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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Svetlana Alleluyeva e o FBI: dossiê liberado



Uma das mais importantes figuras entre os emigrantes políticos dos tempos soviéticos foi a filha de Stalin - Svetlana Alliluyeva, que viveu nos EUA após sua saída da URSS, no ano de 1967, e que no decorrer de muitos anos, ficou sob a rígida vigilância  do serviço de contraespionagem estadunidense.A este respeito testemunham  documentos do FBI liberados em 2012 por solicitação da Agência Associated Press, com base na lei de liberdade de informação.O material contendo o dossiê de Alliluyeva se refere, principalmente, ao final dos anos 60 e contém não apenas os relatórios do FBI, mas, também, artigos de jornais sobre a ilustre  imigrante que recebeu asilo político nos Estados Unidos.


domingo, 11 de dezembro de 2011

CARTA N.19: VINTE CARTAS A UM AMIGO - SVETLANA ALLILUYEVA - LEMBRANÇAS DE SEU IRMÃO VASSILY

Vassiliy, filho de Stalin
 Na carta que transcrevemos hoje, Svetlana relembra seu irmão caçula, Vassiliy, seus problemas - o alcoolismo era o pior deles -  e seu relacionamento com Stalin e com os outros. Como a maioria das cartas escritas por ela, esta, também, é cheia de fatos que ajudam a desconstruir um pouco os estereótipos em torno da figura do ditador soviético, tanto aqueles que o endeusam, quanto os que, devido aos interesses da guerra fria, fazem dele um dos anticristos do século XX.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

MORRE A FILHA DE STALIN SVETLANA ALLILUYEVA


Morre a filha de Stalin, Svetlana Yossifovna Alliluyeva, nascida de seu segundo casamento. Svetlana é  uma "velha amiga" deste blog, uma vez que venho publicando, por diversos posts, suas famosas cartas, que compõem o livro "Vinte Cartas a Um Amigo", no qual ela nos passa uma imagem de Stalin surgida de suas lembranças e de tudo o que ela ouviu  no seio da família e entre amigos, no decorrer de sua vida. De suas páginas sai  um Stalin mais desmistificado, mais vivo. O interessado pode ler os referidos posts Aqui.
Veja um pouco de Svetlana no vídeo a seguir, com legendas em inglês:

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

SVETLANA ALLILYEVA - 20CARTAS A UM AMIGO: CARTA NÚMERO 1- OS ÚLTIMOS DIAS DE STALIN

 Me desculpem os leitores deste blog pequeno e desordenado, mas vou postar hoje a carta número 1 da filha de Stalin. Ela deveria ter sido a primeira desta série de posts, o que não aconteceu, já que vou escolhendo as cartas do dia de forma bastante aleatória.  A princípio, a coisa foi sendo orientada pelo meu interesse: postava a que, a meu ver, era a mais interessante. Depois de já ter postado 5 cartas, passo a me guiar pela minha disposição e tempo: as cartas são longas, daí estar escolhendo as menos longas entre elas. Isto, é claro, sem prejuízo do interesse, já que todas oferecem ao leitor uma visão única do ditador soviético e momentos históricos vividos na antiga URSS por alguém que circulava nos bastidores do poder. Além do que, como a própria Svetlana deixa bem claro, já no primeiro parágrafo da primeira carta, a ordem das mesmas não é seqüencial, logo, pouca diferença faz a ordem em que eu as edito.Sendo assim, vamos direto ao que importa: à carta número 1 que começa justamente pelo final de Stalin, em 1953.Uma carta em que ela expressa todo o angustiante conflito de sentimentos em relação ao poderoso pai,potencializado em seus últimos momentos. Interessante, também, saber da reação das pessoas, dos mais graduados membros da URSS, aos mais simples empregados de Stalin. Saber do relacionamento dele com estes empregados. Esta carta me encantou, tanto pelo seu tom humano, quanto histórico. Espero que te encante também.
Boa leitura!
A história será longa. As cartas são extensas. e me anteciparei em certos casos, voltando depois ao começo. Deus me livre, isto não é romance, nem biografia, nem memórias. Minha narrativa não terá seqüência.

Hoje a manhã está maravilhosa. Manhã no bosque: os pássaros cantam, o sol filtra a sua luz através da penumbra verde. Hoje quero falar a você sobre o final, sobre aqueles dias de março de 1953, que passei na casa de meu pai, vendo-o morrer. Significaria aquilo, na realidade, o fim de um era e início de uma nova, como se afirma hoje? Não cabe a mim julgar. Veremos. Meu assunto não é a época, mas o homem.

Aqueles dias foram terríveis. Uma sensação de algo habitual, sólido e seguro se movia, sofria um abalo, começou para mim nesse momento, quando, a 2 de março, vieram procurar-me na Academia, durante minha aula de francês, avisando-me que "Malenkov(6) pede para ir à Blíjnaiaia (assim chamada a casa de campo de papai em Kúntsovo, para distinguir de outras mais distantes). (1) Já era estranho o fato de ter sido outra pessoa, e não meu pai, que me tivesse convidado a ir a casa de campo...
Dirigi-me para lá, com esquisita sensação de ansiedade.
Quando chegamos à cancela e N.S.Khruschev e N.A.Bulgânin(4) fizeram o carro parar na vereda perto da casa, achei que tudo estivesse terminado...Ao saltar do carro, eles me tomaram pelos braços. Os rostos de ambos estavam banhados de lágrimas. "Vamos entrar" - disseram eles. -"Béria(7) e Malenkov contarão tudo a você".
Dentro de casa, já no vestíbulo, senti a atmosfera diferente. Em lugar do silêncio costumeiro, do profundo silêncio, alguém correndo e agitando-se. Quando me disseram, afinal, que a noite meu pai tivera um colapso e que se achava inconsciente, senti-me até aliviada, pois parecia-me que ele não existisse.
Lá pelas três da manhã encontraram-no neste mesmo quarto, deitado exatamente aqui no tapete, junto do sofá, e decidiram transporta-lo para um outro aposento, no sofá onde ele habitualmente dormia.
"Agora está ele lá, com os médicos. Você pode entrar".
Ouvi tudo aquilo, aturdida, petrificada. Os detalhes já não tinham significação. Sentia apenas ma coisa _ que ele ia morrer. Disto não duvidei um só minuto, embora não tivesse falado ainda com os médicos. Simplesmente eu via que tudo ao meu redor, toda aquela casa, tudo estava morrendo diante dos meus olhos. Em todos os três dias que passei ali, só via isto e para mim estava claro que não podia haver outro resultado.
O grande salão onde meu pai estava deitado achava-se repleto de pessoas. Médicos desconhecidos, que viam o doente pela primeira vez (o acadêmico V.N.Vinogradov, que foi médico de papai durante anos, estava preso), agitavam-se terrivelmente em volta dele. Colocavam-lhe sanguessugas na nuca e no pescoço, tiravam cardiogramas, radiografia dos pulmões, a enfermeira não cessava de aplicar-lhe injeções, um dos médicos anotava continuamente no caderno a evolução da doença. Faziam tudo o que era necessário. Todos se movimentavam para salvar uma vida que já não podia ser salva. 

Em algum ponto da cidade a Academia de Ciências Médicas se reuniu em sessão especial, para decidir medidas ainda a serem adotadas. No pequeno salão contíguo, uma junta médica conferenciava ininterruptamente, também decidindo o que fazer. Trouxeram um aparelho de respiração artificial de um certo N.I.I. e com ele, uma equipe jovem de especialistas, os únicos, talvez, capacitados a por o aparelho a funcionar. O volumoso equipamento acabou não sendo utilizado e os jovens médicos olhavam, com espanto, para todos os lados, profundamente deprimidos com o que se passava. De repente, lembrei-me de que conhecia aquela jovem médica. Mas, onde a tinha visto?...Nós nos cumprimentamos, com gestos, mas não conversamos. Todos tentavam permanecer calados, como se estivéssemos no templo e ninguém falava sobre outros assuntos. Ali, no salão, todos tinham consciência de que algo importante, quase grandioso, estava acontecendo e que todos queriam agir de conformidade com isso.
Apenas um homem se conduzia de modo quase inconveniente. Era Béria. 
 
