quarta-feira, 17 de outubro de 2012

CONTO POPULAR RUSSO: A FILHA DO MERCADOR E O DIFAMADOR


Era uma vez um mercador que tinha dois filhos, uma menina e um menino. Quando o mercador estava em seu leito de morte (sua mulher fora levada ao túmulo antes dele), disse:
"Meus filhos, vivam bem um com o outro, em amor e concórdia, assim como eu vivi com sua falecida mãe."


Depois morreu. Foi enterrado e muitas orações foram ditas para o descanso de sua alma, como é o costume. Logo depois, o filho do mercador resolveu fazer negócios do outro lado do mar; mandou equipar três navios, carregou-os com grande número de mercadorias, e disse à irmã:
"Agora, minha querida irmã, estou partindo numa longa viagem. Deixo você completamente sozinha em casa; tenha cuidado e comporte-se bem, não faça nada de errado e não trave relação com estranhos."
Depois trocaram retratos; a irmã pegou o retrato do irmão, e este pegou o retrato dela. Choraram por terem de se separar e despediram-se.

O filho do mercador mandou levantar âncora, o navio deslizou para longe da praia, levantou velas e chegou ao mar aberto.

 Ele viajou durante um ano, depois durante outro ano; no terceiro ano, chegou a uma certa capital muito rica e ancorou seus navios no porto. Logo que chegou, pegou um cofre cheio de pedras preciosas, peças do melhor veludo, damasco e cetim, e levou-os ao rei daquela terra como presente. Chegou ao palácio, entregou os presentes ao rei e pediu permissão para comerciar em sua capital. Aqueles presentes esplêndidos agradaram o rei, e ele disse ao filho do mercador:
"Seus presentes são magníficos; em toda a minha vida nunca recebi melhores. Em troca eu lhe concedo o primeiro lugar no mercado. Compre e venda, não tenha medo de ninguém e, se alguém o ofender, venha direto a mim. amanhã eu mesmo vou visitar seu navio."

No dia seguinte, o rei procurou o filho do mercador, começou a andar em seu navio e a examinar suas mercadorias; na cabine do capitão, viu o retrato pendurado na parede e perguntou ao filho do mercador:

"De quem é esse retrato?"
"De minha irmã, majestade".
"Bem, senhor mercador, tanta beleza eu nunca tinha visto em toda a minha vida. Diga-me a verdade: como é o seu caráter e como são suas maneiras?"
"Ela é doce e casta como uma pomba."
"Bem, nesse caso, será uma rainha; quero me casar com ela."
Naquele momento, um certo general que era perverso e invejoso, estava com o rei; a idéia de que alguém pudesse encontrar a felicidade o deixou louco de raiva.
Ouviu as palavras do rei e ficou tomado de uma fúria terrível.
"Agora, pensou ele, nossas esposas terão de se curvar diante de uma mulher da classe dos mercadores!"
Não conseguiu se controlar e disse ao rei:
"Majestade, não ordene que eu seja executado, ordene que eu fale."
"Fale".
"A irmã desse mercador não é ninguém a sua altura; conheci-a há muito tempo atrás e mais de uma vez me deitei na sua cama e fiz jogos amorosos com ela. É uma moça muito dissoluta."
"Como é que você, mercador estrangeiro, pode dizer que ela é doce e calma como uma pomba e que nunca fez nada de errado?"
"Majestade, se o general não estiver mentindo, peça-lhe para tirar o anel de minha irmã e descobrir a marca secreta que ela leva."
"Muito bem", disse o rei, e deu ao general licença para partir.
"Se não conseguir o anel, nem puder me dizer a marca secreta que ela leva em tal e tal dia, sua cabeça rolará com um golpe de minha espada."
O general fez seus preparativos e foi para a cidade onde vivia a filha do mercador. Chegou lá e não sabia o que fazer. Caminhava para cá e para lá pelas ruas, abatido e pensativo. Por acaso encontrou uma velha que pedia esmolas e deu-lhe  uns trocados.Ela perguntou:
"Em que está pensando?"
"E porque eu lhe diria? Você não pode ajudar a resolver meu problema."
"Quem sabe?Talvez possa."
"Sabe onde vive a filha de tal e tal mercador?"
"Claro que sei".
"Nesse caso, consiga-me o seu anel e descubra a marca secreta que ela leva; se fizer isso para mim, vou recompensá-la com ouro ".
A velha foi mancando até a casa do mercador, bateu na porta, disse que estava indo para a Terra Santa, e pediu esmola. Falou de maneira tão astuta que a linda moça ficou enfeitiçada e não percebeu que deixara escapar o seu segredo; e, enquanto toda essa conversa estava acontecendo, a velha fez o anel da moça escorregar da mesa e escondeu-o na manga. 

