horrenda magreza, vincadas as frontes, melenas longas... Pelo aspecto não se lhe adivinharia a categoria: intelectual, negociante ou clérigo? Pelas linhas do semblante e pela guedelha, parece um noviço de qualquer convento; porém, quando fala, verifica-se que não é frade. Aniquilado pela tosse, pelo calor e pela doença, respira a muito custo e para falar precisa fazer grande esforço. Notando que Gusief o observa, volve a cabeça e diz:

— Começo a compreender... Agora, sim, compreendo tudo, perfeitamente bem!

— Como, Pavel Ivanytch?

— Olhe... Parecia-me estranho que vocês, tão doentes, estivessem aqui, num barco em terríveis condições higiênicas, respirando numa atmosfera impura, exposto ao enjôo, ameaçados a todo momento pela morte. Agora já não estranho isso. É uma peça de mau gosto que os médicos vos pregaram. Meteram vocês neste barco para se livrarem de vocês. Estavam fartos de vocês. Além disso, não lhes interessa tratar de doentes dessa laia, pois vocês não pagam. E não queriam que morressem no hospital, pois isso sempre causa má impressão. Para se desembaraçarem de vocês, bastava, em primeiro lugar, não possuir consciência nem sentir amor à humanidade; depois, é só enganar o comandante do navio. Quanto ao primeiro ponto, nem é preciso falar; somos, a esse respeito, artistas; e, com alguma prática, o segundo dá sempre bom resultado. Ninguém nota a falta de quatro ou cinco doentes entre quatrocentos soldados e marinheiros em perfeita saúde. Embarcados, vocês são postos no meio dos saudáveis; contados de afogadilho e na confusão da partida, nada se vê de anormal. Inicia-se a viagem, percebem, como é natural, que todos vocês são paralíticos e tuberculosos de último grau, a se arrastarem....

Gusief não compreende Pavel Ivanytch . Supondo que Pavel está desgostoso com ele, diz para desculpar-se:

— Não tenho culpa. Deixei que me embarcassem alegrando-me muito pelo fato de poder voltar para casa.

— Oh! É revoltante — continuou Pavel Ivanytch. — Principalmente porque eles bem sabem que vocês não podem suportar esta longa travessia. Admitamos que vocês cheguem até o Oceano Índico. E depois? ... É terrível pensar nisso!... Eis a recompensa de cinco anos de fiel e irrepreensível serviço!

Pavel Ivanytch, com expressão de ira e voz sufocada, diz:

— Os jornais deveriam contar essas sujeiras! Seria uma boa lição para esses canalhas!

Os dois soldados e o marinheiro doente acordaram e puseram-se a jogar baralho.

O marinheiro está meio sentado na maca; os soldados, perto dela, sobre a ponta, em posição incômoda. Um tem o braço enfaixado e o pulso envolto num verdadeiro monte de pensos, de tal maneira que se vale da flexão de cotovelo para segurar as cartas.

O barco baloiça violentamente, o que impede que a gente se levante para tomar chá.

— Você era ordenança? — pergunta Pavel Ivanytch a Gusief.

— Justamente.

— Meu Deus! Meu Deus! — levanta-se Pavel Ivanytch. — Arrancar um homem do seu ninho, obrigá-lo a fazer quinze mil verstas e apanhar a tuberculose, para... para que pergunto-lhes eu?... Para dele fazer a ordenança do capitão Kopeikine ou de um porta-bandeira Durka... Haverá lógica nisso?

— O trabalho não é difícil, Pavel Ivanytch. É só levantar cedo, engraxar as botas, arrumar os quartos, e nada mais. O meu oficial ficava a traçar projetos o dia todo, eu podia dispor do meu tempo, podia ler, passear, conversar com os amigos. Francamente, não posso queixar-me.

— Sim, de fato; o tenente esboçava plantas e você ficava a se aborrecer a quinze mil verstas da sua terra, desperdiçando os melhores anos da sua vida. Traçar plantas!... Não se trata de plantas mas da vida humana, meu caro. E o homem só tem uma vida; devemos poupá-la.

— Realmente, é verdade, Pavel Ivanytch — continua Gusief que mal entende o raciocínio do vizinho. — Um pobre diabo não é bem tratado em parte alguma, nem em casa, nem no serviço. Mas se a gente cumpre sua obrigação, como eu, não tem nada e temer, que necessidade haverá de maltratá-los? Os chefes são pessoas instruídas e compreendem as coisas... Eu, em cinco anos, nunca estive preso e, quanto a ser espancado... não o fui — se Deus não me tolhe a memória — senão uma vez...

— E por quê?

— Por uma rixa. Tenho a mão pesada, Pavel Ivanytch. Quatro chineses, se bem me lembro, entraram no pátio da casa. Acho que procuravam trabalho. Pois bem, para passar o tempo comecei a dar neles. O nariz de um dos réprobos sangrou... O tenente, que tudo vira da janela, me deu uma boa lição.

— Meu Deus! Que imbecil que você é! — murmura Pavel Ivanytch. — Você não compreende nada!

Completamente aniquilado pelo balanço do barco, ele fecha os olhos. A cabeça ora se lhe inclina para trás, ora sobre o peito. Tosse cada vez mais. Depois de curta pausa, diz:

— Por que é que você espancou aqueles coitados?

— À toa. Estava muito aborrecido.

Reina de novo o silêncio. Os dois soldados e o marinheiro passam horas e horas a jogar, por entre blasfêmias e insultos. Mas as oscilações acabam por fatigá-los. Acabam a partida e deitam-se. Mal fecha os olhos, Gusief revê o grande lago, a fábrica, a aldeia... sua aldeia, com seu irmão e seus sobrinhos. Vânia recomeça a rir e a tola da Akulka, pondo as pernas fora do trenó, exclama: “Olhe, ó gente, as minhas botas são novinhas e não como as de Vânia!”

— Ela vai para os seis anos — delira Gusief — e ainda não tem juízo. Em vez de mostrar as botas, devia trazer água para o titio soldado! Depois, dar-lhe-ei bombons.

Depois avista seu amigo Andron, pederneira a tiracolo. Carrega uma lebre que matou. Issaitchik, judeu, segue-o a propor-lhe a troca da lebre por um pedaço de sabão. Ali, à porta da cabana, há uma novilha negra. Eis que surge Domna, sua esposa, que costura uma camisa e chora. Por que chora ela?... E eis, de novo, a cabeça de boi sem olhos e a fumaça preta.

Adormece, mas um ruído no tombadilho o desperta. Alguém, lá em cima, está a gritar; acorrem diversos marinheiros. Parece que alguma coisa enorme e pesada foi levada à ponte ou, então, aconteceu qualquer coisa inesperada. Acorrem mais homens... Terá sucedido alguma desgraça?! Gusief ergue a cabeça, espreita e vê que os dois soldados e o marinheiro recomeçaram o jogo. Pavel Ivanytch, sentado, move os lábios como se quisesse falar; mas não diz nada. Todos ofegam, sufocam, têm sede; o calor continua. Gusief tem a garganta a arder, mas a água morna causa-lhe repugnância. E o barco continua a dançar.

De repente, algo de anormal acontece a um dos soldados que jogam. Ele confunde o naipe de copas com o de ouros, erra na conta e deixa cair as cartas. Depois, olha em torno de si com um sorriso hediondamente alvar.

— Voltarei logo, camaradas... Esperem... eu... eu... — e estende-se no pavimento.

Os companheiros interrogam-no, estupefatos; ele não responde.

— Stepan! Sente-se mal? — pergunta-lhe o soldado do braço ferido. — Hein? Quer que chame o padre, sim?

— Stepan, beba água, beba, camarada, beba! — diz-lhe o marinheiro.

— Mas por que você lhe empurra a caneca à boca? — exclama Gusief, irritado. — Não vês, então, seu idiota?...

— Como?...

— “Como?..” — repete Gusief arremedando; — ele já não respira... está morto. E ainda perguntas: “Como?” Que idiota, meu Deus!
III

Cessa o baloiço. Pavel Ivanytch está de novo alegre, não se irrita mais por qualquer coisa. Tornou-se até fanfarrão, escarnecedor. Tem o ar de quem deseja contar uma história tão engraçada que provoque dor de barriga.

