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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

MAIS CARTAS DE SVETLANA ALLILUYEVA, A FILHA DE STALIN - PARTE 1

Hoje, depois de longo tempo, volto a publicar as cartas de Svetlana Alliluyeva, filha de Stalin, extraídas de seu livro, esgotado no Brasil, "Vinte Cartas a Um Amigo".
A carta de hoje é a primeira parte da carta de número 9. Optei por dividi-la em duas partes, para fins deste post, uma vez que ela é bem grande (confesso, aqui, que sou preguiçosa!), a fim de não cansar muito o leitor. Prometo o resto da mesma para amanhã. Esta é uma carta que retrata, muito bem, as relações familiares ao redor de Stalin. Mostra, com detalhes, a personalidade de Nadezhda, sua esposa e a do próprio Stalin. Acredito ser esta uma das mais reveladoras das cartas de Svetlana, merecendo, por isso, ser lida com atenção.
"Mamãe era severa conosco, as crianças - inexorável e inabordável. Isto não era frieza de alma, não, mas por seu caráter exigente conosco e consigo própria. A imagem que guardei de mamãe é a de uma mulher muito bela, e assim, provavelmente, devia ser tida, não apenas por mim. Não me recordo exatamente do seu rosto, mas a impressão geral que me ficou foi de uma beleza, graciosidade, leveza de movimentos e exalando fragrância. Esta foi a impressão inconsciente da infância. Era simplesmente assim que se sentia sua atmosfera, a sua natureza. Raramente ela me fazia carinho, enquanto que papai vivia eternamente a carregar-nos nos braços, gostava de me dar beijos ruidosos e vorazes, de me por apelidos carinhosos - "pardalzinho", "mosquinha". Certa vez eu cortei a toalha nova com uma tesoura. Deus meu! Quão fortemente me bateu nas mãos. Eu berrei tanto, que papai veio, tomou-me nos braços, consolou-me, beijou-me e, de certa maneira, acalmou-me... Por diversas vezes ele me livrou de ventosas e sinapismos - ele não suportava o choro nem grito de criança. Mamãe era implacável e zangava com papai por causa dos meus "mimos". Eis a única carta de mamãe para mim, escrita em 1930 ou 1931, que se conservou:
"Salve, Svetlanotchka!
Vássia escreveu-me dizendo que a menina está constantemente a fazer travessuras. é terrivelmente aborrecido receber cartas deste tipo sobre a menina. Eu pensava ter deixado uma menina grande, sensata, mas acontece que ela é bem pequena e, sobretudo, não sabe conduzir-se como gente grande. Eu peço, Svietlanotchka, que você converse com N.K.(*) e organize as suas coisas de modo que eu não receba mais cartas deste tipo. Faça isto sem falta e escreva-me juntamente com Vássia ou N.K., dizendo se chegaram a um acordo sobre isto. Quando mamãe saiu a menina fez muitas, muitas promessas, mas está cumprindo muito pouco. Assim, responda-me sem falta, como decidiu viver daqui por diante; com sensatez ou de que outra maneira. Pense com seriedade, pois a menina já está grande e sabe raciocinar. Você está lendo alguma coisa em russo? Espero resposta da menina.
Sua mamãe".
Fis tudo. Nenhuma palavra de carinho. Os delitos da "menina grande" que, na época, teria cinco anos e meio ou seis, eram, certamente, insignificantes. Eu fui uma criança quieta e obediente. Mas me faziam severas exigências.

As cartas de papai eram diferentes. Conservo comigo duas cartas dele, talvez da mesma época (1930-1932), porque papai as escreveu com letras grandes e regulares de imprensa. Terminava-se invariavelmente com o mesmo "beijo-a". Papai gostava muito de beijar-me, enquanto eu era pequenina. Até meus 16 anos, chamava-me "Setanka". Era assim que eu mesma me chamava, em pequena - Setanka. Ele me chamava, também, de "dona de casa", porque queria muito que eu, como mamãe, assumisse o papel ativo de dona de casa, de ativa dirigente da casa. Gostava, ainda, de dizer, quando eu pedia algo:"Ora, pra que pedir! Decrete e nós cumpriremos". Daí o jogo dos "decretos" que se prolongou por muito tempo em nossa casa. Havia, também, a "menina ideal" fictícia - Liolka - que fazia tudo direitinho e eu odiava-a por causa disto. Após esses esclarecimentos, posso citar outras cartas dele daquela época:
"Para Stenka, "dona de casa",
Você deve ter esquecido o paizinho. Por isso que não lhe escreve? Como está a sua saúde?Está doente? Que faz do seu tempo? Tem encontrado Liolka?Eu imaginava que não demoraria a receber um decreto seu, mas até agora nada!Isto é mau, Você magoa o paizinho. Bem, beijo-a. Espero sua carta.
Paizinho."
Tudo isto vinha escrito com requinte e capricho, em grandes letras de forma. Eis outra carta daqueles tempos:
"Salve, Setanka! Obrigado pelos presentes. Obrigado, também, pelo decreto. Parece que não esqueceu o paizinho. Se Vássia e o professor forem para Moscou , fique em Sótchi e me espere. De acordo? Bem, beijo-a. Seu papai".
Toda a correspondência com meus pais dividiam-se ente Zubálovo e Sótchi, onde eles iam passar o verão, enquanto que nós ficavamos na casa de campo ou vice-versa. Cito, paralelamente, as cartas de mamãe e papai, porque elas caracterizam bem o temperamento de ambos com relação às crianças. Papai nunca me intimidou (é verdade que ele era muito severo e exigente para com Vassily). Gostava de brincar e de mimar apenas a mim. Eu era a sua distração e o seu descanso. Mamãe, por seu lado, se compadecia mais de Vassily e era severa comigo.para compensar os carinhos de papai. Mas, mesmo assim, eu gostava mais dela...
Lembro-me bem do dia em que indaguei a minha babá: "Porque que é assim: porque que entre vovó e vovô eu gosto mais de vovô e entre papai e mamãe, gosto mais da mamãe?"

A babá agitou os braços e se atirou sobre mim: "como é isto!? E a vovó? e o papaizinho? É preciso amar a todos! Já se viu isso?" Ela durante muito tempo ficou horrorizada e ralhando comigo. É preciso amar a todos - este era o lema de sua vida, além do tirocínio de uma aia conscienciosa: não fazer distinção alguma entre os patrões e não incuti-la nas crianças. Suas preferências pessoais nunca foram reveladas a mim. Ela tratava a todos da mesma maneira.

Mamãe quase nunca ficava conosco. Eternamente sobrecarregada com os estudos, com o emprego, com as tarefas do Partido, com o trabalho social, ela pouco parava em casa. Nós estavamos também sempre sobrecarregadas de lições, passeios com o professor ou com Natália Konstantinovna, catando plantas, criando coelhos, somente para não ficarmos sem fazer nada! A norma expressa por ela em uma das suas cartas ainda do tempo de ginásio - quanto mais tempo, mais vadiagem - aplicava-a inflexivelmente a seus filhos. Além do alemão e das lições diárias de russo e aritmética, além do desenho e modelagem, com Natália Konstantinovna, mamãe matriculou-me no grupo pré-escolar de música. Tratava-se de um grupo de cerca de 20 crianças, que eram levadas pelos pais para a casa dos Lomov. Durante dois anos, a babá me levava à casa deles, na Travessa Sapasso-Peskovsky. Esta era uma ocupação magnífica e interessantíssima. As crianças cantavam em coro ou solavam, conforme as aptidões de cada uma. Havia jogos e brincadeiras destinados ao aprimoramento do ouvido, à percepção do ritmo. Mais tarde ensinaram-nos a escrever notas musicais e fazíamos ditados. Eu sempre me saí bem. Mamãe estava muito satisfeita porque essas ocupações não eram inúteis. Infelizmente já não me recordo mais do nome da simpática professora que nos transmitiu a todos, então, algumas noções musicais. Minha babá morreu e eu não tenho ninguém a quem perguntar agora o nome dela, nem os dos donos da casa, eles tinham excelentes livros infantis. Foi lá que consegui o " Max e Moritz". Eu e a babá líamos em voz alta esse livro. A babá, que se lembrava bem de todos os versos, depois os "recitava" com freqüência para mim.

