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sexta-feira, 3 de março de 2017

Carta de Dostoievski ao seu irmão Mikhail

Fonte da foto: http://www.fedordostoevsky.ru/works/letters/1845-1849/22-12-1849/

No envelope se lê: Para Mikhail Mikhailovitch Dostoievski, na Avenida Nevski, em frente à Rua Gryaznaya (1), na casa de Neslinda (2).

Através desta carta, a gente pode acompanhar um pouco das agruras passadas pelo titã russo durante o período em que foi preso, sob alegação de participar das reuniões do  círculo Petrachevski, apesar de ele já não participar mais de tais reuniões há meses.


 Mikhail Dostoievski
(fonte: wikipedia.ru) 

Mikhail Mikhailovitch Dostoievski  era o irmão mais velho de Fiodor Dostoievski. Era, ele também, um escritor, tradutor, dramaturgo e editor de jornais. Esteve preso na Fortaleza de Pedro Paulo no ano de 1849, sob acusação de envolvimento com o círculo de Petrachevski, assim como seu irmão Fiódor, mas foi solto antes, tendo ficado pouco mais de um mês, ao passo que Fiódor, além de ter ficado na mesma prisão por 8 (oito) meses (incluindo solitária), foi, ainda, mandado para um presídio e trabalhos forçados na Sibéria, na cidade de Omsk. Isto posto, vamos à carta.

sábado, 5 de setembro de 2015

UMA CARTA DE GORKI A TCHEKHOV


acima: Gorki e Tchekhov em 1900, nos jardins
da dacha de Tchekhov, em Yalta

 
A carta aqui transcrita foi extraída do livro "Carta e Literatura - Correspondência entre Tchékhov e Górki". Lançado pela Edusp, vale a pena ser lido do começo ao fim.
Estes dois titãs da literatura russa se conheceram pouco antes de morte de Tchékhov, aos 40 anos. Entre eles nasceu uma amizade e uma relação 'mestre/discípulo': Gorki, apesar de mais velho, estava no início de sua carreira. Passaram a se corresponder com freqüência , passando a existir entre ambos verdadeira troca intelectual. E é um pouco desta troca que deixo para vocês hoje. Trata-se de uma carta de Gorki a Tchekhov, na qual ele expõe suas impressões sobre Lev Tolstoi, após te-lo ido conhecer nos arredores de Moscou. Apaixonada que sou pelo velho conde, amei esta carta, em especial e da definição que o escritor do "realismo soviético" dá a gênio: Lev Tolstoi!


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

TRÊS DIAS NA VIDA DE TOLSTOI


Os "Diários Íntimos de Lev Tolstoi e Sofia Tolstaia  foram editados, no Brasil, em 1943 pela Editora Vecchi. Esta é a edição que tenho e desconheço outra. Não compreendo  o desinteresse de nosso mercado editorial por esta obra, essencial para os amantes da literatura russa . Enquanto não surge alguém que a queira reeditar, vou compartilhando pequenos trechos com o amigo do blog. 

O trecho escolhido para hoje foi o do dia. 3/10/1910, pouco menos de um mês da morte deste titã e foi extraído do diário de Sofia (veja outros trechos aqui).
 Sofia Andreievna
Os dois, Lev e Sofia, viviam, então, a pior crise na história de seu casamento e, neste trecho Sofia, mulher possessiva e de gênio forte, sentiu arrependimento de suas ações ao ver o estado do marido.
 "Pela manhã Liev Nikoláievitch  passeou, depois andou a cavalo durante alguns instantes; de volta a casa, queixou-se de suas pernas entorpecidas de frio e deitou-se sem tirar as botas. Entrei no quarto dele durante nosso almoço e reparei aterrorizada que ele estava divagando e mergulhando no sono. Depois começou qualquer coisa de horrível. Contorções de rosto, caimbras pavorosas nas pernas. Dominou-me o terror, o desespero e o arrependimento. À noite as caimbras cessaram. Passei a noite toda numa cadeira junto a Lev Nikoláievitch. Ele dormia, embora gemesse muito. Durante a noite, minha filha Tania chegou".
Sierguiei Tolstoi (1) escreve, em sua biografia, que neste mesmo dia,
"depois que despimos e deitamos meu pai, minha irmã Sacha(2) retirou seu pequeno Diário do bolso da sua blusa e mo entregou...A 4 de outubro, pela manhã, meu pai despertou inteiramente lúcido, após ter dormido um sono profundo, mas estava muito fraco: perguntou a Sacha onde estava seu pequeno Diário. Sacha disse_lhe que estava comigo e chamou-me. Entreguei o Diário a ele, dizendo:"Não o li".
Tive a alegria de ouvi-lo dizer: "Oh, tu, tu terias podido lê-lo".
A situação, tanto física quanto emocional, do escritor, foi se deteriorando mais e mais e no dia 26 de outubro, Tolstoi escrevia em seu Diário:
"Esta vida me pesa cada vez mais.Maria Aleksandrovna(3) me proíbe de partir e minha consciência também não mo permite. Suportá-la, sem que alguma coisa exterior se transforme, mas trabalhar, ao mesmo tempo, na transformação dos meus sentimentos interiores. Meu Deus, ajuda-me!"
Maria Aleksandrovna havia lhe dito as seguintes palavras, ao ouvir dele suas intenções de se afastar de Iasnaia Poliana:
"Lev Nikolaevitch, meu querido, isto há de passar, é uma fraqueza momentânea."E o conde assentiu:
"Sim, sim, sei que é uma fraqueza, isto há de passar, espero que passe".
Em 31 de Outubro, já em Astapovo, sua última estação, Tolstoi fez a sua última anotação no Diário, à 1 hora e trinta minutos da tarde:
"Se quisermos esclarecer pela noção de Deus os fenômenos da vida, não se encontrará nesta noção de Deus e da vida coisa alguma fundamentada e sólida. São raciocínios vãos que a nada conduzem. Só conhecemos Deus adquirindo consciência de sua manifestação em nós mesmos.Todas as decisões de nossa consciência e a direção da vida que nela se baseia dão sempre plena satisfação ao homem, tanto para conhecimento do próprio Deus, quanto para a direção da vida fundada sobre esta consciência".
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(1)Serguey Tolstoi, filho do casal, responsável pelo
prefácio aos Jornais de Sofia Andreevna. Foi músico.

(2)Aleksandra Tolstaia, filha caçula do escritor, falecida em 1979, aos 95 anos. Era ela quem redigia os manustritos do pai.Fotos dela a seguir:
Sacha é a pequenina perto do pai
No fim da vida
(3)Filha mais velha do poeta Aleksandr Puchkin e grande amiga de Tolstoi, retratada, a seguir, na juventude. Na época em que Tolstoi escreveu seus diários, Maria já era uma senhora idosa.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O MENINO MENDIGO - DOSTOIEVSKI: NOVO CONVITE À REFLEXÃO

 Quanto mais leio Dostoievski, mais me surpreendo com sua gritante atualidade. Os problemas da São Petersburgo de sua época, são muitas vezes semelhantes aos problemas do Brasil atual e de muitos outros países emergentes. Isto só me convence, mais e mais, que a humanidade desenvolve novas tecnologias, apresenta notáveis avanços,mas tudo sempre para ser usufruído, principalmente, pelas classes dominantes. No essencial, no que concerne aos pobres e desvalidos apresenta pequenos ganhos, vez ou outra, aqui ou ali, mas, no geral,   não muda muita coisa, continuamos  estagnados e vai continuar assim enquanto não houver uma mudança sistêmica de porte, rumo ao Socialismo. E ninguém vai me convencer de que o socialismo é inviável, usando o discurso equivocado de que "não deu certo na URSS, nos países do Leste" ou coisas do tipo, por que o Socialismo, até hoje, ainda não existiu, de fato. Lendo o texto abaixo, você tem a impressão de que se trata do Brasil, onde existem crianças sendo exploradas não só pelos pais, mas pelos já famosos "pais de aluguel". Esta situação sempre preocupou muito Dostoievski que, em seu Diário de Um escritor, de onde foi extraído este texto, deixou outros com o mesmo teor de preocupação. Agora, leia você mesmo e me diga: não parece a própria história de nossos menores de rua?
 "Este ano, quando o Natal estava próximo, passava muitas vezes na rua diante de um menino talvez de uns sete anos de idade, que eu via sempre acocorado no mesmo canto. Ainda o encontrei mais uma vez na véspera da festa. Debaixo de um frio terrível estava vestido como se fosse verão,trazendo, à guiza de xale, um pedaço de pano velho enrolado  em roda do colo. Pedia esmolas, apresentava a mão, conforme costumam fazer os pequenos mendigos de São Petersburgo. São muitos os pobres meninos enviados dessa maneira a implorar a caridade dos transeuntes, a gemer  algum estribilho que aprendem de cor. Aquele, porém, não gemia: falava ingenuamente, como qualquer novato na profissão. O olhar dele tinha um quê de franco, o que me confirmou  na convicção de tratar-se de principiante. Às perguntas que lhe fiz respondeu que tinha uma irmã doente, que não podia trabalhar; pareceu-me verdadeiro o que dizia. Além disso, somente mais tarde fiquei sabendo do número enorme de crianças que mandam mendigar daquela maneira, quando o frio é mais rigoroso. Se nada arranjarem poderão ter a certeza de serem espancados ao voltar para casa. Quando conseguir juntar alguns copeques, o pirralho dirige-se, com as mão roxas e intumescidas, para o buraco em que um bando de vendedores de roupas usadas e de operários folgados, que deixaram a fábrica no sábado para aparecer somente na terça feira seguinte, fartam-se a comer e beber conscientemente. Nesses buracos  as mulheres magras e surradas bebem álcool em companhia dos maridos, enquanto choramingam á porfia, as criaturinhas ainda de peito. Aguardente, miséria, sujeira, corrupção e, antes de tudo e sobretudo, aguardente!
Apenas chegado, manda-se o menino à venda com o dinheiro mendigado, e quando chega com oálcool, divertem-se com ele fazendo-o beber uma dose que lhe corta a respiração e, subindo-lhe à cabeça, o faz rolar pelo chão, para grande gáudio de todos os presentes.
Quando o menino atinge catorze ou quinze anos, colocam-no logo em uma fábrica, com a obrigação de entregar à família  tudo quanto ganha, gastando-o os pais em aguardente. Antes, porém, de atingirem a idade em que possam trabalhar. esses meninos se transformam em estranhos vagabundos. Andam à solta pela cidade, acabando por descobrir onde possam meter-se para passar a noite sem terem que voltar para casa. Um desses rapazolas dormiu durante algum tempo em casa de um empregado subalterno da Corte: tinha feito a cama em uma cesta , sem que o dono da casa percebesse. É claro que não demoram muito para começar a roubar. E, muitas vezes, o roubo chega a converter-se em paixão, em pequenos de oito anos que dificilmente se julgam culpados por terem os dedos demasiadamente ágeis.
Cansados dos maus-tratos dos que os exploram, fogem e não voltam mais aos buracos em que os maltratavam; preferem sofrer fome e frio e ter a liberdade de vagabundar por conta própria.
Freqüentemente esses pequenos selvagens não sabem nada de nada; ignoram a que nação pertencem, não sabem onde vivem e jamais ouviram falar de Deus ou do Imperador. Muitas vezes sabe-se a respeito deles o que há de mais inverossímil, mas que, entretanto, é verdade.
Fonte: Diário de Um Escritor