Pelo postigo aberto, uma brisa suave passa sobre Pavel Ivanytch. Ouvem-se vozes; os remos ferem a água compassadamente... Sob o postigo, alguém regouga; talvez um chinês que se tenha aproximado num bote.

— Sim — diz Pavel Ivanytch, sorrindo zombeteiro — eis-nos no ancoradouro. Um mês mais, e estaremos na Rússia. Sim, cavalheiros, estamos chegando. Os soldados são muito acatados, sim senhor. Chegando em Odessa, seguirei para Carcov, onde tenho um amigo escritor a quem direi: “Vamos, amigo, deixa pôr um minuto os teus escabrosos temas relacionados com mulheres e com amor; deixa de cantar as belezas da natureza e procura divulgar as sujeiras dos seres de duas patas. Trago-te esplêndidos temas...”

Depois de ter pensado um minuto em qualquer coisa, torna:

— Gusief, você sabe como os enganei?

— A quem?

— Aos que mandam no navio...Compreende? Na embarcação não há senão duas classes: a primeira e a terceira. De terceira só viajam os mujiks, também chamados broncos. Se você tiver um jaquetão e um certo ar de cavalheiro ou de burguês, é obrigado a viajar de primeira. Dir-lhe-ão: “ Arranje-se como puder, mas deve pagar quinhentos rublos”. “Qual a razão desse regulamento? Quererá o senhor elevar com isso o prestígio dos intelectuais russos?” “Absolutamente, não. Não lhe permitimos viajar de terceira pelo simples motivo de que não convém às pessoas distintas; passa-se bem mal e é repugnante”. “Muito agradecido, prezado senhor, pela sua solicitude para com as pessoas distintas! Mas, como quer que seja, não disponho de quinhentos rublos. Não fiz negócios escuros, não roubei o Estado, não exerci contrabando, não fiz morrer ninguém sob o açoite. Como posso ser rico? Ora, pense bem. Tenho eu o direito de estabelecer na primeira classe e, sobretudo, insinuar-me entre os intelectuais russos?” — Dado, porém que não é possível vencê-los pelo raciocínio, recorre-se a um ardil. Visto o capote e calço as botas altas; tomando um ar de bêbedo dirijo-me ao bilheteiro:

— Excelência, desejo uma passagem de terceira e que Deus o abençoe.

— Qual é a sua profissão? — pergunta-me o funcionário.

— Sou do clero. Meu pai foi um “pope” honesto. Muito sofreu pôr dizer sempre a verdade aos poderosos deste mundo. Eu também sempre digo a verdade...

Pavel Ivanytch cansa-se de falar; respira com dificuldade. Mas prossegue:

— Sim, sempre digo a verdade sem rebuço... Não temo coisa alguma nem ninguém. Nesse ponto, há entre mim e vocês considerável diferença. Vocês não enxergam nada. Ignorantes, cegos, esmaga-os o peso da própria inferioridade. Acreditam que o vento está amarrado com correntes e outras bobagens. Vocês beijam a mão que vos fere. Um espertalhão qualquer, vestido de peliça, rouba tudo que vocês têm e depois vos atira quinze kopeks de gorjeta, e vocês dizem: — “Dê-me, Excelência, a honra de lhe beijar a mão”. Párias, asquerosos... Quanto a mim, sou bem diferente. Levo uma vida consciente. Vejo tudo, como a águia ou o abutre que se eleva muito acima da terra. Compreendo tudo. Sou a encarnação do protesto. Protesto contra o arbitrário, contra o beato hipócrita, contra os suínos triunfantes. E sou indomável. Nem mesmo a Inquisição espanhola me obrigaria a calar. Sim... Se me arrancassem a língua, minha mímica protestaria. Lancem-me num cubículo, tranquem a porta: bradarei tão fortemente, que serei ouvido a uma versta de distância; ou então, me deixarei morrer de fome para que a lôbrega consciência dos carrascos sinta um peso a mais. Todos os conhecidos me dizem: — “Pavel Ivanytch, na verdade você é insuportável!” Mas eu me orgulho dessa reputação. Enfim, que me matem! Minha sombra voltará aterradoramente. Prestei três anos de serviço no Extremo Oriente, e lá deixei uma reputação para cem, porque me incompatibilizei com todo mundo. Os amigos escrevem-me: “Não apareça!”, pois conhecem meu caráter belicoso. E eu embarco! e volto a despeito dos seus avisos!... Sim, essa é a vida que eu compreendo. Isso sim é que se pode chamar a vida.

Gusief deixa de escutar e olha através do postigo. Uma canoa oscila sobre a água transparente, cor de turquesa pálida, banhada em cheio pelo sol deslumbrante e abrasador. Nela, de pé e nus, alguns chineses oferecem gaiolas de canários e gritam:

— Canta bem! Canta muito bem!

Outra canoa bate contra a primeira: passa uma embarcaçãozinha a vapor. E eis ainda outra canoa, em que se vê um gordo chinês, que come arroz com pauzinhos. A água gorgulha preguiçosamente; há gaivotas brancas voando com indolência.

— Oh! aquele gorducho... — pensa Gusief. — Seria gozado dar uns sopapos nesse animal de cara amarela.

Dormindo em pé, aparece-lhe que toda a natureza cabeceia com sono. O tempo corre veloz. O dia se escoa sem que se dê pôr isso e do mesmo modo a noite vem chegando...

O barco desamarrou e prossegue para destino ignorado.
IV

Passaram-se os dias. Pavel Ivanytch já não está sentado, mas curvado. Tem os olhos fechados e o nariz afinou-se ainda mais.

— Pavel Ivanytch! — grita-lhe Gusief. — Ouviu, Pavel Ivanytch?

— Como é? Isso vai ou não vai?

— Assim, assim... — responde Pavel Ivanytch, arquejante. — Ao contrário, vai até melhor... Olhe, passo até deitado... A coisa vai melhorando.

— Então, que Deus seja louvado!

— Sim, estou melhor. Quando me comparo a vocês, sinto compaixão...Tenho os pulmões fortes; a tosse me vem do estômago... Sou capaz de suportar o inferno. Por que falar no mar Vermelho? Além do mais, considera a minha doença e os remédios do ponto de vista crítico... e vocês são uns pobres diabos... É terrível para vocês... muito, muito terrível. Tenho verdadeira pena de vocês.

As ondas já não fazem o barco jogar, mas a atmosfera é cálida e pesada como um barco a vapor. Gusief apóia a cabeça nos joelhos e põe-se a pensar na sua aldeia. Com o calor que faz, é um prazer pensar na aldeia, completamente coberta de neve nesta época do ano. Sonha que está passeando de “ troika “ através dos campos gelados. Os cavalos espantados sem motivo, correm como loucos e atravessam o dique num único salto. Os camponeses procuram detê-los, mas Gusief pouco se importa. Sente-se possuído pôr intensa alegria. É com prazer que recebe no rosto e nas mãos a glacial carícia do vento, e a neve a lhe cair pelo cabelo, pelo pescoço e pelo peito o imunda de felicidade.

Não se sente menos contente quando, em dado momento, o carro vira, atirando-o na neve. Levanta-se satisfeito, coberto de neve da cabeça aos pés, e fica a se sacudir entre gostosas gargalhadas. Ao redor, os camponeses também soltam risadas e os cachorros, nervosos, ladram. Realmente formidável.

Pavel Ivanytch entreabre um olho, fita Gusief e pergunta:

— Teu oficial roubava?

— Não sei Pavel Ivanytch. Essas coisas não são de nossa conta.

Volta a reinar profundo silêncio. Gusief mergulhou de novo nos seus sonhos. De quando em quando toma um pouco de água. O calor é tão forte que ele não tem vontade nenhuma de falar nem de ouvir, e teme que a qualquer momento alguém lhe dirija a palavra.

Uma, duas horas transcorrem. À tarde sucede a noite; mas Gusief parece não ter notado nada; continua na mesma posição, a fronte nos joelhos, a pensar na sua aldeia, no frio, na neve.