Apesar da falta de tempo, mamãe continuava seus estudos musicais com a professora, então conhecida de todos no Kremlin, Aleksandra Vassílievna Pukhliakova. Encontrei-a com ela muito mais tarde. Mamãe estudava, também, francês - não sei com quem, nem o que conseguiu aprender. De qualquer maneira, a fim de não ficar para trás em relação a toda essa gente boa e culta que nos rodeava, ela mesma queria estudar e se aperfeiçoar.

Ela era tão jovem: tinha toda a vida pela frente. Em 1931, havia completado apenas 30 anos. Estudava na Academia Industrial, na Faculdade de Fibras Artificiais. Naquela época isto representava um novo tempo, uma nova química industrial. Mamãe poderia ter-se transformado numa grande e excelente especialista. Restaram os seus cadernos - arrumados e limpos, certamente exemplares. Ela era exímia em desenho industrial. Havia no seu quarto uma prancheta. Na Academia estudavam também suas amigas Dora Moisseievna Khazan (mulher de A. Andreiev) e Maria Márkovna Kagânovitch.
O sectário da célula do Partido era o jovem Nikita Serguêievitch Khruschev, que veio para a Academia procedente da bacia do Don. Após terminar a Academia, ele se tornou um militante profissional do Partido, enquanto que as companheiras de mamãe conseguiram um emprego numa indústria têxtil. Ela mesma estava anciosa por um trabalho independente. Deprimia-se na posição de "primeira dama do reino". Certa vez -isto era tão raro! - mamãe passou um dia inteiro em nossa compainha em Zubálovo. Provavelmente precisou substiutuir a professor. Ela ora arrumava alguma coisa, ora cozia, ora debatia algo com a babá, examinava meus cadernos.

Não suportava sentimentalismos melosos com as crianças. Mas, por outro lado, quando estavam construindo, em Zubálovo, uma praça esportiva infantil, ela mesma se empenhava em instala-la do melhor modo possível. A "casinha de Robinson", construída nas árvores, provavelmente não surgiu sem a sua colaboração. Gostava muito de fotografar e fazia-o muito bem. Todas as fotos dos familiares, em Zubálovo e em Sotchi, foram batidas por ela. Ela fotografava crianças, convidados, a paisagem das redondezas, a própria casa. Graças a ela, foram conservadas fotos de nossa casa em Zubálovo e da nossa casa de campo em Sótchi, onde também me levavam, com mamãe; retratos da primeira casa construída para papai, em Sotchi, pelo arquiteto .I. Mwejánov. Mais tarde, papai ficou possuído pela ânsia de reconstruir e tornou todas estas casas irreconhecíveis. Graças a Deus, posso reconhece-las pelas fotos batidas por mamãe - reconhecer e recordar...

Depois de nós, crianças, ela era a mais jovem da casa. As professoras, a babá -todas eram mais velhas, todas tinham mais de anos; a governanta da casa, Carolina Vassilievna, a cozinheira Elizavieta Leonidovna, eram mulheres já idosas, com mais de cinquenta anos. Mas, de qualquer modo, todos amavam a jovem, bela e delicada patroa - todos reconheciam a sua autoridade. O meu irmão mais velho, Yacha, era mais jovem que mamãe apenas sete anos. Ela demonstrava muita ternura por ele, preocupava-se com sua vida e consolava-o pelo fracasso do seu primeiro casamento, quando teve uma filha, que morreu logo depois. Mamãe sofria muito por ele e tentava, por todos os modos, tornar a vida dele suportável. Mas isto era praticamente impossível, uma vez que papai estava mal satisfeito com a sua mudança para Moscou (feita por insistência do tio Aliosha Svanidze), mal satisfeito com seu primeiro casamento, com os seus estudos, com o seu caráter, numa palavra, com tudo.

A tentativa de suicídio de Yacha deve ter sido angustiante para mamãe. Levado ao desespero com a atitude de papai, que nunca o apoiou, Yacha atirou em si mesmo, na cozinha de nossa residência no Kremlin. Felizmente, ele apenas se feriu, a bala passou de raspão. Mas papai encontrou nisso um motivo de piléria: "Ah, não acertou!", gostava ele de zombar. Mamãe ficou transtornada. Esse tiro deve te-la atingido no coração, marcando-a por longo tempo...

Vassily(Vassya)
Yacha, do lado esquerdo de Stalin

sexta-feira, 21 de maio de 2010

OS ARRANHA - CÉUS DE STALIN: AS 7 IRMÃS


O que ficou conhecido na Rússia (e no mundo) como "as sete irmãs" é um conjunto de arranha-céus construídos em Moscou entre finais dos anos 40 e início da década de 50 do século XX.

"As Sete Irmãs" ou "" Os Sete Edifícios de Stalin", como também ficou conhecido, é mais uma obra arquitetônica do período stalinista, marcado por obras gigantescas e majestosas, tais como o metrô de Moscou e o canal que liga o rio Moscou ao Volga, entre outras e surgiu como o pináculo do "império stalinista" no pós-guerra, em termos de arquitetura urbana.

Tal conjunto, com formato semelhante a bolo de noiva, pode ser visto de quase qualquer canto da capital russa. Suas funções são variadas, indo do hotel, passando pela universidade, até a simples moradia.

Originalmente, foi planejada a construção de 8 arranha-céus, número este escolhido para simbolizar o oitavo centenário de Moscou, comemorado em 1947, mas um dos edifícios não pode ser construído, devido à dificuldades financeiras(sua fundação serviu de base para, mais tarde, se erigir o "Hotel Rossya":

O Rossia já não existe mais: foi fechado em março de 2006, pouco antes de minha última visita a Moscou. Este hotel era - realmente, algo de megalômano! Formado por 4 corpos de 12 andares cada, dispostos em um único retângulo de 250 x 150 m, com 3182 apartamentos, para 5300 pessoas e surge como um dos maiores projetos efetuados na Europa, naquela época.

Outro integrante deste conjunto é o edifício principal da Universidade Estatal de Moscou Lomonossov (MGU) (com 235 metros). A foto abaixo é do MGU quando da minha primeira ida à Moscou, em 2002:
Um dos mais altos é o edifício residencial, construído no embarcadouro da margem esquerda do Rio Moscou. Serviu de moradia aos privilegiados do regime, ao mesmo tempo que tal privilégio veio a se tornar um castigo, uma vez que Stalin, com suas neuras, mandou encher o local de câmaras, saídas secretas, postos de escutas, etc. Se o morador acordava no meio da noite e não via um membro de sua família em casa, podia ter certeza que jamais o reveria...

Hoje, aí se tornou o símbolo dos novos ricos, sendo um dos metros quadrados mais caros da capital. Possui 26 andares residenciais, mais 6 andares técnicos e mede 176 metros. Possui 540 apartamentos, dos quais, 336 possuem dois quartos, 173 de três quartos, 18 de quatro quartos e 13 de apenas um quarto.

