segunda-feira, 15 de março de 2010

AUXÍLIO AOS AMANTES DA LITERATURA RUSSA; FORMAÇÃO DOS NOMES RUSSOS





Anton Pavlovitch Tchekhov, ou Antonka, Tonya, Tocya...

Uma das maires dificuldades na literatura russa, conforme já tive oportunidades de constatar, são os nomes dos personagens: por exemplo, uma hora o chamam de Piotr Nikolaievitch, mais na frente um pouco de Aleksandr, em outros momentos de Sacha Nikolaievitch Kataev, ou simplesmente Kataev e, muitas vezes um parágrafo depois, já a ele se referem por Shura! São tantas as variações que o leitor fica, por vezes, de cabelos em pé!

Tenho uma amiga, viciada em literatura russa, que por vezes comete o sacrilégio de torrar o pobre do Tchekhov, campeão nestas variações de um mesmo nome. Assim sendo, o objetivo deste post é o de ajudar leitores, como esta minha amiga, a se familiarizarem mais com os nomes russos, a partir da sua formação, o que facilita e muito o entendimento.

Os nomes russos partem de uma fórmula trinominal, surgida na Rússia na época do regime de Pedro, o Grande, que se compõe dos seguintes elementos:

Nome
Patronímico
Sobrenome

O nome é aquele que consta do passaporte do indivíduo, ou seja, do documento oficial. Por exemplo, Vladímir, Andrei, Alexei, Leonid, etc.

O Patronímico é um elemento muito antigo nos costumes russos e eslavos, de modo geral, tendo sido introduzido por volta do século XI. É usado em sinal de muita cortesia e respeito, num tratamento formal. Assim sendo, Putin é chamado pelos seus subalternos, muito provavelmente de Vladímir Vladímirovitch, ou apenas de Vladímirovitch, podendo ainda, os mais chegados o chamarem apenas de Vladímiritch; da mesma forma que Lenin o era de Vladímir Ilitch ou de Ilittch.

Para facilitar um pouco mais a vida do nosso leitor, eis como se forma, de maneira bem genérica, os patronímicos:

Com a ajuda dos sufixos ovitch / evitch (para homens) e ovna / evna (para mulheres), a partir do nome paterno, significando "filho de".Pegando o caso de Pedro, o Grande, sua filha - Ekatarina I se chamou Ekatarina Petrovna. Se, por exemplo, ele tivesse sido o pai de Pável, o Pável seria Petrovitch.

Existem outras terminações que, pelo caráter do post, nos abstemos de detalhar. Resta citar, apenas que, em alguns casos as terminações são reduzidas a Itch e Itchna: é o caso já citado do patronímico de Lênin(Ilitch): isto vai depender da letra final da raiz do nome paterno, o que seria entrar em detalher desnecessários no momento.

Sobrenome: Como aqui no Brasil ou em qualquer parte do mundo (acredito eu), o sobrenome é o nome de família. Aqui seriam Silva, Oliveira, Souza, etc.... Lá na Rússia é Petrov, Ivanov, Kataev, Kirov, etc.

Formas diminutivas dos nomes russos:

Aqui é que a porca torce o rabo... O diminutivo dos nomes russos introduz uma complexidade e, para nós, algumas surpresas, como por exemplo: Vania, que aqui é nome feminino, lá é o diminutivo de Ivan! E Katya e Nadia também são diminutivos, respectivamente de Ekaterina e Nadezhda (significa literalmente "Esperança" e era o nome da esposa do Stálin).

Os diminutivos são formados a partir dos nomes oficiais por meio de apócope (supressão de um fonema) ou de diferentes tipos de afixos.

Os diminutivos são empregados em tratamentos informais, tipo na família, entre amigos, entre colegas de escola, etc.

