quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

UM POUCO DE LENIN, POR OLGA ULYANOVA, SUA SOBRINHA


 

Na busca por descendentes ou parentes de Lenin ainda vivos, encontrei - na internet russa, uma entrevista de Olga Dmitrievna Ulyanova, filha de Dmitri Ilitch Ulyanov,irmão caçula do revolucionário bolchevique.
Olga Dmitrievna nasceu em 4 de março de 1922 e afirma que, além de seus pais, ela recebeu forte influência das tias Anna e Maria Ulyanova e de Nadezjda Krupskaya, esposa de seu tio famoso.
Em 1944, 20 anos depois da morte de Lenin, iOlga ngressou no partido comunista. Conclui os estudos universitários na MGU (Universidade Estatal de Moscou), graduando-se em Química. Defende tese de doutorado e se torna docente da Universidade. É, também, membro do sindicato dos Jornalistas da Rússia.Publicou vários livros e mais de 150 artigos sobre Lenin e sobre a família Ulyanov. Infelizmente, não encontrei nenhuma edição recente de seus livros, mas eles estão disponíveis nos Sebos da Estante Virtual(aconselho aos interessados, apenas, por medida de segurança, entrarem em contato com o comprador e que escolham "pagamento digital", a fim de se resguardarem. No mais, já comprei muitas vezes por este site, sem nunca ter tido problemas).

Olga foi agraciada com várias condecorações. Vive em Moscou.

Em entrevista ao Peples.ru, Olga diz que
"Vladimir Ilyich adoeceu em 1951. Ele estava confiante na sua recuperação e se tratava com persisitência. Adoeceu aos 51 anos, por isso, nunca lhe passou pela cabeça a idéia de fazer qualquer testamento ou  algum pedido para após sua morte, como tem-se dito nos últimos anos, a respeito de que teria pedido ser enterrado  em São Petersburgo, no Cemitério de Volkov, ao lado de sua mãe.A única coisa que houve foi um bilhete, que recebeu o título de "Carta ao Congresso", onde recomendava a transferência de Stalin"(*)

O entrevistador comenta, que - em sua opinião -  o desejo de Lenin não teria sido atendido pelo Partido, (já que Stalin continuou onde estava), solicitando, então, que Olga Dmitrievna falasse sobre as influências da "Carta ao Congresso" para a família de Lenin. Olga responde que
"sobre esta carta eu soube apenas quando do XX Congresso do Partido, em 1956. Parte dela havia sido publicada no boletim confidencial "XV Congresso do PCURSS". A carta só foi aberta para a imprensa 34 anos após ter sido escrita".

Olga disse, ainda, que quando olha para trás, para o "filme de sua vida", se lembrando de pessoas próximas a ela e parentes, sente como se seus olhos, de repente, se abrissem, já que
"Muito daquilo que me ocultavam, que permaneceu, para mim, obscuro sobre Lenin, de repente se esclareceu"..."Assim, uma densa neblina se dissipa, revelando o que, até então, me fora ocultado sobre ele.
 Fiquei admiradacom a genialidade de Vladimir Ilitch: como ele, fisicamente enfermo, em estado grave, um ano antes de sua morte, pode  escrever uma carta ao congresso, com todos os artigos que estão hoje reunidos sob o título "Testamento Político".  Ele próprio os chamou, simplesmente, de "Diário".
  Que profundidade incomum, clareza e agilidade tinha sua mente, que até mesmo uma grave doença não pode impedi-lo de trabalhar! Ele foi capaz de escrever artigos programáticos, que são atuais até nossos dias.(...) e que não vão ficar ultrapassados nunca.
Em dezembro de 1922, a doença de Vladimir Ilitcha se agravou.Olga disse que ele queria concretizar todo o seu plano rapidamente, mas não teve tempo: no dia 23 deste mês, veio a paralisia do braço direito e da perna e ele não pode mais escrever. Isto, para ele, foi muito duro. Pediu ao médico que lhe permitisse ditar a um estnógrafo  uma carta, importante para ele, ao Congresso do Partido.O médico autorizou. Ele ditou e apenas a parte na qual falava que era preciso aumentar o número de membros do Comitê Central , que enviou a Stalin.
"Tal reforma, escreveu Lenin, aumentaria consideravelmente a estabilidade de nosso partido e  facilitaria a luta que trava, contra os inimigos da Pátria,  luta que, no meu modo de ver, pode e deve se recrudescer  nos próximos anos. Acredito que, graças a esta medida, a estabilidade do nosso partido ganhará enormemente".
Olga acrescenta, ainda, que a parte principal da carta do tio ao Congresso do Partido, de acordo com a vontade dele, oi reportada a Nadezhda Konstantinovna Kurpskaya, pelo Comitê Central, , já após a morte de Lenin.