A este edifício se agregou "o velho" - um edifício oito anos mais antigo, com saída pra o rio Moscou, criado pelos mesmos projetistas, representando um corpo de 9 andares.
Os dois totalizam 700 apartamentos, apresentando ainda correios, lojas, cinema, e um apartamento- museu, onde viveu a bailarina Galina Ulanova.
fonte: wikipedia.ru

HotelUkraína:
Aqui eu fiquei na minha viagem à Rússia em 2006.
Fotos do saguão do hotel, tiradas em 2006

Ministério do Comércio Exterior:
Edifício residencial na Praça Kudrinskaya(Praça da Revolta)
Est edifício foi concluído em 1954 e possui 24 andares, dos quais 18 são residenciais. Possui mais de 450 apartamentos. Serviu de moradia para trabalhadores da indústria aeronáutica, pilotos e membros da "NOmenklatura" do PCUs e do Conselho de Ministros da URSS. O valor de seu metro quadrado também é muito elevado.


Edifício da Praça dos Portões Vermelhos
Este edifício serve para uso administrativo e residencial, possuindo em seu pátio um restaurante, tendo, inclusive, um jardim de infância. Eu o classificaria tipo um condomínio nos nossos moldes.

Alguns analistas ocidentais acreditam que o ditador, em seus delírios de grandeza, gostava de obras suntuosas e gigantescas, como uma forma de propaganda, visando mostrar a pequenez do indivíduo face ao Estado Soviético, o que , para mim, faz bastante sentido. Acrescento, a isto, o lado megalomaníaco de Stalin, a exemplo de Pedro, o Grande. Acredito não estar cometendo erro em comparar os dois, principalmente suas obras, que maravilham tantos turistas até hoje. Bem como, não é errado comparar o sacrifício humano das obras destes dois "imperadores". Mas, mais do que tudo - o que ficou, tanto de um como de outro, foi a suntuosidade e grandiosidade que são típicas de um país e de um povo grandioso e lindo.

uma das sete irmãs vista ao fundo, depois do muro do Kremlin,
bem às minhas costas
uma das sete irmãs, em foto tirada da janela do meu apartamento no Hotel Kosmos, em 2002.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

MAIS UMA CARTA DE SVETLANA ALLILUYEVA (filha de Stalin)


edição russa do livro

Achei esta carta da Svetlana especialíssima para os dias de terror que o mundo vem passando, com a barbárie imperando no Oriente Médio e na própria Rússia, onde crianças inocentes perdem a vida sem o mínimo direito de defesa. Nesta carta, Svetlana fala - além das relações do pai com os netos - de religião, de Deus, de Paz.Fala da inaceitabilidade de se atentar contra a vida humana, sob qualquer pretexto. Quem dera que os líderes mundiais também pensassem assim e não submetessem a vida humana a seus interesses escusos e mesquinhos....
Deixo vocês com a carta n. 6 da Svetlana: uma carta emocionante.

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Stalin, o filho e a filha Svetlana

Você já pode notar que, para toda a nossa família, a Geórgia era como sua pátria. Para todos - para meus avós, para mamãe, a Geórgia, com seu sol em abundância, com o temperamento ardente e a elegância inata de seus nobres e camponeses - uma região extraordinária, decantada pelos poetas russos - estava presente totalmente em nossa casa, e não porque era a pátria de meu pai. De todos era precisamente ele, talvez, quem menos a admirava. Amava a Rússia, amou a Sibéria com suas belezas austeras e sua gente silenciosa e rude, e não podia suportar aquelas "honrarias feudais" com que os georgianos o distinguiam. Só depois de velho é que passou a recordar a Geórgia.

É possível que essa identidade com a Geórgia tenha também desempenhado um papel no fato de que os parentes da primeira e já falecida mulher de papai, Ekaterina Svanidze, tinham tanta amizade a mamãe e a seus familiares. É possível que mamãe tenha sabido agir de tal modo que eles todos se sentiam a vontade com ela na casa de papai, ali onde ela era a dona da casa e papai apenas dava a sua presença, eternamente mergulhado até o fundo das paixões políticas, das lutas, discussões, divergências, reuniões...

Mas hoje não estou mais em condições de escrever sobre o passado; a vida atual, borbulhante, ofuscante e que de repente me cerca por todos os lados, não me deixa mais mergulhar nos dias do passado e me isolar num lugar qualquer...

Meu filho foi para Moscou, onde tem aula de física. Ele se prepara a fim de prestar exames no Instituto de Medicina. Estranhamente, meu pai conheceu e viu, de seus oito netos, somente três - meus filhos e a filha de Yacha. E embora ele fosse sempre injustamente frio para com Yacha, sua filha Galina despertava nele uma ternura sincera e, o que era ainda mais estranho, meu filho, meio judeu, filho de meu primeiro marido (a quem meu pai não quis sequer conhecer) despertava nele um terno amor. Lembro-me de como fiquei apavorada durante o primeiro encontro de papai com meu Oska. O garoto tinha cerca de três anos, era um menino adorável - mistura de grego e georgiano, os grandes olhos semitas, as longas pestanas. Parecia-me inevitável que o menino despertaria em papai um sentimento desagradável. Eu nada compreendia da lógica do coração. Papai literalmente se derreteu ao ver o garoto. Isso ocorreu em uma de suas esporádicas vindas, após a guerra, à despovoada, irreconhecivelmente silenciosa Zubálovo, onde viviam meu filho e duas aias - a dele e a minha, esta já velha e doente. Eu terminava o último ano da Universidade e vivia em Moscou, e o menino se criava sob o "meu" tradicional pinheiro e sob a guarda das duas bondosas velhinhas. Papai brincou com ele por meia hora, passeou em torno da casa (ou melhor, correu em torno dela, por que ele caminhava rapidamente, até seus últimos dias, com um ar lépido) e se foi. Eu fiquei "revivendo", "remoendo" o passado - estava no sétimo céu. Com seu laconismo, as palavras: "Teu filho é um amor! Os olhos dele são bonitos!" - equivaliam a uma longa ode de louvação nos lábios de outra pessoa. Eu compreendi que mal entendia a vida, cheia de surpresas. Papai viu Oska ainda mais duas vezes - da última vez, quatro meses antes de sua morte, quando o garoto tinha sete anos e já frequentava a escola. "Que olhos pensativos!" - disse papai. - "Garoto inteligente!" e eu de novo fiquei feliz.

É estranho que também Oska se lembrasse evidentemente desse último encontro e guardasse na memória a emoção daquele contato cordial que ocorreu entre ele e seu avô. Com todo o apoliticismo de sua mente jovem, típico da juventude atual, ele devia odiar tudo que se ligasse ao "culto da personalidade"*, todo o conjunto de fenômenos atribuídos a um indivíduo e esse próprio indivíduo.

Sim, ele odeia todo esse conjunto de fenômeoso, mas não os vincula, em seu espírito, ao nome de seu avô. Colocou o retrato do avô em sua escrivaninha. E ali se encontra já há alguns anos. Não interfiro em sua afeição e nem controlo seus sentimentos. É preciso confiar mais nas crianças. E de novo vejo que ainda mal compreendo a vida, cheia de surpresas...

E eis que meu filho já tem dezoito anos, concluiu o curso médio e de todas as profissões possíveis escolheu a mais humana - a de médico. Estou contente, loucamente contente que ele assim tenha decidido. Estou tão contente que até receio demonstrar-lhe isso - não vá ele mudar de idéia.

Ele é um rapaz bonito, carinhoso, meigo. Minha filha aqui corre pelo bosque com sua coleguinha - ambas, por equívoco, nasceram meninas. De cada uma delas Deus deveria criar um par de irmãos-gêmeos. Elas trepam nas árvores, nos muros, andam de velocípede, banham-se no córrego, dormem à noite em tenda armada junto à casa, amestram o gato e o cachorro, jogam basquetebol.