Ouvem-se passos, vozes. Ao cabo de cinco minutos tudo volta a cair no silêncio.

— Que a terra lhe seja leve! — murmura o soldado do braço ferido. — Era um homem que deixava a gente nervoso.

— Quem? — pergunta Gusief esfregando os olhos. — De quem é que estás falando?

— Ora, de quem? De Pavel Ivanytch! Morreu. Levaram-no para cima.

— Como? — murmura Gusief como se não compreendesse. Fica longo tempo a meditar e por fim, com um suspiro, diz: — Então tudo se acabou! Que Deus o perdoe!

— O que é que você acha? — pergunta o soldado. — Você acha que ele será admitido no Paraíso?

— Ele quem?

— Pavel Ivanytch, homem!

— Ah!... Creio que sim. Sofreu muito. Além disso, era do clero. Seu pai era “pope” e rogará a Deus pelo filho.

O soldado senta-se na cama de Gusief e olhando-o fixamente, diz em voz baixa:

— Também você, Gusief, não há de viver muito. Não voltará a ver a sua terra.

— Quem disse isso!? O médico? O enfermeiro?

— Ninguém, mas a gente vê logo. Percebe-se muito bem quando uma pessoa está para morrer. Você não come, emagrece dia a dia... causa medo. Enfim, é a tuberculose. Não digo isso para o assustar, mas apenas no seu próprio interesse. Deveria receber os Sacramentos... Além disso, se você tem dinheiro deve deixá-lo com o comissário do navio...

— Nem escrevi para minha gente — suspira Gusief. — Morrerei e eles não saberão de nada.

— Como não saberão? Quando você morrer eles escreverão para as autoridades militares de Odessa, que, por sua vez, avisarão sua família.

Gusief está profundamente perturbado. Vagos desejos o afligem. Toma um pouco de água, volta a perscrutar o mar através do postigo, porém nada consegue acalmá-lo. Nem mesmo a lembrança da aldeia consegue, agora, tranqüilizá-lo. Tem a impressão de que se permanecer mais um minuto na enfermaria cairá sufocado.

— Estou muito mal, meus irmãos — diz baixinho. — Não posso continuar aqui... Quero ir lá para cima. Quem quer ajudar-me?

— Bom — diz o soldado. — Vou acompanhá-lo, já que não pode ir só. Apoie-se no meu ombro.

Gusief obedece. O soldado segura-o com a sua mão sã e ambos sobem vagarosamente a escada que conduz ao convés.

Em cima, o tombadilho está cheio de marinheiros e de soldados deitados no chão. São tantos que é difícil abrir caminho.

— Sente-se — diz o soldado. — Eu o seguro.

Não se vê muito bem. Não há luz no tombadilho, nem nos mastros, nem no mar. Uma sentinela, de pé na extremidade do navio, está tão imóvel que parece adormecida. Dir-se-ia que o barco se encontra abandonado ao seu próprio destino e que ninguém se importa em lhe dar um rumo.

— Vão atirar Pavel Ivanytch ao mar — murmura o soldado. — Vão costurá-lo num saco e atirá-lo às ondas.

— Sim — responde Gusief suavemente. — É do regulamento.

— É melhor morrer em terra. De vez em quando a mãe da gente vem chorar junto ao túmulo, ao passo que aqui...

— Sim, eu também preferiria morrer na minha casa, na aldeia...

Penosamente, os dois se erguem e começam a andar. Em certo trecho sente-se pronunciado cheiro de forragem e de esterco: vem de um curral improvisado no tombadilho, onde se encontram oito vacas. Um pouco mais adiante, há um potro amarrado. Gusief estende a mão para acariciá-lo, mas o cavalo sacode furiosamente a cabeça e mostra os dentes, com eloqüente intenção de mordê-lo.

— Bicho do inferno! — protesta Gusief.

Ele e o soldado apoiam-se na balaustrada e ficam a olhar em silêncio ora o mar, ora o céu. Sob a abóbada celeste, calma e muda, reinam a inquietação e as trevas. As ondas se entrechocam ruidosamente. Cada uma procura erguer-se mais do que a outra e se atropelam, e se Empurram, furiosas e disformes, coroadas de branca espuma.

O mar é impiedoso. Se o navio não fosse tão grande e tão sólido, as ondas o destroçariam sem piedade, tragando cruelmente todos quantos viajam nele, sem distinguir os bons dos maus. O próprio barco não é menos cruel. Semelhando um estranho monstro, corta com a quilha milhões de ondas. Não teme nem a noite, nem o vento, nem o espaço infinito, nem a solidão. Se a superfície do mar estivesse cheia de seres humanos, cortá-los-ia da mesma maneira, sem tampouco, fazer distinção entre os bons e justos e os pecadores.

— Onde estamos agora? — pergunta Gusief.

— Não sei. Acho que no oceano.

— Não se vê terra...

— Que dúvida! Antes de oito dias não veremos nem sombra de terra!

Ambos continuam perscrutando a espuma branca e fosforescente, mergulhados no mais completo silêncio. Cada um parece perdido em remotos pensamentos. Gusief é o primeiro a falar:

— Eu não tenho medo do mar. É lógico que, de noite, a gente não vê bem. Mas mesmo assim, se agora me mandassem, num bote, a pescar a cem quilômetros daqui, iria com muito gosto. Ou, se por exemplo, tivesse que salvar alguém que tivesse caído na água, eu me atiraria sem vacilar. Isto é, caso se tratasse de um cristão. É claro que eu não arriscaria a vida por um turco ou por um chinês.

— Não tem medo da morte?

— Tenho sim, principalmente quando penso na minha casa. Sem a minha presença tudo irá por água abaixo. Meu irmão é uma verdadeira calamidade, um beberrão que bete na mulher todo o santo dia e não respeita os pais. Sim, sem mim tudo irá mal. Minha gente ver-se-á obrigada, talvez, a pedir esmolas para não morrer de fome.

Cala-se por alguns instantes e por fim conclui:

— Vamos para baixo. Não posso mais suster-me em pé. Além disso, a atmosfera está muito pesada... Já é hora de dormir.
V

Gusief desce para a enfermaria e deita-se. Vagos desejos, cuja natureza não pode precisar, continuam a atormentá-lo. Sente um peso no peito; dói-lhe a cabeça. Sua boca está seca que sente dificuldade em mover a língua. Cai em profunda sonolência e logo depois, esgotado pelo calor e pela atmosfera carregada, adormece. Os mais fantásticos sonhos voltam a repetir-se!!!

Dorme, assim, dois dias seguidos. Ao cair da tarde do terceiro, os marinheiros vêm buscá-lo e levam-no para o convés.

Costuram-no num saco, no qual introduzem, também, para torná-lo mais pesado, dois enormes pedaços de ferro. Metido no saco Gusief parece uma cenoura: volumoso na cabeça e afinado nas pernas.

Ao pôr do sol colocam o cadáver sobre uma prancha que tem uma das extremidades apoiada na balaustrada e a outra num caixão de madeira. Ao redor enfileiram-se os soldados e os marinheiros todos de gorro na mão.

— Bendito seja Deus todo-poderoso pelos séculos dos séculos — diz com tom solene o sacerdote.

— Amém! — respondem os marinheiros.

Todos fazem o sinal-da-cruz e ficam a olhar as ondas. É algo estranho ver um homem metido num saco e a ponto de ser lançado ao mar. No entanto, é uma coisa que pode suceder a qualquer um de nós!

O sacerdotes deixa cair um pouco de terra sobre Gusief a faz profunda reverência. A seguir, canta-se o Ofício.

O oficial de plantão soergue um dos extremos da prancha. Gusief desliza de cabeça para baixo, dá uma volta no ar e cai na água. Por alguns instantes fica a boiar, coberto de espuma, como se estivesse envolto em rendas; por fim, desaparece.

Submerge rapidamente. Chegará ao fundo? Segundo os marinheiros, a profundidade do mar nestas paragens alcança quatro quilômetros.

