quarta-feira, 17 de março de 2010

OBLOMOV (DE IVAN ALEXANDROVITCH GONTCHAROV)

 
Nem só de Dostoievski, Tolstoi, Puchkin e cia. e clássicos afins vive a literatura russa. Existem muitos outros - alguns contemporâneos dos clássicos conhecidos entre nós - como é o caso de Ivan A.Gontcharov - o autor em questão, e outros nossos contemporâneos, todos excelentes, mas parcialmente conhecidos ou até totalmente desconhecidos no Brasil.

Hoje inicio uma série de posts que visam apresentar ao leitor interessado alguns destes autores, que considero dignos de serem divulgados, dada a qualidade de sua obra.
Começo por Ivan Goncharov, autor de Oblamov.



LIVRO DISPONÍVEL NAS MELHORES LIVRARIAS

Eu li este livro quando, em virtude de um AVC, que apesar de não ter me deixado seqüelas, me deixou completamente deprimida, estava com síndrome de "poste":com medo da vida e, por que não, da morte, ficava o tempo todo parada, sem fazer nada e sem querer fazer nada, o que é pior. Ficava o dia todo recostada no sofá, lendo e pensando o que seria da minha vida dali pra frente. Foi quando me deparei, em um site, com um livro que me chamou a atenção, pelo simples fato de ser seu autor um russo. Comprei.

Sua leitura foi um choque; me vi refletida no personagem, o que colaborou para que eu saísse daquela situação. Dali para a frente lutei contra a minha "oblamovismo" inconsciente e sai daquele estado letárgico-deprimente. Claro que o livro não é milagroso, mas ele faz a gente refletir nesta preguiça depressiva, doentia; sei lá, ele serve de espelho e, ao me ver meio que refletida neste espelho, acordei para a vida.
Curiosamente, dias depois, uma amiga me enviou um e-mail com o seguinte link:

http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultnot/2008/08/14/ult4477u919.jhtm


Neste link existe um artigo onde está relatado justamente o que eu pensava então:
as obras de arte "são nosso espelho e, portanto, uma ferramenta para o auto-conhecimento"; 
por isso, livros têm sido utilizados no tratamento de várias doenças físicas e emocionais e, entre vários citados, está lá o Oblomov!
Mas quem escreveu este livro digno de um Dostoievski?


Ivan Gontcharov foi o autor de Oblomov, escrito em 1847 e é uma pena que a edição brasileira, feita pela editora Germinal, seja tão precária, cheia de erros de ortografia, de falta de revisão e até mesmo erros de tradução. A editora nem coloca a fonte da tradução, que a meu ver deve ser francesa, já que palavras em russo terminadas em n são transliteradas com final em ne, como é o caso de barin (cavalheiro, nobre), transliterada para barine. Mas isto seria mera questão de frescura de minha parte se a revisão do texto não fosse péssima. No entanto, nada disto conseguiu tirar a excelência desta obra de Gontcharov.

Ivan Alexandrovitch Gontcharov escreveu poucos livros, mas significativos. Nascido às margens do Volga, filho de família de proprietários de terra(classe que ele satiriza no romance) no início do século XIX, especificamente em 1812, na cidade de Simbirsk (hoje Ylianovski):

foto da casa onde nasceu Goncharov, em Simbirsk,
hoje museu.

A seguir, fotos do Festival Oblomov, no memorial, em 2008, 2006 e 2009:




Nas fotos pode-se ver, respeitando-se a sequência das mesmas:
- O Governador de Ylianovski - S.I.Morozov, no festival de 2006;
- Um "clone" do Oblomov, no festival de 2007;
- O Baile de Oblomov, em 2009;
- Uma cena do festival de 2006;
- Foto do festival de 2008;
- Foto do festival de 2009;
- terminando com a foto "propriedade de Oblomov", no festival de 2007.