Depois despediu-se da filha do mercador e correu a procura do general. Deu-lhe  o anel e disse:
"A marca secreta dela é um pelo de ouro embaixo do braço esquerdo."
O general compensou-a  generosamente e pôs-se a caminho de casa. Chegou a seu reino e foi ao palácio; o filho do mercador também estava lá.
"Bem", perguntou o rei, "conseguiu o anel"?
 "Aqui está, majestade."
"E qual é a marca secreta da filha do mercador?"
"Um pelo de ouro embaixo do braço esquerdo."
"Está certo?", perguntou o rei ao filho do mercador.
"Está, majestade"
"E como foi que teve a audácia de mentir para mim?Por causa disso vou mandar executá-lo".
"Majestade, não me execute, por favor.Dê-me permissão de escrever uma carta a minha irmã; deixe que ela venha se despedir de mim."
"Muito bem", disse o rei, "escreva-lhe, mas não vou esperar muito."
E adiou a execução; nesse ínterim, ordenou que o jovem fosse acorrentado e lançado numa masmorra.

A filha do mercador, depois de receber a carta do irmão, partiu imediatamente. Enquanto viajava, tricotava uma luva de ouro, chorava amargamente, e suas lágrimas caíam como diamantes; ela pegou esses diamantes e enfeitou a luva com eles. 
Chegou à capital, alugou um quarto na casa de uma pobre viúva e perguntou:

"Quais são as novidades por aqui?"
"Não há novidades, a não ser que um mercador estrangeiro está sofrendo por causa de sua irmã; amanhã será enforcado."
Na manhã seguinte, a filha do mercador acordou, alugou uma carruagem, vestiu uma bela roupa e foi para a praça. Lá a fora já estava preparada; as tropas estavam montando guarda e havia uma grande multidão; o seu irmão estava, naquele instante, sendo levado para o cadafalso.


Ela saiu da carruagem, foi direto ao rei, deu-lhe a luva que havia tricotado durante a viagem e disse:

"Majestade, imploro-lhe que me diga quanto vale essa luva".
O rei examinou-a.
"Ah", disse ele, "não tem preço!"
"Bem, seu general esteve em minha casa e roubou uma luva exatamente igual a essa, a outra do par; por favor, peça que seja feita uma busca."
O rei mandou chamar jo general e disse-lhe:
"Há uma queixa contra você por ter roubado uma luva preciosa.!
O general começou a jurar que não sabia de nada.
"Como assim, não sabe de nada?", perguntou a filha do mercador. "O senhor esteve tantas vezes em minha casa, deitou-se comigo na cama e fez jogos amorosos comigo".
"Mas nunca a vi antes! Nunca estive em sua casa, e por nada no mundo poderia dizer nesse momento quem é você, nem de onde veio.".
"Nessa caso, majestade, poque meu irmão deve sofrer?"
"Que irmão"?, perguntou o rei.
"Aquele que está sendo levado agora para a forca".
Dessa forma, a verdade foi revelada. O rei ordenou que o filho do mercador fosse libertado e o general enforcado em seu lugar. Depois ele próprio sentou-se na carruagem com a linda moça, a filha do mercador, e mandou tocar para a igreja. Casaram-se, deram um grande banquete e passaram a viver felizes e prósperos, e é assim que estão vivendo até hoje.

Conto da coleção publicada por Aleksandr Afanas'ev, eminente folclorista , pesquisador de poesias e mitologia popular russa, que viveu de 1826 a 1871.
Seu trabalho foi muito importante, uma vez que ele conseguiu reunir centenas de contos e lendas populares de seu país, fruto das crenças de camponeses russos, que tanto influenciaram compositores e escritores daquele país,  contribuindo para divulgar e preservar  a cultura russa. No Brasil, os contos por ele reunidos foram editados, em 4 volumes, pela Landy Editora, sob o título "Contos de Fadas Russos".
Referências:
- Livro "Contos de Fadas Russos", ed.Landy
http://hobbitaniya.ru/
http://dic.academic.ru/
http://images.yandex.ru/

Um comentário:

Kr. Eliane disse...

NOSSA EU ADORO ESTAS HISTÓRIAS!!
QUANDO ERA CRIANÇA TINHA EM CASA UMA COLEÇÃO DE CONTOS RUSSOS. NÃO SABIA LER AINDA MAS ADORAVA VER AS ILUSTRAÇÕES DAS BRUXAS EM SUAS VASSOURAS. DEPOIS MEU PAI DOOU OS LIVROS PARA A BIBLIOTECA, POIS ÍAMOS NOS MUDAR ...ENFIM ACHEI EM UM SEBO EM SÃO PAULO E COMPREI O VOL I E II.
OBRIGADA POR POSTAR COISAS TÃO LEGAIS E FAZER A GENTE LEMBRAR O QUANTO O MUNDO É COLORIDO!!!!
BJS.
ELIANE
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