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

SVETLANA ALLILYEVA - 20CARTAS A UM AMIGO: CARTA NÚMERO 1- OS ÚLTIMOS DIAS DE STALIN

 Me desculpem os leitores deste blog pequeno e desordenado, mas vou postar hoje a carta número 1 da filha de Stalin. Ela deveria ter sido a primeira desta série de posts, o que não aconteceu, já que vou escolhendo as cartas do dia de forma bastante aleatória.  A princípio, a coisa foi sendo orientada pelo meu interesse: postava a que, a meu ver, era a mais interessante. Depois de já ter postado 5 cartas, passo a me guiar pela minha disposição e tempo: as cartas são longas, daí estar escolhendo as menos longas entre elas. Isto, é claro, sem prejuízo do interesse, já que todas oferecem ao leitor uma visão única do ditador soviético e momentos históricos vividos na antiga URSS por alguém que circulava nos bastidores do poder. Além do que, como a própria Svetlana deixa bem claro, já no primeiro parágrafo da primeira carta, a ordem das mesmas não é seqüencial, logo, pouca diferença faz a ordem em que eu as edito.Sendo assim, vamos direto ao que importa: à carta número 1 que começa justamente pelo final de Stalin, em 1953.Uma carta em que ela expressa todo o angustiante conflito de sentimentos em relação ao poderoso pai,potencializado em seus últimos momentos. Interessante, também, saber da reação das pessoas, dos mais graduados membros da URSS, aos mais simples empregados de Stalin. Saber do relacionamento dele com estes empregados. Esta carta me encantou, tanto pelo seu tom humano, quanto histórico. Espero que te encante também.
Boa leitura!
A história será longa. As cartas são extensas. e me anteciparei em certos casos, voltando depois ao começo. Deus me livre, isto não é romance, nem biografia, nem memórias. Minha narrativa não terá seqüência.

Hoje a manhã está maravilhosa. Manhã no bosque: os pássaros cantam, o sol filtra a sua luz através da penumbra verde. Hoje quero falar a você sobre o final, sobre aqueles dias de março de 1953, que passei na casa de meu pai, vendo-o morrer. Significaria aquilo, na realidade, o fim de um era e início de uma nova, como se afirma hoje? Não cabe a mim julgar. Veremos. Meu assunto não é a época, mas o homem.

Aqueles dias foram terríveis. Uma sensação de algo habitual, sólido e seguro se movia, sofria um abalo, começou para mim nesse momento, quando, a 2 de março, vieram procurar-me na Academia, durante minha aula de francês, avisando-me que "Malenkov(6) pede para ir à Blíjnaiaia (assim chamada a casa de campo de papai em Kúntsovo, para distinguir de outras mais distantes). (1) Já era estranho o fato de ter sido outra pessoa, e não meu pai, que me tivesse convidado a ir a casa de campo...
Dirigi-me para lá, com esquisita sensação de ansiedade.
Quando chegamos à cancela e N.S.Khruschev e N.A.Bulgânin(4) fizeram o carro parar na vereda perto da casa, achei que tudo estivesse terminado...Ao saltar do carro, eles me tomaram pelos braços. Os rostos de ambos estavam banhados de lágrimas. "Vamos entrar" - disseram eles. -"Béria(7) e Malenkov contarão tudo a você".
Dentro de casa, já no vestíbulo, senti a atmosfera diferente. Em lugar do silêncio costumeiro, do profundo silêncio, alguém correndo e agitando-se. Quando me disseram, afinal, que a noite meu pai tivera um colapso e que se achava inconsciente, senti-me até aliviada, pois parecia-me que ele não existisse.
Lá pelas três da manhã encontraram-no neste mesmo quarto, deitado exatamente aqui no tapete, junto do sofá, e decidiram transporta-lo para um outro aposento, no sofá onde ele habitualmente dormia.
"Agora está ele lá, com os médicos. Você pode entrar".
Ouvi tudo aquilo, aturdida, petrificada. Os detalhes já não tinham significação. Sentia apenas ma coisa _ que ele ia morrer. Disto não duvidei um só minuto, embora não tivesse falado ainda com os médicos. Simplesmente eu via que tudo ao meu redor, toda aquela casa, tudo estava morrendo diante dos meus olhos. Em todos os três dias que passei ali, só via isto e para mim estava claro que não podia haver outro resultado.
O grande salão onde meu pai estava deitado achava-se repleto de pessoas. Médicos desconhecidos, que viam o doente pela primeira vez (o acadêmico V.N.Vinogradov, que foi médico de papai durante anos, estava preso), agitavam-se terrivelmente em volta dele. Colocavam-lhe sanguessugas na nuca e no pescoço, tiravam cardiogramas, radiografia dos pulmões, a enfermeira não cessava de aplicar-lhe injeções, um dos médicos anotava continuamente no caderno a evolução da doença. Faziam tudo o que era necessário. Todos se movimentavam para salvar uma vida que já não podia ser salva. 

Em algum ponto da cidade a Academia de Ciências Médicas se reuniu em sessão especial, para decidir medidas ainda a serem adotadas. No pequeno salão contíguo, uma junta médica conferenciava ininterruptamente, também decidindo o que fazer. Trouxeram um aparelho de respiração artificial de um certo N.I.I. e com ele, uma equipe jovem de especialistas, os únicos, talvez, capacitados a por o aparelho a funcionar. O volumoso equipamento acabou não sendo utilizado e os jovens médicos olhavam, com espanto, para todos os lados, profundamente deprimidos com o que se passava. De repente, lembrei-me de que conhecia aquela jovem médica. Mas, onde a tinha visto?...Nós nos cumprimentamos, com gestos, mas não conversamos. Todos tentavam permanecer calados, como se estivéssemos no templo e ninguém falava sobre outros assuntos. Ali, no salão, todos tinham consciência de que algo importante, quase grandioso, estava acontecendo e que todos queriam agir de conformidade com isso.
Apenas um homem se conduzia de modo quase inconveniente. Era Béria. 
 
Estava extremamente excitado, e seu rosto já de si tão repulsivo, com aquilo desfigurava-se, refletindo suas obsessões. Essas obsessões eram a ambição de poder, poder, poder, a crueldade, a astúcia. Ele esforçava-se, naquele momento decisivo, para não exagerar a sua astúcia e ao mesmo tempo não deixar de ser astucioso! Isto estava escrito em sua testa! Ele acercava-se da cama e examinava longamente o rosto do doente (papai, às vezes, abria os olhos, mas, aparentemente, sem ter noção de coisa alguma ou numa semi-inconsciência). Béria perscrutava insistentemente aqueles olhos nublados. Ele queria ser sempre ali "o mais fiel, o mais dedicado". Fazia tudo para demonstra-lo a papai, e, infelizmente, durante demasiado tempo, foi bem sucedido...

Nos momentos derradeiros, quando tudo já estava terminando, Béria, de repente, notou-me ali e ordenou: "Levem Svetlana daqui"! Todos os que se achavam em redor olharam para ele, mas ninguém pensou em mover-se. Quando estava tudo acabado, ele foi o primeiro a ganhar o corredor e, no silêncio da sala, onde todos estavam mudos, em torno do caixão, ouviu-se a sua voz alta que não escondia o entusiasmo: "Khustalov! O carro!".

