sexta-feira, 29 de julho de 2011

MAIS UM CONTO DE FADAS RUSSO: IVANUSHKA, O BIRUTA

A literatura de tradição oral foi, por séculos, cultivada na Rússia, tendo raízes profundas na vida cultural do país. É uma expressão artística extremamente rica e vasta, não apenas em quantidade mas, também, na qualidade. A arte de contar histórias também foi muito difundida por lá, sendo que até hoje existem exímios contadores de histórias naquele país que, por si só, já é um conto de fadas. Entre os contadores estão pescadores, pessoas do povo e literatos, pessoas cultas, tudo sem distinção.E o mesmo acontece, também, em relação às poesias. É sabido, por exemplo, que o formidável Ivan Goncharov, autor de "Oblamov",
freqüentava reuniões deste gênero em casa de uma família de pintores, poetas e críticos - os Máikov, em São Petersburgo. Em suma, esta tradição abrange diferentes tipos de manifestações e modalidades e se perpetua no tempo, até os nossos dias. Só para citar os "famosos", a casa de Anna Akhmatova- um apartamento antigo na antiga Leningrado e transformado em alojamento coletivo durante os anos soviéticos - nos anos 60 reunia tímidos e valorosos jovens de todas as procedências para ouvir poemas de J.Brodsi. O clima russo, um longo, escuro e gelado inverno, seguido pela explosão primaveril de um tépido sol e de luz e de um verão cálido e rico em faias e horaliças, fez nascer o hábito de reuniões entre pessoas afins, tanto nos magníficos salões às casas de campo da aristocracia, aos apartamentos urbanos e 'dachas' de campo da burguesia, até as estreitas, sufocantes e cheias de humo cozinhas dos alojamentos coletivos da época dos sovietes. Para tais reuniões, os anfitriões preparam comes e bebes apropriados à estação do ano, tudo ao som de música e se bate um bom papo ao redor da mesa, sempre sobre temas mais importantes da existência, da vida e da morte, de política, de filosofia e de arte.Se canta. Se lê: o que cada um está escrevendo. Não é um passatempo imune a perigos, tanto que depois de 1917, a participação em reuniões deste tipo conduziu mutos à cadeia. Goncharov deve ter escrito sua novela "Ninfodora Ivanova" como contributo para uma destas reuniões".
(trecho extraído do prefácio da citada novela, editada pela Ed.Amaranto,Madrid)
Depois desta apresentação, fica o conto de hoje: Ivanushka, o Biruta(1)...

Era uma vez um casal de velhos que tinha três filhos: os dois mais velhos eram normais, mas o terceiro era chamado de Ivanushka, o Biruta.
Os irmãos normais levavam os carneiros para pastar no campo, mas o biruta não fazia absolutamente nada: ficava o dia inteiro de papo pro ar pegando mosca.
Certo dia, a velha senhora preparou alguns bolinhos de centeio e disse ao bobo:
- Aqui estão alguns bolinhos; leve-os para seus irmãos almoçarem.
Encheu um pote com os bolinhos e o filho saiu pesada e desajeitadamente em busca dos irmãos.

Era um dia ensolarado; quando Ivanushka pegou a estrada, viu sua sombra a seu lado e pensou:
-Quem é esse homem? Ele caminha sempre a meu lado e não me deixa por um instante sequer; com certeza quer alguns bolinhos.

Começou a atirar bolinhos para a sua sombra e, um depois do outro, atirou-os todos, mas a sombra continuava andando a seu lado.
- Mas que glutão insaciável, -disse o bobo com raiva, e atirou o pote na sombra, cujos cacos voaram em todas as direções.

Chegou de mãos abanando no local onde estavam seus irmãos. Eles lhe perguntaram:
- O que você veio fazer aqui, seu bobo?
- Vim trazer seu almoço.
- E onde está ele? Passe logo para cá!
- Bom, sabe gente, um estranho me seguiu o caminho todo, até aqui e comeu tudo.
-Que estranho?
- Aqui está ele, até agora ele está aqui do meu lado.

Os irmãos começaram a xingá-lo e a bater nele; depois de bater, disseram-lhe para cuidar dos carneiros e foram eles próprios para casa almoçar.
O biruta pôs-se a cuidar dos carneiros; vendo que estavam espalhados por todo o campo, resolveu junta-los e arrancar-lhes os olhos. Juntou-os num cantinho, arrancou os olhos de todos eles, fez com que se amontoassem formando uma pilha e sentou-se em cima deles, alegre como uma cotovia. Achou que tinha feito uma proeza.
cena do filme Ivanushka
Os irmãos almoçaram e voltaram ao campo.

- seu biruta, que disparate você aprontou aqui? Porque os carneiros estão todos cegos?
- ara que eles precisam de olhos, irmãos? Quando vocês foram embora eles se espalharam por todos os campos e por isso pensei que seria uma boa idéia pega-los, junta-los e arrancar-lhes os olhos. Deu um trabalhão daqueles e me deixou muito cansado.
- Espera aí, que a gente vai mostrar-lhe o que é estar cansado - disseram os irmãos e começaram a esmurrar-lhe com os punhos. O Biruta foi bem recompensado por todo seu trabalho...