Meus dois filhos não sabem (e não precisam saber!) como me deleita a vida ao lado deles, como eles me educam e não eu a eles... Quanto me encanta que eles cresçam naquele mesmo bosque onde, não faz muito, também cresci, respirando aquele mesmo ar, com aquelas mesmas flores dos campos e pradors e, talvez, como eu também, guardando, para toda a vida, a lembrança desta Júkovka e de seus arredores, como a imagem da terra natal.

E eis que minha Katya, apesar de que papai gostava muito do pai dela (meu segundo marido), como de todos os Jdânov, não despertava nele qualquer sentimento particularmente terno.











os filhos de Svetlana, Katia e Oska (Yussef) .Yussef foi médico cardiologista, autor de muitos artigos e monografias sobre o tema. Nasceu em 1945 e morreu em 2 de novembro de 2008.

Ele só a viu uma única vez. Ela tinha dois anos e meio, tão engraçada, um botãozinho vermelho, com dois olhos grandes e escuros como cerejas. Ele se pos a rir quando a viu e continuou rindo a noite toda. Isto aconteceu a 8 de novembro de 1952, no dia do vigésimo aniversário da morte de mamãe. Não pronunciamos uma só palavra sobre esse aniversário e eu mesma não sei se papai se lembrou da data, mas eu não podia esquece-la. Nesse dia peguei as crianças e fui ve-lo na casa de campo (se bem que não era fácil fazer isso, pois nos últimos anos era muito difícil combinar com ele qualquer encontro).

Essa foi a penúltima vez em que o vi, uns quatro meses antes de sua morte. Parece que ele estava contente com a visita, naquela noite, e, como era de hábito, ficamos à mesa, repleta de gostosas iguarias - legumes frescos, frutas e nozes. Havia um bom vinho georgiano, legítimo, do campo, trazido somente para papai, nos últimos anos. Ele era um perito e por isso degustava-o em pequeninas taças. Mesmo que não bebesse nem um gole, tinha que haver sempre vinho à mesa, de variadas qualidades, e havia sempre um verdadeiro batalhão de garrafas. Embora sendo muito sóbrio no comer, e ele apenas remexesse e beliscasse algumas migalhas, a mesa tinha que ser farta. Esta era a regra. As crianças se entupiam de frutas e ele se mostrava contente. Gostava que os outros comessem, enquanto ele se contentava de ficar à mesa.


Por que me ocorreu de súbito a lembrança precisamente dessa noite? Porque foi essa a única vez em que estive junto com papai e meus dois filhos. Estava tão agradável, ele oferecendo vinho às crianças - hábito caucasiano -, e elas sem recusar nem fazer manhas, com um comportamento ótimo, e todos estavam satisfeitos. Teria ele querido esse encontro? Seria agradável para ele ficar conosco? Provavelmente. Todavia, no final se fatigou. Achava-se habituado à liberdade da solidão.

Nesses últimos vinte anos estavamos de tal modo desligados dele que era impossível nos reunirmos em qualquer aparente convívio familiar, de um lar, mesmo que esse desejo fosse mútuo. Mas esse desejo não existia. Entretanto, guardamos bem na memória essa noite, todos nós, inclusive meus filhos.

Estamos no momento sentados em nossa pequena varanda. Meu filho decorando física, minha filha lendo um romance de ficção-científica e o gato Mitchka ronronando em volta de nós. Faz calor. Silêncio. O bosque em derredor traz o zumbido das abelhas e das vespas. Florescem as tílias. O calor está quieto e abrasador. A natureza, tranquila, magniífica, em pleno esplendor. Completa seu ciclo rotineiro, sem ligar para nada e para ninguém. Senhor, como é maravilhoso Teu mundo, e como é perfeita cada folha de grama, cada flor e cada folhinha! E tu continuas a fortalecer e amparar o homem, nesta terrível e insensata multidão, onde somente a Natureza eterna e poderosa lhe dá força e consolo, equilíbrio espiritual e harmonia. Só mesmo os abandonados e amaldiçoados por Deus podem atentar contra a grandeza e a beleza do Mundo, podem pensar na completa destruição do que floresce, cresce e de tudo que dá alegria à vida. Como é aterrador que seja grande o número desses insensatos. Como é também aterrador o injusto fato mesmo de que esses insensatos possam imaginar um "objetivo", em nome do qual consideram a possibilidade de destruir a vida. Trate-se de seu próprio povo ou de um estranho, que seja o povo mais distante e desconhecido, será sempre um sacrilégio a simples intenção de destruir a vida, em nome de qualquer coisa...Em nome de que?

A miserável, a descalça, a desasseada, analfabeta camponesa, em qualquer país, sabe que isso não pode ser, que isso é inadmissível. Mas os civilizados pensam que sim. Indivíduos que se dizem marxistas - os comunistas da China - pensam até que tal coisa não só se pode fazer, como se deve.

No mundo acumulou-se tanta insensatez, tanta maldade, tanta má vontade, quanto progresso, inteligência, erudição, humanismo e amizade. As duas coisas estão na balança. E neste diabólico equilíbrio vivemos nós todos, nossos filhos, nossa geração, nosso século. É preciso que todos acreditem na força do Bem e da Boa Vontade.

Penso que, hoje, a crença em Deus nada mais é do que a crença no Bem e em tudo aquilo que é mais poderoso que o Mal, em tudo aquilo que, mais cedo ou mais tarde, triunfará, conquistará. A diversidade dos credos já hoje não tem importância, uma vez que as pessoas cultas já aprenderam a se compreender umas às outras, transpondo as fronteiras entre os países e os continentes, entre os idiomas e as raças. Quando o Papa João XXIII fez um apelo em favor da paz, ele a todos concitou a acreditar no triunfo do Bem, na vitória sobre a maldade humana. Incansavelmente, Nehru - grande humanista de nosso tempo e que representa a flor da inteligência de um povo - repete os princípios de Buda. Pela manutenção e fortalecimento da paz, sempre se bateu também a Igreja Ortodoxa, através de seus melhores pastyores, que são os mais completos oradores em defeza da paz.

Todas as divergências dogmáticas da religião hoje em dia, perdem sua significação. As pessoas mais depressa se dividem em grupos que acreditam na existência de Deus e em grupos dos que, em geral, acham desnecessãria a existência de Deus. Ao chegar eu aos trinta e cinco anos, jé um pouco vivida e experimentada, e tendo sido educada, desde criança, pela sociedade e pela família, no materialismo e no ateísmo, com tudo isto formo ao lado dos que pensam ser inconcebível a vida sem Deus. E me sinto muito feliz por isto me haver acontecido.
___________________________
*O "culto da personalidade" foi uma expressão surgida, durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956.Os dirigentes deste Partido, especialmente Khruschev, atribuiam todos os erros e crimes praticados no período stalinista ao endeusamento de Stalin.




















Yacha e a filha, Galina








Galina, falecida a 28/08/2007













I.S.Vlassik e os netos de Stalin nos inícios dos anos 40


Evgueni, filho de Yacha

domingo, 4 de abril de 2010

STALIN POR SUA FILHA: SVETLANA ALLILYEVA: VINTE CARTAS A UM AMIGO


No meu outro blog (www.culturalivrenaweb.blogspot.com) eu vinha postando regularmente as cartas extraídas do livro " VINTE CARTAS A UM AMIGO", de autoria de Svetlana Allilyeva, a única filha de Stalin. Agora, começo a transferir tais potagens para este novo blog e futuramente a dar continuidade à estas cartas.
Hoje a carta postada é a de número 4. Estas cartas são, a meu ver, importantes para se contextualizar as atitudes de Stalin. Para conhecer um pouco mais do que a história convencional nos mostra. As cartas apresentam não só o Stalin, ator principal de uma época totalmente nova para as repúblicas integrantes da URSS, bem como para o mundo, mas mostra, também, o Stalin homem, pai, marido, genro. Além disto, mostram os atores coadjuvantes desta história. Sem dúvida, um livro que deve ser lido por todos os que curtem história e política, mas que, infelizmente, se encontra esgotado, só podendo ser encontrado em raríssimos sebos.
Na oportunidade, aproveito para colocar, sempre que possível, foto das pessoas e lugares citados, a fim de dar um atrativo extra ao post.
Milu Duarte

"Você não poderá compreender o caráter de minha mãe e toda sua curta vida, sem que eu lhe fale de seus pais. A vida deles também é muito interessante e em muitos detalhes traz a marca da época. Antes de mais nada, devo dizer que as qualidades herdadas e toda a formação, infância e educação de mamãe maracaram-lhe muito a personalidade. Nosso avô Serguei Yakovlevitch Allilyev descreveu, de modo interessante, sua própria vida em um livro de memórias publicado em 1946. Mas apareceu, então, incompleto, com muitos cortes.(1) O livro foi depois, em 1954, republicado, porém, ainda mais resumido. esta edição é, de todo, sem interesse. Vovê era um camponês da província de Voronej.