A quantidade de diminutivos que um nome pode ter varia de nome para nome: alguns têm mais de 100 derivativos!!! Vejamos, agora, alguns casos:

Adicionando sufixos ao nome:
*Andrei - Andreika, Andreiyshka

Formação a partir de duas, três ou mais letras do nome:

*Aleksei - Aliôsha
*Mária - Mára, Marucia
*Andrei - Andriusha (repare que Andrei já apareceu no grupo acima)
*Natalia - Natasha
*Olga - Olya
*Yulia - Yulka
*Svetlana - Sveta

Formação a partir de uma das letras iniciais do nome:
*Ivan - Isha, Ishka
*Mária - Mucia, Muria (também este nome está num grupo acima)

Formação a partir de sons tirados do meio do nome:
*Anastácia - Tácia, Ácia
*Antonina - Antocia, Tocia
*Alexandr ou Alexandra - Sania, Sasha
*Mária - Masha (de novo!!!)

Formação a partir da última sílaba do nome:
*Margarita - Rita (que aqui no Brasil é um nome), Ritucia, Tucia
*Svetlana - Lana(além do Sveta, já citado)
*Evgueny - Guenya, Genya, Enya
*Ivan - Vania

Repetindo-se duas vezes uma das sílabas do nome:
*Nikolay - Koka
*Borís - Boba
*Vladimir -Vova

Muitas vezes, obtém-se o diminutivo pela simples eliminação de sílabas do nome:
*Konstantin - Kostia
Nikolay - Kolya
*Ekaterina - Katya

Em certos casos, as formas derivadas diminutivas têm caráter mais complexo, já que são formadas a partir de outros diminutivos do mesmo nome:

*Alexandr: Shura (a partir do diminutivo de Sacha = Sachura)
*Evguêni: Yura (a partir do diminutivo de Genya = Genyura)
*Mária: Shura ( a partir do diminutivo de Masha = Mashura)

Como trataríamos o nosso querido Dostoievski, se ele ainda estivesse entre a gente?

Claro que, por respeito, nós, seus leitores, o chamaríamos de Feódor Mikháilovitch. Sua esposa e amigos mais chegados, de Fédya. Mas - para todos, simplesmente de "o maior escritor domundo"...

Empatando com Dostoievsky no ranking de melhor escritor, eis como Liév Nikolaievitch Tosltoi seria tratado: por mim, sua maior fã, simplesmente de Liév Nikolaievitch. Por Sóphia, sua esposa (para ele apenas Sonia) ele seria Levushka, Levunya, Liôva, Liônia, ou ainda LiôciaLioka!

Pois é, a Sonia podia reclamar de tudo, menos de falta de opção para chamar seu talentoso marido!!!

UM POUCO SOBRE AKSÍNIA: de Tolstoi a Mikhail Chólokhov.

Aksínia é o nome da personagem feminina principal do livro "O Don Silencioso", de Mikhail Chólokhov, autor russo, Nobel da literatura. Esta personagem me marcou muito por ser extremamente real, forte. Nela o autor encarnou todo o encanto da mulher cossaca, sem cair naquela coisa melosa. Dotada de uma beleza sensual, extravagante, que reúne em si vários temas problemáticos para a sociedade da época (e porque não - para a nossa também), tipo estupro (aos 16 anos foi estuprada pelo pai), traição (trai um marido que sempre a humilhava e espancava, apesar de ama-la muito), é corajosa(não teme o falatório da stanitsa onde vivia) e tem algo quê de trágico. E o autor vai transformando a personagem, a princípio de uma "beleza diabólica", mostrando traços de envelhecimento, mudando seu comportamento, que passa, gradualmente, do egoísmo ao amor repleto de ternura, de doação. A personagem amadurece, como na vida real e dá sua contribuição para transformar esta obra em uma obra prima, no melhor estilo de Guerra e Paz.

Este livro está disponível, em português, em algumas livrarias e sebos.

O título do post se reporta, também, a uma outra Aksínia, desta vez uma personagem real, grande amor de Liev Tolstoi, meu escritor predileto. Antes de se casar, Tolstoi amou uma camponesa de sua propriedade em Iasnaia Poliana. E retratou esta paixão em seu conto "O Diabo", onde a personagem Stiepanida, misto da sua Aksínia com outra camponesa, também chamada Stiepanida, amante do juiz de instrução da cidade de Tula, tendo sido por ele morta, já que se sentia pressionado pela esposa ciumenta. O juiz se matou após ter assassinado a amante.

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