Não consigo entender porque editoras especializadas nas obras de autores russos, como é o caso da Cosac Naify, não reeditam livros raros, não encontrados em língua portuguesa, a não ser em agluns sebos , como é o caso dos Diários Íntimos de Lev Tolstoi e Sofia Tolstaya, sua esposa. Este livro é da maior importância para a compreensão da vida do grande autor russo e para o melhor conhecimento de sua obra. Trata-se do diário escrito pelo casal Tolstoi em 1910, ano da morte do autor.
Minha edição consegue ser mais antiga do que eu: data de 1943, lançada pela Ed.Vecchi Ltda. A tradução de Frederico Reys Coutinho deve ter sido feita a partir da edição francesa, já que traduziram o nome do escritor para "Leão" e não Lev:a edição não cita o título original.
Não escaneei a capa do livro, uma vez que ele foi reencadernado e, durante o processo, perdeu sua capa original. Tive que lê-lo com o máximo cuidado, pois mesmo após a reencadernação, feita, está arriscado a se desfazer, o que é uma pena...
Para quem sabe o idioma russo, coloco, aqui, a versão nesta língua,;basta clicar no link ao lado:
www.lib.ru. Se você não tiver nada contra sebos, poderá dar uma pesquisada no estado dos livros existentes em
www.estantevirtual.com.br.
Extraí desta obra algumas das passagens que julguei interessantes , para que o amigo do blog tenha a chance de conhece-las.
O livro é separado em duas partes: da página 7 à 163, tem-se o "Diário Maior", de Lev Tolstoi.A partir desta página tem início os "Jornais Íntimos" de Sofia Andreevna e suas correspondências.
Tolstoi iniciou seu diário em 2 de janeiro de 1910 e o encerra 3 dias antes de seu falecimento em Astapovo, dia 20 de novembro, pelo nosso calendário.
Além do Grande Diário, ele escreveu um outro diário, mais íntimo, que ele não mostrava a ninguém, também constante do livro, intitulado "Só Para Mim". No primeiro diário, ele faz reflexões sobre tudo que o preocupava no final de sua vida e, no segundo, o relato de tudo que o fez deixar Yasnaia Poliana, com detalhes, bem como suas impressões a respeito de temas variados.
TOLSTOI:
2 de janeiro de 1910:..."Trouxeram-nos uma mulher em estado lamentável, doente depois do parto. Crianças. Fome. Como tudo isto é penoso!"
4 de janeiro de 1910: "...Refleti sobre minhas relações com os homens de nosso mundo que não têm fé: é um pouco como com os animais: ama-los, lamenta-los, mas não entrar em relação espiritual com eles. Relações assim despertam maus sentimentos. Eles não me compreendem. Pela sua incompreensão e arrogância, servindo-se da razão para esconder a verdade, eles contestam a verdade e o bem e nos levam aos maus sentimentos. Não sei como dizer, mas sinto perfeitamente que é preciso inventar um sentimento próprio em relação a estes homens, para não faltar com o amor que lhes é devido. ....À noite, li coisas insignificantes e joguei cartas."
5 de janeiro de 1910 - "...Cada vez me é mais penoso ver esses escravos trabalharem para a nossa família...Joguei wint. Tudo é triste e indigno".
7 de janeiro de 1910
(achei interessante esta passagem: na época de tolstoi já existiam os que comercializavam fé...
*): Uma carta desagradável: meu missivista me diz que partilha minhas convicções e pede 500 rublos para a propagação do Cristianismo"...
16 de janeiro de 1910:Acordei alerta e disposto a ira a Tula, à audiência do tribunal....Primeiro, foi o julgamento de camponeses: advogados, juízes,soldados,testemunhas. Tudo isto é bem novo para mim. Depois julgaram um acusado político. Era acusado de sustentar e propagar idéias mais eqüitativas e sensatas que as idéias comuns sobre a organização da vida. Tenho muita pena dele.
(**) Algumas pessoas se reuniram para me ver, mas não muitas, graças a Deus. Emocionei-me quando prestaram juramento. Lutei para me conter e não dizer que aquilo (o julgamento) era uma forma de zombar de Jesus Cristo.
(***)
Quase todos os dias, Tolstoi reclamava de mau humor e anotava, fim do dia, "joguei". Em todos estes dias de janeiro, deixou clara sua preocupação em praticar o bem e sua frustração quando "falhava" com este seu propósito.
SOFIA
Os jornais íntimos de Sofia têm um prefácio feito pela filho do casal - Serguey Lvovitch Tolstoi. Conta coisas interessantes a respeito dos pais, de suas características, de seu relacionamento. Sobre a mãe, ele diz:
" Ela se levantava depois de L.N., às dez ou onze horas e deitava-se tarde......
...Raramente se passava um só dia sem a chegada de algum parente, convidado ou visitante.
... Minha mãe era sujeita a crises de histeria e, com os anos, foi perdendo, cada vez mais, o equilíbrio de suas faculdades mentais. Deve-se supor que isto contribuiu muito para o desentendimento do casal. A histeria agravou-se: primeiro, após a morte de seu jovem filho Vanka (1895), que ela adorava; segundo, em conseqüência da grave operação que fez em 1906 e terceiro, provavelmente, por causas patológicas, em 1910.
Pode-se ver, pelo seu diário, que seu estado mórbido tinha sensivelmente piorado na segunda metade de junho de 1910, quando a transtornou um fato aparentemente insignificante: L.Nikolaevitch adiara de dois dias sua partida de Metscherkoie, onde era hóspede de Tchetkov. A partir desta época, não decorreu um dia sem que ela não se queixasse, em suas conversações e em seus diários, de insônias, de dores nevrálgicas em diferentes partes do corpo, de lassidão, de nervosismo, etc. As menores coisas, e também as maiores, serviam de pretextos para suas crises nervosas.
...A que ponto a conduta de minha mãe envenenou a vida de meu pai, a partir de junho de 1910, até sua fuga de Iasnaia Poliana, pode-se ver em todos os escritos do período: diários de ambos meus progenitores, memórias e recordações..., etc.
Nos próximos dias, postaremos mais sobre as reminiscências de Serguey, bem como trechos dos jornais de Sofia, dando, também, continuidade ao diário Maior, de Tolstoi. A idéia é fazer mais ou menos como vimos fazendo com as cartas de Svetlana Alliluyeva, a filha de Stalin, que estamos publicando em capítulos. Claro que não pretendo postar os diários na sua totalidade: eu precisaria ser insana para tal empreitada; a proposta é postar algumas passagens que são, a meu ver, interessantes.