Béria era uma réplica soberba e contemporânea do tipo de palaciano insidioso e a encarnação da perfídia, da adulação e da hipocrisia orientais, que envolveu até meu pai - um homem a quem, em geral, era difícil enganar. Muito do que foi feito por essa hidra mancha hoje o nome de meu pai. Em muitos casos, todos são culpados. Quanto ao fato de que Lavrênti (2) pôde, muitas vezes, enganar meu pai, com sua astúcia, rindo-se disso à socapa, não tenho a menor dúvida. E todos os "de cima" compreendiam isso.

Agora toda a sua sordidez interna vinha à tona. Era-lhe difícil controlar-se. Não era eu só, porém, muitos os que compreendiam isso. Mas temiam-no terrivelmente e sabiam que, a partir do momento em que papai morresse, ninguém na Rússia tinha nas mãos mais poder e força do que aquele homem medonho.
Papai estava inconsciente, segundo constataram os médicos. O ataque foi muito violento; perdera o domínio da voz, a metade direita do seu corpo estava paralisada. Ele abriu os olhos algumas  vezes. O olhar era nevoento e não se sabia se estava reconhecendo alguém. Nesses momentos todos corriam para ele, tentando captar uma palavra, ou ao menos ler um desejo nos seus olhos. Eu estava sentada a seu lado e segurava sua mão. Para mim, nada mais restava. É estranho, mas nos dias de sua doença, naquelas horas em que tinha diante de mim apenas o seu corpo, do qual a alma já se havia desprendido, nos últimos dias de despedida, na Sala das Colunas(3), eu o amava com maior intensidade e ternura do que durante toda a minha vida.  Ele guardava sempre muita distância de mim, de nós crianças, de todos os seus. Nos últimos anos de sua vida, nas paredes dos aposentos da casa de campo havia imensas fotos ampliadas de crianças: menino esquiando, menino ao lado de uma cerejeira em flor. Entretanto, nunca achou tempo para ver cinco de seus oito netos, em uma só vez. Contudo, esses netos que nunca o viram amavam-no e amam-no ainda. Mas naqueles dias, quando ele descansou, afinal, em seu caixão e seu rosto se tornou belo e tranqüilo, senti meu coração dilacerar-se de tristeza e amor.
Uma onda de emoções tão contraditórias e tão intensas, eu nunca senti, nem antes, nem depois disso. Quando, na Sala das Colunas, permaneci em pé durante todos os dias (de fato fiquei em pé, pois por mais que insistissem comigo para sentar e me oferecessem cadeira, eu não podia sentar-me, só podia ficar de pé diante do que acontecia), petrificada e muda, eu compreendia que havia chegado a hora de uma certa libertação. Ainda não sabia e não tinha consciência que espécie de libertação seria, como se expressaria. Mas eu entendia que se tratava  de uma libertação, para todos e para mim também, de um jugo que esmagava todas as almas, corações e pensamentos, com um só bloco.
 Svetlana na Sala das Colunas, 
durante o velório do pai
 Contudo, ao olhar para o seu belo rosto, tranqüilo e até mesmo tristonho, tendo nos ouvidos a música fúnebre (uma antiga berceuse georgiana, canção folclórica com uma melodia triste e expressiva), sentia-me arrebentar de tristeza. Sentia que eu era uma filha imprestável, que nunca fora uma boa filha, que eu vivia em casa como uma estranha,  que eu nunca ajudei em nada aquela alma solitária.Aquele velho homem, doente e por todos abandonado, solitário no seu Olimpo. Aquele que, apesar de tudo,era meu pai e que me amava - como sabia e podia - e a quem eu devia  não só o mal como o bem. Não consegui comer nada durante todos aqueles dias. Não conseguia chorar. Estava esmagada por uma tranqüilidade e uma tristeza de pedra.
A morte de papai foi terrível e penosa. E era a primeira e única morte, até então, por mim presenciada. Deus concede uma morte fácil aos justos...

O derrame cerebral é um processo que vai, aos poucos, atingindo todos os centros e, caso seja sadio e  forte o coração, vai lentamente invadindo os centros respiratórios, causando a morte por asfixia. A respiração da pessoa torna-se cada vez mais difícil e rarefeita. Nas últimas 12 horas , tornava-se claro que a falta de ar era cada vez maior. O seu rosto escureceu e transfigurou-se. Gradativamente suas feições iam-se tornando irreconhecíveis. Seus lábios ficaram enegrecidos. Nas últimas duas horas a pessoa simples e lentamente se asfixia. A agonia foi terrível. Ela o estrangulava à vista de todos. Em dado momento - não sei se isto realmente aconteceu ou se foi apenas uma impressão - provavelmente já no último minuto, ele abriu os olhos, de repente, abrangendo com a vista todos os que estavam ao seu redor. Que olhar terrível aquele: talvez inconsciente, talvez encolerizado e cheio de terror diante da morte e dos rostos desconhecidos dos médicos, debruçados  sobre ele - olhar esse que abrangeu a nós todos, numa fração de segundo, e então, o que era incompreensível e aterrador (até hoje não compreendo e nem posso esquecer), ele suspendeu de repente o braço esquerdo (o único que se movia) e não se sabe se indicava alguma coisa no alto ou se ameaçava a todos nós. O gesto era incompreensível, porém ameaçador, não se sabendo a quem e a que se destinava. No instante seguinte sua alma, num derradeiro esfôrço, libertou-se do corpo.

Pensei que fosse eu mesma morrer sufocada. Agarrei com força o braço da jovem médica, minha conhecida. Ela tremeu de dor, mas continuamos a segurar-nos uma na outra. 
A alma se desprendeu, o corpo se acalmou, o rosto empalideceu e voltou ao seu aspecto normal; dentro de instantes ele tornou-se imperturbável, tranqüilo e belo. Durante alguns minutos - não sei quantos, mas pareceram-me muitos -todos permaneceram petrificados e em silêncio.
Em seguida, os membros do governo precipitaram-se para a saída. Era preciso viajar para Moscou, para o Comitê Central onde todos aguardavam notícias. Eles foram transmitir a notícia que, no fundo, todos desejavam receber. Não cometamos pecados, uns contra os outros: eles foram dilacerados trmbém por sentimentos contraditórios iguais aos meus: tristeza e alívio.

Todos eles (não me refiro a Béria, que era o único espécimen do gênero) se agitavam ali todos esses dias, esforçando-se para ajudar e, ao mesmo tempo, sentindo medo: como iria terminar tudo aquilo? Mas vi também naqueles dias lágrimas sinceras nos olhos de muitos deles. Vi em prantos K.E.Vorochílov, L.M.Kagânovitch, G.M.Malenkov, N.A.Bulgánin e N.S.Kruschev. Além do interesse comum que os unia a papai, era grande o fascínio exercido por sua personalidade privilegiada sobre as pessoas. Ele as atraía e era impossível resistir-lhe. Muitos sabiam e sentiam isto, mesmo os que hoje dizem que nunca o experimentaram, e os que fingem não ter experimentado.

Todos se dispersaram. Restou apenas o corpo que aqui deveria permanecer por mais algumas horas. Era praxe.
Só se achavam na sala N.A.Bulgânin, A.I.Mikoian e eu, que permaneci sentada num sofá, junto à parede em frente. Apagaram a metade das luzes; os médicos retiraram-se. Só a enfermeira chefe e a enfermeira de plantão continuavam ali. Esta última era minha conhecida de longa data, do hospital do Kremlin. Silenciosamente, ela arrumava algo sobre a imensa mesa de jantar, situada no meio da sala.

Aquele era o recinto em que se serviam banquetes e onde se reunia sempre o restrito grupo do Bureau Político. Em torno daquela mesa - durante um almoço ou jantar - decidiam-se ou levantavam-se as questões. "Chegar para almoçar" com papai significava ir para resolver algum problema. Um enorme tapete cobria o chão; poltronas e sofás alinhavam-se ao longo das paredes; a um canto da sala, uma lareira. Papai sempre gostou de ter fogo aceso, no inverno. Em outro canto, havia uma vitrola com discos. Papai possuía uma boa coleção de canções populares - georgianas e ucranianas. Não admitia nenhuma outra espécie de música. Neste quarto se passaram os últimos anos de sua vida - quase vinte anos. Ele agora se despedia de seu dono.

Vieram despedir-se os empregados, sua guarda pessoal. Estes, sim, demonstraram verdadeiro sentimento e dor sincera. Cozinheiros, motoristas, guardas de serviço, copeiras, jardineiros - todos entravam em silêncio, aproximavam-se da cama e choravam todos. Enxugavam as lágrimas como crianças, com as mãos, as mangas, os lenços. Muitos soluçavam, enquanto a enfermeira oferecia-lhes gotas de valeriana, também chorando. E eu, como que petrificada, sentava-me, levantava-me, olhava e nem uma lágrima. Sentia-me incapaz de sair sair dali. Não desprendi os olhos daquilo que via.

Veio despedir-se também a caseira Valentina Vassílevna Stômina - Valétchka, como a chamávamos - que trabalhou nesta casa de campo cerca de 18 anos. Jogou-se de joelhos ao pé do sofá, encostou a cabeça sobre o peito do morto e começou a corar aos gritos como é de uso no campo. Custou a conter-se e ninguém a incomodou.