Estava extremamente excitado, e seu rosto já de si tão repulsivo, com aquilo desfigurava-se, refletindo suas obsessões. Essas obsessões eram a ambição de poder, poder, poder, a crueldade, a astúcia. Ele esforçava-se, naquele momento decisivo, para não exagerar a sua astúcia e ao mesmo tempo não deixar de ser astucioso! Isto estava escrito em sua testa! Ele acercava-se da cama e examinava longamente o rosto do doente (papai, às vezes, abria os olhos, mas, aparentemente, sem ter noção de coisa alguma ou numa semi-inconsciência). Béria perscrutava insistentemente aqueles olhos nublados. Ele queria ser sempre ali "o mais fiel, o mais dedicado". Fazia tudo para demonstra-lo a papai, e, infelizmente, durante demasiado tempo, foi bem sucedido...

Nos momentos derradeiros, quando tudo já estava terminando, Béria, de repente, notou-me ali e ordenou: "Levem Svetlana daqui"! Todos os que se achavam em redor olharam para ele, mas ninguém pensou em mover-se. Quando estava tudo acabado, ele foi o primeiro a ganhar o corredor e, no silêncio da sala, onde todos estavam mudos, em torno do caixão, ouviu-se a sua voz alta que não escondia o entusiasmo: "Khustalov! O carro!".

Béria era uma réplica soberba e contemporânea do tipo de palaciano insidioso e a encarnação da perfídia, da adulação e da hipocrisia orientais, que envolveu até meu pai - um homem a quem, em geral, era difícil enganar. Muito do que foi feito por essa hidra mancha hoje o nome de meu pai. Em muitos casos, todos são culpados. Quanto ao fato de que Lavrênti (2) pôde, muitas vezes, enganar meu pai, com sua astúcia, rindo-se disso à socapa, não tenho a menor dúvida. E todos os "de cima" compreendiam isso.

Agora toda a sua sordidez interna vinha à tona. Era-lhe difícil controlar-se. Não era eu só, porém, muitos os que compreendiam isso. Mas temiam-no terrivelmente e sabiam que, a partir do momento em que papai morresse, ninguém na Rússia tinha nas mãos mais poder e força do que aquele homem medonho.
Papai estava inconsciente, segundo constataram os médicos. O ataque foi muito violento; perdera o domínio da voz, a metade direita do seu corpo estava paralisada. Ele abriu os olhos algumas  vezes. O olhar era nevoento e não se sabia se estava reconhecendo alguém. Nesses momentos todos corriam para ele, tentando captar uma palavra, ou ao menos ler um desejo nos seus olhos. Eu estava sentada a seu lado e segurava sua mão. Para mim, nada mais restava. É estranho, mas nos dias de sua doença, naquelas horas em que tinha diante de mim apenas o seu corpo, do qual a alma já se havia desprendido, nos últimos dias de despedida, na Sala das Colunas(3), eu o amava com maior intensidade e ternura do que durante toda a minha vida.  Ele guardava sempre muita distância de mim, de nós crianças, de todos os seus. Nos últimos anos de sua vida, nas paredes dos aposentos da casa de campo havia imensas fotos ampliadas de crianças: menino esquiando, menino ao lado de uma cerejeira em flor. Entretanto, nunca achou tempo para ver cinco de seus oito netos, em uma só vez. Contudo, esses netos que nunca o viram amavam-no e amam-no ainda. Mas naqueles dias, quando ele descansou, afinal, em seu caixão e seu rosto se tornou belo e tranqüilo, senti meu coração dilacerar-se de tristeza e amor.
Uma onda de emoções tão contraditórias e tão intensas, eu nunca senti, nem antes, nem depois disso. Quando, na Sala das Colunas, permaneci em pé durante todos os dias (de fato fiquei em pé, pois por mais que insistissem comigo para sentar e me oferecessem cadeira, eu não podia sentar-me, só podia ficar de pé diante do que acontecia), petrificada e muda, eu compreendia que havia chegado a hora de uma certa libertação. Ainda não sabia e não tinha consciência que espécie de libertação seria, como se expressaria. Mas eu entendia que se tratava  de uma libertação, para todos e para mim também, de um jugo que esmagava todas as almas, corações e pensamentos, com um só bloco.
 Svetlana na Sala das Colunas, 
durante o velório do pai
 Contudo, ao olhar para o seu belo rosto, tranqüilo e até mesmo tristonho, tendo nos ouvidos a música fúnebre (uma antiga berceuse georgiana, canção folclórica com uma melodia triste e expressiva), sentia-me arrebentar de tristeza. Sentia que eu era uma filha imprestável, que nunca fora uma boa filha, que eu vivia em casa como uma estranha,  que eu nunca ajudei em nada aquela alma solitária.Aquele velho homem, doente e por todos abandonado, solitário no seu Olimpo. Aquele que, apesar de tudo,era meu pai e que me amava - como sabia e podia - e a quem eu devia  não só o mal como o bem. Não consegui comer nada durante todos aqueles dias. Não conseguia chorar. Estava esmagada por uma tranqüilidade e uma tristeza de pedra.
A morte de papai foi terrível e penosa. E era a primeira e única morte, até então, por mim presenciada. Deus concede uma morte fácil aos justos...

O derrame cerebral é um processo que vai, aos poucos, atingindo todos os centros e, caso seja sadio e  forte o coração, vai lentamente invadindo os centros respiratórios, causando a morte por asfixia. A respiração da pessoa torna-se cada vez mais difícil e rarefeita. Nas últimas 12 horas , tornava-se claro que a falta de ar era cada vez maior. O seu rosto escureceu e transfigurou-se. Gradativamente suas feições iam-se tornando irreconhecíveis. Seus lábios ficaram enegrecidos. Nas últimas duas horas a pessoa simples e lentamente se asfixia. A agonia foi terrível. Ela o estrangulava à vista de todos. Em dado momento - não sei se isto realmente aconteceu ou se foi apenas uma impressão - provavelmente já no último minuto, ele abriu os olhos, de repente, abrangendo com a vista todos os que estavam ao seu redor. Que olhar terrível aquele: talvez inconsciente, talvez encolerizado e cheio de terror diante da morte e dos rostos desconhecidos dos médicos, debruçados  sobre ele - olhar esse que abrangeu a nós todos, numa fração de segundo, e então, o que era incompreensível e aterrador (até hoje não compreendo e nem posso esquecer), ele suspendeu de repente o braço esquerdo (o único que se movia) e não se sabe se indicava alguma coisa no alto ou se ameaçava a todos nós. O gesto era incompreensível, porém ameaçador, não se sabendo a quem e a que se destinava. No instante seguinte sua alma, num derradeiro esfôrço, libertou-se do corpo.

Pensei que fosse eu mesma morrer sufocada. Agarrei com força o braço da jovem médica, minha conhecida. Ela tremeu de dor, mas continuamos a segurar-nos uma na outra. 
A alma se desprendeu, o corpo se acalmou, o rosto empalideceu e voltou ao seu aspecto normal; dentro de instantes ele tornou-se imperturbável, tranqüilo e belo. Durante alguns minutos - não sei quantos, mas pareceram-me muitos -todos permaneceram petrificados e em silêncio.
Em seguida, os membros do governo precipitaram-se para a saída. Era preciso viajar para Moscou, para o Comitê Central onde todos aguardavam notícias. Eles foram transmitir a notícia que, no fundo, todos desejavam receber. Não cometamos pecados, uns contra os outros: eles foram dilacerados trmbém por sentimentos contraditórios iguais aos meus: tristeza e alívio.

Todos eles (não me refiro a Béria, que era o único espécimen do gênero) se agitavam ali todos esses dias, esforçando-se para ajudar e, ao mesmo tempo, sentindo medo: como iria terminar tudo aquilo? Mas vi também naqueles dias lágrimas sinceras nos olhos de muitos deles. Vi em prantos K.E.Vorochílov, L.M.Kagânovitch, G.M.Malenkov, N.A.Bulgánin e N.S.Kruschev. Além do interesse comum que os unia a papai, era grande o fascínio exercido por sua personalidade privilegiada sobre as pessoas. Ele as atraía e era impossível resistir-lhe. Muitos sabiam e sentiam isto, mesmo os que hoje dizem que nunca o experimentaram, e os que fingem não ter experimentado.

