quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O MENINO MENDIGO - DOSTOIEVSKI: NOVO CONVITE À REFLEXÃO

 Quanto mais leio Dostoievski, mais me surpreendo com sua gritante atualidade. Os problemas da São Petersburgo de sua época, são muitas vezes semelhantes aos problemas do Brasil atual e de muitos outros países emergentes. Isto só me convence, mais e mais, que a humanidade desenvolve novas tecnologias, apresenta notáveis avanços,mas tudo sempre para ser usufruído, principalmente, pelas classes dominantes. No essencial, no que concerne aos pobres e desvalidos apresenta pequenos ganhos, vez ou outra, aqui ou ali, mas, no geral,   não muda muita coisa, continuamos  estagnados e vai continuar assim enquanto não houver uma mudança sistêmica de porte, rumo ao Socialismo. E ninguém vai me convencer de que o socialismo é inviável, usando o discurso equivocado de que "não deu certo na URSS, nos países do Leste" ou coisas do tipo, por que o Socialismo, até hoje, ainda não existiu, de fato. Lendo o texto abaixo, você tem a impressão de que se trata do Brasil, onde existem crianças sendo exploradas não só pelos pais, mas pelos já famosos "pais de aluguel". Esta situação sempre preocupou muito Dostoievski que, em seu Diário de Um escritor, de onde foi extraído este texto, deixou outros com o mesmo teor de preocupação. Agora, leia você mesmo e me diga: não parece a própria história de nossos menores de rua?
 "Este ano, quando o Natal estava próximo, passava muitas vezes na rua diante de um menino talvez de uns sete anos de idade, que eu via sempre acocorado no mesmo canto. Ainda o encontrei mais uma vez na véspera da festa. Debaixo de um frio terrível estava vestido como se fosse verão,trazendo, à guiza de xale, um pedaço de pano velho enrolado  em roda do colo. Pedia esmolas, apresentava a mão, conforme costumam fazer os pequenos mendigos de São Petersburgo. São muitos os pobres meninos enviados dessa maneira a implorar a caridade dos transeuntes, a gemer  algum estribilho que aprendem de cor. Aquele, porém, não gemia: falava ingenuamente, como qualquer novato na profissão. O olhar dele tinha um quê de franco, o que me confirmou  na convicção de tratar-se de principiante. Às perguntas que lhe fiz respondeu que tinha uma irmã doente, que não podia trabalhar; pareceu-me verdadeiro o que dizia. Além disso, somente mais tarde fiquei sabendo do número enorme de crianças que mandam mendigar daquela maneira, quando o frio é mais rigoroso. Se nada arranjarem poderão ter a certeza de serem espancados ao voltar para casa. Quando conseguir juntar alguns copeques, o pirralho dirige-se, com as mão roxas e intumescidas, para o buraco em que um bando de vendedores de roupas usadas e de operários folgados, que deixaram a fábrica no sábado para aparecer somente na terça feira seguinte, fartam-se a comer e beber conscientemente. Nesses buracos  as mulheres magras e surradas bebem álcool em companhia dos maridos, enquanto choramingam á porfia, as criaturinhas ainda de peito. Aguardente, miséria, sujeira, corrupção e, antes de tudo e sobretudo, aguardente!
Apenas chegado, manda-se o menino à venda com o dinheiro mendigado, e quando chega com oálcool, divertem-se com ele fazendo-o beber uma dose que lhe corta a respiração e, subindo-lhe à cabeça, o faz rolar pelo chão, para grande gáudio de todos os presentes.
Quando o menino atinge catorze ou quinze anos, colocam-no logo em uma fábrica, com a obrigação de entregar à família  tudo quanto ganha, gastando-o os pais em aguardente. Antes, porém, de atingirem a idade em que possam trabalhar. esses meninos se transformam em estranhos vagabundos. Andam à solta pela cidade, acabando por descobrir onde possam meter-se para passar a noite sem terem que voltar para casa. Um desses rapazolas dormiu durante algum tempo em casa de um empregado subalterno da Corte: tinha feito a cama em uma cesta , sem que o dono da casa percebesse. É claro que não demoram muito para começar a roubar. E, muitas vezes, o roubo chega a converter-se em paixão, em pequenos de oito anos que dificilmente se julgam culpados por terem os dedos demasiadamente ágeis.
Cansados dos maus-tratos dos que os exploram, fogem e não voltam mais aos buracos em que os maltratavam; preferem sofrer fome e frio e ter a liberdade de vagabundar por conta própria.
Freqüentemente esses pequenos selvagens não sabem nada de nada; ignoram a que nação pertencem, não sabem onde vivem e jamais ouviram falar de Deus ou do Imperador. Muitas vezes sabe-se a respeito deles o que há de mais inverossímil, mas que, entretanto, é verdade.
Fonte: Diário de Um Escritor

4 comentários:

Ranzinza disse...

Oi Milu, tomei a liberdade de postar no meu facebbok.
Nem preciso dizer a razão, certo?
Muito bom fim de semana prá vc.
Fortes abraços.

Milu disse...

Oi,meu amigo, vc nem precisa me avisar nada: pode postar onde vc quiser,mesmo!!!Abração.

jaques queroz disse...

seu blog Milu, é sempre algo que deve ser passado a frente, e guarda consigo. informação, cultura e alma. parabéns.

Marli Boldori disse...

Milu,sinto a mesma indignação que você com certeza,você realmente nos coloca a verdade bem na nossa cara,precisamos nos dar as mãos e fazermos uma conscientização.Parabéns pelo seu rico trabalho.Um grande abraço!

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