Todas estas pessoas que serviam a meu pai gostavam dele. Na intimidade ele não era exigente. Ao contrário, era cordato, simples e amável para com os domésticos. E se perdia a paciência era somente com os "chefes" - generais da guarda e generais comandantes. Os serviçais não podiam queixar-se nem do despotismo, nem da crueldade. Pelo contrário, freqüentemente recorriam a ele, pedindo ajuda, sem nunca terem obtido jamais uma recusa. Váletchka - bem como os demais, nestes últimos anos - sabia a respeito dele e o vira muito mais do que eu, que morava longe e distanciada dele. Em torno daquela mesa grande que ela servia, nos grandes banquetes, chegou a ver pessoas de todo o mundo. Presenciou muitas coisas interessantes - dentro dos limites de seu horizonte, é lógico, e agora que nos encontramos, ela refere essas coisas com vivacidade e humor. E, como todos os demais serviçais, ela vai morrer certa de que não houve no mundo pessoa melhor do que papai. E ninguém jamais a fará mudar de idéia.

Tarde da noite - ou melhor, de manhãzinha já -vieram buscar o corpo para a autópsia. Aí, comecei a sentir um tremor nervoso - queria chorar, queria banhar-me em lágrimas. Mas, nada: sentia apenas o tremor. Trouxeram a maca e nela colocaram o corpo de meu pai desnudo - um belo corpo, que absolutamente não era o de um decrépito, de um velho. E apoderou-se de mim uma estranha dor que me golpeava o coração como um punhal, e eu senti e compreendi o que significava ser "carne da carne". Compreendi que cessou de respirar e viver aquele corpo que me deu a vida, e eis que eu ia continuar a viver e viver nesta terra.

Tudo isso é impossível de se compreender enquanto não se vê com os próprios olhos a morte dos pais da gente. E para compreender, em geral, o que é a morte é preciso vê-la, nem que seja uma só vez. Ver como "a alma se desprende" e só ficam os restos mortais. Tudo isso eu não compreendia até então, mas sentia que tudo isso passava através de meu coração, deixando marcas.

E levaram o corpo. A ambulância chegou até a porta da casa de campo. Todos desceram. E todos tiraram os gorros, inclusive os que estavam do lado de fora, perto do alpendre. Eu permaneci à porta, alguém me deu um casaco, tudo tremia em mim. Alguém me abraçou pelos ombros - Era N. A. Bulgânin. O carro fechou bruscamente as portas e partiu. Mergulhei o rosto no peito de Nikolai Aleksandrovitch(4) e afinal rompi em soluços. Ele também chorava e me acariciava a cabeça. Todos estavam ainda à porta; depois começaram a dispersar-se.

Encaminhei-me para a ala de serviço, unida à casa por um longo corredor, através do qual traziam a comida da cozinha. Todos os que ficaram se reuniram aqui - as enfermeiras, os serviçais e os guardas. Sentaram-se à sala de jantar - uma vasta sala com bufê e radiorreceptor. Repetidamente  discutiam sobre o acontecido, como se tinha passado. Obrigaram-me a comer alguma coisa. "Hoje vai ser um dia difícil e você nem dormiu e daqui a pouco terá que sair de novo para a Sala das Colunas; precisa recuperar as forças!" Comi algo e sentei-me na poltrona. Eram cinco horas da manhã. Depois fui para a cozinha. No corredor ouviam-se ruidosos soluços - era a enfermeira, que revelava aqui mesmo, no quarto de banho, um cardiograma, e chorava alto. Chorava tanto como se tivesse perdido de vez toda a sua família..."Aí está, trancou-se e está chorando já há muito tempo", disseram-me.

Como que inconscientemente, todos esperavam, sentados na sala de jantar, uma só coisa. Daí a pouco, às seis horas da manhã, anunciaram pelo rádio aquilo que nós já sabíamos. Mas todos precisavam ouvir aquilo, como se sem isso não pudéssemos acreditar. E eis que, afinal, bateu seis horas. Então, ouviu-se a voz pausada, muito pausada, de Levitan - ou a de um outro, parecida com a de Levitan(5) -voz que sempre comunicava algo importante. E aí todos compreenderam que era verdade, sim, que aquilo tinha acontecido. E todos se puseram de novo a chorar - homens, mulheres, todos. Eu chorava alto e me fazia bem não estar sozinha, sentindo que todas aquelas pessoas compreendiam o que tinha acontecido e choravam junto comigo.

Aqui tudo era verdadeiro e sincero e ninguém deixava de demonstrar sua aflição e sua lealdade. Todos se conheciam uns aos outros, havia já muitos  anos. Todos se conheciam e sabiam também que eu tinha sido uma filha má e que meu pai tinha sido um mau pai, mas  também que meu pai, apesar disso, me amava e que eu o amava. Ninguém aqui o considerava um deus, nem um super-homem, nem um gênio, nem um desalmado -amavam-no e o respeitavam pelas mesmas qualidades humanas comuns, sobre as quais os criados fazem sempre com justeza o seu julgamento.

A seguir, algumas fotos históricas daquele dia:
 No caminho para a sede dos sindicatos, onde estava o corpo de Stalin, houve uma comoção e muitos
foram pisoteados, na tentativa de alcançar a fila.
Alto escalão do governo soviético



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Notas: 
(1)blijnaia significa 'mais próxima'
(2) Kavênti Béria
(3Sede Central dos Sindicatos Soviéticos:
(4)Bulgânin, general da extina União, no período de Stalin.


(5)Yuri Levitan, locutor da rádio da União Soviética;  locutor oficial do cerimonial do governo. Sua voz se tornou um símbolo daquela época para todo o povo soviético.

A seguir, um vídeo com a voz de Levitan anunciando a capitulação alemã na segunda guerra para os que estudam a língua russa praticarem um pouco e para os curiosos conhecerem a voz que marcou uma época.

(6)Georgui Malenkov, político soviético, líder do Partido Comunista e um dos mais próximos colaboradores de Stalin. Conduziu o país de março de 53 - morte de Stalin, até setembro do mesmo ano, chegando a ser Premie da URSS.
 (7) Chefe da NKVD na Geórgia e um dos principais executores do Grande Expurgo. Acusado de crimes de guerra e do Massacre de Katyn. Foi condenado à morte por fuzilamento, acusado de vários delitos, em junho de 1953.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

DOSTOIEVSKI: A SENTENÇA

 Tem um trecho do "Diário de um escritor", do grande mestre de São Petersburgo, que me faz refletir intensamente...Penso nele a cada vez que me revolto com as injustiças do mundo...Penso nele a cada injustiça cometida contra mim ou por mim...Quando me sinto entediada, penso no texto...ou quando me sinto frustrada em meus objetivos. Ou, em momentos mais cruciais, como, por exemplo, há algum tempo atrás ao sofrer a incerteza de uma cirurgia cerebral que, no fim das contas, resultou em sucesso. Claro, sem nunca ter pensado em suicídio, pois,apesar de todas as coisas horríveis às quais o cotidiano está sujeito, amo a vida!

Mas é fantástico perceber, através de um simples texto, a genialidade de Dostoievski em compreender a alma humana, a alma dos que sofriam. Aliás, ele próprio sofreu demais.... E "A Sentença" mostra p'ra gente toda a dimensão desta sua intensa capacidade.Comprove o amigo do blog com a leitura do texto.

 "Aqui está o raciocínio de "suicida por tédio", naturalmente materialista."
Que direito tinha a Natureza de trazer-me ao mundo obedecendo às suas pretensas leis eternas? Sou consciente. Por que essa Natureza me criou sem meu consentimento, a mim, consciente; isto  é, capaz de sofrer? Mas não quero sofrer mais. Para que serviria? A Natureza, pela voz da minha consciência, declara-me haver no Universo harmonia geral. Nela se baseiam as religiões humanas. E se não quiser  desempenhar o meu papel nessa harmonia, será necessário que, apesar de tudo, me submeta às declarações da minha consciência? Será preciso aceitar o sofrimento em vista da harmonia do conjunto? Se me fosse dado escolher, preferiria ser feliz durante o curto momento da minha existência; preocupo-me infinitamente pouco com o todo e com o que acontecerá a esse todo quando estiver morto. Por que motivo irei preocupar-me com a sua conservação em época em que já terei desaparecido? Preferiria viver como os animais, que são inconscientes. Parece-me que a consciência, longe de cooperar para a harmonia geral, é causa de cacofonia, visto como me faz sofrer. Olhem as pessoas que são felizes neste mundo, as que consentem sofrer! São precisamente os que parecem com os animais, que se aproximam da besta pelo desenvolvimento limitado da consciência; os que vivem vida brutal, que consiste unicamente em comer, beber, dormir e procriar. Comer, beber, dormir: isto significa, em linguagem humana, voar, roubar e construir um ninho. Poderão objetar ser possível construir um abrigo de maneira razoável, digamos mesmo, científica. Mas... para que? Para que criar uma situação de maneira justa e sábia na sociedade humana? Ninguém responderá a tal pergunta.
Sim, se eu fosse flor ou vaca, talvez me sentisse feliz. Mas nada há que me faça experimentar alegria. Até mesmo a sorte mais elevada, a de amar aos seus semelhantes, é vã, visto como amanhã tudo ficará destruído, tudo voltará ao caos.
Admitindo-se mesmo por um momento que a humanidade marche para a felicidade, que os homens do futuro sejam perfeitamente ditosos, bastará saber que para obter tal resultado a Natureza teve necessidade de martirizar milhões de seres durante milhões de anos para essa idéia tornar-se insuportável e odiosa. Sem levar em conta que a Natureza se apressará a mergulhar mais uma vez essa felicidade no nada.
Às vezes se me apresenta pergunta horrivelmente triste: e se o homem fosse somente objeto de uma experiência? E se não se tratasse senão de saber se é ou não capaz de adaptar-se à vida terrestre? Mas não, não há nada, não és experimentador, logo não és culpado; tudo está feito de acordo com as leis cegas da Natureza e não só a natureza não me reconhece o direito de interrogá-la, e não me responde, mas não pode admitir seja o que for, nem responder.