Todos se dispersaram. Restou apenas o corpo que aqui deveria permanecer por mais algumas horas. Era praxe.
Só se achavam na sala N.A.Bulgânin, A.I.Mikoian e eu, que permaneci sentada num sofá, junto à parede em frente. Apagaram a metade das luzes; os médicos retiraram-se. Só a enfermeira chefe e a enfermeira de plantão continuavam ali. Esta última era minha conhecida de longa data, do hospital do Kremlin. Silenciosamente, ela arrumava algo sobre a imensa mesa de jantar, situada no meio da sala.

Aquele era o recinto em que se serviam banquetes e onde se reunia sempre o restrito grupo do Bureau Político. Em torno daquela mesa - durante um almoço ou jantar - decidiam-se ou levantavam-se as questões. "Chegar para almoçar" com papai significava ir para resolver algum problema. Um enorme tapete cobria o chão; poltronas e sofás alinhavam-se ao longo das paredes; a um canto da sala, uma lareira. Papai sempre gostou de ter fogo aceso, no inverno. Em outro canto, havia uma vitrola com discos. Papai possuía uma boa coleção de canções populares - georgianas e ucranianas. Não admitia nenhuma outra espécie de música. Neste quarto se passaram os últimos anos de sua vida - quase vinte anos. Ele agora se despedia de seu dono.

Vieram despedir-se os empregados, sua guarda pessoal. Estes, sim, demonstraram verdadeiro sentimento e dor sincera. Cozinheiros, motoristas, guardas de serviço, copeiras, jardineiros - todos entravam em silêncio, aproximavam-se da cama e choravam todos. Enxugavam as lágrimas como crianças, com as mãos, as mangas, os lenços. Muitos soluçavam, enquanto a enfermeira oferecia-lhes gotas de valeriana, também chorando. E eu, como que petrificada, sentava-me, levantava-me, olhava e nem uma lágrima. Sentia-me incapaz de sair sair dali. Não desprendi os olhos daquilo que via.

Veio despedir-se também a caseira Valentina Vassílevna Stômina - Valétchka, como a chamávamos - que trabalhou nesta casa de campo cerca de 18 anos. Jogou-se de joelhos ao pé do sofá, encostou a cabeça sobre o peito do morto e começou a corar aos gritos como é de uso no campo. Custou a conter-se e ninguém a incomodou.

Todas estas pessoas que serviam a meu pai gostavam dele. Na intimidade ele não era exigente. Ao contrário, era cordato, simples e amável para com os domésticos. E se perdia a paciência era somente com os "chefes" - generais da guarda e generais comandantes. Os serviçais não podiam queixar-se nem do despotismo, nem da crueldade. Pelo contrário, freqüentemente recorriam a ele, pedindo ajuda, sem nunca terem obtido jamais uma recusa. Váletchka - bem como os demais, nestes últimos anos - sabia a respeito dele e o vira muito mais do que eu, que morava longe e distanciada dele. Em torno daquela mesa grande que ela servia, nos grandes banquetes, chegou a ver pessoas de todo o mundo. Presenciou muitas coisas interessantes - dentro dos limites de seu horizonte, é lógico, e agora que nos encontramos, ela refere essas coisas com vivacidade e humor. E, como todos os demais serviçais, ela vai morrer certa de que não houve no mundo pessoa melhor do que papai. E ninguém jamais a fará mudar de idéia.

Tarde da noite - ou melhor, de manhãzinha já -vieram buscar o corpo para a autópsia. Aí, comecei a sentir um tremor nervoso - queria chorar, queria banhar-me em lágrimas. Mas, nada: sentia apenas o tremor. Trouxeram a maca e nela colocaram o corpo de meu pai desnudo - um belo corpo, que absolutamente não era o de um decrépito, de um velho. E apoderou-se de mim uma estranha dor que me golpeava o coração como um punhal, e eu senti e compreendi o que significava ser "carne da carne". Compreendi que cessou de respirar e viver aquele corpo que me deu a vida, e eis que eu ia continuar a viver e viver nesta terra.

Tudo isso é impossível de se compreender enquanto não se vê com os próprios olhos a morte dos pais da gente. E para compreender, em geral, o que é a morte é preciso vê-la, nem que seja uma só vez. Ver como "a alma se desprende" e só ficam os restos mortais. Tudo isso eu não compreendia até então, mas sentia que tudo isso passava através de meu coração, deixando marcas.

E levaram o corpo. A ambulância chegou até a porta da casa de campo. Todos desceram. E todos tiraram os gorros, inclusive os que estavam do lado de fora, perto do alpendre. Eu permaneci à porta, alguém me deu um casaco, tudo tremia em mim. Alguém me abraçou pelos ombros - Era N. A. Bulgânin. O carro fechou bruscamente as portas e partiu. Mergulhei o rosto no peito de Nikolai Aleksandrovitch(4) e afinal rompi em soluços. Ele também chorava e me acariciava a cabeça. Todos estavam ainda à porta; depois começaram a dispersar-se.

Encaminhei-me para a ala de serviço, unida à casa por um longo corredor, através do qual traziam a comida da cozinha. Todos os que ficaram se reuniram aqui - as enfermeiras, os serviçais e os guardas. Sentaram-se à sala de jantar - uma vasta sala com bufê e radiorreceptor. Repetidamente  discutiam sobre o acontecido, como se tinha passado. Obrigaram-me a comer alguma coisa. "Hoje vai ser um dia difícil e você nem dormiu e daqui a pouco terá que sair de novo para a Sala das Colunas; precisa recuperar as forças!" Comi algo e sentei-me na poltrona. Eram cinco horas da manhã. Depois fui para a cozinha. No corredor ouviam-se ruidosos soluços - era a enfermeira, que revelava aqui mesmo, no quarto de banho, um cardiograma, e chorava alto. Chorava tanto como se tivesse perdido de vez toda a sua família..."Aí está, trancou-se e está chorando já há muito tempo", disseram-me.

Como que inconscientemente, todos esperavam, sentados na sala de jantar, uma só coisa. Daí a pouco, às seis horas da manhã, anunciaram pelo rádio aquilo que nós já sabíamos. Mas todos precisavam ouvir aquilo, como se sem isso não pudéssemos acreditar. E eis que, afinal, bateu seis horas. Então, ouviu-se a voz pausada, muito pausada, de Levitan - ou a de um outro, parecida com a de Levitan(5) -voz que sempre comunicava algo importante. E aí todos compreenderam que era verdade, sim, que aquilo tinha acontecido. E todos se puseram de novo a chorar - homens, mulheres, todos. Eu chorava alto e me fazia bem não estar sozinha, sentindo que todas aquelas pessoas compreendiam o que tinha acontecido e choravam junto comigo.

Aqui tudo era verdadeiro e sincero e ninguém deixava de demonstrar sua aflição e sua lealdade. Todos se conheciam uns aos outros, havia já muitos  anos. Todos se conheciam e sabiam também que eu tinha sido uma filha má e que meu pai tinha sido um mau pai, mas  também que meu pai, apesar disso, me amava e que eu o amava. Ninguém aqui o considerava um deus, nem um super-homem, nem um gênio, nem um desalmado -amavam-no e o respeitavam pelas mesmas qualidades humanas comuns, sobre as quais os criados fazem sempre com justeza o seu julgamento.

A seguir, algumas fotos históricas daquele dia:
 No caminho para a sede dos sindicatos, onde estava o corpo de Stalin, houve uma comoção e muitos
foram pisoteados, na tentativa de alcançar a fila.
Alto escalão do governo soviético



___________________________________________________
Notas: 
(1)blijnaia significa 'mais próxima'
(2) Kavênti Béria
(3Sede Central dos Sindicatos Soviéticos:
(4)Bulgânin, general da extina União, no período de Stalin.


(5)Yuri Levitan, locutor da rádio da União Soviética;  locutor oficial do cerimonial do governo. Sua voz se tornou um símbolo daquela época para todo o povo soviético.

A seguir, um vídeo com a voz de Levitan anunciando a capitulação alemã na segunda guerra para os que estudam a língua russa praticarem um pouco e para os curiosos conhecerem a voz que marcou uma época.

