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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

ADEUS A AKHAMADÚLINA, MINHA POETA FAVORITA

Só agora tomei conhecimento da morte daquela que, para mim, é a maior poeta do mundo: a russa Bella Akhmadúlina, matéria de outros posts deste blog (ver aqui); portanto, não cabe no atual post nenhuma biografia, já que isto foi assunto dos posts anteriores. Deixo como despedida (mas não como derradeira homenagem (com certeza, ainda vou postar muita coisa a seu respeito,dada minha admiração por ela) apenas uma poesia e vídeos da poeta: o vídeo da TV russa noticiando sua morte, com depoimento de seu ex marido, o também poeta Evgueniy Yevtuchenko, entre outros expoentes das artes e da cultura russa.

Akhmadúlina se foi dia 30 de novembro, depois de passar vários dias internada se recuperando de uma cirurgia (desde final de outubro).

Foi embora não só a poeta, mas uma lenda viva russa: não é a toa que o cantor russo Vladimir Vinokur a chamava de "mulher lenda". A mulher corajosa de todos os tempos teve sua última batalha finda com o mês de novembro.
O mêd acabou, a batalha de Akhmadúlina acabou, a vida de Bella também, mas sua obra é imortal, ficará para sempre...

Mazurca de Chopin

Oh, que sorte nós tivemos,
que bom foi para nós, na época
em que um disco de Chopin, tocando,
nos separava - ele apenas.

Primeiro o disco deu chiados
como uma cobra no assoalho,
mas o feiticço de Chopin
logo se fez ouvir bem alto.

Como fino tubo de ensaio
de azul colorante se enche,
moça-mazurca ela se ergueu,
balançando a cabeça encantada.

Como podia, com o colo
e o rosto pálidos do polaco,
compreender as dores que sinto
e aceitá-las, torna-las suas?

Abriu os braços, estendeu-os
para mim...desapareceu
em terra distante, deixando
o som extinguir com a agulha, no FIM.




quinta-feira, 8 de abril de 2010

UM POUCO MAIS DE BELLA AKHMADÚLINA

Entre nós, são muito divulgados alguns poetas russos, tais como Borís Pasternak, Anna Akhmatova, Marina Tsvetaieva, Pushkin, Mayakovski, para não me estender muito.
Outros, são completamente desconhecidos, mas nem porisso piores ou de menor valor. Em outro post já tive a oportunidade de colocar um resumo biográfico sobre ela. Agora, continuo apresentando Bella através de suas poesias.


PRELÚDIO AO RESFRIADO

Simples e boa é a vida em liberdade
e com a mente clara: é suficiente
sentir frio nos pés: ajudam muito os passeios de outono pelo parque.

Em outubro, a febre é onipresente
quando baixa, do céu pré-hibernal,
a friagem de asas tão ligeiras
com seu abraço de arcanjo-libélula.

Caminhas entre as árvores e os muros,
de ti mesmo invisível, estrangeiro,
até que Röntgen descobre, em teus brônquios,
tua banalidade nebulosa.

Ainda está sadio, tedioso
mas, já com um sorriso generoso,
o resfriado manda o beijo aéreo
que lentamente cola-se a teus lábios.

Agora estás doente e nada deves
às amizades, festas, procissões.
Celsius confirma, com benevolência,
teu grau especial entre outras gentes.

O teu nariz escorre e, sob o braço,
do mercúrio sentes a comichão
que, depois, pára. E a argêntea exatitude
define a honra que te é devida.

Uma pesada dose de aspirina
a teu espírito desnvoltura
devolve. Essa é a vantagem da doença:
o frêmito malvado da audácia.


SEPARAÇÃO


Hoje nos separamos para sempre
e isso faz o mundo transformar-se.
Tudo nele anuncia a traição:
os rios vão se afastando das margens,
as nuvens vão se afastando do céu,
a mão direita olha para a esquerda
e arrogante diz: "Vou embora, adeus!"