Algum tempo se passou, muito ou pouco - não se sabe. Um dia, os velhos pais mandaram Ivanushka à cidade comprar mantimentos para as férias. Ivanushka comprou muitas coisas- uma mesa, colheres, chícaras e sal.
Encheu uma carroça inteira com objetos de todo tipo. Tomou o caminho de casa, mas seu cavalo, ao que parece, não era tão forte para esta carga pesada e caminhava muito lentamente. Ivanushka pensou consigo mesmo:
- Afinal de contas, a mesa tem quatro pernas como o cavalo. Porque não deixa-la ir para casa sozinha? E colocou a mesa na estrada. Continuou andando com a carroça, uma distância longa ou curta - não se sabe, e os corvos faziam círculos à sua volta, grasnando, grasnando.
- Os irmãozinhos devem estar com fome, senão, porque estariam gritando desse jeito? - pensou o biruta e tirou os pratos com mantimentos para servir os corvos.
- Comam, irmãozinhos, vocês são bem vindos, disse ele e continuou lentamente pela estrada, aos sacolejões.
Ivanushka passou por um bosque de árvores novas: ao longo da estrada havia uma fileira de troncos cortados.
- Ah, - pensou ele- os pobrezinhos destes meninos não tem gorros! Desse jeito vão pegar um resfriado- e colocou seus potes e jarras de barro em cima deles.
Depois, Ivanushka chegou a um rio e resolveu dar água a seu cavalo, mas ele se recusou a beber.
-Provavelmente, ele não quer água sem sal - pensou ele e começou a jogar sal no rio. Jogou um saco inteiro de sal e, ainda assim, o cavalo se recusava a beber.
- Porque você não bebe, sua carcaça velha? Joguei um saco inteiro de sal no rio para nada?- e bateu com um pedaço de pau na cabeça do cavalo, que morreu ali mesmo.

Agora, tudo o que restava a Ivanushka era um saco com as colheres, que ele jogou sobre os ombros e pôs-se a andar; mas as colheres começaram a chacoalhar nas suas costas - tratata-tam, tratata-tam, tratata-tam! E ele achou que as colheres estavam dizendo"Ivanushka é tarado" e, por isso, jogou-as ao chão e pulava em cima delas, repetindo: "Isso vai ensinar vocês a me chamarem de tarado! Não se atrevam mais a me xingar, coisas ruins"!

Voltou para casa e disse:
- Comprei tudo o que precisamos, irmãozinhos.
- Obrigado, Biruta, mas onde estão as compras?
- A mesa está vindo, mas parece que está atrasada. Nossos irmãozinhos os corvos estão comendo os mantimentos, que lhes deixei nos pratos. Os potes e as jarras de barro eu pus na cabeça dos meninos que encontrei no bosque. Usei o sal para temperar a água do cavalo e as colheres me xingaram, por isso as joguei fora.
-Corre, seu biruta, vai pegar tudo o que espalhou pela estrada.

Ivanushka foi para o bosque, retirou os potes dos troncos cortados, sovou-os na base e amarrou uma dúzia deles, grandes e pequenos, em uma corda. Quando os trouxe para casa, seus irmãos o espancaram e foram eles mesmos à cidade fazer as compras, deixando-o em casa. Ele escutou e ouviu a cerveja fermentando e fermentando na tina.
-Cerveja, pare de fermentar, não provoque o Biruta!, -disse Ivanushka, mas a cerveja não lhe deu ouvidos e, por isso, ele a derramou todinha da tina, sentou-se dentro dela e ficou andando pela sala cantando musiquinhas para si mesmo.

Quando os irmãos voltaram ficaram completamente fora de si. Pegaram Ivanushka, costuraram-no dentro de um saco e levaram-no até o rio. Puseram o saco na praia(2) e saíram procurando um buraco no gelo. Justo naquele momento aconteceu de um nobre passar numa carruagem puxada por três cavalos cinzas e Ivanushka começou a gritar:
-Fui nomeado governador, para governar e julgar, mas não sei nem governar nem julgar.
- Espera aí, seu idiota - disse o nobre, - eu sei governar e julgar. Saia fora desse saco!
Ivanushka saiu, costurou o nobre lá dentro, entrou em sua carruagem e sumiu de vista.

Os irmãos voltaram, jogaram o saco sob o gelo e ficaram a escutar. Sob a água, só um resmungo.
- Ele deve estar tentando pegar um peixe, - disse um dos irmãos ao outro, - e se puseram a caminho de casa.

Como que saído do nada, surge Ivanushka diante dos irmãos, dirigindo uma tróica e gabando-se:
- Viram os cavalos que consegui? Ainda resta um cavalo cinza, uma verdadeira jóia!
Os irmãos, com inveja, disseram a Ivanushka:
-Costure-nos num saco e jogue-nos rapidamente no buraco. Vamos pegar o cinza.

Ivanushka, o biruta, jogou-os no buraco e foi para casa tomar cerveja, em honra da memória dos irmãos mortos.
Ivanushka tinha um colar, no colar havia um sino e isso é tudo o que eu tinha a contar.
Fonte:
Livro "Contos de Fadas Russos", vol.1 - Ed. Landi

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Notas da Milu:
(1)O título original é Ivanushka Durachok, sendo que esta última palavra significa, em russo, palerma, tolo, bobo. Para ser mais precisa, "tolinho", "bobinho", já que está no diminutivo. Desta forma, a meu ver, o título da tradução não ficou muito adequado, já que biruta, segundo o dicionário Houaiss, se presta melhor para quem tem "comportamento inquieto, variável e amalucado", o que não é o caso do personagem da história, completamente palerma.
(2) Na história original, o saco foi colocado às margens do rio (на берегу) e não na praia, que ficou meio estranho, em se tratando de um rio.

Um comentário:

Marli Boldori disse...

Amiga,que maravilha de cultura e você voltou com tudo.Parabéns!
Amiga,tem um selo para você em meu blog,dê uma passada por lá e o traga para seu espaço.Um grande beijo!

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