(6)Georgui Malenkov, político soviético, líder do Partido Comunista e um dos mais próximos colaboradores de Stalin. Conduziu o país de março de 53 - morte de Stalin, até setembro do mesmo ano, chegando a ser Premie da URSS.
 (7) Chefe da NKVD na Geórgia e um dos principais executores do Grande Expurgo. Acusado de crimes de guerra e do Massacre de Katyn. Foi condenado à morte por fuzilamento, acusado de vários delitos, em junho de 1953.

domingo, 12 de junho de 2011

VINTE CARTAS A UM AMIGO: CARTA Nº 18 (SVETLANA ALLILUYEVA)


Tempos atrás, andei postando as cartas de Svetlana Alliluyeva, a filha de Stalin, extraídas do livro "20 cartas a um amigo", livro raro, muito difícil de ser encontrado. Hoje posto mais uma carta, a de número 18, na qual Svetlana opina sobre seu pai se achar ou não um verdadeiro deus. e relata fatos de seus últimos tempos de vida..Se, por um lado, Svetlana era ligada a Stalin por um forte afeto, talvez até maior do que o que sentia por sua mãe,por outro, ela tinha consciência de seus defeitos, de suas crueldades, de suas amantes, de seus 'pileques'; enfim, acredito que suas cartas tenham certo grau de imparcialidade e que esta carta, em especial, nos dê uma boa imagem do Stalin existente por de trás da 'monumental propaganda', com o devido desconto que toda opinião comprometida por laços afetivos deve sempre ter...
"Quando tenho de ouvir e ler, agora, em nossos dias, que meu pai, durante a vida, considerava-se a si mesmo um verdadeiro deus, estranho profundamente que isso possa ser afirmado por aquelas pessoas que o conheceram de perto...

È certo que papai nunca se distinguiu pelo democratismo, porém jamais se imaginou Deus...
Nos últimos tempos viveu muito isolado; a viagem ao Sul, em 1951, foi a última. Não mais saía de Moscou e, quase todo o tempo, ficava em Kúntsovo, que foi sucessivamente reconstruído. Nos últimos anos, ao lado da casa grande, construíram uma pequena casa de madeira-havia mais ar puro; no quarto com estufa, papai passava habitualmente seus dias. Ali não havia o menor luxo - apenas lambris de madeira nas paredes, e no assoalho um bom tapete - que eram objetos caros.

Todos os presentes que lhe mandavam de todos os recantos da terra, ele ordenou que os reunissem e transferissem para o museu - não por afetação ou atitude, como confirmam muitos - mas pela circunstância de que, na verdade, não sabia o que fazer de todas aquelas coisas, muitas das quais valiosas - quadros, porcelanas, móveis, armas, utensílios, roupas, peças de artesanato nacional - não saberia para que lhe serviria tudo aquilo...

Raramente dava-me alguma coisa - um traje nacional romeno ou búlgaro - porém, em geral, mesmo o que mandavam para mim, considerava inadmissível utiliza-lo na vida comum. Entendia que os sentimentos expressos em todas aquelas coisas eram simbólicos, cabendo portanto assim considera-los, isto é, como símbolos. Em 1950 foi aberto, em Moscou, um "museu de presentes".(*)
presente ofertado pelos republicanos espanhóis a Stalin
Ouvi, com freqüência, de senhoras conhecidas (tanto durante a vida de papai como depois de sua morte): "Ah! mas que belo conjunto de quarto ali! Que radiola! Será que não podiam dar aquilo a você?"

Depois de meu regresso da Geórgia, vi papai apenas duas vezes. Já falei de como, no aniversário da Revolução, no outono de 1952, fui visita-lo na casa de campo, levando as crianças. Estive ainda com ele a 21 de dezembro de 1952, no dia em que completou 73 anos. Nessa ocasião, vi-o pela última vez. Ele parecia abatido, naquele dia. Pelo visto, os sintomas da enfermidade, talvez hipertensão - desde que deixara inesperadamente de fumar e muito se orgulhava disto. Fumara durante nunca menos de cinqüenta anos. Tudo leva a crer que sentiu o aumento da pressão - porém não havia médico. Vinográdov fora preso e ele não confiava em ninguém e não admitia qualquer pessoa próxima dele. Tomava pílulas por conta própria, bebia algumas gotas de iôdo dissolvidas em um pouco d'água -não se sabe de onde havia tirado tais receitas de enfermeiro; ele mesmo, porém, fazia coisas inadmissíveis. Dois meses depois, vinte e quatro horas antes do colapso, estivera na sauna (construída num cômodo separado da casa de campo) e ali tomara banho de vapor, segundo seu velho hábito siberiano. Nenhum médico o permitiria, porém não havia médico...

O 'caso dos médicos' ocorreu no último inverno de sua vida. Velentina Vassílevna relatou-me (mais tarde, agora) que papai ficou muito amargurado com o rumo dos acontecimentos. Ouviu como o assunto fora discutido à mesa, durante o almoço. Ela servia à mesa, como de costume. Papai dizia não acreditar na 'desonestidade' deles, que isto era impossível _ pois a única 'prova' eram as denúncias do dr. Timachuk _ e todos os presentes, como de hábito em tais circunstâncias, se calavam...

É provável que, devido a sua moléstia, ele - por duas vezes, depois do XIX Congresso, em outubro de 1952 - exprimiu ao Comitê Central seu desejo de se aposentar. Este fato é bem conhecido dos membros do Comitê Central eleito naquele Congresso.

Valentina Vassílevna era muito parcial. Ela não queria que sobre papai caísse qualquer sombra. De todos os modos, vale a pena ouvir o que relata e tirar daí algumas conclusões - já que se achava em casa de meu pai nos últimos dezoito anos, enquanto eu só raramente ia lá...Muito me criticaram por isto. Diziam-me: "Porque não visitas teu pai? Telefona, pergunta; se diz não, telefona mais tarde, nalguma oportunidade ele encontrará tempo." Talvez que a observação fosse correta. Talvez tivesse sido demasiado escrupulosa e não insistisse. Porém, quando me respondia com raiva e voz irritada - "estou ocupado" e desligava o telefone - depois disto, durante meses a fio, não podia encontrar forças para ligar de novo.

Eis que não estava em sua casa pela última vez - claro que não sabia que era a última vez. A mesma demora à mesa, as mesmas figuras (**), as mesmas conversas habituais, os mesmos ditos chistosos, velhos de muitos anos. Esquisito - papai não fuma. Esquisito - tem o rosto avermelhado, apesar de que sempre fora pálido (pelo visto, já tinha havido um forte aumento da pressão). Ele, porém, como sempre, bebe pequenos goles de vinho georgiano -fraco, leve, aromático.

Tudo no quarto é estranho - nas paredes, retratos simplórios, de escritores, também o quadro sobre a gente de "Zaporojie"(***) fotografias de crianças recortadas de revistas...Mas, que há de estranho? Queria enfeitar as paredes, não deixa-las desnudas, mas pendurar ali pelo menos um dos milhares de quadros que lhe mandavam, considerava-o impossível. É certo que no canto do quarto achava-se pendurado um bordado chinês - um tigre enorme, em cores vivas - mas achava-se ali ainda nos tempos anteriores à guerra; já se tornara habitual.

A demora à mesa, como de costume; nada de novo. Como se o mundo em volta não existisse. Será que todas as pessoas que ali sentavam não tinham conhecimento, naquela mesma manhã, de algo novo e interessante de qualquer parte do mundo? Na verdade, dispunham de informações como ninguém mais. Mas não parecia.
Quando eu ia sair, papai chamou-me de lado e deu-me dinheiro. Começou a me dar dinheiro nos últimos anos, depois da reforma de 1947, que eliminou a manutenção gratuita das famílias dos membros do Bureeua Político. Até então, eu subsistia, de um modo geral, sem dinheiro, abstração feita do estipêndio da Universidade, eternamente fazia empréstimos às minhas "ricas" babás, que percebiam um salário considerável.

Depois de 1947, às vezes - em nossos raros encontros - papai perguntava: "Precisas de dinheiro?" - ao que eu respondia sempre "não". "Mentira!" - dizia ele - "de quanto precisas?"Não sabia o que dizer. Ele desconhecia o valor do dinheiro atual e o custo das coisas - vivia com noções de antes da Revolução, quando cem rublos representavam soma colossal. E quando me dava dois ou três mil rublos - não se sabe se era para um mês, meio ano ou duas semanas - considerava estar-me entregando milhões...