Considerando que quando a consciência me responde em nome da Natureza nada mais faço senão emprestar as próprias idéias à consciência e à natureza;

Considerando que, nessas condições, sou ao mesmo tempo quem pergunta e responde, réu e juiz, parecendo-me esta comédia estúpida e intolerável e até mesmo humilhante; 

Em minha condição incontestável de quem pergunta e responde, de juiz e réu, condeno a Natureza, que me criou insolentemente para que sofra, a desaparecer comigo.

Como não posso executar toda a minha sentença, destruindo a natureza ao mesmo tempo que a mim mesmo, suprimo-me a mim mesmo, entendiado de suportar uma tirania de que ninguém tem culpa".

sábado, 13 de agosto de 2011

REFLETINDO COM DOSTOIEVSKI

No seu "Diário de um escritor" Dostoievski inseriu um texto digno de nota - aliás, como tudo o que escreve - que me chamou a atenção pela sua surpreendente atualidade. Trata-se do cuidado que se deve ter com a infância e a adolescência, coisa que se faz mais urgente nos dias de hoje e, principalmente, em nosso país,onde vemos tanto descaso e tantos absurdos acontecendo, envolvendo menores que são utilizados pelo tráfico de drogas, menores que pegam em armas e muito mais. Tudo isto porque tem criança fora da escola, jogada nas ruas: "A rua é escola em que se aprende muito depressa!", já dizia o mestre russo em 1876, alegando que as crianças daquele tempo necessitavam mais atenção do que as de sua infância "por estarem expostas a perigos maiores". Imaginem, então, as crianças do século XXI, bombardeadas por todos os tipos de influências - boas ou más - geradas pelas modernas tecnologias, pela televisão e, nos países onde a educação não é meta prioritária, pelas malignas influências da rua, que atingem os pequeninos lançados à própria sorte, fazendo malabarismos em sinais, se expondo ao perigo dos cruzamentos e dos bandidos que se aproveitam da impunidade infantil para inicia-los na vida criminosa.

O texto é um convite a pais e educadores a ponderarem quanto à necessidade de um efetivo acompanhamento das crianças e adolescentes, de uma maior vigilância quanto às suas companhias e aos conteúdos que lhe são repassados, coisa, infelizmente, difícil,mas necessária.

Leiam o texto e reflitam: se lembrem dele na hora de votar, não desperdiçando votos com candidatos não comprometidos com a educação, que negam o mísero piso salarial aos professores, como o caso do "desgoverno" de Minas, meu estado. Enquanto existir criança fora da escola, jogada nas ruas (crime dos crimes!) não podemos pensar em um país sem violência. Se lembrem deste texto, também, na educação de seus filhos. Verifiquem os sites pelos quais andam a navegar; sejam presentes sempre!

(o texto a seguir foi extraído do livro "Diário de Um Escritor", editado pela Ediouro)


Cracolândia:foto extraída do Estadão
"Quero contar o que segue para não esquecer:
Uma senhora vivia com a filha de doze anos de idade, em um arrebalde de S.Petersburgo, afastado do centro. A família não era rica, mas a senhora trabalha para viver e a filha freqüenta uma escola na cidade. Vai à escola e volta de ônibus de Gostinoi Dvor até perto de casa.

Já haviam passado dois meses quando o inverno chegou repentinamente e a mãe percebeu que a filha Sacha não estudava as lições. Advertiu-a.

-Mamãe, não se preocupe! respondeu a menina. Estou perfeitamente preparada: estou, pelo menos, adiantada uma semana.
-Se assim é, está bem.

No dia seguinte Sacha foi à escola; mas ao anoitecer, o chofer do ônibus trouxe uma cartinha nos seguintes termos:
'Minha querida mãezinha: comportei-me mal durante toda a semana. Tive três zeros nas lições; enganei-te até agora. Tenho vergonha de voltar para casa e não me verás mais. Perdoa-me, querida mãezinha, perdoa-me.Tua Sacha.'
Pode imaginar-se a horrível inquietação da mãe. Quis abandonar o trabalho para correr em busca da filha. Mas onde? Como? Uma pessoa amiga ofereceu-se para dar todos os passos necessários e foi tomar informações na escola, em casa de todos os conhecidos, andando de um lado para o outro a noite inteira. O receio de que Sacha, arrependida, voltasse para a casa e fosse de novo embora se não encontrasse a mãe, fez com que esta ficasse em casa, confiando no zelo do bondoso amigo. Se não aparecesse até o amanhecer, iriam dar parte à polícia. Sozinha dentro de casa, é fácil de imaginar que horas aflitas passou.

E a mãe conta que por volta das dez da noite ouviu uns passos miúdos sobre a neve do pátio, que lhe eram bem conhecidos: passou a ouvi-los subindo a escada. Abriu a porta e Sacha entrou.
- Mamãe! mamãe! Que felicidade voltar para casa!
Cobria o rosto com as mãos; sentou-se na cama, mas como estava cansada!
Depois das primeiras exclamações de alegria, a mãe não quis chamar-lhe a atenção pelo que tinha feito.

- Mamãe! quando ontem te menti a respeito das minhas lições, resolvi não ir mais à escla e não voltar mais aqui. Se não fosse à escola seria obrigada a enganar-te todos os dias quando dissesse que lá estivera...
- E o que querias fazer?
- Pensava em andar pelas ruas o dia inteiro.. Minha roupa é bastante quente, e se sentisse frio procuraria algum abrigo. Em lugar de comer todos os dias compraria um pãozinho. Não seria grande a dificuldade para beber água, visto como agora há neve. Um pãozinho por dia seria bastante. Tenho aqui quinze copeques, e o pãozinho custa três. Seriam cinco dias.
- E depois?
- Não sei. Não pensei no depois.
- E onde irias passar a noite?
- Já tinha pensado nisso. Quando caísse a noite, iria à estação da estrada de ferro; mas longe, na estrada, onde não passa ninguém. Encontram-se muitos vagões vazios que não vão viajar. Metia-me num deles e dormia até amanhecer.
Foi assim que ali estive de noite, longe, muito longe na estrada; ali, onde já não via ninguém vi vagões separados, diferentes dos de passageiros. Escolhi um deles; ia subir, mas apenas pus o pé no estribo apareceu um guarda que gritou: "Onde vai? Esses vagões são para transportar os mortos!" Quando o ouvi dizer isso, pulei no chão e fugi. O guarda me perseguiu, gritando: "Que é que estás fazendo aqui?" Corri! corri! Achei-me em uma rua onde havia uma casa em construção. Ainda não tinha portas: os vãos estavam fechados com umas tábuas. Encontrei um ponto em que pude passar entre duas tábuas; acompanhei tateando uma parede; encontrei um canto onde havia no chão uma porção de pedaços de madeira secos e lisos. Deitei-me em cima. Apenas me havia deitado, escutei vozes perto de mim, falando muito baixo. Levantei-me e ouvi outras vozes, parecendo-me que uns olhos me olhavam da sombra; tive um medo horrível e saí outra vez a correr. Quando me vi na rua, alguém me chamou da casa em construção que eu pensava estar vazia. Estava cansada, tão cansada; continuei a andar pelas ruas. Ouvi gente a falar de todos os lados, indo e vindo. Não sabia que horas seriam. De repente me achei na Avenida Nievsky, perto de Gostinoi, e pus-me a chorar. " Ah, dizia a mim mesma. Se encontrasse algum "bom senhor" que se compadecesse de uma menina que não sabe onde passar a noite! Havia de confessar-lhe tudo e talvez me recolhesse por uma noite". Enquanto assim pensava, continuava a andar, quando descubro o nosso ônibus, que partia para a última viagem. Acreditava que há muito tempo havia partido. Pensei: quero ir para a casa de minha mãe! Subi no ônibus e como me sinto feliz por voltar à tua casa! Nunca mais te enganarei e estudarei bem as minhas lições. Mamãe, Mamãe!"

Perguntei-lhe, continuou a mãe: "Sacha, a idéia de não ir mais à escola e viver na rua ocorreu só a ti?"
- Olhe, mamãe: há muito tempo conheci uma menina da minha idade, que freqüentava outra escola. Acreditas se te disser que quase nunca comparecia às aulas? Disse-me que a escola é muito aborrecida e a rua muito alegre. Contou-me que, enquanto estava na rua, andava, andava, andava. Fazia quinze dias não tinha posto os pés na escola. Olha as vitrinas; anda pelos passeios até altas horas da noite, até que afinal tem de voltar para casa. Quando o soube, pensei: "gostaria de fazer o mesmo!" e me aborreci na escola muito mais que antes. Mas não tive qualquer intenção precisa até ontem à noite, depois de ter-te mentido. Foi então que me resolvi a fazer como fiz.