Serguei Alliluyev, avô de Svetlana


Não era um russo puro, tinha uma miscigenação cigana muito acentuada - sua avó era cigana. Provavelmente vêm dos ciganos o aspecto algo exótico, sulista - os olhos negros, os dentes deslumbrantes, a tez tostada, a magreza - de todos os Allilyevs. Estes traços se imprimiram principalmente no irmão de mamãe - Pavlucha (um verdadeiro hindu, parecido com Nehru, quando moço) e na própria mamãe. Talvez seja dos ciganos aquela sede inesgotável de liberdade, que vovô possuia, e sua paixão de viver como nômade, indo sempre de um lugar para outro. Camponês de Voronej, ele logo se ocupou com toda espécie de artesanato possível e era sempre muito habilidoso em todas as coisas técnicas - tinha realmente mãos de ouro. Fez-se logo serralheiro e trabalhou nas oficinas da ferrovia da Transcaucásia. A Geórgia, com sua natureza, com muito sol, foi o apego de vovô, durante toda a sua vida.


Voronezh - Rússia
Voronezh - Rússia
mais fotos da cidade: http://vrnfot.ru/photo
mapa interativo da cidade








Ele gostava daquele esplendor exótico do Sul, conhecia e compreendia o caráter dos georgianos, dos armênios, dos azerbaidjanos. Morou em Tibilisse, Baku e Batum.




Tbilisse - Capital da Geórgia
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Baku, capital do Azerbaijão
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Batum - Geórgia
(fonte: www.wikipedia.ru)

Ali, nos círculos operários, encontrou-se com os social-democratas M.I. Kalínin e I. Fioletov e tornou-se membro do RSDRP(2), já no ano de 1898. Tudo isto está descrito, de maneira muito interessante, em suas memórias: a Geórgia daqueles tempos, a influência da intelectualidade russa de vanguarda no movimento de libertação nacional georgiano e aquele admirável internacionalismo que já então caracterizava o movimento revolucionário transcaucasiano (e que, infelizmente, logo depois, se extinguiu). Vovô nunca foi nem um teórico, nem um membro preeminente do Partido. Era seu soldado, seu trabalhador braçal, um daqueles sem os quais não se poderiam estabelecer as ligações com os trabalhadores e realizar o trabalho quotidiano para empreender a própria revolução. Mais tarde, nos primeiros anos deste século, viveu com a família em Petersburgo(3), onde trabalhou então, já como contramestre, na Empresa de Energia Elétrica. Trabalhava sempre com entusiasmo e todos o tinham como um excelente técnico e conhecedor de seu ofício. Em Petersburgo, vovô e seus familiares tinham um apartamento de 4 quartos, um desses apartamentos que hoje, aos nossos catedráticos, pareceriam um sonho irrealizável... Seus filhos estudaram no ginásio de Petersburgo e cresceram como autênticos intelectuais russos. Foi assim que a Revolução de 1917 o encontrou. Sobre tudo isso eu ainda volto a falar. Depois da Revolução, vovô trabalhou no setor de eletrificação, na construção da Hidrelétrica de Chatursk, onde viveu e trabalhou por muitos anos, tendo sido, ali mesmo, certa feita nomeado presidente da Empresa Lenenegro.




Chatursk, Rússia

Como velho bolchevista, esteve intimamente ligado à velha guarda revolucionária, a todos conhecia e todos o conheciam e estimavam. Era de uma admirável delicadeza, afável, terno, dava-se bem com todos e, não obstante estas qualidades - que nele constituíam um todo único - era intimamente firme, incorruptível e assim, desta maneira tão orgulhosa, conduziu até o fim da vida (morreu aos 79 anos de idade, em 1945) seu "eu", sua pureza, excepcional honestidade e decência. Conservando essas qualidades, ele, homem afável, podeia tornar-se duro com aqueles que não comprendiam e não podiamalcançar esses traços de seu caráter. Com avantajada estatura, ficou emagrecido na velhice, com as mãos e as pernas compridas e secas, sempre muito asseado e cuidadoso e mesmo elegantemente trajado - hábitos adquiridos em Petersburgo - com seu cavanhaque pontiagudo e bigodes brancos, vovô, de certo modo, fazia lembrar M.I.Kalínin(4). Na rua a garotada, muitas vezes, gritava: "Vovô Kalínin!". Mesmo na velhice, conservou ele o brilho vivo daqueles olhos ardentes e negros como carvão e a capacidade de se alegrar de repente e dar contagiantes gargalhadas. Vovô morou conosco em Zubalovo, onde o adoravam todos os seus numerosos netos. Em seu quarto, havia um banco de carpinteiro, toda sorte de instrumentos, grande quantidade de maravilhosas ferramentas, arames, todas aquelas coisas que nos faziam pasmar, a nós crianças, e ele sempre nos permitia mexer naqueles trastes velhos e tirar dali o que quisessemos. Vovô estava eternamente trabalhando, soldando, afiando, aplainando, fazia todos os consertos necessários na casa, reparava a rede elétrica...


Datcha de Stalin, em Zubalovo (a primeira foto do post também é nesta datcha)

Todos recorriam a ele para uma ajuda ou um conserto. Gostava de caminhar, em longos passeios. A nós vinham juntar-se ainda os filhos de meu tio Pavlucha, que moravam na Zubálovo 2(onde também viveu A.I.Mikoyan) ou o filho de Anna Sergueievna, irmã de mamãe. Vovô gostava de distrair seus netos e de ir ao bosque à cata de nozes ou cogumelos. Lembro-me de como vovô me punha nos ombros, quando eu me cansava, e assim eu navegava lá no alto, acima da vereda, por onde passeavam os outros - e eu alcançava com as mãos até as nozes nos ramos.
A Morte de mamãe o abateu. Ele se transformou, tornou-se reservado e completamente taciturno.


Nadezhda Allilyeva, mãe de Svetlana

Josef Stalin and his wife, Nadezhda Alliluyeva, on a picnic

Quem diria, Stalin e Nadezhda num pic-nic!!!
(anos 20)





Túmulo de Nadezhda

Vovô sempre foi modesto e pouco notado, não gostava de chamar a atenção sobre si- sua calma, delicadeza e afabilidade eram atributos de sua própria natureza ou talvez os tenha assimilado na convivência daquela admirável intelectualidade russa à qual a revolução o ligou por toda a vida.
Depois de 1932, ele se recolheu inteiramente, por muito tempo ficava sem sair do quarto, onde estava sempre a desbastar um pedaço de madeira ou a confeccionar alguma coisa. Tornou-se ainda mais afetivo com os netos. Passou a morar, ora conosco, ora com sua filha Anna, irmã de mamãe, porém sobretudo conosco em Zubálovo. Depois começou a adoecer. Sua alma devia estar mais enfêrma que tudo e, daí, vinha todo o restante - pois em geral possuía uma saúde de ferro.
Em 1938 morreu Pavlucha, irmão de mamãe. Foi mais um golpe. Em 1937, Stanislav Redens, marido de Anna Sergueievna, foi preso e, em 1948, depois da guerra, ela própria, Anna Sergueievna, foi levada à prisão. Vovô, graças a Deus, não viveu até esse dia. Morreu em junho de 1945, com câncer no estômago, diagnosticado muito tarde. Sim, seus males não eram males de senilidade, do corpo: sofria intimamente, porém nunca aborrecia ninguém com seus sofrimentos, nem com pedidos, nem com exigências.