Todo o seu salário mensal era guardado em pacotes sobre a mesa - não sei se teria uma caderneta da Caixa Econômica; certamente que não. Não gastava dinheiro, não tinha onde nem em que. Todo o seu modo de vida:casa de campo, residência, empregados, alimentação, roupas - tudo era pago pelo Estado, para o que existia uma dependência especial no sistema do MGB e ali achava-se sua contabilidade e não se sabia quanto eles gastavam.Ele mesmo não sabia. Às vezes lançava-se contra os comandantes e generais de sua guarda, sobre Vlássik, com raiva: "Parasitas! Ei sei que vocês estão se aproveitando, sei quanto dinheiro está passando pela peneira"! Na verdade, ele não sabia, apenas intuitivamente, sentia que se evaporavam enormes recursos...Tentara, certa vez, efetuar uma inspeção de suas despesas de casa, mas disso nada resultou: impingiram-lhe umas cifras quaisquer inventadas. Ficou furioso, porém, ainda assim, nada conseguiu saber. Apesar de todo o seu poderio, era impotente, sem defesa contra um sistema monstruoso, criado em seu derredor como gigantesca teia - não podia quebra-lo e nem sequer controla-lo. O general Vlássik dispunha de milhões em nome dele, para obras, realização de longas viagens em trens especiais - meu pai, porém, não podia sequer esclarecer para onde, o que, quanto, a quem... Compreendia que, de todos os modos, eu devia precisar de dinheiro. Nos últimos tempos, eu estudava para defesa de tese na Academia de Ciências Sociais, que propiciava um bom estipêndio, o suficiente para assegurar minha subsistência. Ainda assim, papai de vez em quando me dava dinheiro e dizia: " Isto é para a filha do Yacha(1)"

Naquele inverno ele fez muito por mim. Então, eu me hvia divorciado do segundo marido e me separado da família Jdânov. Papai permitiu-me viver na cidade e não no Kremlin - deram-me um apartamento no qual vivo até o presente com as crianças. Ele, porém, encarou esse direito à sua maneira: muito bem, queres viver independente, então não mais utilizarás nem automóve e nem casa de campo oficiais.

"Toma aqui dinheiro - compra um carro, guia tu mesma e vais mostrar-me tua carteira de motorista"- disse. Isso me convinha integralmente. Dava-me alguma liberdade e a possibilidade de avistar-me normalmente com as pessoas; - vivendo de novo no Kremlin, em nosso antigo apartamento, isto seria absolutamente impossível.

Papai não se opôs quando disse que ia sair da casa dos Jdânov. "Faze o que quiseres" - foi a sua resposta. Ficou, porém, dscontente com o divórcio, que de modo algum lhe agradou...
"Vives como parasita, com tudo pago?" - perguntou, certa vez, irritado. Ao saber que eu pagava minhas refeições trazidas do refeitório, acalmou-se. Quando me mudei para meu apartamento da cidade, ficou contente: "Chega de viver de graça..."De modo geral, ninguém tão firmemente como ele tentou acostumar seus filhos à idéia da necessidade absoluta de viver às próprias sustas. "Casa de campo, apartamento e automóvel oficiais, tudo isto não te pertence, não consideres coisa tua", repetia-me com freqüência. Ainda agora, na última vez, deu-me um pacote de dinheiro e me lembrou: "Isto é para a filha do Yacha".

Retirei-me. Desejava voltar ainda uma vez no domingo, primeiro de março - porém não consegui falar-lhe pelo telefone. O sistema era muito complicado - primeiro era necessário telefonar para o chefe da guarda de plantão, que dizia "há movimento" ou "não há movimento", significando que papai dormia ou lia em seu quarto e não estava andando pela casa. Quando "não havia movimento",não se podia chama-lo ao telefone, papai podia estar dormindo durante o dia, a qualquer hora - seu regime de vida fora virado pelo avesso...

Na manhã de dois de março de 1953, chamaram-me da aula na Academia, e mandaram-me que fosse a Kúntsovo...Sobre isto já escrevi. Com isto comecei. Isto, porém, não é o fim. Ainda não quero terminar minhas cartas.

Finalizo o post com algumas imagens da dacha de Stalin em Kúntsovo, citada nesta carta de sua filha:

O sofá que se vê na penúltima foto trata-se de onde Stalin morreu.
NOTAS
(*)Hoje o museu já não existe; o que existem são exposições itinerantes de tais presentes, guardados no museu de Gori, cidade natal de Stalin. Faremos um post especial para tais presentes.
(**)Nos últimos tempos, as figuras habituais que o visitavam eram Béria, Malenkov, Bulgaanin e Mikoyan. Aparecia, também, Khuschev. Desde 1949, depois da prisão de sua mulher, Molotov estava, de fato, afastado de todas as funções. Mesmo nos dias da enfermidade de papai, não o chamavam...Devo acresentar que, nesse último período, até os mais velhos e íntimos amigos de papai caíram em desgraça; o fiel Vlássik foi preso no inverno de 1957 e na mesma época, foi afastado de funções o secretário particular de papai, Poskrebíchev, que o tinha servido durante 20 anos, aproximadamente.
(***) Quadro de Ilyá Repin, foto a seguir:
)1) Yacha era o filho de Stalin do primeiro casamento, morto sob Hitler, na guerra.Maiores detalhes sobre ele ver neste blog, no seguinte post:
http://russiashow.blogspot.com/2010/04/mais-uma-carta-de-svetlana-alliluyeva.html

Fontes:
- Livro "Vinte Cartas a Um Amigo"
http://www.kuncevo-online.ru/

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

VINTE CARTAS A UM AMIGO:CARTA N.10 - SVETLANA ALLILUYEVA

Retomando a publicação de posts relativos às cartas da filha de Stalin, do livro "Vinte Cartas a Um Amigo", há muito esgotado no Brasil, com sua carta de número 10, que trata das memórias de Svetlana da morte de sua mãe.

As demais cartas já postadas, você pode ler aqui.
"Lembro-me de como nós fomos, subitamente, mandadas a passeio. Lembro-me de como, à hora do desjejum, natália Konstantinovna enxugava os olhos, com um lencinho. Não entendemos por que nos deixaram passear durante tanto tempo. Depois, inesperadamente, fomos levados à casa de campo em Sokólovka, uma casa escura e sombria, para onde íamos sempre naquele outono, ao invés de visitarmos a querida Zubalovo.

Em Sokólovka, o ambiente era excessivamente sombrio, o grande salão do andar de baixo era escuro, por toda parte canto e recantos escuros. Fazia frio nos quartos estranhos e inconfortáveis. Mais tarde, ao anoitecer, K.E.Vorochílov veio ver-nos e levou-nos a passear. Tentou brincar conosco, mas ele mesmo estava chorando. Não me recordo de como me anunciaram a morte e como reagi a essa notícia...
Na certa, porque na época esse fato não alcançava ainda minha compreensão...

Eu só compreendi alguma coisa quando fui levada ao edifício em que agora funciona o GUM(1) e naquele tempo era, ainda, uma repartição pública. Na sala, estava exposto o caixão como o corpo para a visitação. Lá, eu fiquei terrivelmente amedrontada, porque Zina Ordjonikidze tomou-me nos braços e me aproximou do rosto da mamãe para "despedir-me". Foi então que eu devo ter notado a morte, porque fiquei aterrada e comecei a berrar, afastando-me daquele rosto. Logo em seguida, alguém me carregou nos braços para outro quarto. Lá o tio Avel Enukidze botou-me nos joelhos e começou a brincar comigo, a me encher de frutas e eu acabei por esquecer sua morte. Mas ao enterro já não me levaram; só foi Vassíly.

Mais tarde, quando já era adulta - contaram-me que papai ficou profundamente abalado pelo acontecimento. Ficou chocado porque não chegava a compreender. Porque razão? Porque foi ele alvo de tão terrível golpe? Ele havia interpretado aquilo como um golpe pelas costas. Era inteligente demais para não compreender que o suicida quer sempre "castigar" alguém: "pronto, isto é para você saber". Isto ele havia entendido, mas não conseguia localizar o motivo. Por que merecia tal castigo? E ele indagava aos circunstantes: não era ele atencioso? Não a amava e respeitava como esposa e ser humano? Será que era tão importante assim ele não poder leva-la mais vezes ao teatro? Será que isto era tão importante assim?