Após fazer vinte metros, começa a descer mais lentamente. O cadáver vacila, como se hesitasse em continuar a viagem. Finalmente, arrastado pela corrente, prossegue a marcha diagonalmente.

Não demora em tropeçar com um cardume de peixinhos — dos chamados “pilotos”, os quais, ao divisarem o enorme vulto, estacam assombrados e, como se obedecessem a uma ordem, voltam-se, todos ao mesmo tempo, e, como minúsculas flechas, atiram-se a Gusief.

Minutos depois aproxima-se uma enorme massa escura: um tubarão. Lentamente, com fleuma, como se não notasse a presença de Gusief, coloca-se sob o saco de maneira a dar a impressão de que o cadáver está de pé sobre o seu ombro. Visivelmente satisfeito, o tubarão dá, depois várias voltas na água e, sem se apressar, escancara a enorme boca, armada de duas fileiras de dentes. Os “pilotos” estão encantados. Mantêm-se um pouco afastados e admiram o espetáculo atentamente.

Depois de brincar um pouco com o corpo de Gusief, o tubarão crava os dentes de mansinho, no tecido da mortalha, a qual no mesmo instante abre-se de cima a baixo. Um pedaço de ferro tomba no lombo do tubarão, assusta os “ pilotos” e desce rapidamente.

Enquanto isso, lá no alto, no céu, onde o sol pouco a pouco se oculta, as nuvens vão-se acumulando. Uma delas parece um arco-de-triunfo, outra um leão; outra ainda uma tesoura. Através de uma das nuvens projeta-se até o centro da abóbada do céu um amplo raio verde. Ao lado dele surge, pouco a pouco, um colorido de lilás bem pálido. Sob este esplêndido céu, o oceano torna-se a princípio obscuro; logo, porém, passa, por sua vez, a tingir-se de cores tão suaves, alegres e belas que a língua humana é incapaz de descrevê-las

terça-feira, 13 de abril de 2010

UM CONTO DE TCHEKHOV: UM CASO MÉDICO



UM CASO MÉDICO
(Anton Tchekhov)

Um telegrama enviado da fábrica dos Lialikov pedia ao professor que viesse o mais depressa possível.
A filha da Senhora Lialikov, que devia ser a proprietária da fábrica, estava doente; era tudo o que se podia perceber num longo telegrama mal redigido. Por isso o professor não esteve para se incomodar; contentou-se em enviar, para o substituir, o seu ajudante Koroliov.

Tinha que se descer na terceira estação para lá de Moscou e andar em seguida, de carro, quatro «verstas» [1]. Na estação, esperava o ajudante um carro de três cavalos. O cocheiro tinha um chapéu de penas de pavão e, com voz vibrante, como um soldado, respondia sempre a todas as perguntas: «De modo algum!» ou «Exatamente!».
Era num sábado de tarde. O sol se punha. Da fábrica para a estação vinham grupos de operários que cumprimentavam em direção do carro em que seguia o médico. Aquele fim de dia, os palacetes senhoriais e as casas de verão, dos dois lados da estrada, os amieiros, a calma impressão que de tudo se exalava, na hora em que os campos, os bosques e o Sol pareciam preparar-se para descansar e talvez até para rezar, ao mesmo tempo que os operários - tudo isto encantava Koroliov.

Nascido e educado em Moscou, o médico não conhecia o campo e nunca se tinha interessado pelas fábricas; nunca tinha visitado nenhuma; mas, depois do que tinha lido sobre este assunto, tinha-lhe acontecido estar em casa de proprietários e falar com eles. E, quando via de longe ou de perto uma fábrica, pensava que por fora tudo parecia calmo e pacífico, mas que lá dentro deviam reinar a impenetrável ignorância e o egoísmo obtuso dos proprietários, o trabalho aborrecido e insalubre dos operários, e as intrigas,a «vodka» e os bichos...
E agora, à medida que se afastavam do carro com respeito e medo, lia no rosto do operário, nos bonés, no andar, a porcaria, o alcoolismo, o enervamento, o atordoamento em que viviam.

Entrou pelo portão grande da fábrica. Apareceram de ambos os lados as pequenas casas dos operários, figuras de mulher, e, às cancelas da entrada, roupa branca e mantas. O cocheiro, sem segurar os cavalos, gritava: «Cuidado!».

Num pátio grande, sem o mínimo sinal de erva, levantavam-se cinco grandes corpos de edifícios com altas chaminés, afastados uns dos outros, com armazéns e alpendres, tudo mergulhado numa espécie de neblina cinzenta, como uma flor de poeira. Aqui e alí, como os oásis no deserto, havia uns jardinzinhos enfezados e os telhados verdes e vermelhos das casas da Administração. O cocheiro, freando de repente os cavalos, parou diante duma casa que fora há pouco pintada de cinzento. Os lilases do jardim estavam cobertos de poeira, e o pórtico, pintado de amarelo, cheirava fortemente a tinta.

- Faça favor de entrar, Senhor Doutor - disseram vozes de mulher à porta da entrada e no limiar da antecâmara.
Ouviram-se depois suspiros e murmúrios.
- Faça favor de entrar... Estamos à sua espera já há tanto tempo... Foi mesmo uma desgraça. Por aqui, faça favor...

A Senhora Lialikov, já de idade e corpulenta, vestida de seda negra e com mangas na moda, mas, pelo que parecia, simples e pouco instruída, olhava para o doutor com receio, sem se atrever a estender-lhe a mão; não ousava fazê-lo.
Perto dela, encontrava-se uma criatura de cabelos curtos, magra e já nada nova, que trazia uma blusa colorida e usava luneta. Os criados chamavam-lhe Cristina Dmitrievna e Koroliov adivinhou ser a governante.

Como era a única pessoa instruída da casa, tinham-na, sem dúvida, encarregado de receber o médico, porque logo se apressou a expor, com pormenores de todo inúteis, as causas da doença, mas sem dizer quem estava doente, nem de que se tratava. Koroliov e a governante falavam sentados, enquanto a dona da casa esperava, imóvel, junto à porta. No decurso da conversação, veio Koroliov a saber que a doente era uma moça de vinte anos, Lisa, filha única da Senhora Lialikov. Estava enferma há muito tempo e já a tinham tratado vários médicos. Na noite anterior, sentira, desde a tarde, tais palpitações que ninguém em casa tinha dormido; chegara-se a recear que morresse.

- Ela, na verdade, tem sido doentinha desde criança - contava Cristina Dmítrievna com uma voz cantada e limpando ininterruptamente os lábios com a mão. - Os médicos dizem que são nervos, mas ainda em pequena meteram-lhe para dentro os humores frios, e daí é que vem todo o mal, acho eu.

Passaram ao quarto da doente. Já mulher, alta, bem feita, mas feia, parecida com a mãe, com os mesmos olhinhos e a parte inferior do rosto larga e exageradamente desenvolvida, despenteada, os cobertores puxados até ao queixo, a moça deu, a princípio, a Koroliov a impressão de uma pobre criatura, enferma, recolhida por piedade. Ninguém acreditaria que fosse a herdeira dos cinco enormes edifícios da fábrica.

- Venho tratar de ti - disse Koroliov. - Bom dia, menina.
Disse o nome e apertou-lhe a mão, mão grande, feia e fria. Ela soergueu-se e, já muito acostumada aos médicos, indiferente à nudez das espáduas e dos braços, deixou-se auscultar.
- Sinto umas palpitações - disse ela. - Toda a noite... foi uma coisa terrível... julguei que morria de medo. Dê-me qualquer coisa, para se isto acaba.
- Não tenha receio, vou já receitar.
Koroliov examinou-a e encolheu os ombros.
- O coração está bom - disse ele; - tudo vai bem, está tudo em ordem. Os nervos talvez um pouco abalados... mas é também coisa vulgar. A crise já passou, parece. Deite-se e veja se dorme...