Esta história é autêntica. Naturalmente, a mãe tomou suas medidas. Quando me contaram, pensei que não seria de todo inútil fazê-la figurar em meu diário. Dirão que é um caso único, tratando-se, sem dúvida, de uma pequena muito estúpida. Mas sei que longe está de ser estúpida. Sei também que nessas almas jovens, depois da primeira infância, quando ainda não adquiriram experiência de qualquer espécie, pode nascer uma porção de sonhos mais ou menos perigosos. Essa idade (doze a treze anos) é extremamente interessante, mais na menina do que no menino. Tratando-se, porém, de meninos, vejam esta notícia que apareceu em um jornal há quatro anos: Três meninos haviam fugido do ginásio pretendendo ir para a América. Não os apanharam senão quando já estavam um pouco longe da cidade. Um deles levava uma pistola. Há vinte ou trinta anos sonhos e fantasias estranhas também passavam pelo cérebro de meninos e meninas; mas os de hoje são mais decididos. As reflexões e as dúvidas duram menos. Antigamente os meninos dessa idade pensavam em fugir para fazerem, por exemplo, uma viagem a Veneza; que lhes enchia a cabeça graças a certas novelas de Hoffmann e George Sand. (Tive um colega desse tipo). Mas não punham em execução o projeto, contentando-se em contá-lo a um companheiro, depois de tê-lo feito jurar que seria discreto. Os de hoje realizam o que os outros se limitavam a sonhar. Antigamente, certos sentimentos de dever, de obrigações para com a família, exerciam grande influência. Hoje, tudo isso perdeu muito a força que tinha.

O essencial é que não se trata de casos isolados; e não são criaturas estúpidas as que se entregam a estas fuga. Repito que essa idade é muito interessante e mereceria que os educadores lhe dispensassem mais atenção. A que perigos enormes estão expostos os nossos filhos! Preste-se atenção somente àquele ponto da narração anterior, em que a menina cansada de tanto andar, estava disposta a contar tudo a um transeunte: um bom senhor que se compadecesse da pobre criança que não sabia onde se refugiar para passar a noite. Pensem como seria fácil por em execução esse plano, que lhe revela toda a inocência. Nesta terra, os "bons senhores" enxameiam por todas as ruas. Mas, depois, no dia seguinte, que teria acontecido à menina?... Admitindo que o tal senhor fosse de certa espécie muito comum hoje em dia, era... o riso ou a vergonha de confessar... Suponhamos tivesse preferido a última. Pouco a pouco a menina ter-se -ia acostumado à lembrança daquela vergonha e quem sabe se, depois de ter pensado bastante no que se havia passado, não teria o capricho de procurar nova aventura do mesmo gênero... Aos doze anos! Adivinha-se tudo quanto viria em seguida... E essa outra menina que, em lugar de ir à escola, passa o tempo a ver as vitrinas e a andar pelos passeios das ruas, dando à primeira que encontra a idéia de novo emprego do tempo? Já ouvi antes falar de meninos que achavam a escola aborrecida e a vagabundagem cheia de encantos e alegrias. (...)A vagabundagem é uma inclinação que mais tarde se transforma em paixão doentia, cujo primeiro germe se contraiu na infância. Agora vejo que há também meninas vagabundas, evidentemente cheias de inocência a princípio. Mas ainda que fossem tão puras como os pequenos seres primitivos evoluindo em algum paraíso terrestre, não poderão fugir ao conhecimento do "bem e do mal", embora somente pequem pela imaginação. A rua é escola em que se aprende muito depressa! O essencial, repito, está em pensar até que ponto é interessante essa idade em que a inocência infantil se mistura à incrível aptidão para receber impressões, à extraordinária faculdade de assimilar toda espécie de experiência, boas ou más. É o que torna tão perigoso e tão crítico esse período da vida dos adolescentes."

domingo, 12 de junho de 2011

VINTE CARTAS A UM AMIGO: CARTA Nº 18 (SVETLANA ALLILUYEVA)


Tempos atrás, andei postando as cartas de Svetlana Alliluyeva, a filha de Stalin, extraídas do livro "20 cartas a um amigo", livro raro, muito difícil de ser encontrado. Hoje posto mais uma carta, a de número 18, na qual Svetlana opina sobre seu pai se achar ou não um verdadeiro deus. e relata fatos de seus últimos tempos de vida..Se, por um lado, Svetlana era ligada a Stalin por um forte afeto, talvez até maior do que o que sentia por sua mãe,por outro, ela tinha consciência de seus defeitos, de suas crueldades, de suas amantes, de seus 'pileques'; enfim, acredito que suas cartas tenham certo grau de imparcialidade e que esta carta, em especial, nos dê uma boa imagem do Stalin existente por de trás da 'monumental propaganda', com o devido desconto que toda opinião comprometida por laços afetivos deve sempre ter...
"Quando tenho de ouvir e ler, agora, em nossos dias, que meu pai, durante a vida, considerava-se a si mesmo um verdadeiro deus, estranho profundamente que isso possa ser afirmado por aquelas pessoas que o conheceram de perto...

È certo que papai nunca se distinguiu pelo democratismo, porém jamais se imaginou Deus...
Nos últimos tempos viveu muito isolado; a viagem ao Sul, em 1951, foi a última. Não mais saía de Moscou e, quase todo o tempo, ficava em Kúntsovo, que foi sucessivamente reconstruído. Nos últimos anos, ao lado da casa grande, construíram uma pequena casa de madeira-havia mais ar puro; no quarto com estufa, papai passava habitualmente seus dias. Ali não havia o menor luxo - apenas lambris de madeira nas paredes, e no assoalho um bom tapete - que eram objetos caros.

Todos os presentes que lhe mandavam de todos os recantos da terra, ele ordenou que os reunissem e transferissem para o museu - não por afetação ou atitude, como confirmam muitos - mas pela circunstância de que, na verdade, não sabia o que fazer de todas aquelas coisas, muitas das quais valiosas - quadros, porcelanas, móveis, armas, utensílios, roupas, peças de artesanato nacional - não saberia para que lhe serviria tudo aquilo...

Raramente dava-me alguma coisa - um traje nacional romeno ou búlgaro - porém, em geral, mesmo o que mandavam para mim, considerava inadmissível utiliza-lo na vida comum. Entendia que os sentimentos expressos em todas aquelas coisas eram simbólicos, cabendo portanto assim considera-los, isto é, como símbolos. Em 1950 foi aberto, em Moscou, um "museu de presentes".(*)
presente ofertado pelos republicanos espanhóis a Stalin
Ouvi, com freqüência, de senhoras conhecidas (tanto durante a vida de papai como depois de sua morte): "Ah! mas que belo conjunto de quarto ali! Que radiola! Será que não podiam dar aquilo a você?"

Depois de meu regresso da Geórgia, vi papai apenas duas vezes. Já falei de como, no aniversário da Revolução, no outono de 1952, fui visita-lo na casa de campo, levando as crianças. Estive ainda com ele a 21 de dezembro de 1952, no dia em que completou 73 anos. Nessa ocasião, vi-o pela última vez. Ele parecia abatido, naquele dia. Pelo visto, os sintomas da enfermidade, talvez hipertensão - desde que deixara inesperadamente de fumar e muito se orgulhava disto. Fumara durante nunca menos de cinqüenta anos. Tudo leva a crer que sentiu o aumento da pressão - porém não havia médico. Vinográdov fora preso e ele não confiava em ninguém e não admitia qualquer pessoa próxima dele. Tomava pílulas por conta própria, bebia algumas gotas de iôdo dissolvidas em um pouco d'água -não se sabe de onde havia tirado tais receitas de enfermeiro; ele mesmo, porém, fazia coisas inadmissíveis. Dois meses depois, vinte e quatro horas antes do colapso, estivera na sauna (construída num cômodo separado da casa de campo) e ali tomara banho de vapor, segundo seu velho hábito siberiano. Nenhum médico o permitiria, porém não havia médico...

O 'caso dos médicos' ocorreu no último inverno de sua vida. Velentina Vassílevna relatou-me (mais tarde, agora) que papai ficou muito amargurado com o rumo dos acontecimentos. Ouviu como o assunto fora discutido à mesa, durante o almoço. Ela servia à mesa, como de costume. Papai dizia não acreditar na 'desonestidade' deles, que isto era impossível _ pois a única 'prova' eram as denúncias do dr. Timachuk _ e todos os presentes, como de hábito em tais circunstâncias, se calavam...

É provável que, devido a sua moléstia, ele - por duas vezes, depois do XIX Congresso, em outubro de 1952 - exprimiu ao Comitê Central seu desejo de se aposentar. Este fato é bem conhecido dos membros do Comitê Central eleito naquele Congresso.

Valentina Vassílevna era muito parcial. Ela não queria que sobre papai caísse qualquer sombra. De todos os modos, vale a pena ouvir o que relata e tirar daí algumas conclusões - já que se achava em casa de meu pai nos últimos dezoito anos, enquanto eu só raramente ia lá...Muito me criticaram por isto. Diziam-me: "Porque não visitas teu pai? Telefona, pergunta; se diz não, telefona mais tarde, nalguma oportunidade ele encontrará tempo." Talvez que a observação fosse correta. Talvez tivesse sido demasiado escrupulosa e não insistisse. Porém, quando me respondia com raiva e voz irritada - "estou ocupado" e desligava o telefone - depois disto, durante meses a fio, não podia encontrar forças para ligar de novo.