Até morrer, Lenin esteve convencido de que aquele documento continuaria lacrado até o Congresso do Partido. Isto era muito importante para ele, porém, como se descobriu depois, a secretária de Vladimir Ilitch -Lidia Aleksandrovna Fotieva, violou a vontade de Lenin, comunicando a Stalin sobre o conteúdo da mensagem secreta(justamente a tocante à troca de posto de Stalin - ver nota de rodapé). Fotieva se justifica escrevendo a Kamenev, no dia 29 de dezembro de 1922, pedindo desculpas e acrescentando que desconhecia a questão de sigilo da correspondência e que o estenógrafo não a teria avisado de nada. Com isto, seu ato foi visto não como flagrante violação da vontade de Lenin e sim como um simples engano de Vladimir Ilitch...

Olga esclarece:
"Eu nunca vi Fotieva em na casa de tia Nádia (Nadezhda) e muito menos em casa de meu pai, em nossa casa,(...)apesar de eu ter conhecido muitos amigos da grande família Ulyanov e deles me lembrar ainda. Por exemplo, eu conheci as filhas de Inessa Armand(**) - Nina e Varya (Varvara), que iam freqüentemente à casa de tia Nádia. No verão íamos  para Gorki, elas têm a minha idade.


A primeira vez que vi Fotieva foi no outono de 1941, em Ulyanovsk(***)Meu pai chegou na casa-museu V.I.Lenin, junto com a gente e com mamãe.Ela tentou se mostrar atenciosa, até se curvando um pouco diante de papai, porém, Dmitri Ilitch ficou frio e lacônico.
-"Papai, quem é esta?, perguntei, quando ela se foi. "Quem é?"
 -"É Fotieva, antiga secretária de Volodia", respondeu papai.
Me surprendi com a frieza de papai, bastante incomum nele. Ele não disse mais nada e eu, também, não perguntei.Mamãe também se calou. Muito tempo depois da morte de meu pai, eu encontrei Fotieva no Museu Central V.I.Lenin, em Moscou. Ela trabalhava lá há muito tempo, mas com que - eu não sabia.Sentia-se nela uma certa apatia e arrogância.
Entrevistador: -O nome de Vladimir Ilitch está associado à execução da família real.Em que medida esta acusação procede?

Olga: realmente, nos últimos tempos apareceram não poucas versões a respeito da culpa de Lenin na execução da família real, apesar de ser sobejamente confirmado  que ele não teve qualquer participação no que aconteceu com Nikolau II e sua família. Ao contrário, ele foi totalmente contrário à sua execução.Eis como as coisas, de fato, aconteceram: quando, em 1918, em Yekaterinburg, ocorreu a sessão do Soviete dos Urais, foi colocada a questão sobre o que fazer com a família real; a maioria dos participantes estava inclinada  à execução.Explicavam que isto, antes de tudo, era uma intrincada guerra de posição: a leste, se movimentava o exército de Koltchak; no sul e sudeste, se movimentavam os monarquistas, com apoio total ao tzar. Como resultado desta reunião, ficou decidido que o Comissário de Yekaterinburg, Filipp Goloshchekin, iria a Moscou se encontrar com o Presidente Central Executivo, Yakov Sverdlov, e receber dele sanção  para o fuzilamento.Sobre este encontro, Sverdlov contou a Vladimir Ilitch a respeito. Lenin se manifestou no sentido de transferir o casal real para Moscou e constituir um tribunal demonstrativo, para todo o mundo: "exatamente um tribunal de toda a Rússia, com publicações nos jornais. Deve-se levar em conta todos os custos, humanos e materiais, infligidos durante os anos de seu reinado autocrata.Quantos dos revolucionários foram enforcados, quantos morreram nos trabalhos forçados, nas prisões e na inútil e desnecessária guerra. E que eles respondam  por isso diante de todo o povo.  Você pensa que só o mujiquezinho obscuro crê que tenhamos um  "bom paizinho tzar"? Não, meu bom Yakov Mikhailovitch.(...)."Com o julgamento, devemos dissipar como fumaça a confiança em Nikolai, o Sanguinário.