Sala da propriedade do autor

Fonte: fragmento da exposição do último ano de vida de Goncharov
veja o site do Museu Histórico-Literário Ivan Goncharov:


Fotos atuais, sob o nome de Ylianovski

Igreja Ortodoxa


VER MAIS FOTOS ATUAIS DA CIDADE NO SITE A SEGUIR:
http://simbirsk.my1.ru/photo/4

FOTOS ANTIGAS:(clique e veja)
início do século XX

Ivan teve como primeira profissão o ofício de funcionário público, aliás, como retratam poucos escritos a seu respeito, foi um pacato funcionário público, inicialmente em sua terra natal e posteriormente em São Petersburgo, para onde se mudou.

Logo em seguida à sua chegada a S. Petersburgo, dedicou-se à atividade literária e nos vinte anos registrados desse exercício, escreveu apenas três romances: "Uma história trivial", "A Queda" e "Oblamov" (lê-se "Ablómav", palavra que em russo, junto com os neologismos "oblomovchina" e "oblomovismo", tem o significado de preguiçoso, apático, lento, passivo, vontade fraca e até de medíocre e é, neste romance, o nome de seu personagem principal. O autor usou uma tática muito utilizada por Gógol: adotar para seus personagens nomes que descrevam seu caráter: assim, Gogol em "Almas Mortas" criou o personagem "Sobakievitch", nome derivado de cachorro, demonstrando, assim, o caráter grosseiro e canino de tal personagem. Criou, ainda, a Korobotchka, uma mulher bitolada e estúpida, nome que significa caixinha, bem adequado a uma tal personagem.

Oblomov é um aristocrata decadente, inicialmente funcionário público (como o autor), cheio de indolência, de "oblomovchina"! Um deprimido. Deixou a vida no funcionalismo, ao contrário do autor que foi funcionário por toda sua vida.
Dentro de sua inércia, o deprimido Oblomov fica mofando em seu quarto, onde não recebe quase ninguém, à excessão de poucos e raros amigos. Vive fazendo planos que jamais se realizarão.
Com maestria, Gontcharov faz com que seu personagem caracterize a lentidão de costumes dos proprietários de terra da Rússia, no período imediatamente anterior à Revolução de Outubro, onde ainda predominava o trágico sistema de servidão.
Oblomov se questiona "até que ponto a vida vale a pena?", "até que ponto a ambição tem sentido", "o que é viver bem".Estas perguntas são ainda bem atuais...

Na sua deprimente apatia, ele se recusa a viver a sua própria história, até que um amigo alemão entra em cena, exercendo sobre ele uma influência forte. Entra em cena, também, a figura de Olga, que veio inserir a paixão no universo de Oblomov.

Oblomov e Olga

E este universo que chega a ser de paixão e apatia, de depressão, de lentidão, misto de vontade de rir e de chorar, faz a suntuosidade da obra de Goncharav, que recomendo a todos os amantes da boa literatura.

O livro virou filme, a ser postado, em ocasião propícia, neste blog.

2 comentários:

denise disse...

boa noite:
sim, essa tradução de oblomov foi feita por interposição do francês, no final dos anos 50 pelo famoso literato modernista francisco inácio peixoto. essa tradução foi vergonhosamente copiada pela editora germinal, que ainda acrescentou incontáveis erros de revisão e tipografia.

houve denúncia pública desse escândalo poucos anos atrás. uma súmula está aqui:

http://naogostodeplagio.blogspot.com/2009/09/germinaldo-oblomov.html

http://naogostodeplagio.blogspot.com/2009/09/germinildo-goncharov-as-vitimas.html

um abraço
denise

Clarissa Marinho disse...

Olá, só estou escrevendo para deixar registrado o quanto gostei desse blog. O encontrei através de uma pesquisa que fiz a respeito do livro Um homem que dorme e acabei lendo outras coisas. Gostaria de conhecer muito mais da literatura russa, só conheço os grandes clássicos. obrigada pelas indicações. beijo, Clarissa

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