Eis que não estava em sua casa pela última vez - claro que não sabia que era a última vez. A mesma demora à mesa, as mesmas figuras (**), as mesmas conversas habituais, os mesmos ditos chistosos, velhos de muitos anos. Esquisito - papai não fuma. Esquisito - tem o rosto avermelhado, apesar de que sempre fora pálido (pelo visto, já tinha havido um forte aumento da pressão). Ele, porém, como sempre, bebe pequenos goles de vinho georgiano -fraco, leve, aromático.

Tudo no quarto é estranho - nas paredes, retratos simplórios, de escritores, também o quadro sobre a gente de "Zaporojie"(***) fotografias de crianças recortadas de revistas...Mas, que há de estranho? Queria enfeitar as paredes, não deixa-las desnudas, mas pendurar ali pelo menos um dos milhares de quadros que lhe mandavam, considerava-o impossível. É certo que no canto do quarto achava-se pendurado um bordado chinês - um tigre enorme, em cores vivas - mas achava-se ali ainda nos tempos anteriores à guerra; já se tornara habitual.

A demora à mesa, como de costume; nada de novo. Como se o mundo em volta não existisse. Será que todas as pessoas que ali sentavam não tinham conhecimento, naquela mesma manhã, de algo novo e interessante de qualquer parte do mundo? Na verdade, dispunham de informações como ninguém mais. Mas não parecia.
Quando eu ia sair, papai chamou-me de lado e deu-me dinheiro. Começou a me dar dinheiro nos últimos anos, depois da reforma de 1947, que eliminou a manutenção gratuita das famílias dos membros do Bureeua Político. Até então, eu subsistia, de um modo geral, sem dinheiro, abstração feita do estipêndio da Universidade, eternamente fazia empréstimos às minhas "ricas" babás, que percebiam um salário considerável.

Depois de 1947, às vezes - em nossos raros encontros - papai perguntava: "Precisas de dinheiro?" - ao que eu respondia sempre "não". "Mentira!" - dizia ele - "de quanto precisas?"Não sabia o que dizer. Ele desconhecia o valor do dinheiro atual e o custo das coisas - vivia com noções de antes da Revolução, quando cem rublos representavam soma colossal. E quando me dava dois ou três mil rublos - não se sabe se era para um mês, meio ano ou duas semanas - considerava estar-me entregando milhões...

Todo o seu salário mensal era guardado em pacotes sobre a mesa - não sei se teria uma caderneta da Caixa Econômica; certamente que não. Não gastava dinheiro, não tinha onde nem em que. Todo o seu modo de vida:casa de campo, residência, empregados, alimentação, roupas - tudo era pago pelo Estado, para o que existia uma dependência especial no sistema do MGB e ali achava-se sua contabilidade e não se sabia quanto eles gastavam.Ele mesmo não sabia. Às vezes lançava-se contra os comandantes e generais de sua guarda, sobre Vlássik, com raiva: "Parasitas! Ei sei que vocês estão se aproveitando, sei quanto dinheiro está passando pela peneira"! Na verdade, ele não sabia, apenas intuitivamente, sentia que se evaporavam enormes recursos...Tentara, certa vez, efetuar uma inspeção de suas despesas de casa, mas disso nada resultou: impingiram-lhe umas cifras quaisquer inventadas. Ficou furioso, porém, ainda assim, nada conseguiu saber. Apesar de todo o seu poderio, era impotente, sem defesa contra um sistema monstruoso, criado em seu derredor como gigantesca teia - não podia quebra-lo e nem sequer controla-lo. O general Vlássik dispunha de milhões em nome dele, para obras, realização de longas viagens em trens especiais - meu pai, porém, não podia sequer esclarecer para onde, o que, quanto, a quem... Compreendia que, de todos os modos, eu devia precisar de dinheiro. Nos últimos tempos, eu estudava para defesa de tese na Academia de Ciências Sociais, que propiciava um bom estipêndio, o suficiente para assegurar minha subsistência. Ainda assim, papai de vez em quando me dava dinheiro e dizia: " Isto é para a filha do Yacha(1)"

Naquele inverno ele fez muito por mim. Então, eu me hvia divorciado do segundo marido e me separado da família Jdânov. Papai permitiu-me viver na cidade e não no Kremlin - deram-me um apartamento no qual vivo até o presente com as crianças. Ele, porém, encarou esse direito à sua maneira: muito bem, queres viver independente, então não mais utilizarás nem automóve e nem casa de campo oficiais.

"Toma aqui dinheiro - compra um carro, guia tu mesma e vais mostrar-me tua carteira de motorista"- disse. Isso me convinha integralmente. Dava-me alguma liberdade e a possibilidade de avistar-me normalmente com as pessoas; - vivendo de novo no Kremlin, em nosso antigo apartamento, isto seria absolutamente impossível.

Papai não se opôs quando disse que ia sair da casa dos Jdânov. "Faze o que quiseres" - foi a sua resposta. Ficou, porém, dscontente com o divórcio, que de modo algum lhe agradou...
"Vives como parasita, com tudo pago?" - perguntou, certa vez, irritado. Ao saber que eu pagava minhas refeições trazidas do refeitório, acalmou-se. Quando me mudei para meu apartamento da cidade, ficou contente: "Chega de viver de graça..."De modo geral, ninguém tão firmemente como ele tentou acostumar seus filhos à idéia da necessidade absoluta de viver às próprias sustas. "Casa de campo, apartamento e automóvel oficiais, tudo isto não te pertence, não consideres coisa tua", repetia-me com freqüência. Ainda agora, na última vez, deu-me um pacote de dinheiro e me lembrou: "Isto é para a filha do Yacha".

Retirei-me. Desejava voltar ainda uma vez no domingo, primeiro de março - porém não consegui falar-lhe pelo telefone. O sistema era muito complicado - primeiro era necessário telefonar para o chefe da guarda de plantão, que dizia "há movimento" ou "não há movimento", significando que papai dormia ou lia em seu quarto e não estava andando pela casa. Quando "não havia movimento",não se podia chama-lo ao telefone, papai podia estar dormindo durante o dia, a qualquer hora - seu regime de vida fora virado pelo avesso...

Na manhã de dois de março de 1953, chamaram-me da aula na Academia, e mandaram-me que fosse a Kúntsovo...Sobre isto já escrevi. Com isto comecei. Isto, porém, não é o fim. Ainda não quero terminar minhas cartas.

Finalizo o post com algumas imagens da dacha de Stalin em Kúntsovo, citada nesta carta de sua filha:

O sofá que se vê na penúltima foto trata-se de onde Stalin morreu.
NOTAS
(*)Hoje o museu já não existe; o que existem são exposições itinerantes de tais presentes, guardados no museu de Gori, cidade natal de Stalin. Faremos um post especial para tais presentes.
(**)Nos últimos tempos, as figuras habituais que o visitavam eram Béria, Malenkov, Bulgaanin e Mikoyan. Aparecia, também, Khuschev. Desde 1949, depois da prisão de sua mulher, Molotov estava, de fato, afastado de todas as funções. Mesmo nos dias da enfermidade de papai, não o chamavam...Devo acresentar que, nesse último período, até os mais velhos e íntimos amigos de papai caíram em desgraça; o fiel Vlássik foi preso no inverno de 1957 e na mesma época, foi afastado de funções o secretário particular de papai, Poskrebíchev, que o tinha servido durante 20 anos, aproximadamente.
(***) Quadro de Ilyá Repin, foto a seguir:
)1) Yacha era o filho de Stalin do primeiro casamento, morto sob Hitler, na guerra.Maiores detalhes sobre ele ver neste blog, no seguinte post:
http://russiashow.blogspot.com/2010/04/mais-uma-carta-de-svetlana-alliluyeva.html