Sverdlov transferiu a orden a Goshchekin e disse: "E assim será. Diga aos companheiros de Yekaterinburg que o Comitê Central Executivo não sancionou a execução".
 - Entrevistador: Se continuarmos a história do destino dos Romanov, veremos, então, que ela se desenrolou de forma bastante diferente em uma outra parte do Imério e, nisto, houve a participação direta de seu pai. Por favor, nos fale mais detalhadamente a este respeito.
-Olga:  Muito antes de 1917, uma outra parte da família real - a mãe de Nicolau II, Maria Feodorovna, o Grão-Duque Nikolai Nikolaevich (tio do rei) e sua família, e os príncipes Yusupov, a Condessa Vontsova  e outros viviam na Criméia. Meu pai, Dmitri Ilitch, até a revolução era um dos chefes do movimento  revolucionário clandestino da Criméia e trabalhava como médico.Ele estava lá quando aconteceu a Grande Revolução de Outubro e deu proteção a estes membros da família real, eescondendo-os no Palácio Yussupov, em Yalta, vitando que fossem linchados pelo povo.
Até quando, em 1918, a Criméia foi ocupada pelos alemães e os bolcheviques foram obrigados a passar à clandestinidade, os soldados, leais ao seu compromisso, conseguram proteger o palácio. Nikolai Nikolaevitch, inclusive, recusou a proposta do comandante das tropas alemãs de deixar a Criméia e ir com eles para Berlim, confiante que estava com sua segurança. 
Já mais tarde,quando em 1919, o exército vermelho assumiu a ofensiva e avançou para libertar o sul da Ucrânia, um cruzador inglês desembarcou na costa de Yalta e nele estavam todos os Romanov, Yussupov e outros nobres, que - levando consigo todos os bens que podiam transportar, deixaram a Rússia para sempre. 
- EntrevistadorLenin poderia ter ganhado o Prêmio Nobel?
- Olga: Após a Revolução de Outubro, mais ou menos no final de novembro de 1917, o Partido Social-Democrata norueguês propôs a atribuição do Prêmio Nobel da Paz de 1917 ao Presidente do Conselho dos Comissários do Povo da República Soviética, Vladimir Ilich Lenin. Em sua apresentação ao Comitê do Nobel, ele afirmou:
"Até os tempos atuais, ninguém fez mais do que Lenin para o triunfo do ideal da paz. Ele não somente, com todas as forças, difundiu as idéias da paz, mas, também, tomou medidas concretas para alcança-la."A proposta foi recusada, devido a questões de  prazo(...) No entanto, o comitê decidiu que "se o governo russo já existente trouxer a paz e tranquilidade para o  país, a comissão não teria nada contra a atribuição do Prêmio  a Lenin ano seguinte."
 No ano seguinte, na primavera de 1918  , a jovem República é invadida pelas tropas aliadas, o que impediu o governo soviético de alcançar a paz na Rússia.

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Tradução: MD
Notas: (*) Nesta Carta ao Congresso, Lenin manifesta suas apreensões em relação a um possível racha no partido partido, principalmente inseguro estava em relação a Stalin, conforme deixa claro aqui:
"O camarada Stálin , tendo chegado ao Secretariado Geral, tem concentrado em suas mãos um poder enorme, e não estou seguro que sempre irá utilizá-lo com suficiente prudência." 
Também fazia algumas restrições a Trotski, apesar de reconhecer sua capacidade. A respeito de Stalin, continua:
Stálin é brusco demais, e este defeito, plenamente tolerável em nosso meio e entre nós, os comunistas, se coloca intolerável no cargo de Secretário Geral. Por isso proponho aos camaradas que pensem a forma de passar Stálin a outro posto e nomear a este cargo outro homem que se diferencie do camarada Stálin em todos os demais aspectos apenas por uma vantagem a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais correto e mais atento com os camaradas, menos caprichoso, etc.

(**)Amante de Lenin, com quem, segundo boatos, ele teria tido um filho (ver post neste blog) 
(***) Nome da cidade de Simbirsk, terra natal de Lenin, que teve seu nome alterado, em sua homenagem, em 1924, quando de sua morte. 

 FOTO DO ACERVO DE OLGA ULYANOVA
1-Vladimir Ilitch em seu círculo familiar, no seu apartamento do Kremlin - outono de 1920
 Começando pela esquerda, vê-se: Vladimir Ilitch,Krupskaya, Anna.Em pé: Maria, Dmitri
fontes: 
http://www.peoples.ru/
http://www.allabout.ru/ 

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