Ainda antes da guerra começou a escrever suas memórias. Em geral, gostava de escrever. Eu recebia, naqueles tempos, longas cartas dele, enviadas do Sul, com descrições minuciosas das belezas da região, que ele tanto amava e compreendia. Tinha o estilo suntuoso de Gorky - ele em geral gostava muito de Gorky, como escritor - e com ele concordava inteiramente em que cada pessoa deve descrever sua vida.

Vovô escreveu muito e com entusiasmo. Infelizmente, não chegou a ver seu livro publicado, apesar de seu velho amigo M.I. Kalínin ter recomendado muito para serem editados aqueles originais de "um velho bolchevista e um rebelde nato".



M.I.Kalínin

A enfermidade, no último ano de sua vida, progrediu impetuosamente. Ele emagreceu de modo assustador: eu o vi no hospital, pouco antes de sua morte, e me assustei. Parecia um esqueleto vivo: já não podia falar, apenas cobria os olhos com a mão e se punha a chorar em silêncio; compreendia que todos vinham ve-lo para o derradeiro adeus... No caixão, ele jazia como um santo hindu - tão bonito com seu rosto sêco e emaciado, o nariz afilado e ligeiramente adunco, os bigodes e a barba cor de neve. O caixão foi velado no salão do Museu da Revolução, onde foi visitado por muita gente - os velhos bolchevistas. No cemitério, o velho revolucionário Litvin -Sedói disse umas palavras que, na época, não entendi direito, mas que guardei para toda a vida e hoje compreendo tão bem o seu sentido: "Nós, a velha geração dos marxistas-idealistas..."
O casamento de vovô com vovó foi totalmente romântico. Com ele, jovem operário de uma oficina de Tifilis(5), vovó saiu de casa, retirando pela janela uma trouxa com suas coisas, quando não tinha, ainda, 14 anos. Na Geórgia, onde ela nasceu e cresceu, a adolescência e o amor chegam cedo, daí nada haver de extraordinário nisso. O extraodinário é que ela tenha deixado sua casa, de relativo conforto, seus queridos pais, uma família imensa de irmãos e irmãs, por um pobre serralheiro de vinte anos. Como lembrança de sua casa, vovó conservou durante toda a vida uma fotografia onde se via toda a família numa carrruagem junto da casa - seu cavalo de estimação, o cão deitado e o cocheiro com as rédeas nas mãos, todas as pessoas da casa, na carruagem, com os peitos estofados, os olhos fixos na máquina fotográfica...
Nossa avó, cujo nome de solteira era Olga Evguenievna Fiodorenka, havia nascido e se criado na Geórgia e amou este país e seu povo durante toda a vida, como sua própria pátria. Ela representava uma estranha mistura de nacionalidades. Seu pai, Evgueny Fiodorenko, apesar do sobrenome ucraniano, cresceu e viveu na Geórgia; sua mãe era georgiana e ele mesmo falava o georgiano. Casou-se com uma alemã, Magdalina Eichgolds, de uma família de colonos alemães. Na Geórgia, desde os tempos de Catarina II, havia colonos alemães que habitavam suas aldeias. Magdalina Eichgolds possuía - como era de se esperar, uma cervejaria, preparava maravilhosamente todos os pratos, teve dez filhos (o último, nossa avó Olga) e costumava levá-los todos à igreja protestante.












Avó de Svetlana

Em família, Fiodorenko falava tanto o alemão como o georgiano. Só mais tarde foi que vovó aprendeu a língua russa e toda a sua vida falou com sotaque tipicamente caucasiano, com vários "vai-me", "chvilo", "guenatzvale", "tchirime"!(6), e aí mesmo incluia "Jesus-Maria" ou seu invariável "Mein Gott!" Muito religiosa sempre, sua vida de "revolucionária", com vovô, só serviu paa depurar-lhe a religiosidade dos antolhos e do dogmatismo. Não reconhecia diferença entre o protestantismo, a igreja gregoriana (dos armênios) e a ortodoxa, e considerava todas estas diferenças um despropósito. E, quando nós, crianças, começavamos a brincar com ela e perguntávamos: "Onde está Deus?"- "Onde está a alma fo homem?, ela se zangava e nos dizia: "Cresçam e amadureçam que vocês saberão onde. Me deixem em paz! Vocês não vão me reeducar!" Ela mostrou que estava certa. Quando eu fiz 35 anos me convenci de que vovó era mais inteligente que todos nós. Educada no amor alemão pelo trabalho, vovó era uma pessoa extremamente laboriosa. Tinha, como vovô, as mãos de ouro - só que femininas. Cozinhava bem, sabia costurar, era ótima dona de casa, com toda a escassez de meios de sua vida com os bolchevistas: prisão de vez em quando e a vida errante de uma cidade para a outra. E era de ver como afligia seu coração a economia doméstica "estatal" que elemtos do govêrno introduziram em nossa casa nos últimos anos - como ela se irritava vendo o desperdício do dinheiro do Estado! Eles não a compreendiam (ou talvez a compreendessem em demasia!) e por isto não gostavam muito dela. Ao contrário do temperamento de vovô, sempre delicado e meditativo, vovó podia, subitamente, exasperar-se, insultando os "donos de casa relaxados", todos os nossos empregados estatais - cozinheiros, mordomos e copeiros, que a consideravam uma "velha déspota", extravagante e caprichosa. Desta reputação que tinha vovó, também ouvimos falar - nós, crianças, que vivíamos com ela em Zubálovo - depois da morte de nossa mãe. E não compreendíamos então, é claro, que vovó tivesse um temperamento tão ardente que não podia calar-se diante desse infame sistema "estatal" de nossa economia doméstica. Não era a toa que ela gostava da Geórgia e ali se criara. Tinha um temperamento típicamente do Sul, quente, com lágrimas de alegria e pesar, com lamúrias e efusivas manifestações de amor, de carinho e de descontentamento. Mamãe, controlada, porém mais severa que vovô, se cansava com as explosões dela, com suas críticas permanentes à educação das crianças, à disciplina da casa - ou, às vezes, a mamãe mesma. E não gostava quando vovó vinha a nossa casa amiúde e interferia nos problemas domésticos. Talvez porque todos os receios e aborrecimentos de vovó fossem, no fundo, inteiramente justos e sensatos, mamãe simplesmente os temia e procurava afastar-se deles.
Mas deixe-me voltar atrás. Seja como for, meus avós formavam um bom casal. Vovó tinha estudado os quatro primeiros anos, provavelmente os mesmos que vovô. Moraram em Tíflis, Batum, Baku e vovó foi sempre ótima esposa, paciente e leal. Ela se dedicava à mesma atividade dele e, embora tenha, ela própria,ingressado no Partido antes da Revolução, constantemente se lamentava, dizendo que "Serguei arruinou a vida dela!" e que com ele só conheceu os "sofrimentos". Quatro de seus filhos - Anna, Fiodor, Pável e Nadezhda - nasceram todos no Cáucaso e eram também sulistas em tudo - na aparência, nas impressões que guardavam da infância, em tudo aquilo que marca a pessoa, insensível e inconscientemente, nos primeiros anos de vida.