Neste momento trouxeram um candeeiro. A doente piscou os olhos e, de repente, pousando a cabeça nas mãos, pôs-se a chorar.
E a impressão dum ser infeliz e feio desapareceu. Koroliov já não dava pelos olhos pequeninos nem pela parte do rosto anormalmente desenvolvida. Via uma suave expressão de sofrimento, muito comovedora e espiritual, e a rapariga, no conjunto, apareceu-lhe elegante, feminina e simples. E já a queria acalmar, não por meio de medicamentos ou conselhos, mas com uma simples palavra graciosa. A mãe puxou para perto de si a filha e beijou-lhe a testa. E na expressão da face, quanta tristeza, quanto desgosto!

Tinha criado e educado a filha sem se poupar a nada; tinha posto todo o cuidado em lhe mandar ensinar francês, música e dança. Tinha-lhe dado uma dúzia de mestres, tinha chamado os melhores médicos, tomado uma governante - e não compreendia donde vinham aquelas lágrimas e tantos sofrimentos! Não compreendia, atrapalhava-se e tinha uma expressão de culpabilidade; e andava desolada, inquieta, como se tivesse esquecido alguma coisa de muito urgente, como se tivesse tido alguma negligência, como se não tivesse chamado alguém. Quem? Não sabia...

- Lisaunka - disse ela, apertando a filha ao peito -, minha querida, minha pomba, minha filhinha, que tens tu? Diz à mãezinha... Tem pena de mim... Diz...
Ambas choravam amargamente. Koroliov, sentando-se na borda da cama, pegou na mão de Lisa.
- Vamos, não chore mais - disse-lhe ele com um tom de carícia -. Há lá razão para isso... Não há nada no mundo que seja digno dessas lágrimas. Vá, não chore mais. Assim não pode ser...
E pensou:
- Já era tempo de a casar...
- O médico da fábrica dava-lhe brometos - disse a governante - mas notei que só lhe faziam mal. Eu acho que para o coração o bom são umas gotas... ai, esqueci-me o nome... Junquilho, hem?
E recomeçou com os seus pormenores. Interrompia Koroliov, impedia-o de falar e lia-se-lhe no rosto o tormento que lhe causava pensar que, sendo a mulher mais instruída da casa, devia falar sem interrupção com o médico - e falar de medicina, claro.

Koroliov estava embaraçado.
- Não acho nada de especial - disse ele à mãe ao sair do quarto. - Como o médico da fábrica tratou sua filha, pode continuar. O tratamento que lhe deu até aqui foi bom; não acho que seja preciso mudar. Para que? É uma doença vulgar; não tem nada de grave...

Falava sem pressa e ia calçando as luvas; a Senhora Lialikov olhava-o de lágrimas nos olhos, imóvel.
- Ainda tenho meia hora até o comboio das dez; terei tempo de apanhá-lo, não...?
- O Senhor Doutor não desejaria ficar? - perguntou a mãe, e de novo as lágrimas lhe correram pela cara
Custa-me tanto incomodá-lo; mas, pelo amor de Deus - continuou, a meia voz e voltando-se para a porta -, faça-me esse favor. Só tenho esta filha... Assustou-nos tanto a noite passada... Nem estou ainda em mim... Pelo amor de Deus, não se vá embora!

Koroliov ainda quis dizer que tinha muito que fazer em Moscovo, que a família estava à espera, que lhe era muito difícil passar uma tarde e uma noite fora da clínica; olhou para ela: suspirou e pôs-se a descalçar as luvas, silencioso.
Acenderam todas as velas e todos os candeeiros da sala e da saleta; sentado junto do piano de cauda, Koroliov folheou a música, depois foi contemplar os quadros e os retratos. Os quadros, com suas molduras douradas, eram vistas da Crimeia, um mar encapelado com um barquito, um monge católico com um cálice de licor - tudo pobre, lambido, sem talento... Nos retratos, nenhuma figura bela, interessante: faces largas, olhos espantados. Lialikov, o pai de Lisa, tinha a testa baixa e um ar satisfeito; o uniforme ficava-lhe como uma espécie de saco sobre o corpo grande e vulgar; no peito uma medalha e a insígnia da Cruz Vermelha. Cultura estreita, luxo de ocasião, um luxo que não tinha motivos nem vinha a propósito - como aquele uniforme. O brilho dos soalhos irrita, o lustre também; e pensa-se, nem se sabe porque,na história do comerciante que ia tomar banho de medalha de honra ao pescoço... Na antecâmara havia murmúrios e alguém ressonava suavemente. De súbito, no pátio, ressoaram uns sons agudos, sacudidos, metálicos, que Koroliov nunca tinha ouvido e não soube explicar. Ecoaram na sua alma dum modo bem desagradável e estranho.

- Acho que não ficaria aqui por nada deste mundo - pensou ele.
E tornou a folhear a música.
A governante entrou e chamou a meia voz:
- Senhor Doutor, pode vir jantar...?
Koroliov seguiu-a.

A mesa,grande, estava coberta de aperitivos e de vinhos; mas só havia duas pessoas: ele e Cristina Dmítrievna. Ela bebia madeira, comia depressa e falava contemplando-o pela luneta.
- Os operários estão muito satisfeitos conosco. Todos os invernos dão nesta fábrica espetáculos em que eles próprios representam. Há também, naturalmente, conferências com projeções, uma sala de chá magnífica; e tudo o mais... Têm muita dedicação por nós; quando souberam que a Lisaunka estava pior, mandaram fazer umas rezas. São pouco instruídos mas têm muito bons sentimentos.
- Parece que não há nenhum homem em casa, não?
- Nenhum. Piotr Nikanorytch morreu há ano e meio e ficamos sozinhas. Vivemos as três, no verão aqui, no inverno em Moscou. Já estou nesta casa há onze anos. É como se estivesse em minha casa.

Serviram esturjão, croquetes de frango e uma compota. Os vinhos eram caros, vinhos da França.
- Faça favor, senhor doutor... Não faça cerimônias... Coma - dizia Cristina Dmítrievna comendo e limpando a boca com a mão (via-se que estava realmente à vontade). Faça o favor de comer.

Depois do jantar, levou o médico a um quarto onde lhe tinham preparado uma cama. Mas não tinha sono; o quarto era quentíssimo e cheirava a tintas; vestiu o sobretudo e saiu.
Fora, havia fresco. Já havia um prenúncio de alvorada e, no ar húmido, desenhavam-se os cinco edifícios, com as chaminés, os barracões e os armazéns. Como era domingo, não se trabalhava; as janelas estavam escuras e só duas, num dos edifícios onde ainda estava aceso um forno, pareciam incendiadas; de quando em quando, saía um clarão pela chaminé, misturado à fumaça. Ao longe, além do pátio, coaxavam rãs e um rouxinol cantava.

Ao olhar os casarões da fábrica e as barracas dos operários, Koroliov voltou aos seus pensamentos de costume. Tinham-se instituído espetáculos para os operários, projeções, médicos privativos, toda a espécie de melhoramentos: mas os operários que ele vira de tarde, na estrada, em nada diferiam dos que tinha visto na sua infância, quando não havia para eles nem espetáculos, nem melhoramentos.

Era médico e tinha sido obrigado a fazer uma idéia exata das doenças crônicas, cuja causa inicial é incompreensível e incurável; considerava, do mesmo modo, as fábricas como um equívoco cujas causas são também obscuras e inelutáveis. Todos os melhoramentos da sorte dos operários não lhe apareciam, claro, como supérfluos, mas comparava-os ao tratamento das doenças incuráveis.

- Há certamente um engano nesta coisa toda... - pensou olhando as janelas purpúreas. Mil e quinhentos ou dois mil operários trabalham sem descanso, num ambiente insalubre, para fabricarem péssima chita. Vivem na fome e só de tempos em tempos a taberna os liberta do pesadelo. Uma centena de pessoas vigia-lhes o trabalho e a vida destes contra-mestres passa-se a aplicar multas, a proferir injúrias e a cometer injustiças. E só duas ou três pessoas, chamadas patrões, aproveitam os lucros, apesar de não trabalharem e de terem desprezo pela chita ordinária. Mas que lucros! E de que maneira os aproveitam! A Lialikov e a filha são umas infelizes e mete pena vê-las. Só a solteirona, a estúpida Cristina Dmítrievna vive à vontade! E trabalha-se numa fábrica destas, com cinco oficinas, e vende-se má chita nos mercados do Oriente, para que uma Cristina Dmítrievna possa comer esturjão e beber madeira.