Sentiu-se chocado durante os primeiros dias. Dizia que não queria viver mais. (Contou-me isto a viúva do tio Pavlucha, que havia ficado em nossa casa nos primeiros dias - dia e noite - juntamente com Anna Sergueievna.) Temiam deixa-lo sozinho, tal o estado em que se encontrava. Houve momentos em que a raiva e o ódio tomavam conta dele. Isto explicava-se pela carta que mamãe havia deixado.

Evidentemente, ela a escreveu de noit. ´lógico que eu nunca cheguei a lê-la. Deve ter sido destruída logo. Mas ela existiu. Soube-o através de pessoas que viram a carta. Cheia de críticas e acusações, aquela carta terrível não teve cunho pessoal;era quase política. Ao lê-la,, papai deve ter pensado que mamãe permaneceu do seu lado apenas para manter as aparências, pertencendo, na verdade, a oposição da época.

Ele ficou abalado e enfurecido e, quando assistiu à cerimônia civil(2) de encomenda do corpo, aproximou-se do caixão por um minuto e, s´bito, empurrou-o com a mão, dando meia volta e partindo. Não compareceu ao enterro.

Mamãe foi enterrada pelos amigos e familiares. Atrás do caixão ia seu padrinho, tio Avel Enukidze.

Papai ficou perturbado durante muito tempo. Nem uma só vez visitou sua sepultura no cemitério Novadevitch. Não podia, ele achava que mamãe se fora como sua inimiga pessoal.













fonte da foto: http://vk-uzor.ru




















fonte foto:
http://www.aif.ru/article/index/article_id/18381

Só nos últimos anos, pouco antes de morrer, ele passou a falar-me com freqência sobre aquilo, deixandome completamente louca com isso...Eu percebia que ele buscava, angustiado, o "motivo", sem consegui-lo. Por vezes, enfurecia-se contra o "livrinho nojento", lido por mamae pouco antes de morrer: o então famoso "Chapé Verde, de Michael Arlen. Parecia-lhe que esse livro teria exercido grnade influência sobre ela...Ou ele começava a incriminar Palina Semionovna, Anna Sergueievna, Pavlucha que lhe havia trazido a pistola, quase de brinquedo...Ele buscava ao redor de si -"quem o culpado?" - "quem lhe inculcou aquela idéia?". Talvez quisesse, com isso, descobrir o seu próprio grande inimigo...

Entretanto, se ele não não a compreendia, mais tarde, passados 20 anos, deixou de entende-la por completo e esqueceu-se de como era ela... Ainda bem que, pelo menos agora, ele já começava a falar sobre ela com brandura. Parecia até que ele sentia pena dela e não a censurava mais pelo seu gesto...

Naqueles tempos eram frequentes os suicídios. Haviam acabado com o trotskismo. Começava a coletivização e o partido estava sendo dilacerado pela luta interna de grupos em oposição. Muitos militares destacados do Partido suicidavam-se, um atrás do outro. Recentemente, Maiakovsky havia cometido suicídio. Isto ainda não haviam esquecido, nem conseguido admitir.

Penso que isso tudo não podia deixar de refletir-se na alma de mamãe - pessoa muito impressionável e impulsiva. Todos os Alliluevs eram muito delicados, nervosos e demasiadamente sensíveis. Eram temperamento de artistas, não de políticos. "É impossível atrelar à mesma carroça um cavalo e uma sensível gazela", já dizia Puchkin.

Sim, não deveriam te-los atrelado juntos. Sucede que mamãe viveu e agiu sempre conforme as leis do sentimento. A lógica do seu caráter era a da poesia. Não havia Maiakovsky declarado pouco antes de morrer: "Eu não me lançarei ao abismo, não tomarei veneno e não poderei apertar o gatilho contra as têmporas"?E, ainda que afirmasse isso, foi o que exatamente fez.

Tais coisas ninguém planeja, antecipadamente. E, com todo o seu bom-senso, mamãe era uma mulher inteligente e papai respeitava-a, depositando nela uma confiança sem limites, considerando- a, até o dia da morte dela, o seu amigo mais próximo e fiel. Com toda a sua capacidade de organização e de auto-controle, mamãe era pessoa de sentimento ardente. Naqueles tempos as pessoas costumavam ser extremamente emotivas e sinceras. Quando era impossível viver desta forma, então se suicidavam... Quem age assim, hoje em dia? Quem, hoje, encara a vida, as discussões, as convicções próprias e as do inimigo, as possibilidades ou impossibilidades deste ou daquele assunto - com tamanho ardor?

O frio ceticismo dominou a todos: o ceticismo, a indiferença, a falta de interesse por tudo que de mais caro e importante existe. Bem ou mal, sobreviver...

Naquela época, as pessoas tinham uma outra maneira de viver. E mamãe foi o produto da época. Na certa, se ela não fosse tão jovem, tudo isso não teria acontecido. Mas com seus 31 anos de vida, não tinha alcançado ainda o tempo do raciocínio frio. Penso com freqüência sobre qual teria sido o seu destino, caso ela não tivesse morrido. Nada de bom a aguardava. Cedo ou tarde, ela estaria entre os adversários de papai. Impossível imaginar que ela pudesse permanecer calada, vendo como pereciam seus velhos e melhores amigos - N.I.Bukharin, A.S.Enukidze, Redens, os dois Svanidze. Ela nunca o teria suportado. É possível que o destino a tenha presenteado com a morte, salvando-a de desgraças maiores que a aguardavam. Pois ela não teria podido - "trêmula gazela" - impedir todas essas desgraças...
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(1)"Gossudarstvennyi Universalnyi Magazin, ou Magazin geral do Estado, um shopping center super lindo e luxuoso, que era privilégio dos membros do partido na época do comunismo. Hoje, seus preços são super elevados.
(2) Cerimônia não religiosa

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

3ª E ÚLTIMA PARTE DA CARTA 9 DE SVETLANA ALLILYEVA

Infelizmente não havia nenhum de seus familiares em Moscou, naquele ano de 1932. Pavlucha e a família Svanidze estavam em Berlim; Anna Sergueievna e o marido, em Khárkov; vovô, em Sotchi. Mamãe estava concluindo a Academia e sentia-se excessivamente esgotada.

Ela, cujos nervos eram tão fracos, não aguentava beber vinho. A bebida de fato trazia-lhe péssimos resultados. Era por isso que não gostava e tinha medo quando os outros bebiam.

(Papai contou-nos, certa vez, como ela havia passado mal após uma noitada na Academia. Voltou para casa doente, porque havia bebido um pouco. Teve cãibra nas mãos. Ele a pôs na cama e ficou a seu lado, consolando-a. Ela, então, dissera: "Apesar de tudo, você gosta um pouquinho de mim!" Isto foi-me contado por ele mesmo, depois da guerra. Nos últimos anos, ele referia-se a ela com mais freqüência, buscando sempre os "culpados" pela sua morte).
Meu último encontro com ela ocorreu quase na véspera de sua morte, em todo caso um ou dois dias antes. Ela chamou-me ao seu quarto, acomodou-me em sua cama turca favorita (todos os que viveram no Cáucaso não podiam passar sem essa tradicional cama) e,longamente, procurou incutir-me como eu deveria ser, como deveria proceder". "Não beba vinho! - dizia-me ela -, nunca beba vinho". Isso era o reflexo de sua eterna discussão com papai, que, segundo os hábitos caucasianos, sempre nos dava, às crianças, um bom vinho de uva para beber. A seus olhos, isso era um começo que não resultaria em nada de bom. Ela devia ter razão: meu irmão Vassily acabou destruído pelo alcolismo.
Eu me demorei muito na sua cama turca naquele dia. E, como os meus encontros com mamãe eram raros, guardei bem este último.

"Apesar de tudo, você gosta um pouquinho de mim", dissera ela a papai, ao qual, apesar de tudo, nunca deixou de amar...Ela o amava com todas as forças de sua natureza inteira, de quem só ama uma vez na vida, e não obstante a revolta de seu raciocínio, seu coração foi conquistado uma única vez e para sempre. Além do mais, era muito apegada ao lar Para ela , o marido, a casa , os filhos e o seu dever para com eles, tinham demasiada importância. Por isso - penso assim - dificilmente teria deixado papai, embora tivesse pensado nisso mais de uma vez. Dificilmente... Ela não pertencia ao gênero das mulheres inconstantes, pois era muito severa consigo própria.