Eram todos criaturas excepcionalmente belas, com exceção de Fiodor, que era, em compensação, o mais inteligente e talentoso, a tal ponto que, apesar de sua baixa origem "pequeno-burguesa", foi admitido como guarda-marinha em Petersburgo. Todos da família eram afáveis, cordiais e bondosos. Esses eram realmente traços comuns a todos eles. É possível que a mais inflexível, obstinada e firme tenha sido mamãe, que possuía uma espécie de fôrça e teimosia interiores. Os outros eram mais dóceis. Pavlucha e Anna eram excepcionalmente generosos; e mamãe sempre se queixava deles, dizendo que, juntamente com vovó, só faziam "estragar as crianças". eles acusavam mamãe de "secura", de parcialidade em relação às governantas que "oprimiam" as crianças e não deixavam que elas crescessem "à vontade". Tudo isto, no entanto, eram discussões amistosas, porque, de modo geral, todos eram muito amigos e muito chegados uns aos outros.

Vovô e vovó consideravam que a educação das crianças devia ser, sempre que possível, a melhor e, por isto, quando arrumaram sua vida em Petersburgo, os filhos foram matriculados no ginásio.




Petersburgo, atual cidade maravilhosa de
São Petersburgo(olha eu lá, em 2006)

Vendo as fotografias da época fica-se assombrado com a fisionomia de vovó: ela era muito encantadora! Não apenas por seus grandes olhos cinzentos, os traços corretos do rosto, a boca pequena e graciosa, o porte altaneiro, soberbo, franco, "de rainha", mas também por seus sentimentos de extraordinária dignidade. Por isso, seus grandes olhos pareciam mais abertos e sua figura pequena parecia maior. Vovó era de estatura pequena, bem feita, asseada, elegante, ágil, de cabelos claros e, como se diz, tão sedutora que seus admiradores não a deixavam em paz... É preciso dizer que era próprio dela apaixonar-se e de vez em quando se entregar a aventuras amorosas, às vezes com um polonês, às vezes com um húngaro, com um búlgaro e até com um turco.Ela amava a gente do sul e muitas vezes afirmava, calorosamente, que os "homens russos eram uns cafagestes". Seus filhos, jé em idade de ginásio, viam tudo isto com uma certa paciência, pois, em geral, tudo terminava com sua volta normal à vida do lar. Alguns anos mais tarde, vovê e vovó, embora tenham sofrido demais, e cada um à sua maneira, a morte de mamãe, se separaram e foram morar em apartamentos diferentes. Quando se encontravam, à mesa, em nossa casa de Zubálovo, no verão, tinham picuinhas por coisas insignificantes, e vovô se irritava, principalmente, com as mesquinhas implicâncias de vovó em todas as questões domésticas. Ele se colocava, de certo modo, acima disso tudo; ocupava-se mais com a elaboração de suas memórias. Aqueles resmungos aborrecidos, aqueles "ach!" e "och!", essas lamúrias caucasianas em face das desordens, tiravam-lhe o equilíbrio e a calma. Por isso, cada um deles enfrentou a velhice, a doença e a morte, na solidão, cada qual por si. Cada um acreditava em si mesmo e conhecia seu caráter e interesses, tinha seu orgulho, seu modo de vida, não se agarravam um ao outro, como velhos desamparados. Cada qual amava a liberdade e, apesar de ambos sofrerem a solidão, nenhum deles queria renunciar à liberdade nos últimos anos de suas vidas. "Liberdade, liberdade, eu amo a liberdade!" - gostava de exclamar vovó e, com isto, dava a entender, com toda a clareza, que foi precisamente vovô quem a privou dessa mesma liberdade e, de modo geral, "arruinou sua vida".

Estou o tempo todo a avançar sobre o futuro, quando falo do passado. Assim devo fazer porque não é possível respeitar uma sequência cronológica. Os pensamentos surgem inesperadamente.

Nos anos anteriores à Revolução, vovó, além de dirigir a casa e a educação dos quatro filhos, para os quais costurava, ainda frequentava um curso de parteira e como tal trabalhou excelentemente. Gostava de crianças, amava a vida e esse trabalho lhe parecia notável e dava a ela uma satisfação espiritual grandiosa. Quando começou a Primeira Guerra Mundial, vovó passou a cuidar dos soldados feridos em um hospital e, durante toda a sua vida, guardou as cartas daqueles soldados que se restabeleciam e regressavam a ausas casas. Ela me mostrava essas cartas e as guardava com amor e enternecimento. Costurava em casa, naquele tempo, roupa de baixo para soldados e o fazia com habilidade e rapidez, como tudo de que se ocupava.

É preciso dizer que, apesar de seu amor ao trabalho e de suas "mãos de ouro", não tinha - nem ela nem vovô - absolutamente senso prático em sua vida particular. Já nos últimos anos, às vezes em Zubalovo, as vezes em casa de anna Sergueievna, gozando os pequenos privilégios (sobretudo simbólicos) de velhos bolchevistas, recebendo uma mísera "pensão", ambos revelavam o máximo desdém pelos bens terrenos. Usavam ainda, ambos, suas roupas de antes da Revolução. O sobretudo tinha já vinte anos e vovó reformava seus pobres vestidos, fazendo de três molambos um novo e decente. Isso não era um ascetismo hipócrita, mas simples ausência de necessidades supérfluas e também a completa incompreensão e, por assim dizer, falta de consciência de sua nova e "alta" posição em nossa nova sociedade: a mesma graças à qual outros parentes, "augustíssimas" personalidades, criavam uma vida luxuosa para si e para todos os seus parentes - próximos e distantes. E eles nem sequer pensavam em tal coisa.

Mamãe mesma era extremamente sóbria em suas necessidades vitais; somente nos últimos anos de sua vida, é que Pavlucha, então servindo em nossa representação diplomática em Berlim, lhe mandou alguns vestidos bonitos, com os quais ela se tornava inteiramente irresistível... mas, normalmente, andava com as roupas mais modestas, feitas em casa, e só de vez em quando tinha algum vestido "melhor" confeccionado por costureira. Mas, de qualquer maneira, mamãe estava sempre encantadora.


Svetlana pequena e seu pai
Svetlana e a mãe

Esta completa ausência de avidez do pequeno-burguês era tida por muitos até como ofensiva: achavam e diziam ser inconcebível que o genro "não pudesse" vestir melhor os velhos "indigentes"...Mas o próprio genro trajava no verão uma roupa de linha, semelhante a um uniforme militar, e no inverno, um capote de lã,com uns 15 anos de uso, além de uma peliça curta e extravagente, revestida de pele de veado, com forro de petit gris, que deve ter sido "arranjada" logo depois da Revolução, juntamente com a uchanka(7),usada no inverno até seus últimos dias de vida...




Uchanka
Os "velhos indigentes", "marxistas-idealistas", eram fortes de espírito, cheios de vida, inesgotáveis e eternos.

Meu pai já de há muito conhecia bem a família dos Allilyevs. Desde o fim do século passado. Ele amava e respeitava muito a ambos e isto era recíproco. Sobre seus primeiros encontros, ligados ao trabalho dos grupos clandestinos, há muita coisa escrita nas memórias de vovô - e não vou repeti-la. A propósito, a estória da família refere que papai, ainda jovem, salvou mamãe. Foi em Baku, quando ela tinha dois anos. Brincando no cais, caiu no mar e ele a retirou das águas. Para mamãe, pessoa romântica e impressionável, semelhante início de idílio provavelmente teve imensa significação quando ela, ginasianda de dezesseis anos, o encontrou depois. ele voltava da Sibéria, um revolucionário exilado de 38 anos e velho amigo da família.