Fontes:
- Livro "Vinte Cartas a Um Amigo"
http://www.kuncevo-online.ru/

sábado, 9 de abril de 2011

AFIRMAÇÕES SEM PROVAS - DOSTOIEVSKI


Com a inusitada violência na escola de Realengo, Rio de Janeiro, muito se falou sobre a falta de valores de boa parte da nossa juventude, o que me fez relembrar um texto fantástico do genial Fiodor Dostoievski, extraído do "Diário de Um Escritor". No texto, ele fala especificamente a respeito do suicida, mas a mesma argumentação cabe, sem sombra de dúvida, ao assassino.Ainda mais, quando sucedido pelo suicídio...O artigo não poderia ser mais procedente e atual. Ele entendia bem da coisa: quem criou o imortal personagem Raskolnikov, tem autoridade suficiente para expor a questão... Deixo você com ele, para sua reflexão.
"Meu artigo é relativo à idéia mais elevada da vida humana, a necessidade indispensável da crença na imortalidade da alma. Quis dizer que sem esta crença a vida é insuportável. Parece-me ter enunciado claramente a fórmula do suicídio lógico.
O meu suicida não acredita na imortalidade da alma e assim fala desde o início do artigo. A pouco e pouco, pensando que a vida humana é absurda. A presenta-se-lhe tão claramente como a luz do dia que tão somente os homens semelhantes aos animais, e que satisfazem a necessidades puramente animais, podem consentir em viver. Tais indivíduos vivem "para comer, beber e dormir".como os brutos "para fazer o próprio leito e procriar". Engolir, roncar e sujar talvez seduza o homem por muito tempo, ligando-o à Terra; mas não a mim, homem superior, está claro. Não obstante, são os homens do tipo superior que sempre reinaram sobre a Terra, e nem por isso o que tinha de acontecer se deu de maneira diferente.
Mas há uma palavra suprema, ma idéia suprema, sem a qual a humanidade não pode viver. Muitas vezes pronuncia-o o pobre, sem influência, até mesmo perseguido. Mas a palavra pronunciada e a idéia que exprime não morrem e mais tarde, apesar da vitória aparente das forças materiais, a idéia vive e frutifica. Disse N.P. que semelhante confissão em meu Diário constitui um anacronismo ridículo, porque estamos atualmente no século das "idéias de ferro", das idéias positivas; no século da "vida sobretudo". Por isso, sem dúvida, aumentou tanto o número de suicidas entre as pessoas inteligentes e cultas. Asseguro ao digno N.P. e a todos os seus semelhantes que o ferro das idéias se transforma em algo muito mais brando quando chega a hora. Quanto a mim, uma das minhas maiores preocupações quando penso em nosso futuro é precisamente o progresso da falta de fé. A falta de crença na imortalidade da alma se arraiga cada vez mais ou, para dize-lo melhor, nota-se em nossos dias absoluta indiferença para essa suprema idéia da existência humana: a imortalidade. Tal indiferença converte-se em particularidade da alta sociedade russa. É mais evidente entre nós do que na maior parte dos países europeus. E sem esta idéia suprema da imortalidade da alma não podem existir nem homens nem nação. Todas as grandes idéias restantes derivam desta.
O meu suicida é um propagandista apaixonado da sua idéia: a necessidade do suicídio; mas não é nem indiferente, nem 'homem de ferro'. Sofre realmente; creio te-lo feito compreender. É para ele demasiado evidente que não pode viver; está convencido que tem razão e não se pode refutá-lo. Para que viver, se está convencido que é abominável viver vida animal? Dá-se conta da existência de harmonia geral; di-lo à consciência, mas ela não se associa. Não o compreende...Onde, então, está o mal? Em que se enganou?O mal está em ter perdido a fé na imortalidade da alma.
Não obstante, procurou com todas as suas forças o sossego e a conciliação com o que o rodeia. Quis falar no 'amor à humanidade. Mas isto também lhe escapa. A idéia de que a vida da humanidade nada mais é do que um instante; de que tudo, mais tarde, se reduz a zero, mata, dentro dele, até mesmo o amor à humanidade. Tem-se visto em famílias desgraçadas e desunidas de pobres, sentir horror aos filhos, por sofrerem demais com a fome; aos próprios filhos a quem queriam tanto! A consciência de em nada poder socorrer a humanidade sofredora é capaz de transformar o amor que por ela se sente em ódio. Os senhores das 'idéias de ferro' claro que não acreditarão em minhas palavras. Para eles o amor à humanidade e sua felicidade está tão bem organizado que não vale à pena pensar nisso. E desejo faze-los rir de qualquer maneira. Declara, portanto, que o amor à Humanidade é inteiramente possível sem a crença na imortalidade da alma Humana. Os que querem substituir esta crença pelo amor à Humanidade depositam na alma dos que perderam a fé o germe do ódio à Humanidade. Que dêem de ombros os sábios das 'idéias de ferro' ao ouvir-me exprimir tal idéia. Mas esta idéia é mais profunda que a sabedoria deles, e chegará o dia em que se transformará em axioma.
Chego mesmo a afirmar que o amor à Humanidade é em geral pouco compreensível(leia-se inacessível) para a alma humna. (E, além disso, sem provas).
Em resumo, está claro que sem crenças, o suicídio se torna lógico e até inevitável para o homem que apenas se elevou acima das sensações da besta. Ao contrário, a idéia da imortalidade da alma, prometendo a vida eterna, sujeita o homem mais fortemente à Terra. Nisto parece existir contradição. Se, distinta da vida terrestre, temos outra celeste, para que fazer muito caso desta aqui embaixo? Mas é somente pela fé na imortalidade que o homem se inicia no fim razoável da vida sobre a Terra. Sem a convicção na imortalidade da alma, o vínculo do homem em relação ao planeta diminui, e a perda do sentido supremo da vida conduz incontestavelmente ao suicídio. E se a crença na imortalidade da alma é tão necessária à vida humana é por ser o estado normal da Humanidade, provando que a imortalidade existe.Em uma palavra: esta crença é a própria vida e a primeira fonte de verdade e de consciência real para a Humanidade.
Eis aí o objetivo do meu artigo, a conclusão a que desejava que cada um chegasse quando o escrevi".
(1873)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

MAIS UM TRECHO DOS DIÁRIOS ÍNTIMOS DE TOLSTOI E SOFIA

Há meses atrás iniciei a postagem de trechos dos "Diários íntimos" de Tolstoi e Sofia, sua esposa. Mal iniciei, parei as postagens, por achar que não estavam tendo uma receptividade que justificasse o trabalho da digitação, bem como minha exposição aos fatídicos ácaros, que - apesar de todo o cuidado que tenho com meus livros, vez por outra atacam os que são bem mais velhos do que eu,,como é o caso deste volume de 1943, restaurado não faz muito tempo, pulverizado com certa freqüência por acaricida e que, ainda assim, mantém um certo odor de livro antigo.

Retomo este trabalho hoje, após receber uma mensagem que me incentivou a isto. Enquanto tiver um único leitor que seja, o trabalho nunca será em vão.Quem quiser ler o post anterior, basta clicar AQUI, onde estão explicados detalhes da elaboração dos diários.

Inicio, hoje, pelaintrodução aos diários, feita por Sergey, filho do casal, importante para compreender muito do relacionamento tumultuado entre Lev Nikolaevitch e Sofia Andreevna.Além disto, o leitor, por este trecho de depoimento do filho de Tolstoi, pode ter uma idéia da rotina de vida do escritor.
"Para bem compreender as relações de meus pais nas proximidades de 1910, é indispensável que nos reportemos ao passado. A causa real de sua desinteligência foi o conflito sobrevindo entre o antigo Lev Nikolaievitch Tolstoi e o novo, quando se concretizou a mudança de sua concepção do mundo. A antiga maneira de ver, que sua mulher adotara, entrou em choque com sua nova doutrina, que em muitos pontos com ela contrastava.Ele mesmo percebia isto e lamentava-se sem cessar em suas obras. Relativamente a sua família, Tolstoi adotou como regra que até o ano de 1881, mais ou menos, fora um outro homem e que esse homem - o proprietário e o literato - estava, por assim dizer, morto, e que naquela data outro homem nascera; um homem que não reconhecia a propriedade, não escrevia para ganhar dinheiro, mas sim pelo bem da sociedade. Por isso, passara à sua família a herança deixada pelo primeiro homem. Tinha dado à Sofia Andreevna pelnos poderes para a gestão de seus negócios, dos quais não mais se ocupava desde maio de 1883); deixou-lhe a incumbência de fazer editar suas obras antes de 1881 e um ato de separação redigido em 1892. Mas em 1891 declarara que todos os seus escritos públicos posteriores à 1881 e tudo o que de então em diante se destinasse à publicação, poderia ser editado por qualquer pessoa.


Metade de Iasnaia Poliana tocava a Sofia Andreevna; a outra metade - inclusive a casa - a seu jovem filho Ivan e, após a morte de Ivan(1895), sua parte, conforme as leis da época, coube a seus cinco irmãos. Minha mãe não compartilhava do ponto de vista negativo de meu pai, relativamente à propriedade; pelo contrário, não deixava de julgar que quanto mais ricos fossem seus filhos e netos, tanto melhor. Era ela quem se encarregava de Iasnaia Poliana, de gerir todos os negócios, não só a sua parte, mas também a de seus filhos. Procurava alcançar o máximo com as obras de Lev Tolstoi e de aproveitar, não só suas edições anteriores a 1881, mas também o que ele escrevera depois dessa data.
Meu pai não podia se resignar com isto. O ritmo de vida burguês de sua família e toda a administração de Iasnaia Poliana afligiam-no. Semelhante ordem de coisas realmente exigia medidas de proteção e, por conseguinte, violência, e no que se refere às suas obras, ele escrevera no seu diário (27/03/1895):
"O fato de minhas obras terem sido vendidas durante estes últimos dez anos, constituiu para mim a provação mais difícil de minha vida".
Mas pode-se acusar minha mãe por ter cuidado dos interesses materiais de sua posteridade? Poderão aqueles que a culpam apontar muitas mães que não desejem a felicidade material de seus filhos?
A partir de 1902, os Tolstoi não iam mais passar o inverno em Moscou e permaneciam em Iasnaia Poliana. Conseguira estabelecer-se um certo modus vivendi e, na aparência, mas somente na aparência, tudo parecia ir o melhor possível. Na primeira metade de 1910, a vida em Iasnaia Poliana continuou a decorrer como durante os anos anteriores. O dia de lev Nikolaevitch dividia-se com bastante regularidade. Levantando cerca de oito horas da manhã, fazia o quarto, saía para um pequeno passeio e punha-se a trabalhar. Almoçava às duas horas, após o que andava ou montava a cavalo; de volta do passeio fazia uma sesta e pelas seis horas jantava com a família. Durante o verão lia, participava da conversação ou escutava música,jogava xadrez ou "whist" e, aproximadamente, à meia noite se deitava."
Por hoje é só. Até o próximo post, em continuidade aos diários íntimos do autor de Guerra e Paz.
Tostoi em família, durante o aniversário de seu filho Lev, cuja esposa está em pé, servindo sopa

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