Chamavam-na "severa", "séria"demais para sua idade - ela parecia mais velha do que era, apenas por ser excepcionalmente controlada, prática e não se permitir "relaxamento". As visitas de vovóe de Anna Sergueievna irritavam-na - segundo a babá - precisamente porue aquelas duas mulheres, bondosas e francas, exigiam dela franqueza. Para elas mesmas era tão natural queixar-se e chorar. E mamãe não suportava isso.

Este autocontroe, esta terrível auto disciplina e tensão interiores, esta insatisfação e irritação, acumulados internamente, que a comprimiam por dentro cada vez com mais força, como u'a mola, deviam, afinal, terminar inevitavelmente, numa explosão; a mola deveria romper-se com uma força terrível...

Foi o que aconteceu. E o pretexto propriamente dito não teve importância alguma. E não impressionou particularmente a ninguém: podia-se dizer mesmo que "pretexto não houve". Afinal, tudo que houve foi uma pequena alteração, no banquete em homenagem ao XV Aniversário da Revolução de Outubro. "Tudo" o que papai disse foi: "Ei, você, beba!" Tudo" o que ela exclamou foi: "Eu não sou suaEI"!, e levantou-se, diante de todos, deixou a mesa e foi para fora.

Minha babá, pouco antes de morrer, quando pressentia que lhe restava pouco tempo de vida, começou, um dia, a me contar como tudo se passou. Ela não queria levar isso consigo, sentia vontade de lavar a alma, de confessar-se. Estávamos no pequeno bosque, próximo à casa de campo, onde escrevo agora, e ela falava.

Carolina Vassílievna Till, governanta de nossa casa, costumava, de manhã acordar mamãe, que dormia seu próprio quarto. Papai dormia em seu gabinete ou saleta do telefone, ao lado da sala de jantar. Naquela noite ele dormiu aí, tendo voltado tarde da noite, após aquele mesmo banquete, do qual mamãe havia voltado cedo.

Estes quartos ficavam longe das dependências dos domésticos. Para ir ali era preciso atravessar um corredorzinho em frente dos nossos quartos (das crianças). Indo da sala de jantar, era preciso andar à direita e atravessar também esse corredorzinho. As janelas do quarto dela davam para o jardim de Aleksandrov e para os portões da Tróitsa(*).(Se hoje ficarmos ao lado dos bilheteiros do teatro do Palácio do Congresso e olharmos um pouco à direita do mesmo, através do jardim de Aleksandrov, veremos o Palácio de Diversões, construído dentro do antigo estilo russo. O seu telhado é pontiagudo e suas janelas dão para o jardim. Para lá davam também as janelas dos aposentos de mamãe. Eu não gosto de olhar naquela direção...)
ver mais fotos do local em http://www.stabrovsky.ru/photography/2008/alexgarden
Como hábito, Carolina Vassílevna preparou oo desjejum na cozinha de manhã cedo e foi acordar mamãe. Trêmula de pavor, ela veio correndo ao nosso quarto e chamou a babá. Não podia falar. Saíram juntas. Mamãe jazia, ao lado da cama, coberta de sangue, segurava na mão uma pistola "Walter", trazida de Berlim, certa vez, por Pavlucha. O estampido da arma era muito fraco para ser ouvido na casa. Ela já estava fria. As duas mulheres, exaustas de terror de que papai pudesse entrar ali, nesse momento, colocarm o corpo na cama e o arrumaram. Depois, sem saber o que fazer, correram para telefonar às pessoas que, para elas, eram mais importantes - ao comandante da guarda, a Avel Sofrônovitch Enukidze, a Palina Semiaõnovna Molotova, amiga íntima de mamãe...

Rapidamente, todos acorreram ao local. Papai continuava dormindo, em seu quartinho, à esquerda da sala de jantar. Haviam chegado V.M.Molotov, K.E.Vorochílov. Estavam todos chocados e não podiam acreditar...

Papai, finalmente, veio para a sala de jantar. "Iossif, Nadya não se acha mais entre nós" - disseram-lhe.
Foi assim que a babá me contou. Eu confio mais nela do que em qualquer outra pessoa. Primeiro, porque ela era uma pessoa absolutamente sem malícia. Segundo, porque o seu relato era a sua confissão diante de mim, e uma mulher simples, autêntica cristã, não , não pode mentir nesses assuntos, jamais...

Paulina Semiõnovna Molotova Jemtchujina) contou-me algo muito parecido sobre o mesmo fato. O seu relato coincidiu no tempo , com o da babá - isso foi em 1955. Palina Semiônovna mesma voltararecentemente do desterro no Kazaquistão, onde tinha passado 4 anos (de 1949 a 1953a0.

Palina Semiônovna estava naquele mesmo banquete de novembro, onde se achavam mamãe e os demais. Todos foram testemunhas da altercação e da saída de mamãe, mas ninguém deu aquilo maior importância. Palina Semiônovna saiu com ela, para não deixa-la completamente sozinha. Saíram, deram várias voltas em torno do Palácio do Kremlin, passeando, enquanto mamãe se acalmava.

"Ela acalmou-se e já estava conversando sobre os seus afazeres na academia, sobre as perspectivas de trabalho, que tanto a alegravam e a ocupavam. Papai era grosseiro e a vida com ele era-lhe difícil. Todos o sabiam. Contudo, eles já tinham vivido não poucos anos juntos e havia as crianças, a casa, a família. E todos gostavam tanto de Nadya... Quem poderia imaginar! Claro que não era um casamento ideal, mas será que existe tal coisa?

"Quando ela afinal se acalmou - contava Palina Semiônovna - nós nos separamos, indo cada qual para sua casa, dormir. Eu estava plenamente persuadida de que tudo estava bem, de que tudo se normalizara. E, de manhã, recebemos ao telefone a pavorosa notícia...".
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(*) Santíssima Trindade

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

2ª PARTE DA CARTA N.9 DE SVETLANA ALLILUYEVA, A FILHA DE STALIN - PARTE 2

Svetlana e a filha Olga

Aqui, Svetlana continua falando de sua mãe. E fala de tal forma que dá para a gente sentir todo o drama que deve ter sido para ela sua condição de mulher do "homem de aço".
Yacha amava e respeitava muito minha mãe, gostava de mim, dos pais de mamãe. Vovô e vovó protegiam-no como podiam. Mais tarde ele partiu para Leningrado, onde passou a morar na casa do avô Serguei Yakovlevitch.

Guardei comigo muitas fotos. Olhando-as, posso lembrar-me de tudo mais. As fotos diante de mim vão crescendo, colorindo-se, as figurs movendo-se e as escuto conversando entre si,...São, para mim, cenas imóveis de um filme. Ao olha-las, é como se eu assistisse a um filme passando na tela de um cinema, pois eu, em outros tempos, já o tinha visto...

Nas fotos batidas de piqueniques familiares no bosque, dos quais todos gostavam, tanto papai como mamãe, todos estão alegres e risonhos. Muitas fisionomias alegres, felizes, saudáveis. Papai tem uma aparência bem mais jovem, deslumbrante, florescente. Todas as mulheres com vestidinhos modestíssimos, mas como eram belos, sadios e atraentes os seus rostos.
Mamãe, na varanda de nossa casa em Zubálovo, à mesa com Ana Sergueievna, à mesa com Zina Ordjonikidze.
casa em Zubálovo
Mamãe no jardinzinho de Sotchi, a família de Orakhelachvili(*) em espreguiçadeiras, o tio Avel Enukidze aplainando um pedacinho de bambú.
Mamãe na Criméia, em Mukholatka, onde iam meus pais para descansar à beira mar, e da água emergem os focinhos de meu irmão Vassily e de seus amigos Artiom Sergueievitch e Jênya Kursky, com chapeuzinhos de palha na cabeça.

Mamãe no terraço em Mukholatka, ao lado dos leões brancos de mármore. Traz um vestido reto, como um robe, segundo a moda da época, com um decote carré e de mangas curtas. Está bronzeada e seus cabelos lisos, penteados, presos em coque. Mamãe em Zubalovo, na picada do bosque que leva ao portão.