De repente, repetiram-se os sons estranhos que Koroliov tinha notado antes do jantar. Perto de um dos edifícios, alguém batia numa placa metálica e logo amortecia a ressonância, de modo que os sons eram breves, ásperos, mal definidos, qualquer coisa como «dê... dê.. dê...». Depois, meio minuto de silêncio. E, perto do outro edifício, outros sons sacudidos, mas mais baixos, graves: «dran... dran... dran...». Repetiram-nos onze vezes. Eram, evidentemente, os guardas a darem as onze horas. Junto do terceiro edifício, ouviu-se: «jak... jak... jak...». A mesma coisa diante de cada um dos edifícios, depois por detrás das barracas e às portas.
Parecia que, na calma da noite, os sons eram produzidos por um monstro de olhos de púrpura: o próprio Diabo, que era aqui o senhor de patrões e de operários e que a uns e outros enganava.

Koroliov saiu para os campos.
- Quem está aí? - gritaram-lhe, com voz grosseira.
- Exatamente como numa prisão - pensou ele.
E não respondeu nada.
Fora, ouviam-se melhor os rouxinóis e as rãs. Sentia-se o cheiro da noite de maio. Da estação vinham ruídos de comboios; para outro lado, cantavam galos sonolentos; contudo, a noite estava calma: a natureza dormia pacificamente.
No campo, não longe da fábrica, erguia-se o esqueleto de uma casa de toras; ao lado, encontravam-se materiais de construção. Koroliov sentou-se numas tábuas e continuou a pensar.
- Só a governante vive aqui a seu gosto e a fábrica trabalha para a satisfazer. Mas é apenas uma aparência; é uma personagem imaginária: o patrão, para quem tudo se faz aqui, é o Diabo.

E pensava no Diabo em que não acreditava. E voltava-se para as duas janelas que o clarão iluminava.
Parecia-lhe que, por estes olhos de púrpura, o próprio Diabo o olhava: numa palavra, a força desconhecida que estabeleceu as relações entre os fracos e os fortes, o erro grosseiro que nada agora pode emendar. É necessário que o forte impeça o fraco de viver: tal é a lei da natureza. Mas isto não é compreensível e não entra facilmente no espírito, senão à luz de um artigo de jornal ou de um manual. No tumultuar da vida quotidiana e no entrelaçar de todos os nadas de que se entretecem as relações humanas, não parece uma lei; é um absurdo lógico, no qual o forte e o fraco são vítimas das suas relações mútuas e se submetem involuntariamente a uma força condutora desconhecida, que reside fora da vida e é estranha ao homem.

Assim pensava Koroliov, sentado sobre as tábuas, invadido pouco a pouco pela impressão de que essa força desconhecida e misteriosa estava realmente perto dele e o contemplava.

Entretanto, o céu a leste empalidecia; os minutos precipitavam-se. Os cinco edifícios da fábrica e as chaminés tinham, sobre o fundo cinzento da madrugada, nessa hora em que não se via alma viva, em que tudo parecia morto, - um aspecto especial, diferente do de dia. Esquecia-se por completo que houvesse lá dentro motores a vapor, eletricidade e telefones; mais depressa se pensava nas habitações lacustres e na cidade de pedra; sentia-se a presença de uma força grosseira, inconsciente...

E de novo se ouviu:
- Dê... dê... dê... dê...
Doze vezes.
Depois o silêncio - meio minuto de silêncio -, e, na outra extremidade do pátio:
- Dran... dran... dran...
- É bem desagradável, esta coisa... - pensou Koroliov.
E logo ouviu, num terceiro lugar:
- Jak... jak... jak...
O ruído era sacudido, áspero, exatamente como se estivesse aborrecido.
- Jak... jak...
Para dar a meia-noite foram precisos quatro minutos.

Depois, silêncio completo. E, de novo, a impressão de que tudo estava morto à volta.
Koroliov, depois de estar ainda algum tempo sentado, voltou para casa.
Mas ficou ainda muito tempo sem se deitar.

Nos quartos vizinhos conversava-se. Ouvia-se o perpassar de pantufas e de pés descalços.
- Será uma crise? - pensou o médico.
Saiu para ir ver a doente. No quarto havia lá muita claridade; na parede da sala tremia um fraco raio de sol, através do nevoeiro da manhã. A porta estava aberta e Lisa sentara-se numa poltrona perto do leito, de roupão, envolta num xale e com os cabelos caídos. As folhas das janelas estavam cerradas.
- Como se sente? - perguntou-lhe Koroliov.
- Obrigada...

Tomou-lhe o pulso, depois arranjou-lhe os cabelos que tinha sobre a testa.
- Não dorme? Está um tempo limpo, é a Primavera... Lá fora cantam os rouxinóis, e a menina fica aí sentada, às escuras, a pensar não se sabe em que...
Ela escutava-o e olhava-o. Tinha uns olhos tristes, inteligentes e via-se que queria dizer qualquer coisa.

- Isto dá-lhe muitas vezes? - perguntou ele.
Ela mexeu os lábios e respondeu:
- Muitas vezes... Quase todas as noites me sinto mal.
Neste momento, os guardas, no pátio, começaram a dar as duas horas. Ouviu-se: «Dê... dê...» Lisa teve um sobressalto.
- Estes sons incomodam-na? - perguntou o médico.
- Não sei... - respondeu ela, refletindo - . . aqui tudo me incomoda, tudo me aborrece. Sinto compaixão na sua voz; pareceu-me desde o primeiro minuto, não sei porque, que com o senhor eu poderia falar de tudo...
- Fale, faça favor.
- Vou dar-lhe a minha opinião. Parece-me que não estou doente, mas atormento-me e tenho medo porque isto tem que ser assim e não pode ser de outra maneira. O ser mais saudável não pode deixar de inquietar-se quando um bandido lhe ronda a porta. Têm todos os cuidados comigo - continuou baixando os olhos e sorrindo timidamente. Estou muito reconhecida e não contesto a utilidade da medicina; mas desejaria falar, não com um médico, mas com alguém que estivesse perto do meu espírito: um amigo que me compreendesse e me demonstrasse que tenho ou não tenho razão.
- Não tem amigos?
- Sinto-me só... Tenho minha mãe e gosto dela. Mas sinto-me só. Foi assim a minha vida... Quem está só lê muito, mas fala pouco e ouve pouco também; a vida é-lhe misteriosa. É-se místico e vê-se o Diabo onde ele não está; a Tamara de Lermontov [2] era só e via o Demónio.
- Lê muito?
- Muito. Tenho todo o tempo livre, de manhã à noite. De dia leio, à noite tenho a cabeça vazia; em lugar de idéias, passam-me vagas sombras...
- Vê qualquer coisa de noite? - perguntou Koroliov.
- Não... mas sinto.

Sorriu de novo e levantou os olhos para o médico. O seu olhar era cheio de melancolia e cheio de inteligência. Pareceu a Koroliov que Lisa tinha confiança nele, lhe queria falar sinceramente e tinha pensamentos semelhantes aos seus. Mas ela calara-se e esperava talvez que ele falasse.
E sabia bem o que tinha a dizer-lhe. Era evidente que se tornava necessário que ela abandonasse o mais depressa possível os cinco edifícios da fábrica e o seu milhão, se acaso o tinha, e deixasse aquele Diabo que de noite a olhava. Era igualmente claro para Koroliov que ela também assim pensava e que esperava que lho dissesse alguém em quem ela tivesse confiança.


Mas o médico não sabia por onde começar... Como havia de ser?... É difícil perguntar aos condenados por que razão os condenaram; e é também aborrecido perguntar aos ricos por que motivo têm necessidade de tanto dinheiro; por que fazem tão mau uso da sua riqueza, por que não a deixam, mesmo quando vêem que aí reside a sua infelicidade... E se se começa a falar disto a conversação é geralmente embaraçada e longa.