De que mais posso me lembrar?... Lembro-me apenas que vovô e vovó moravam conosco em Zubalovo, embora seus quartos ficassem situados em lados opostos da casa. Eles se sentavam à mesa com papai, a quem vovô se dirigia, dizendo " tu, Ióssif", enquanto vovó o tratava de "senhor Ióssif" e papai sempre se dirigia a eles muito respeitosamente, chamando-os pelo nome e patronímico(8). Assim também era, lembro-me, depois da morte de mamãe. Meus avós sofreram terrivelmente com a morte de minha mãe, mas compreendiam muito bem comoo fato era também penoso para papai e por isso - como me pareceu e parece - em suas relações com ele nada se alterou. Esse sofrimento comum nunca era comentado em voz alta, mas invisivelmente estava presente entre eles. Talvez por esta razão, quando toda a nossa casa de desfez, papai frequentemente esquivava-se ao contato com meus avós. Antes da guerra, ele ainda se encontrava com eles, nas esporádicas aparições de meus avós no nosso antigo ninho de Zubalovo; e isto acontecia geralmente no verão e todos se reuniam em volta da mesa, ao ar livre, e aí faziam sua refeição. Mas pelo visto, estas visitas constituiam, para meu pai, uma recordação demasiado penosa do passado. Geralmente ele saía com ar sombrio, insatisfeito e, às vezes, brigado com alguma das crianças.Vovô e vovó sempre iam visitá-lo.
Vovô vinha ao nosso apartamento no Kremlin e ficava sentado no meu quarto esperando muito tempo pela vinda de papai para jantar. Jantávamos habitualmente por volta de 7 ou 8 horas da noite, quando papai chegava, ao fim do dia de trabalho, de seu gabinete no Comitê Central ou no Conselho de Ministros (naquele tempo, denominado Sovnarkome)(9). Ele jantava sempre com alguém e vovô só conseguia, no melhor dos casos, sentar-se à mesa com ele, em silêncio. Vez por outra papai caçoava de suas memórias, porém, devido ao respeito que tinha ao velho, nunca se permitiu fazer, a esse propósito, pilhérias grosseiras. As vezes, quando vinha muita gente com papai, meu avô suspirava e dizia: - "Bem, vou andando, virei outra vez." E esta outra vez era dentro de seis meses ou um ano. Antes não lhe era possível, pois pelo visto, isto constituía para ele uma experiência penosa. Por sua delicadeza e excepcional escrúpulo, vovô nunca indagou a meu pai sobre o destino de seu genro Redens, muito embora o destino da própria filha, Anna, a vida desfeita, dela e de seus filhos, muito o preocupasse. Sofria tudo calado e tranquilamente, assobiando alguma coisa, displicentemente, como era seu hábito. Ainda havia nele muito orgulho para ficar implorando ou insistindo em algum pedido. As pessoas sem amor-próprio, sem a consciência de sua dignidade, talvez não entendam isto. Como é possível estar ao lado de tal homem sem nada lhe pedir? Sim, nada...
Já vovó era, neste sentido, mais natural e mais primitiva. Sempre deixava acumular algumas reclamações e necessidades em relação aos problemas domésticos, para, no momento oportuno, recorrer inclusive a Vladímir Ilitch (11) (que tanto conhecia e estimava nossa família) e depois a papai.


E, muito embora a época do colapso econômico e do comunismo de guerra já houvesse acabado havia muito tempo, vovó, pela sua inadaptabilidade à "nova vida", muitas vezes se via em sérias dificuldades com relação às coisas mais essenciais. Mamãe se sentia constrangida de "surrupiar tudo de casa" para ajudar os parentes, inclusive por causa dos princípios morais que se impunha. Então frequentemente vovó, completamente desorientada, se dirigia a papai com um pedido como este, por exemplo: "Ah, Ióssif, imagine que eu não consigo encontrar vinagre em parte alguma!" Papai soltava uma gargalhada, mamãe se enfurecia e tudo afinal se acertava.
Depois da morte de mamãe, vovó se sentia constrangida em nossa casa. Morava com a gente ora em Zubálovo, ora no Kremlin, nos seus pequenos aposentos muito asseados, sozinha, no meio de seus velhos retratos e de suas velhas coisas, que a acompanhavam, de uma cidade a outra, durante toda a sua vida:velhos tapetes do Cáucaso, já puídos de uso, o mesmo estrado caucasiano, coberto com um tapete, tapetes também nas paredes, travesseiros e rolos, alguns baús seculares, bibelôs baratos de Petersburgo; tudo, no entanto, no maior asseio, ordem e arrumação. Eu adorava visita-la, sentia-se ali uma atmosfera tranquila, cálida e acolhedora, mas infinitamente triste. Que coisas alegres teria ela então para contar?
Mas a saúde e o amor à vida eram, nela, inesgotáveis. Já com seus 70 anos, tinha ainda uma aparência magnífica. De estatura pequena, andava sempre com a cabeça erguida e um ar altaneiro, o que talvez lhe desse a aparência de maior altura. Sempre com um vestido limpo, asseado, feito por ela própria de alguns outros trapos, infalivelmente com um rosário de âmbar enrolado no pulso da mão esquerda(12). Toda arrumada, penteada, ela era uma beleza; sem uma ruga, nenhum sinal de velhice. Por último, vinha sofrendo do coração, resultado das desgraças e sofrimentos morais. Ela, sofridamente, dava tratos à bola e não podia atinar com o motivo da prisão de sua filha Anna. Escrevia cartas a papai, entregava-as a mim e depois pedia-as de volta... Sabia que isso não ia adiantar coisa alguma. Ante as desgraças que atingiam nossa família, uma após outra, ela assumia uma atitude por assim dizer fatalista, como se as coisas não pudessem ser mesmo de outro jeito...
Morreu vovó no princípio da primavera de 1951, em consequência de um de seus espasmos, de modo inesperado: estava com 76 anos. Dois anciães solitários - vovô e vovó - não incomodavam ninguém com seus sofrimentos. E destes poucas pessoas tinham conhecimento: eles eram, com aqueles que os cercavam, amáveis e discretos. Penso que o provérbio espanhol se aplica bem a eles dois: "As árvores morrem de pé"!...
Eu sinto tanto agora - quando já tenho um filho adulto e tavez dentro de dois ou três anos terei também netos - que não os compreendesse antes. Enfim, será que os netos entendem seus avós, e os filhos, seus pais? Nós gostávamos mais de vovô: achavamos a vovó barulhenta, uma velha irriquieta. Ambos, no entanto, eram senhores da verdade e da pureza, cada qual a seu modo. E poderíamos nós, seus netos, lhes contrapor alguma qualidade nossa melhor que essas?...
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(1) publicação do Instituto Marx-Engels-Lenin, de Moscou, onde se conservam os originais.
(2) Partido Operário Social-Democrata Russo(Russkaia Sotsial-Demokratitcheskaia Rabotchaia Pártia) (3)Na época, nome São Petersburgo, fundada por Pedro, o Grande, capital do império russo, depois se chamou Petrogrado, Leningrado e atualmente S.Petersburgo. (4)Procer soviético. Chegou a ser presidente do Presidium do Soviete Supremo da URSS, cargo equivalente ao de Presidente da República em regime parlamentar. (5) Nome empregado em russo para designar a capital da Geórgia. Parágrafos anteriores a autora empregou, para a mesma designação, a palavra Tibilisse, que corresponde à fonética georgiana. (6)expressões da língua georgiana (7)Gorro forrado de pele, , com abas prolongadas para proteger as orelhas. (8)Sinal de respeito e falta de intimidade, entre os russos. (9)Sigla extraída de soviet Naródnikh Komissárov (conselho de Comissários do Povo). (10)Lenin (11)tipo de rosário usado no oriente por muculmanos e pessoas de outras religiões.

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