Abril não mais prepara o mês de maio,
mês de maio que nunca mais verás,
e as flores se desfolham, feitas pó.
É a derrota do azul para o amarelo!

Já as últimas flores se esturricam,
comprimento e largura não há mais,
o branco, em estertor, já agoniza,
deixando um arco-íris de orfãzinhas.

A natureza afoga em sua tristeza,
a maré baixa sobre pela margem,
calam-se os sons e isso porque nós,
você e eu, pra sempre nos deixamos

(escrito por Akhmadullina quando se separou de Yevtuchenko)

quarta-feira, 31 de março de 2010

A POESIA DE BELLA AKHMADÚLINA


Akhmadúlina quando completou 70 anos, em abril de 2007
Bella Akhmadulina (Izabella Akhatovna Akhmadulina) é uma famosa poeta, tradutora e ensaísta russa. Nasceu em Moscou, a 10 de abril de 1937, descendente de ancestrais russos, tártaros, georgianos e italianos.Seus primeiros poemas foram publicados em 1955, na revista Oktyábr (outubro). A ousadia de seus versos pode ser comparada a de Anna Akhmatova e Marina Tsvetaeva.

Seu primeiro casamento foi em 1954, com o também escritor russo Yevgeny Yevtushenko e foi exatamente ele quem marcou muito toda a sua obra. Muitos de seus poemas foram escritos para Yevtushenko.
Bella e Yevtuchenko(à esquerda dela,fumando)
Yevtuchenko
Seu segundo marido foi Yuri Naguibin, em 1960 e o terceiro - o famoso artista russo Boris Messerer.
Dificuldade das relações entre as pessoas, amizade e amor são os temas principais de sua poesia, que não escreve direto sobre política, embora estivesse muito ligada ao movimento dissidente, especialmente no período Brejnev.
Bella ainda é viva e mora em Moscou.



Para ler mais poemas de Akhmadullina (em ingles) accesse aqui!

SEPARAÇÃO
(poema estraído do livro " Poesia Soviética", trad. e compilação de Lauro M. Coelho)
Hoje nos separamos para sempre
e isso faz o mundo transformar-se.
Tudo nele anuncia a traição:
os rios vão se afastando das margens,
as nuvens vão se afastando do céu,
a mão direita olha para a esquerda
e arrogante diz: "Vou embora, adeus!"

Abril não mais prepara o mês de maio,
mês de maio que nunca mais verás,
e as flores se desfolham, feitas pó.
É a derrota do azul para o amarelo!

Já as últimas flores se esturricam,
comprimento e largura não há mais,
o branco, em estertor, já agoniza,
deixando um arco-íris de orfãzinhas.

A natureza afoga em sua tristeza,
a maré baixa sobe pela margem,
calam-se os sons e isso porque nós,
você e eu, pra sempre nos deixamos

(escrito por Akhmadullina quando se separou de Yevtuchenko)

PENSEI QUE ERAS MEU INIMIGO

Pensei que eras meu inimigo,
a minha grande infelicidade.
Mas inimigo não és - só um mentiroso
e são vãs as tuas manobras.

Diante do carrossel
eu joguei cara ou coroa.
Queria, com essa moeda,
saber se te amo ou não.

Meu lenço ficou caído
no chão, no jardim Aleksándrov.
Aqueci as mãos; mas todos souberam
o que eu pensava - e que também mentia.

As mentiras devem estar voando
à minha volta como corvos.
Mas da próxima vez que te despedires
não verás, em meus olhos, nem azul nem negro.

Ah, continua vivendo, não fique triste.
Por mim está tudo bem.
Mas como tudo isso é inútil,
como é tudo absurdo!
Você indo para um lado,
eu indo para outro.

(texto e poema extraídos do livro Poesia Soviética, com seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho.)

Aos curiosos ou aos que sabem o russo, um video de Akhmadulina declamando um de seus poemas, o que ela faz com uma musicalidade invejável, que só um russo possui...


A seguir, Bella quando completou 70 anos:

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