- Como hei-de dizê-lo? - pensava Koroliov. - E será preciso?
E disse o que queria, não diretamente, mas com uns desvios:
- A menina está descontente da sua situação de proprietária de fábrica e de herdeira rica; não acredita nos seus direitos e não dorme. É, seguramente, melhor do que se estivesse satisfeita e dormisse profundamente pensando que tudo vai bem. A sua insónia é respeitável e, seja o que for, é bom sinal. Com seus pais seria impossível uma conversa semelhante à que hoje temos aqui. De noite, não conversavam, dormiam profundamente; mas nós, os desta geração, dormimos mal. Preguiçamos, falamos muito, e consideramos continuamente se temos ou não temos razão. Para os nossos filhos e para os nossos netos já essa questão estará resolvida. Verão mais claro do que nós. Dentro de cinquenta anos, a vida será bela; é pena que não possamos viver até lá. Devia ser bem interessante...
- Que farão então os nossos filhos e os nossos netos? - perguntou Lisa.
- Não sei... Talvez deixem tudo e partam...
- Para onde?
- Para onde? Mas para onde quiserem - disse Koroliov a rir-se. - Há poucos lugares para onde possa ir um homem bom e inteligente?
Olhou para o relógio.
- Já nasceu o sol. É tempo que durma. Dispa-se e repouse à vontade. Tenho muito prazer de a ter conhecido - disse-lhe ele, apertando-lhe a mão. - É interessante e simpática. Boa noite!
Voltou para o quarto e deitou-se.

No dia seguinte de manhã, quando trouxeram o carro, toda a gente veio acompanhar o médico à porta. Lisa, de vestido branco como num dia de festa, tinha uma flor nos cabelos. Pálida, lânguida, contemplava Koroliov, como de noite, com ar triste e inteligente. Sorria e falava sempre com a mesma expressão de lhe querer dizer alguma coisa de particular, de grave, alguma coisa que fosse só para ele.

Ouviram-se as cotovias cantar, os sinos tocavam. As janelas da fábrica brilhavam alegremente. Ao atravessar o pátio e enquanto o conduziam à estação, Koroliov já não pensava nos operários nem nas habitações lacustres, nem no Diabo. Pensava no tempo, já talvez próximo, em que a vida seria tão luminosa e alegre como essa manhã calma de maio. E pensava em como era agradável, em semelhante manhã de Primavera, viajar num bom carro, com os seus três cavalos, e aquecer-se ao sol.

Notas:
1 - A «versta» equivale a 1067 metros.
2 - Poeta russo da primeira metade do séc. XIX, bastante influenciado por Byron; o poema a que se faz alusão é O Demónio.

domingo, 4 de abril de 2010

O METRO DE MOSCOU / TEXTO VICTOR PELEVIN



Céu subterrâneo
O Metrô ainda permite ao moscovita sonhar.
O Metrô de Moscou talvez seja o único meio de transporte do mundo que tanto interesse causa aos turistas, tanto quanto os museus e monumentos arquitetônicos - uma verdadeira obra prima da arte soviética, planejada não como meio de transporte, mas como algo que deveria transformar a consciência das pessoas e transporta-las de sua cotidiana rotina para a esfera ideológica.

A história da construção do metrô começou nos anos trinta sendo - sem paradoxos, o primeiro Estado ateu no mundo a se orientar, com isto, rumo à herança religiosa da antiguidade. Assim, o metrô lembra ou o complexo de templos subterrâneos, através do qual os crentes eram transportados de um santuário ao outro, ou as catacumbas romanas, onde se reuniam os primeiros cristãos, surgindo uma civilização em substituição a outra da antiguidade.
Também a catacumba de Moscou, decorada com mármore e granito, com aço resplandecente e com cristais, deveria se tornar o berço de uma nova sociedade, mas a construção do socialismo começou enterrada.

Estranho híbrido

A primeira estação do metrô de Moscou é um estranho híbrido dos santuários astecas e templos gregos. Nos nichos das paredes, no lugar dos deuses se encontram estátuas de heróis: marinheiros em armas, soldados e camponeses com suas alpercatas de bronze. A estética do metrô não é, de modo algum, o resultado do livre trabalho de criação artística, estando entrelaçada com intrincadas razões políticas. Antes da inauguração da estação “Praça da Revolução”, por exemplo, o comitê ideológico queria retirar de lá estátuas que mostravam o cidadão soviético em posição quase que de joelhos, mas o próprio Stalin impediu a retirada alegando que as estátuas pareciam ter vida.
As estátuas de bronze sobreviveram a Stalin e à União Soviética, os canos de seus revólveres polidos por milhões de mãos ainda estão apontados para a multidão.
Dois tipos de estátuas habitam o Metrô de Moscou: a de escritores e poetas do panteão da cultura soviética e a de heróis anônimos da guerra e do trabalho. Os mosaicos nas estações do metrô são freqüentemente ornamentos geométricos abstratos, nos quais estão entrelaçados símbolos soviéticos como a foice e o martelo ou a estrela de cinco pontas e, tão sutilmente entrelaçados, que surge daí um efeito surpreendente: quando você passa perto deles, de qualquer perspectiva que seja, você sente a ideologia do “luchismo”[1] nestas paredes. As vezes, é preciso observa-las fixamente antes de compreender porque o mosaico abstrato faz elevar o pensamento às alturas do ideal comunista. Ao lado dos ornamentos repletos de ideologia estão mosaicos trabalhados com motivos de magia — paredes ornamentadas com símbolos antigos, motivos cabalísticos , de runas, etc.
Em algumas das paredes, propositadamente, empregaram motivos da arquitetura antiga, alguns dos quais fazendo lembrar o Castelo de Knossos[2], com o labirinto do Minotauro, mas a estação “Kropotkinskaya”, com suas duplas colunatas, é parecida com o interior de templos egípcios, somente não sendo iluminada por archotes, mas por lâmpadas elétricas.
Fotografar oficialmente aqui só é possível com autorização especial. O motivo disto compreende a concepção estratégica do metrô: nos anos 50 e 60, as estações foram reequipadas para servirem de abrigo anti - atômicos.No início e no fim de cada plataforma encaixaram pesadas portas metálicas, por meio das as estações podem ser hermeticamente fechadas. Exceto alguns especialistas, não há quem tenha visto tais portas fechadas, porém, é possível imaginar o terror da situação: passar por debaixo da multidão nas escadas rolantes, para a qual se fecham pesadas portas de meio metro de espessura; por outro lado, é perfeitamente possível que estas portas estejam inoperantes já há longotempo. Indo de metrô do centro à periferia, a viagem de meia hora será uma viagem no tempo: dos anos trinta à atualidade. A elegância e o esplendor sendo substituídos pelo ascetismo, até pela pobreza, e quanto mais você vai para longe do centro, mais ocasionalmente você encontra construções de superfície do metrô — as entradas aqui são apenas as passagens subterrâneas, sobre as quais incendeia a letra «M»[3].



No centro, a estação se assemelha a um pequeno mausoléu; em compensação, o mausoléu de Lênin se assemelha com as estações do metro. Em geral, o metrô, que há tempos leva o nome de Lênin, surge como um mausoléu virtual — o mausoléu de pessoas, o mausoléu do futuro, o mausoléu dos sonhos.
Como cada objeto ritualístico, o metrô transpira lendas sombrias É assim que circula a história de que no sistema de tubulação subterrânea viviam enormes ratazanas-mutantes, do tamanho de um pequeno cachorro, que de tempos em tempos sentavam nos trilhos forçando os trens a parar. De noite, pelos túneis, brigadas especiais equipadas com armas automáticas Kalishnikova[4] e grandes lanternas, atiram nos ratos.