Da Turquia haviam chegado "altos visitantes.E Vorochilov, V.N.Molotov, M.M.Litvinov - também estavam ali, e todos a passeio, ; videntemente, todos eram "recepcionados"por papai.

Stalin e Molotov
Eu também me achava ali.
Svetlana
Mamãe com um xale nos ombros, seu rosto está tenso. Ela está observando para que eu me "comporte bem".

Mamãe, de novo, com o xale nos ombros, sentda à mesa em Zubalovo. Esta foto foi ampliada, após sua morte, por desejo de papai. Fotos imensas foram distribuídas nas paredes de todas as dependências de nossa nova residência no Kremlin.
Aqui, mamãe está tão feliz, tão radiante que, ao olharmos esta foto, torna-se inconcebível, impossível de compreender o destino que, mais tarde, ela teve. Eis por que muitos não entendiam e não acreditavam...

Contudo, com o decorrer do tempo,
as fotos foram-se tornando cada vez mais tristes. Os bons retratos feitos por N.A.Svíchov-Paola, em Moscou, já estão repletos de tristeza. Neles, ela parece uma madona indiferente à agitação e ao mundo. O seu rosto está fechado, orgulhoso e triste. Dá medo aproximar-se dela. Não se sabe se ela vai falar com a gente. E é tal a amargura do seu olhar, que hoje não tenho coragem de colocar o seu retrato no meu quarto e contempla-lo; é tal a amargura nele contida que, à primeira vista, se torna claro para todos que são olhos de uma pessoa condenada, de uma pessoa que está sucumbindo, que necessita de ajuda. Por que, penso agora, que ninguém se precipitou para socorre-la? Porque ninguém previu o fim daquilo tudo?


Mamãe sempre foi muito fechada e orgulhosa. Detestava confessar que estava mal. Não gostava de discutir seus problemas pessoais com ninguém. Isto era motivo de ofensa para minha avó e para a sua irmã, Anna Sergueievna.

Os Allilyev(família de Nadezhda)
Ambas eram extremamente francas, sinceras - o que tinham na cabeça, ia para a língua.

Agora que eu mesma já sou adulta, compreendo-a mais e, até mesmo, os menores detalhes e linhas de sua vida, que às vezes escapam ao relato dos estranhos, dizem-me muito.

A irmã de mamãe, Anna Sergueievna, contou-me, recentemente, que nos seus últimos anos de vida mamãe pensava, cada vez mais freqüentemente, em abandonar papai. Anna Sergueievna sempre diz que mamãe era" u'a mártir", que papai era para ela um homem por demais ríspido, grosseiro e desatencioso, e que isto irritava terrivelmente mamãe, a qual amava-o muito.
Um belo dia, ainda em 1926, quando eu tinha apenas meio ano de idade, meus pais tiveram uma briga e mamãe foi para a casa do vovô juntamente comigo, meu irmão e a babá, para não mais voltar. Ela pretendia encontrar um emprego e, aos poucos, construir para si uma vida independente. A briga foi provocada pela rudeza de papai e o motivo era insignificante. Mas parece que aquela irritação já se vinha acumulando há mais tempo. Entretanto, a ofensa passou.
A babá contou-me que papai havia telefonado de Moscou, querendo vir ao nosso encontro para "fazer as pazes"e levar todos de volta para casa. Mas mamãe respondeu-lhe ao telefone, não sem uma pérfida ironia: "para que vir até aqui?Isso custará muito caro ao governo! Eu mesma voltarei!
E todos voltamos para casa...

Anna Sergueievna conta que, precisamente nas últimas semanas em que mamãe estava terminando a Academia, ela tinha planos de ir embora para a casa da irmã, em Kharkov - era lá que Redens atuava, na Tcheka ucraniana - a fim de encontrar uma colocação em sua especialidade e ficar morando por lá. Anna Serguieievna não se cansa de repetir que esta era uma idéia fixa de mamãe, que ela queria libertar-se de sua "alta posição", que a oprimia. Isso é muito verossímil. Mamãe não pertencia à classe das mulheres práticas. Aquilo que sua "posição" lhe "proporcionava"nada representava para ela. Poucos poderiam compreende-la, sobretudo as mulheres práticas e sensatas (como por exemplo a minha ex-sogra, Z.A. Jdânova), que chamavam mamãe de "alienada", pois não havia razão alguma para que ela se consumisse e sofresse tanto. Qualquer uma delas se conformaria com qualquer coisa, desde que conservasse, para sempre, aquele "lugar lá em cima", oferecido pelo destino.

mamãe ficava constrangida de ir à Academia de carro. Acanhava-se de revelar quem era ela (muitos ignoravam, durante longo tempo, com quem Nadya Allilueva era casada).
Naquele tempo a vida era bem mais simples. Papai ainda andava a pé pelas ruas, como qualquer um (é verdade que ele sempre gostou mais de andar de carro). Mas mesmo isso parecia a ela uma exibição excessiva, que o destacava dos outros. Ela acreditava honestamente nas normas e condutas da moral do Partido, que determinava a seus membros um nível de vida modesto. Esforçava-se por seguir esta moral, porque era mais próprio dela, de sua família, de seus pais e de sua educação.

Com referência a isto, existe um exemplo muito característico. Após a morte de Lenin (antes, talvez), o Comitê Central determinou que os membros do Partido não tinham direito a receber honorários pela publicação de artigos sobre o Partido e pelos livros e que estes recursos deveriam reverter em benefício do Partido. Mamãe não gostou desta medida, porque achava que era melhor receber por aquilo que realmente foi ganho com seu trabalho do que, interminavelmente, sem limite algum, meter a mão no bolso do governo e retirar tudo de lá para suas necessidades domésticas, para casas de campo, carros e manutenção de empregadas, etc. Naquela época, mal começava o sistema de sustentar os membros do partido com recursos públicos. Graças a Deus, mamãe não chegou a presencia-lo, e não chegou a testemunhar como, mais tarde, nossos mais ilustres membros do Partido, recusando-se a receber honorários pelo trabalho partidário, montaram nas costas do governo como todos os seus familiares, domésticos e até parentes distantes.

Tudo se resumia em que mamãe tinha uma concepção própria de vida, a qual ela defendia com obstinação. O compromisso não fazia parte do seu caráter. Ela pertencia à jovem geração da revolução, aqueles lutadores entusiastas dos primeiros planos qüinqüenais, convictos construtores da nova vida, eles mesmos gente nova que tinham uma crença sagrada em seus novos ideais do hmem liberto, pela revolução, da mesquinhez e de todos os vícios anteriores. Mamãe acreditava em tudo isto, com toda a força do idealismo revolucionário e, na época, ela estava rodeada de muitas pessoas que, com seus atos e condutas, confirmavam a sua fé. E, dentre eles, o mais representativo do alto ideal do novo homem, do revolucionário, pareceu-lhe ser, em certo período, papai. Foi assim que ela o viu, com os olhos de uma jovem ginasiana, quando ele acabava de retornar da Sibéria - o revolucionário inflexível, amigo de seus pais. Assim o foi para ela durante muito tempo, mas nem sempre...

Stalin
Penso que foi justamente por ter sido ela uma mulher inteligente, infinitamente justa, em seu íntimo, que compreendeu , afinal, de todo o coração, não ser papai o novo homem que, como tal, lhe pareceu em sua juventude e, então, lhe sobreveio uma terrível, devastadora desilusão.

Minha babá contava-me que, pouco antes de sua morte, mamãe estava muito triste e irritadiça. Sua colega veio visita-la e elas ficaram conversando no meu quarto de menina (era ali a "sala de visitas"da mamãe) e a babá ouviu-a repetindo que "era tudo enfadonho", "tudo aborrecido", que "nada a alegrava mais". Sua amiga indagava: "Bem, as e as crianças?". "Tudo, mesmo as crianças", dizia mamãe. E a babá compreendeu, então, que sendo assim, isso significava realmente que ela estava cansada de viver... Mas nem a babá nem todos os demais poderiam imaginar que, dentro de alguns dias, ela atentaria contra a própria vida...

PRÓXIMA PARTE DESTA CARTA - A,AMANHÃ
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(*) presidente do Conselho de Comissários do Povo da Geórgia, preso em 1937

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