Falam que os ratos se alimentam de cadáveres dos que, pelas noites, se atiram das janelas dos trens. Em algum lugar, no centro de Moscou, deve haver uma estação de dejetos, plataformas atravancados por todo peso dos monumentos a Stalin, retirados das cidades nos anos 50 (tudo isto é pouco provável, porém, muitas estações ainda mantiveram imensos retratos de Stalin, que com facilidade, poderiam retirar da grossa camada de estuque.)
No entanto, a mais bonita – e também a mais terrível das lendas sobre o metrô de Moscou foi inventada por crianças, contada nos campos dos pioneiros. Quando escurecia, na tenda, começavam os contos sobre o que acontecia com as pessoas que adormeciam nos trens e se esqueciam da parada final. Quando o trem entra no metrô, as pessoas despertam, arrancadas do vagão acorrentadas, após o que passam longos anos sob a terra, trabalhando e reformando aquele enigmático mecanismo, que coloca o imenso organismo do metrô em movimento. Todo este tempo ficam quase que em transe, porque acrescentam algo em sua comida. Quando envelhecem e já não mais podem trabalhar, um belo dia despertam em um vagão superlotado, em meio às pessoas que vão trabalhar. Eles de nada se lembram do período sob a terra, apenas ficou-lhes um lampejo de que ainda ontem eram jovens e repletos de esperanças, mas hoje são velhos Suas vidas terminam e eles, absolutamente, não compreendem o que se passou entre o ontem e o hoje.

O Hades Soviético[5]

Esta história é uma belíssima metáfora: muitas pessoas idosas vão de metrô e quando elas olham para os painéis publicitários nas paredes dos vagões, nos seus rostos transparece a indiferença e incompreensão. É possível que para as pessoas desta história também houvesse tal expressão no rosto. Toda a sua vida elas passaram no imenso mecanismo do império soviético; lhes é indistinguível um dia do outro que passaram sob o transe ideológico. Mas agora, na velhice, os descartam no enigmático mundo inimigo, que espera apenas que bem depressa eles partam e cedam lugar a outros. De acordo com a metafísica soviética, o homem após a morte vive dentro do fruto de seu trabalho. Neste sentido, o metrô é o Hades soviético, o abrigo destas muitas almas, para as quais não sobrou nada além da penumbra e umidade nos túneis subterrâneos.Mas Deus é misericordioso. Na estação mais profunda do metrô de Moscou, a estação “Mayakovskaya” , janelas ovais abrem a paisagem do sombrio teto para o desenhado céu azul,deixando ver aviões, multicoloridos balões aéreos e ramos floridos das macieiras.

É possível que os construtores do metro dos anos 30, 40 e 50 e toda esta gente, para quem surge e o metrô de Moscou e seus monumentos, tenham partido justamente pra lá, para este desenhado azul celeste, no paraíso subterrâneo atravancado de nuvens cor de rosa do ocaso eterno.

tradução: Milu Duarte

ESTAÇÕES
ESQUEMA DAS LINHAS
FOTOS/ФОТКИ
INTERIOR DOS VAGÕES






Notas do Tradudor:
[1] movimento de arte russo - síntese do cubismo e futurismo - fundado por Mikhail F. Larionov, que representa um dos primeiros passos em direção ao desenvolvimento da arte abstrata na Rússia
[2]situado na cidade de Heraklio, na Grécia, foi o centro da civilização Minóica.
[3]Símbolo do Metro de Moscou, fixado a cada cada uma de suas entradas espalhadas por toda a cidade.
[4]Arma automática soviética, idealizada pelo russo Mikhail Kalashnikov que aos 28 anos a desenhou.
[5]Hades é o deus do mundo inferior e das riquezas soberano dos mortos. O nome Hades era usado para design
ar tanto o deus como os seus domínios.

Algumas imagens do que foi citado no artigo de Pelevin:
luchismo(obra de Mikhail F. Larionov)
http://www.gelos.ru/2005/vistavka/bigimages/113.jpg
http://farm1.static.flickr.com/242/458125729_089288ec00_o.jpg
castelo de knossos
logotipo do Metro de Moscou:


















Avtomata Kalashnikova AK-47














Hades
hades(mitologia grega)

Um pouco sobre Victor Olegovich Pelevin: nescritor russo contemporâneo, nascido em 22 de novembro de 1962 em Moscou. Seu gênero é a ficção, utilizando-se muito da fusão de elementos pós modernistas com elementos da cultura poçular e um pouco de esoterismo. Muitos não gostam dele pelo fato de sua literatura se distanciar muito dos clássicos russos, mas para mim, a literatura de Pelevin é gostosa, prazerosa e, sobretudo, bem russa. Seu livro que mais gostei se chama Geração P. Recomendo.

sexta-feira, 26 de março de 2010

INSOLAÇÃO (DE IVAN BUNIN)


capa da edição em português
capa da edição russa


A Rússia não possui apenas os clássicos da literatura, tão conhecidos e admirados por estas bandas de cá. Possui, ao contrário, grandes nomes, quer seja de escritores clássicos, modernos ou contemporâneos. Ivan Bunin é um deles. Considerado um dos maiores autores do século XX, foi o primeiro russo a receber o prêmio Nobel de Literatura, em 1933 (o que não deixa de ser uma injustiça, já que existem inúmeros escritores russos - contemporâneos ou anteriores a Bunin, também merecedores deste prêmio). Apesar disto, ele é ainda quase desconhecido em nosso país, o que não ocorre em sua terra natal, onde ele é tão valorizado quanto qualquer um dos seus grandes nomes das letras.

"Insolação" é uma seleção de contos, que inclui sua história mais conhecida, "O Cavalheiro de San Francisco", considerada uma verdadeira obra-prima, além de 24 outros contos, na sua grande maioria em primeira tradução no Brasil.
O conto que dá título ao livro relata uma história bem simples: num barco, nas águas do Volga, há um tenente e uma jovem mulher, anônima e completamente a ele desconhecida, que voltam para casa - depois das férias na Criméia - no mesmo navio. Em determinado momento, os dois são tomados por um lampejo de paixão, como jamais haviam experimentado na vida, como se "tivessem perdido a cabeça ou sido acometidos por uma insolação", conforme os dizeres dela. Sentem-se como tendo perdido o juízo e, ao mesmo tempo, incapazes de resistir a este sentimento, que lembrariam pelo resto da vida. É uma história de amor, sim, mas não banal. Muitos já escreveram sobre este tema, mas talvez não exista uma definição exata para um sentimento que cada um vive à sua maneira. O amor pode ser calmo e terno, platônico, elevado, romântico, tempestuoso, ardente ou inesperado e fulgurante como um relâmpago, da maneira relatada por Bunin.

Sobre os demais contos prefiro não falar, esperando que o leitor adquira o livro. Garanto que são todos ótimos. Alguns títulos que o leitor encontrará no livro são " Dia de verão", "Cáucaso", "O romance do corcunda", "Balada", "A velha", entre outros.
Bunin nasceu Ivan Alekseyevitch Bunin no dia 10 de outubro de 1870, em Boronezhe, Rússia e morreu em Paris, em novembro de 1953. Um verdadeiro amante da Rússia e de suas seculares tradições, Bunin foi contra a Revolução Bolchevique, que ele via como algo destrutivo para a Pátria. A este respeito ele escreveu o livro "Dias Malditos". Por essa razão, deixou a Rússia, juntamente com a esposa, em fevereiro de 1921, se radicando na França, aí vivendo por 33 anos.
No exílio, seguia de perto o que estava acontecendo em sua amada Rússia. "Ser russo permanece com você até o fim", escreveu ele, que desesperadamente desejava ver seu país novamente, o que foi frustrado pela eclosão da Segunda Grande Guerra. Morreu em 1953, tendo sido enterrado em Saint Geneviève de Bois, um cemitério perto de Paris.
http://philatelia.ru/pict/cat5/stamp/17289s.jpg
http://m-necropol.narod.ru/bunin.jpg
http://www.peoples.ru/art/literature/story/bunin/bunin_48_s.jpg
http://bunin.org.ru/bunin.jpg

Em 1991 foi criado o Museu Ivan Bunin, na propriedade da família em Oryel.
Фасад музея Бунина
fachada
Парижский кабинет И.А.Бунина
escritório do escritor
Фрагмент литературной экспозиции
fragmentos de exposição literária
Lyudimila Bunina, mãe do escritor
Aleksei Bunin, pai de Ivan
http://www.museum.ru/imgB.asp?4696

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